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	<title>Ecopolitica &#187; violência urbana</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>Orilaxé: um modo de vida premiado</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Dec 2010 19:59:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
O prêmio Orilaxé, do AfroReggae, é um espetáculo singular, não apenas pelo que se passa no palco, com as premiações e os shows, mas pelo que acontece na platéia e nas comunidades nas quais o grupo atua. Ontem, 21 de dezembro, a versão 2010 do prêmio aconteceu no Teatro Carlos Gomes.
A singularidade do Orilaxé [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p>Sérgio Abranches<br />
O prêmio Orilaxé, do AfroReggae, é um espetáculo singular, não apenas pelo que se passa no palco, com as premiações e os shows, mas pelo que acontece na platéia e nas comunidades nas quais o grupo atua. Ontem, 21 de dezembro, a versão 2010 do prêmio aconteceu no Teatro Carlos Gomes.<span id="more-1430"></span></p>
<p>A singularidade do Orilaxé tem sua raiz na identidade que o AfroReggae foi construindo para si mesmo, ao longo dos últimos 17 anos. Nascido da dor e da violência, fruto da guerra urbana que tem marcado dramaticamente o Rio de Janeiro nas últimas duas décadas, ele se dedicou a fazer pontes pela cidade apartada. Aprendeu a mediar conflitos praticamente intratáveis. Buscou maneiras culturais de elevar a auto-estima dessas comunidades reféns da violência, subjugadas pelo preconceito e bloqueadas pela discriminação, de um lado, e pelo banditismo tirânico, do outro.</p>
<p>A dor esteve presente no palco do Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio, desde o primeiro momento, com um trecho da peça Urucubaca, texto de Jorge Mautner e direção de Johayne Hildefonso e Malu Cotrim. Mas ela não aparece como capitulação ou lamento e sim como alerta e superação. É para lembrar da guerra e tornar vitoriosa a busca da paz.</p>
<p>Não há como apagar da história dessas comunidades a dor e o abuso de toda sorte. O AfroReggae consegue transformar esses horrores de nossa degradação social e urbana em aprendizado e lição. E a dor não está só na história. No final do ano passado, o grupo perdeu o Evandro, assassinado como tantos outros amigos e irmãos. Os policiais envolvidos no crime tiveram pena leve. Evandro se foi quando estava dedicado a fundo ao belo projeto da Orquestra AfroReggae. Hoje a orquestra tem o nome de Diego Frazão, perdido no começo deste ano para a leucemia, o menino violinista que Evandro havia conquistado para a arte.</p>
<p>Mas não é a dor que identifica o AfroReggae. É a esperança. A idéia de que “a cabeça tem o poder de transformação”. Orilaxé na linguagem dos Iorubás. O AfroReggae se diferencia no universo do movimento social no Brasil não porque é um grupo de pensamento e ação, ou cultura e ação, mas principalmente porque adquiriu uma capacidade de articulação política e social e de mobilização absolutamente ímpar. Essa capacidade vem da construção de pontes que atravessam as barreiras da apartação racial, territorial e social.  No trabalho de mediação cultural, o AfroReggae foi tecendo uma rede improvável de apoios, adesões e estímulo ao engajamento, que vai muito além de todas as fronteiras. Encara as desconfianças e os ressentimentos entre grupos que se enfrentaram a ferro e fogo, com muito sangue, na longa batalha urbana. Suas interferências atravessam os preconceitos, as hierarquias, as barreiras culturais e ideológicas. É preciso coragem e determinação para enfrentar as incompreensões e desconfianças, transitar entre governos e oposições, defender teses polêmicas como a reintegração de criminosos na ativa, navegar as águas tempestuosas das diferenças ideológicas e religiosas. E nesse processo vai unindo desde lideranças do setor empresarial até grupos de rap, funk e outras manifestações culturais das mais remotas periferias urbanas, passando por egressos do tráfico dispostos a mudar de vida e mudar a vida de outros. Esses laços constroem “conexões urbanas” quase impossíveis. Algumas delas bem retratadas no programa de TV apresentado por José Junior, Coordenador Executivo do grupo, no Multishow.</p>
