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	<title>Ecopolitica &#187; tráfico de drogas</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>Drogas devastam na Amazônia</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2011/01/10/drogas-devastam-na-amazonia/</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2011/01/10/drogas-devastam-na-amazonia/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 10 Jan 2011 17:38:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches (para O Eco em 06 Ago 2008)
A hidrovia do rio Negro herdou o tráfico de drogas da Colômbia para outros países que antes era feito por rota aérea sobre a Amazônia brasileira.
Como esta matéria, citada no post anterior é difícil de encontrar na pesquisa de O Eco, reproduzo abaixo na íntegra.
A hidrovia do rio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p>Sérgio Abranches (para O Eco em 06 Ago 2008)<br />
A hidrovia do rio Negro herdou o tráfico de drogas da Colômbia para outros países que antes era feito por rota aérea sobre a Amazônia brasileira.<span id="more-1506"></span></p>
<p>Como esta matéria, citada no <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/01/10/politica-energetica-na-contramao-ameaca-amazonia-e-despreza-energia-boa/">post anterior</a> é difícil de encontrar na pesquisa de O Eco, reproduzo abaixo na íntegra.</p>
<p>A hidrovia do rio Negro herdou o tráfico de drogas da Colômbia para outros países que antes era feito por rota aérea sobre a Amazônia brasileira. O SIVAM-SIPAM, o controvertido projeto de monitoramento da Amazônia da era FHC, e o Cindacta-4, sistema de controle de tráfego aéreo que, pela primeira vez, cobre todas as rotas sobre a floresta, fecharam essa porta nos céus. E atravessar o espaço aéreo amazônico com cargas ilegais ficou bem mais perigoso. Além dos radares, e das pistas clandestinas que não resistem muito tempo à umidade e às chuvas da região, os traficantes estavam enfrentando um recrudescimento na repressão da Polícia Federal, que com o passar dos anos aprendeu a identificar melhor os pontos de aterrissagem do tráfico no meio da selva. Nesse contexto, a bandidagem viu nos rios amazônicos uma solução.</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa01_gr1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1512" title="sergio_amazonia_crime_mapa01_gr" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa01_gr1.jpg" alt="" width="550" height="413" /></a></p>
<p>Essa migração do tráfico dos ares para os rios é confirmada pelo general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia e pelo Diretor-Geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa. A região tem 22 mil kms de rios navegáveis, dos quais 11 mil kms são de fronteira, rasgando a selva. Uma grande hidrovia, como a do rio Negro, acaba virando uma avenida na qual essas rotas desembocam. São 1200 kms de hidrovia que, na parte brasileira, começa acima de São Gabriel da Cachoeira, na Cabeça de Cachorro, fronteira com a Colômbia, chegando até Manaus. Um bom pedaço dessa malha de rios navegáveis está conectada por “furos”, canais que ligam um rio ao outro ou duas partes de um mesmo rio, separadas por grandes ilhas.</p>
<p>Segundo relatam funcionários das agências ambientais da região, embarcações descem o rio Negro à noite, carregadas de madeira, quelônios, peixes amazônicos ornamentais e, no meio dessa carga ambiental ilegal, começa a aparecer a droga. Autoridades policiais dizem que os rios servem de via para pasta de coca, vinda da Colômbia, que pode estar sendo refinada nas imediações de Manaus. A cocaína segue, então, até Belém e daí para os mercados internacionais.</p>
<p>Nesse momento, uma grande operação militar de treinamento, a Operação Poraquê, põe a nata das forças militares de terra, ar e mar na Amazônia. Essa é a oitava operação desse tipo na região, e a primeira numa área que combina a selva tropical com a savana, em Roraima, na região de Caracaraí, permitindo que o treinamento envolva tanto ações de selva, quanto o uso de blindados.</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa02_gr1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1513" title="sergio_amazonia_crime_mapa02_gr" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa02_gr1.jpg" alt="" width="550" height="480" /></a></p>
<p><strong>Corte, grilagem e drogas</strong></p>
<p>A Operação Poraquê vai cobrir também a calha do rio Negro. Na manhã dessa terça-feira, a Marinha levantou âncoras e navegou o rio, para chegar até Barcelos, um dos locais onde se estuda instalar uma base de ação conjunta, do Ibama, ICMBio, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas -IPAAM e da PM prevista no Plano de Proteção do Baixo Rio Negro.</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa03_gr1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1514" title="sergio_amazonia_crime_mapa03_gr" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa03_gr1.jpg" alt="" width="550" height="536" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Corte, grilagem e drogas</strong></p>