<p>Essas conexões aparecem vivas na platéia e no palco do Orilaxé. Elas são fortes, estimulantes e emocionantes. Conectam pedaços dessa sociedade fragmentada do Rio de Janeiro e do Brasil. Produzem um espetáculo de tolerância, diversidade e força que é uma lição eloquente do que é possível, do que foi possível e do que estamos perdendo por não tentar mais. Ali se encontram ex-traficantes e policiais. Ali se encaram grupos que se estranham e chegam, às vezes, à beira do ódio entre si. A platéia e o palco onde se dá a festa do prêmio é tão somente uma espécie de vitrine para que se possa ter uma idéia do espetáculo muito maior que se desdobra no dia-a-dia das comunidades, nos projetos que se multiplicam, nas surpresas que o inesperado lhes faz, boas ou traumáticas.</p>
<p>Eu acho um espetáculo à parte, para mim o mais emocionante, ver o grau de capricho, auto-estima e orgulhosa alegria com que a comunidade AfroReggae e suas comunidades irmãs festejam o Orilaxé.</p>
<p>Orilaxé deixou há muito de ser um prêmio, se é que algum dia foi só um prêmio, criado em 2000 para comemorar o sétimo aniversário do grupo. Orilaxé é uma filosofia prática de vida, um modo de ver o mundo e interferir nele de forma diferenciada. E isso se vê nos semblantes da mais bela diversidade de pessoas dessas comunidades, no dia que se celebra esse princípio de confiança na mudança e de consciência de que elas podem ser agentes dessa mudança. Orilaxé na dinâmica dessa platéia viva, criativa, sorridente, bonita é a celebração da transformação de vítimas e reféns de uma vida urbana degradada e repartida, em agentes da recuperação, da pacificação, da re-união. Dos muito jovens aos mais velhos, sente-se essa corrente vital e essa certeza de que é possível mudar.</p>
<p>Quem sobrevive essa batalha urbana diária, contra as balas cruzadas, a sedução dos jovens pelo crime, a violência e a discriminação de todos os lados, a tirania das fronteiras impostas por facções criminosas já é herói. E essas comunidades estão repletas desses anônimos heróis da resistência urbana. Mas quem consegue superar a dor e evitar o ressentimento, estampar um invejável brilho de energia e criatividade nos olhos, se orgulhar do que conquistam a cada dia, em lugar de se lamentar das perdas pesadas que sofrem, mais que herói é exemplo extraordinário de vida. Um modelo existencial.</p>
<p>Presto muita atenção nos que não conheço. Nos que estão se revelando pela primeira vez e, neste particular, não só em referência às comunidades onde o AfroReggae atua. Faço isso Brasil afora. O que me espanta sempre não é do que esses brasileiros são capazes e da riqueza de talentos. Todos os talentos revelados, ainda que da forma mais incipiente, tiveram alguma oportunidade. Eles chamam atenção é para os milhares que também poderiam exercer as habilidades que têm, aprender mais e desenvolvê-las à plenitude, mas que não são alcançados por nenhuma dessas intervenções de resgate. Ficam esquecidos, muitos abrem mão e terminam desperdiçados. É evidente que esses talentos deveriam estar nas escolas regulares, recebendo educação de qualidade, que estimulasse suas diferentes vocações. Que garimpassem inovações na diversidade cultural, étnica e de gênero. Nossas escolas, porém, principalmente as da periferia &#8211; mas não só elas &#8211; não têm qualidade e não criam muita oportunidade para que os talentos vicejem. Estamos desperdiçando nossa principal riqueza: as pessoas.</p>
<p>O AfroReggae vai abrindo o seu horizonte de visão e ampliando as conexões temáticas a cada ano. Este ano, dedicado ao empreendedorismo, do qual o grupo é um exemplo valioso, pude ver alguns nexos sendo construídos entre as questões culturais e sociais que estão na raiz de sua motivação com a questão ambiental, que é o grande desafio coletivo deste século. Se não o enfrentarmos, dificilmente conseguiremos êxito na luta pela ampliação da cidadania e erradicação da pobreza. Às calamidades da guerra urbana somaremos sucessão intolerável de catástrofes ligadas a eventos climáticos extremos. Sem falar nos danos da poluição e nas doenças por falta de saneamento, como a dengue.<br />