<p>A Operação Poraquê vai cobrir também a calha do rio Negro. Na manhã dessa terça-feira, a Marinha levantou âncoras e navegou o rio, para chegar até Barcelos, um dos locais onde se estuda instalar uma base de ação conjunta, do Ibama, ICMBio, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas -IPAAM e da PM prevista no Plano de Proteção do Baixo Rio Negro.</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa04_gr1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1515" title="sergio_amazonia_crime_mapa04_gr" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/01/sergio_amazonia_crime_mapa04_gr1.jpg" alt="" width="550" height="556" /></a></p>
<p>É uma localização controvertida. Alguns agentes locais prefeririam que a base ficasse situada na região do estreito, próxima a Manaus, e fosse acompanhada de um reforço operacional em Novo Airão. Dessa forma, se teria controle de todo o fluxo que vem do alto rio Negro, rumo ao baixo rio Negro, cujos pontos de receptação estão em Novo Airão, que faz ligação rodoviária com Manaus, e Manacaparu, que dá saída para o rio Solimões.</p>
<p>O problema do tráfico se agravou dramaticamente nos últimos anos na Amazônia e tem várias causas. De um lado, o crescimento urbano exponencial de capitais como Manaus e Belém, criou mercados locais para a droga. De outro, a crescente perda de controle, por parte da autoridade pública, sobre as atividades ilegais em toda a região. O avanço impune da grilagem, quase sempre apoiada na pistolagem, do desmatamento e do contrabando de espécies, acabou criando um ambiente propício ao crime. O desmando generalizado atrai o grande crime, o crime organizado. Com a chegada do crime organizado, se concretiza o risco de fusão das ações ilegais.</p>
<p>Os agentes ambientais da região relatam numerosos casos de apreensão de madeira, no meio da qual se encontrou pasta de coca. Há, também, evidência de que jovens da periferia das cidades do baixo rio Negro, especialmente de Manaus, são recrutados para cortar madeira nas unidades de conservação e pagos com pasta de coca ou cocaína. Eles são chamados de “galerosos”, por fazerem partes das gangues urbanas mais violentas. Os ribeirinhos também são aliciados e fazem papel de “aviõezinhos”, transportando droga para Manaus.</p>
<p><strong>Tráfico de bicho e drogas</strong></p>
<p>Segundo um relato, quando é carga que requer mais segurança e velocidade, como alevinos de aruanã (Osteoglossum bicirrhosum), que têm sido apreendidos, em grande quantidade, seguem sempre pelo rio. O rio dá mais segurança. É o que pensa, também, o general Augusto Heleno, Comandante Militar da Amazônia. Segundo, ele está errado imaginar que o tráfico não vai prosperar porque o transporte por rio é mais lento. É lento apenas até estabelecer a primeira rota. Depois, é uma questão logística elementar, programar o fluxo para ter uma entrega por dia. Esse fluxo tem a vantagem de ser mais seguro.</p>
<p>Essa enorme malha fluvial é muito difícil de monitorar. A fronteira é enorme, parte selva, parte savana, parte água, muito difícil de controlar. Mas, na opinião do general, dá para ser mais eficiente, unindo forças, para fazer operações conjuntas das Forças Armadas, Polícia Federal, Ibama/ICMBio, com transportes mais ágeis. As autoridades militares e policiais federais da Amazônia estão preocupadas com a convergência entre crimes ambientais e crime organizado, principalmente o narcotráfico.</p>
<p>O Diretor-Geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, concorda com o general Heleno e conta que o plano estratégico da instituição, para 2022, aponta a Amazônia como uma área crítica. Ele está, no momento, visitando todas as unidades da Polícia Federal na Amazônia, para fazer o levantamento dos problemas e necessidades para criar as condições necessárias de ação prioritária naquele “hotspot” ambiental e criminal.</p>
<p>Já há sinais de presença colombiana nas operações ilegais nos rios amazônicos. Recentemente, no último inverno, um vigilante do Parque de Jaú foi ameaçado de morte, porque reprimia o tráfico de espécies de peixes ornamentais e teve que se mudar com a família para Manaus. Um morador do parque foi espancado, porque suspeitaram que ele havia denunciado o tráfico às autoridades. Em ambos os casos havia colombianos envolvidos.</p>
<p>São muitas as rotas e muitos os valores traficados. A rota do tráfico de quelônios, da pesca ilegal e de alevinos de aruanã vai desde o lago Carabinani, em Roraima, até o Jaú, as Anavilhanas, seguindo para Manacaparu, saída para o Solimões e Manaus.</p>
<p><strong>Convergência da bandidagem</strong></p>
<p>O caso dos alevinos de aruanã é ilustrativo. Seu destino é, principalmente, o mercado asiático, onde acham que ele dá sorte, como o “peixe-dragão”. Sua comercialização é permitida na Colômbia, onde é um item de exportação importante, mas é proibida no Brasil. Sua captura na Colômbia é predatória e as águas brasileiras se tornaram fonte de fornecimento. É uma atividade importante na região do Alto Solimões e no vale do rio Javari, na parte ocidental do estado do Amazonas, onde há muitos lagos, ricos em aruanã e a fiscalização é praticamente inexistente.</p>
<p>Uma região de grande concentração de povos indígenas, eles próprios capturam os alevinos e trocam por mantimentos com os “piabeiros”. De lá, normalmente, esse material é embarcado no aeroporto de Letícia rumo a Bogotá, de onde é exportado. Mas quando a captura desce o Solimões ou o Negro, essa rota de saída fica longe e mais arriscada. A alternativa mais segura é descer rumo a Manaus e de lá para Belém. A mesma rota da droga.</p>
<p>Todos esses indícios de potencial convergência entre o crime ambiental e o narcotráfico, dão razão ao general Heleno. Ele argumenta que o Ibama/ICMBio, tem muito pouco efetivo. “Esse é meu grande pleito: que o Brasil possa unir as forças de repressão ao ilícito”. O exército, hoje, tem poder de polícia na região de fronteira, mas não além das fronteiras, jurisdição da Polícia Federal e das polícias estaduais. O exército não tem treinamento para reprimir o narcotráfico, nem para agir contra os crimes ambientais. Precisa da cooperação da Polícia Federal, em um caso, e das autoridades ambientais, no outro. Por outro lado, o exército tem o que falta aos dois: efetivos com grande treinamento em operação de selva.</p>
<p><strong>Tropa de elite</strong></p>
<p>A maioria dos soldados da força amazônica é formada por indígenas, que mantêm relações com suas comunidades e não abandonaram suas culturas. Aquelas são as terras deles, que conhecem como ninguém. Segundo o general, eles caminham na mata de uma outra maneira, “lêem” a mata de um modo muito mais eficiente, o que lhes dá uma mobilidade espantosa para quem não é nativo daquelas selvas.</p>
<p>O general fala com entusiasmo, por exemplo, do sucesso da operação conjunta exército/Ibama/Polícia Federal, em fevereiro, que desmontou um garimpo ilegal, no rio Puruê, na Estação Ecológica Juami-Japurá, que funcionava lá desde 1994. Foram apreendidas nove dragas, quatro flutuadores e três empurradores e aplicadas multas pesadas. O material apreendido está em Tefé. A rota de fuga dos garimpeiros era pela Colômbia.</p>
<p>A Operação Poraquê não tem seu foco exclusivo na simulação de um teatro de guerra. Ela tem objetivos estratégicos mais amplos, inclusive voltados para a possibilidade desse tipo de operação conjunta, para restaurar a autoridade pública na região e estabelecer o império da lei. A operação do Diretor-Geral da Polícia Federal também. Há a clara consciência de que a situação na Amazônia está escapando ao controle. Esse patrimônio de valor crucial no século XXI está sob forte ameaça e ela não é externa apenas, é sobretudo interna.</p>
<p>Sem o restabelecimento da autoridade na região Amazônica, nesse momento somente exercida na plenitude em operações eventuais, como essa das Forças Armadas, ou a operação Arco de Fogo, da Polícia Federal e do Ibama, não há como enfrentar os problemas da Amazônia. Sem autoridade que imponha o império da lei, não há como promover a regularização fundiária, acabar com a grilagem, reprimir a pistolagem, impedir o desmatamento, a pesca e a caça ilegais.</p>
<p>O governo brasileiro vive defendendo nossa soberania intocável sobre a Amazônia. Pura fanfarronice, com péssimos resultados. Não temos soberania sobre a Amazônia. A autoridade pública não controla seu território. Hoje, ela tem vastas extensões de território sem lei e ameaça concretamente a segurança nacional. Uma operação solidária das Forças Armadas, da Polícia Federal e do Ibama/ICMBio, poderia começar esse processo de restauração da autoridade pública na Amazônia e de consolidação do estado democrático de direito na região.</p>
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		<title>Violência e degradação da convivência têm componente ambiental</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2009/10/22/violencia-e-degradacao-da-convivencia-tem-componente-ambiental/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 17:39:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comentário]]></category>
		<category><![CDATA[corrupção]]></category>
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O fenômeno da violência tem que ser entendido de forma sistêmica, completa. O Brasil metropolitano passa por um processo grave degradação urbana, que tem componentes políticos, morais, sociais e ambientais.