Ouvi o grupo Ação Comunitária Caranguejo Açu, da Ilha de Deus, no Recife, falar da destruição dos mangues e da conexão entre sua luta particular e a questão ambiental. O poeta Sérgio Vaz, que transformou um bar na periferia de São de Paulo em palco de teatro e ponto para saraus poéticos e literários, conta do campo de futebol que virou cemitério. Cemitérios urbanos constituem um preocupante problema ambiental das cidades sobre o qual ninguém gosta de falar. O diretor teatral e documentarista Marcus Vinícius chama atenção para os enormes danos causados ao ambiente e à saúde das pessoas pela nova siderúrgica recém-aberta em Santa Cruz, com um processo de licenciamento para lá de discutível. A falta de oportunidades força a população a apoiar um projeto danoso a seus interesses mais permanentes, porque gera emprego e renda. O descolamento entre crescimento econômico, bem-estar geral, controle de emissões e poluição e preservação do ambiente é uma das características do modelo de desenvolvimento que temos aprofundado nos últimos anos. </p>
<p>Tenho escrito que a ação pela paz do AfroReggae é também uma ação de recuperação ambiental. A guerra é um dos maiores fatores de degradação ambiental tanto física, quanto social, quanto humana. Ela destrói a espécie mais valiosa do planeta: o ser humano. Nas cidades brasileiras estamos dizimando os indivíduos jovens, do sexo masculino e principalmente negros dessa espécie. No Rio, os índices de extermínio dessa parte da espécie humana são os mais altos e espantosos. Não faz sentido pensar em preservar as outras espécies quando aniquilando partes de enorme valor da espécie humana.</p>
<p>Fortes emoções sempre assinalam as noites do Orilaxé. Mas há, também, boa música. Desta vez, com o AfroSamba, cria do grupo, a quase transparente brancura da afinadíssima Roberta Sá cantando as belezas do ser negra. Alcione encerrou a noite com seu vozeirão e sua bossa.</p>
<p>A platéia cantava animada, celebrando a negritude na diversidade, capaz de transcender a adversidade e encher a noite com lições de viver.</p>
<p>Meu comentário na CBN sobre o Orilaxé:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2010%2Fcolunas%2Fecopolitica_101222&#038;autoplay=n&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>Violência e degradação da convivência têm componente ambiental</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 17:39:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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O fenômeno da violência tem que ser entendido de forma sistêmica, completa. O Brasil metropolitano passa por um processo grave degradação urbana, que tem componentes políticos, morais, sociais e ambientais.
Comentário de Sérgio Abranches hoje na CBN.
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 15.0px 0.0px; font: 18.0px Georgia;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O fenômeno da violência tem que ser entendido de forma sistêmica, completa. O Brasil metropolitano passa por um processo grave degradação urbana, que tem componentes políticos, morais, sociais e ambientais.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 15.0px 0.0px; font: 18.0px Georgia;"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;"><a href="http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/sergio-abranches/SERGIO-ABRANCHES.htm">Comentário</a></span><span style="letter-spacing: 0.0px;"> de Sérgio Abranches hoje na CBN.</span></p>
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		<title>À sombra dos fuzis: a tirania do crime organizado no Brasil metropolitano</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 22:18:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
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Semana passada em Vila Isabel vimos mais um episódio brutal de violência urbana no Rio de Janeiro. Guerra de facções do tráfico e confronto com a polícia.
Sérgio Abranches
Nada de novo, sabemos, só mais uma fieira de mortos, sempre entre eles pessoas inocentes e honestas. Trabalhadoras. Em assalto sem conexão com essa batalha, mas no mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Semana passada em Vila Isabel vimos mais um episódio brutal de violência urbana no Rio de Janeiro. Guerra de facções do tráfico e confronto com a polícia.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sérgio Abranches<span id="more-384"></span></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Nada de novo, sabemos, só mais uma fieira de mortos, sempre entre eles pessoas inocentes e honestas. Trabalhadoras. Em assalto sem conexão com essa batalha, mas no mesmo contexto de violência e desordem, o AffroReggae sofreu nova perda, o Evandro João, coordenador social desse grupo guerreiro da paz.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Um helicóptero da polícia foi derrubado. Três dos policiais que estavam nele morreram por causa da explosão. O terceiro morreu hoje no hospital. O piloto deu uma demonstração impressionante de sangue-frio e perícia. Causa provável: um tiro de fuzil de longo alcance.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Os militares têm o monopólio do uso de armamento pesado e de combate e o poder regulatório sobre seu uso por terceiros. Não permite que a política do Rio monte uma metralhadora pesada em um helicóptero blindado para dar cobertura às ações de seus efetivos em terra.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Talvez tenham razão, em função dos riscos para a população civil. Mas não têm desculpas para a inércia silenciosa com o fato de que os criminosos usam as armas que deveriam controlar contra a polícia, outras gangues e a população, matando policiais e inocentes. Armas não raramente retiradas ilegalmente ou contrabandeadas de seus quartéis. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Estão planejando gastar uma fortuna com caças avançados, para nos proteger de improvável ameaça externa. Enquanto isso, no alto Rio Negro, fronteira com a Colômbia, na Amazônia brasileira, a base militar não tem um barco suficientemente potente para perseguir traficantes de cocaína, que descem o rio <a href="http://www.oeco.com.br/sergio-abranches/35-sergio-abranches/19182-amazonia-crime-ambiental-e-narcotrafico"><span style="text-decoration: underline;">corrompendo ribeirinhos</span></a> e contribuindo para o aumento exponencial das drogas e da violência em Manaus e Belém. Quando tentam perseguir os traficantes, apenas escutam o ronco dos quatro poderosos motores que eles aceleram de uma vez, quase de galhofa, para deixar a lancha do exército para trás e os militares impotentes olhando a espuma que deixam de rastro.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Após três dias de violência, foram 21 mortos (aproximadamente metade das vítimas fatais no ataque suicida no Irã essa semana), fora os feridos. De novo a ação da polícia foi controvertida, especialmente na elucidação da morte por fuzilamento de três rapazes.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Há óbvias dificuldades em separar quem é bandido de quem não é, no calor da ação. Mas há claros sinais de que houve inteligência (informação) deficiente e desprezo em relação a sinais antecedentes de que algo daquele porte estava para acontecer e que deveriam ter levado a ações preventivas, salvando muitas vidas. O sinal da desordem institucional ficava claro na coletiva de imprensa: três tinham que falar, o secretário, o comandante da polícia militar e o chefe da polícia civil. Onde mandam três, manda nenhum. É uma deformação institucional brasileira, nascida do corporativismo e da disfunção da política e das instituições.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Essa violência (<a href="http://conjunturacriminal.blogspot.com/"><span style="text-decoration: underline;">homicídios</span></a>) mata <a href="http://www.comunidadesegura.com.br/pt-br/node/38332"><span style="text-decoration: underline;">três vezes mais jovens</span></a> de 15 a 24 anos, dos quais 97% do sexo masculino, e 83% homens jovens negros.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma favela ou vizinhança popular.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação: Alguém olha para uma favela ou um bairro popular, de qualquer área metropolitana brasileira, e vê os sinais de displicência, abandono, ausência da autoridade pública, de serviços básicos, degradação estética, lixo espalhado por todo canto.