Comentário de Sérgio Abranches hoje na CBN.
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 15.0px 0.0px; font: 18.0px Georgia;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O fenômeno da violência tem que ser entendido de forma sistêmica, completa. O Brasil metropolitano passa por um processo grave degradação urbana, que tem componentes políticos, morais, sociais e ambientais.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 15.0px 0.0px; font: 18.0px Georgia;"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;"><a href="http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/sergio-abranches/SERGIO-ABRANCHES.htm">Comentário</a></span><span style="letter-spacing: 0.0px;"> de Sérgio Abranches hoje na CBN.</span></p>
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		<title>À sombra dos fuzis: a tirania do crime organizado no Brasil metropolitano</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2009/10/19/sob-a-sombra-dos-fuzis-a-tirania-do-crime-organizado-no-brasil-metropolitano/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 22:18:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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Semana passada em Vila Isabel vimos mais um episódio brutal de violência urbana no Rio de Janeiro. Guerra de facções do tráfico e confronto com a polícia.
Sérgio Abranches
Nada de novo, sabemos, só mais uma fieira de mortos, sempre entre eles pessoas inocentes e honestas. Trabalhadoras. Em assalto sem conexão com essa batalha, mas no mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Semana passada em Vila Isabel vimos mais um episódio brutal de violência urbana no Rio de Janeiro. Guerra de facções do tráfico e confronto com a polícia.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sérgio Abranches<span id="more-384"></span></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Nada de novo, sabemos, só mais uma fieira de mortos, sempre entre eles pessoas inocentes e honestas. Trabalhadoras. Em assalto sem conexão com essa batalha, mas no mesmo contexto de violência e desordem, o AffroReggae sofreu nova perda, o Evandro João, coordenador social desse grupo guerreiro da paz.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Um helicóptero da polícia foi derrubado. Três dos policiais que estavam nele morreram por causa da explosão. O terceiro morreu hoje no hospital. O piloto deu uma demonstração impressionante de sangue-frio e perícia. Causa provável: um tiro de fuzil de longo alcance.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Os militares têm o monopólio do uso de armamento pesado e de combate e o poder regulatório sobre seu uso por terceiros. Não permite que a política do Rio monte uma metralhadora pesada em um helicóptero blindado para dar cobertura às ações de seus efetivos em terra.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Talvez tenham razão, em função dos riscos para a população civil. Mas não têm desculpas para a inércia silenciosa com o fato de que os criminosos usam as armas que deveriam controlar contra a polícia, outras gangues e a população, matando policiais e inocentes. Armas não raramente retiradas ilegalmente ou contrabandeadas de seus quartéis. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Estão planejando gastar uma fortuna com caças avançados, para nos proteger de improvável ameaça externa. Enquanto isso, no alto Rio Negro, fronteira com a Colômbia, na Amazônia brasileira, a base militar não tem um barco suficientemente potente para perseguir traficantes de cocaína, que descem o rio <a href="http://www.oeco.com.br/sergio-abranches/35-sergio-abranches/19182-amazonia-crime-ambiental-e-narcotrafico"><span style="text-decoration: underline;">corrompendo ribeirinhos</span></a> e contribuindo para o aumento exponencial das drogas e da violência em Manaus e Belém. Quando tentam perseguir os traficantes, apenas escutam o ronco dos quatro poderosos motores que eles aceleram de uma vez, quase de galhofa, para deixar a lancha do exército para trás e os militares impotentes olhando a espuma que deixam de rastro.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Após três dias de violência, foram 21 mortos (aproximadamente metade das vítimas fatais no ataque suicida no Irã essa semana), fora os feridos. De novo a ação da polícia foi controvertida, especialmente na elucidação da morte por fuzilamento de três rapazes.