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Não é por acaso que estão se tornando feudos de traficantes ou milícias, essas não raro formadas por policiais da ativa ou inativos. Elas têm o monopólio da força e de serviços como sinal de TV a cabo, Internet, luz, gás, e, obviamente, segurança à moda delas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para qualquer rua de Ipanema, Gávea ou Leblon, todos de classe média e média alta, como sabemos. Todas cercadas por favelas, como também se sabe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação:  Agora a pessoa não olha para o morro, olha para o asfalto. Para ver os motoristas de ônibus avançando sinais, fechando carros particulares, jogando os veículos sobre as pessoas, freando bruscamente, para “arrumar” os passageiros empacotados no seu interior superlotado. Eles desobedecem as mais elementares regras do trânsito. A pessoa deve olhar de novo, para perceber que há policiais por perto e eles nada fazem. Deve olhar mais detidamente, para ver um motorista de ônibus parar seu veículo irregularmente, urinar na calçada, com desprezo para os pedestres e reação agressiva a quem chama sua atenção.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Transporte coletivo é uma concessão pública, logo um serviço que a prefeitura autoriza companhias privadas a prestar. Elas deveriam ser duramente punidas pelo mau comportamento de seus motoristas e descredenciadas em caso de reincidência. Mas não são. As prefeituras têm mais o que fazer do que criar caso com as concessionárias.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Agora, a pessoa deve se deslocar para a porta de uma escola privada, para ricos, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na Gávea, por exemplo. Em horário em que haja estudantes entrando ou saindo das aulas. A pessoa verá dezenas de SUVs e sedans de luxo estacionados irregularmente, às vezes fazendo fila tripla, dirigidos na maioria por motoristas profissionais, transformando o trânsito em uma caótica série de transgressões. A pessoa olha mais, para ver policiais acompanhando com complacência aquela desordem. Estão ali só para proteger a elite. Organizam a transgressão. Não estão ali para fazer cumprir a lei. Lição mais eloquente de arrogância e desprezo pela ordem urbana, do que todas as horas de aula que a jovem elite rica recebe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma rua movimentada de Ipanema.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A pessoa pergunta quantos daqueles que andam pelas calçadas já foram vítimas de pequenos roubos, assaltos, furto ou roubo de carro. Muitos responderão afirmativamente. Agora, a pessoa pergunta quantos deram queixa à polícia. A maioria responderá que não. Só as vítimas de furto ou roubo de carro responderão afirmativamente, porque precisam do BO para receber o seguro. Eles e a polícia sabem que é só para esse fim, o registro da ocorrência. Ninguém espera uma investigação.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">As pessoas que já deram parte de furto de bolsa, ou carteira, de assalto por pivetes no sinal, só fazem isso uma vez. A resposta que provavelmente receberam na delegacia, com grosseria &#8211; já vi isso acontecer &#8211; “é temos problemas muito maiores para tratar, isso aí que aconteceu com você acontece dezenas de vezes por minuto. Se formos cuidar disso não faremos outra coisa”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A sociabilidade está gravemente comprometida em todos os bairros do Rio de Janeiro e na maioria das regiões metropolitanas do Brasil. Mas ela é praticamente impossível nas favelas e comunidades dominadas, de onde o estado foi expulso ou aonde nunca esteve. A população inocente e trabalhadora dessas áreas é vítima do desprezo público, quando não do preconceito, e submetida à tirania do banditismo clientelista.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ele usa uma estratégia de controle social para lá de conhecida, com doses variadas de violência direta (execuções sumárias, homicídio de demonstração, espancamento, tortura); várias formas de assédio; cobrança de pedágio; fronteiras fechadas; toques de queda; e favores para suprir a ausência de serviço público. Usam a carência de serviços públicos da população que tiranizam, para compensar sua ilegitimidade, da mesma forma que a política clientelista faz.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma favela do Rio, alguns anos atrás.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação: B. uma ex-assistente minha, hoje uma excelente repórter policial em um jornal do Rio, dirige seu carro por dentro da favela, onde mora um jovem negro amigo seu. Os dois prestam trabalho voluntário na mesma igreja e como trabalham depois do expediente, ela lhe dá uma carona até em casa. Isso representa para ela, em condições normais, um desvio de meia hora, quarenta minutos. Para ele, evita mais de uma hora e meia em um ônibus lotado. Ela sobe até o máximo que seu carro pode ir. Ele desce. Ela manobra com dificuldade, dada a estreiteza, para voltar.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ao descer, vê um jovem subindo em uma moto, com uma bicicleta atravessada na garupa. A ruela é muito estreita. Ela não pode continuar sem atingir uma das rodas da bicicleta. Espreme o carro próximo à parede das casas, não há calçada, nem via de escape. Ele continua, acelera passa por ela e arranca seu retrovisor lateral.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Passado o susto, ela retoma a descida. Alguns metros abaixo, um negro fortão, sem camisa, de chinelo e bermuda, com uma pistola automática 9mm na cintura, faz sinal para ela parar. Pergunta o que houve. “Nada, um pequeno acidente”, diz ela. Ele responde que não foi acidente não, foi uma agressão, e ela era uma “garota bacana, que fazia trabalho comunitário, merecia respeito”.  Ela agradece e pergunta se pode ir. Ele diz que não, que é preciso resolver a situação. “Não tem nada a resolver”, ela diz. “Tem sim”, ele responde, mandando que ela deixe o carro ali mesmo, bloqueando a rua, para caminhar morro acima com ele.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sem saída, ela o segue até uma casa vazia. Entram em uma sala grande, como se fosse uma sala de reunião, sem móveis. Em uma escrivaninha solitária, no centro da sala, está sentado o chefe, duas 9mm de cada lado, pousadas sobre a mesa, ao alcance de cada mão. Segue-se um breve diálogo, em que o grandalhão conta ao chefe a ocorrência. O chefe pergunta quem foi: “o Treliça”, diz o outro. “Chama ele aqui”, manda o chefe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Treliça aparece na velocidade da luz. Confirma o mal feito e o chefe diz: “Você sabe o que fazer”. “Sei”: o garoto pede desculpas e as desculpas são prontamente aceitas. “Não basta”, diz o chefe. “Ela tem que consertar o carro”, e pergunta a B. quanto vai custar. “Nada não”, diz B. O carro tá velho, o retrovisor já tava quebrado, ia mesmo trocar”. O chefe pergunta ao grandão e ele estima em R$ 80,00 (algo como 1/3 do salário mínimo da época). O chefe olha para Treliça, que mete a mão no bolso, conta o dinheiro e passa para B., que ainda tenta recusar, mas desiste diante do olhar do mandão.  “Da próxima vez, você sabe qual será a punição”, ele diz a Treliça, que balança a cabeça compungido e atemorizado. A B., diz“ você pode ir e vir em segurança por aqui. Está fazendo o bem para minha comunidade. Nós temos tolerância zero com esse tipo de desrespeito a pessoas como você”. Treliça se manda. O grandalhão a leva até o carro, olheiros garantem caminho livre para ela deixar a favela sem mais interrupções.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Tolerância zero para pequenas agressões, em relação a pessoas que quebram as regras da sociabilidade, vandalizam a propriedade de terceiros, é isso que o sociólogo <a href="http://www.manhattan-institute.org/pdf/_atlantic_monthly-broken_windows.pdf"><span style="text-decoration: underline;">James Q. Wilson</span></a> diria que a autoridade pública deveria fazer. Combater grandes crimes, o crime organizado, o tráfico, não dá resultado durável, se as autoridades públicas permitem que a desordem, a transgressão e o desrespeito se tornem parte do cotidiano e da cultura das cidades. Esse combate pelo alto só produz um movimento cíclico, no qual ondas de violência crescente se alternam com momentos breves de paz, sob a sombra dos fuzis dos bandidos e da polícia. Isso não é paz, é um momento de silêncio que se segue ao trauma da morte violenta.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Esse contexto de crime e violência é complexo e sistêmico. Mas complexidade não significa que as soluções são grandiosas. Elas frequentemente implicam uma rotina diária de combate à cultura da complacência, à frouxidão na aplicação de leis e regulamentos, à transgressão contumaz e não apenas pelas autoridades, mas <a href="http://conjunturacriminal.blogspot.com/"><span style="text-decoration: underline;">pelos cidadãos</span></a>.