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Há óbvias dificuldades em separar quem é bandido de quem não é, no calor da ação. Mas há claros sinais de que houve inteligência (informação) deficiente e desprezo em relação a sinais antecedentes de que algo daquele porte estava para acontecer e que deveriam ter levado a ações preventivas, salvando muitas vidas. O sinal da desordem institucional ficava claro na coletiva de imprensa: três tinham que falar, o secretário, o comandante da polícia militar e o chefe da polícia civil. Onde mandam três, manda nenhum. É uma deformação institucional brasileira, nascida do corporativismo e da disfunção da política e das instituições.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Essa violência (<a href="http://conjunturacriminal.blogspot.com/"><span style="text-decoration: underline;">homicídios</span></a>) mata <a href="http://www.comunidadesegura.com.br/pt-br/node/38332"><span style="text-decoration: underline;">três vezes mais jovens</span></a> de 15 a 24 anos, dos quais 97% do sexo masculino, e 83% homens jovens negros.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma favela ou vizinhança popular.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação: Alguém olha para uma favela ou um bairro popular, de qualquer área metropolitana brasileira, e vê os sinais de displicência, abandono, ausência da autoridade pública, de serviços básicos, degradação estética, lixo espalhado por todo canto.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Não é por acaso que estão se tornando feudos de traficantes ou milícias, essas não raro formadas por policiais da ativa ou inativos. Elas têm o monopólio da força e de serviços como sinal de TV a cabo, Internet, luz, gás, e, obviamente, segurança à moda delas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para qualquer rua de Ipanema, Gávea ou Leblon, todos de classe média e média alta, como sabemos. Todas cercadas por favelas, como também se sabe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação:  Agora a pessoa não olha para o morro, olha para o asfalto. Para ver os motoristas de ônibus avançando sinais, fechando carros particulares, jogando os veículos sobre as pessoas, freando bruscamente, para “arrumar” os passageiros empacotados no seu interior superlotado. Eles desobedecem as mais elementares regras do trânsito. A pessoa deve olhar de novo, para perceber que há policiais por perto e eles nada fazem. Deve olhar mais detidamente, para ver um motorista de ônibus parar seu veículo irregularmente, urinar na calçada, com desprezo para os pedestres e reação agressiva a quem chama sua atenção.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Transporte coletivo é uma concessão pública, logo um serviço que a prefeitura autoriza companhias privadas a prestar. Elas deveriam ser duramente punidas pelo mau comportamento de seus motoristas e descredenciadas em caso de reincidência. Mas não são. As prefeituras têm mais o que fazer do que criar caso com as concessionárias.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Agora, a pessoa deve se deslocar para a porta de uma escola privada, para ricos, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Na Gávea, por exemplo. Em horário em que haja estudantes entrando ou saindo das aulas. A pessoa verá dezenas de SUVs e sedans de luxo estacionados irregularmente, às vezes fazendo fila tripla, dirigidos na maioria por motoristas profissionais, transformando o trânsito em uma caótica série de transgressões. A pessoa olha mais, para ver policiais acompanhando com complacência aquela desordem. Estão ali só para proteger a elite. Organizam a transgressão. Não estão ali para fazer cumprir a lei. Lição mais eloquente de arrogância e desprezo pela ordem urbana, do que todas as horas de aula que a jovem elite rica recebe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma rua movimentada de Ipanema.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A pessoa pergunta quantos daqueles que andam pelas calçadas já foram vítimas de pequenos roubos, assaltos, furto ou roubo de carro. Muitos responderão afirmativamente. Agora, a pessoa pergunta quantos deram queixa à polícia. A maioria responderá que não. Só as vítimas de furto ou roubo de carro responderão afirmativamente, porque precisam do BO para receber o seguro. Eles e a polícia sabem que é só para esse fim, o registro da ocorrência. Ninguém espera uma investigação.