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Muitos intelectuais e profissionais que tratam dos problemas de criminalidade e violência, e não só no Brasil, dizem que o diagnóstico das “janelas quebradas”, de Wilson, é pura ideologia de direita, não é uma teoria que funcione, que esteja <a href="http://americancity.org/daily/entry/1801/"><span style="text-decoration: underline;">comprovada</span></a>. É um equívoco ver assim. O capítulo do livro de Malcolm Gladwell <a href="http://www.gladwell.com/tippingpoint/index.html"><span style="text-decoration: underline;">“The Tipping Point”</span></a> sobre New York, é um bom contraponto a esse argumento. Há evidência de que ela funciona. Mas, mais importante que isso, é que a democracia diz respeito à ordem legítima, ao monopólio do uso da força pelo estado, que também deve responder pelo que faz no uso desse monopólio. Desordem, impunidade, corrupção são forças antidemocráticas. A aplicação irredutível da lei aprovada legitimamente é da essência do governo democrático. A imposição de leis e regras à força, por bandidos armados, de acordo com sua vontade, é que é tirânica. Como aconteceu com minha ex-assistente, que chamei de B.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A violência e a estrutura sócio-política impostas pelos traficantes às comunidades por todo o Brasil metropolitano são sintomas de um amplo processo de degradação urbana. As cidades estão mais feias, mais sujas e mais bagunçadas; o tráfego está mais indisciplinado e violento; as pessoas não confiam umas nas outras; os ricos constroem condomínios-bunker, auto-suficientes, para se isolarem da cidade e “dos outros”, na maioria “outros negros”. O número de carros blindados aumenta a cada mês. Outro dia, em São Paulo, o motorista de um serviço de transporte de passageiros de luxo, me disse que estava tendo que comprar um carro blindado, por exigência da clientela.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">As pessoas discutem esses sinais todos de degradação da convivência urbana, de medo, desconfiança, fracasso da governança democrática, ao jantar, com a casualidade com que discutem uma nova oferta de emprego ou comprar objetos de grife. Como se fossem aspectos normais da vida contemporânea. A complacência mata, mas a maioria parece não se dar conta. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">É claro que ela mata muito menos os ricos, do que os pobres, os de classe média baixa, morando nos bairros e favelas “de risco”. Não são eles que causam a violência. Nem eles são criminosos em potencial. A pobreza não gera o crime e a violência, como já havia demonstrado há muito, o sociólogo <a href="http://www.schwartzman.org.br/simon/edmundo.htm"><span style="text-decoration: underline;">Edmundo Campos Coelho</span></a>, morto precocemente. A violência nasce da negligência e do abandono e suas maiores vítimas são os pobres, principalmente os<a href="http://www.ritla.org.br/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=2314&amp;Itemid=278"><span style="text-decoration: underline;"> jovens negros</span></a> pobres. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Outro argumento é que a teoria das“janelas quebradas” levaria ao preconceito. Onde há medo de que alguma coisa gere preconceito é porque o preconceito, a discriminação, já é um traço da cultura daquela sociedade. É o caso do racismo no Brasil. Essa teoria pode ser usada <a href="http://postbourgie.com/2009/10/06/armchair-sociology-broken-windows-theory-of-discrimination/"><span style="text-decoration: underline;">contra a discriminação aberta</span></a> e na proteção a minorias. A violência nasce da <a href="http://chockblock.wordpress.com/2009/09/30/broken-windows-broken-cities/"><span style="text-decoration: underline;">falência das instituições</span></a> e da falta de <a href="http://nikolauseberl.typepad.com/business-2010-blog/2009/10/reversing-the-lucifer-effect-to-make-2010-the-safest-world-cup-ever.html"><span style="text-decoration: underline;">orgulho cívico</span></a>. A ordem democrática, “consertar as janelas quebradas”, pode ajudar muito a conter a violência, combater o medo e criar <a href="http://blog.livablestreets.info/?p=139"><span style="text-decoration: underline;">ruas e bairros habitáveis</span></a>, ao mesmo tempo que as tornamos mais agradáveis, bonitas, e sustentáveis.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Se mantivermos nossas janelas quebradas, nossos corações sangrarão recorrentemente por novas mortes próximas e teremos sempre que sobreviver à sombra dos fuzis.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2009/10/19/sob-a-sombra-dos-fuzis-a-tirania-do-crime-organizado-no-brasil-metropolitano/feed/</wfw:commentRss>
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