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">As pessoas que já deram parte de furto de bolsa, ou carteira, de assalto por pivetes no sinal, só fazem isso uma vez. A resposta que provavelmente receberam na delegacia, com grosseria &#8211; já vi isso acontecer &#8211; “é temos problemas muito maiores para tratar, isso aí que aconteceu com você acontece dezenas de vezes por minuto. Se formos cuidar disso não faremos outra coisa”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A sociabilidade está gravemente comprometida em todos os bairros do Rio de Janeiro e na maioria das regiões metropolitanas do Brasil. Mas ela é praticamente impossível nas favelas e comunidades dominadas, de onde o estado foi expulso ou aonde nunca esteve. A população inocente e trabalhadora dessas áreas é vítima do desprezo público, quando não do preconceito, e submetida à tirania do banditismo clientelista.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ele usa uma estratégia de controle social para lá de conhecida, com doses variadas de violência direta (execuções sumárias, homicídio de demonstração, espancamento, tortura); várias formas de assédio; cobrança de pedágio; fronteiras fechadas; toques de queda; e favores para suprir a ausência de serviço público. Usam a carência de serviços públicos da população que tiranizam, para compensar sua ilegitimidade, da mesma forma que a política clientelista faz.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Corta para uma favela do Rio, alguns anos atrás.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ação: B. uma ex-assistente minha, hoje uma excelente repórter policial em um jornal do Rio, dirige seu carro por dentro da favela, onde mora um jovem negro amigo seu. Os dois prestam trabalho voluntário na mesma igreja e como trabalham depois do expediente, ela lhe dá uma carona até em casa. Isso representa para ela, em condições normais, um desvio de meia hora, quarenta minutos. Para ele, evita mais de uma hora e meia em um ônibus lotado. Ela sobe até o máximo que seu carro pode ir. Ele desce. Ela manobra com dificuldade, dada a estreiteza, para voltar.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Ao descer, vê um jovem subindo em uma moto, com uma bicicleta atravessada na garupa. A ruela é muito estreita. Ela não pode continuar sem atingir uma das rodas da bicicleta. Espreme o carro próximo à parede das casas, não há calçada, nem via de escape. Ele continua, acelera passa por ela e arranca seu retrovisor lateral.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Passado o susto, ela retoma a descida. Alguns metros abaixo, um negro fortão, sem camisa, de chinelo e bermuda, com uma pistola automática 9mm na cintura, faz sinal para ela parar. Pergunta o que houve. “Nada, um pequeno acidente”, diz ela. Ele responde que não foi acidente não, foi uma agressão, e ela era uma “garota bacana, que fazia trabalho comunitário, merecia respeito”.  Ela agradece e pergunta se pode ir. Ele diz que não, que é preciso resolver a situação. “Não tem nada a resolver”, ela diz. “Tem sim”, ele responde, mandando que ela deixe o carro ali mesmo, bloqueando a rua, para caminhar morro acima com ele.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sem saída, ela o segue até uma casa vazia. Entram em uma sala grande, como se fosse uma sala de reunião, sem móveis. Em uma escrivaninha solitária, no centro da sala, está sentado o chefe, duas 9mm de cada lado, pousadas sobre a mesa, ao alcance de cada mão. Segue-se um breve diálogo, em que o grandalhão conta ao chefe a ocorrência. O chefe pergunta quem foi: “o Treliça”, diz o outro. “Chama ele aqui”, manda o chefe.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Treliça aparece na velocidade da luz. Confirma o mal feito e o chefe diz: “Você sabe o que fazer”. “Sei”: o garoto pede desculpas e as desculpas são prontamente aceitas. “Não basta”, diz o chefe. “Ela tem que consertar o carro”, e pergunta a B. quanto vai custar. “Nada não”, diz B. O carro tá velho, o retrovisor já tava quebrado, ia mesmo trocar”. O chefe pergunta ao grandão e ele estima em R$ 80,00 (algo como 1/3 do salário mínimo da época). O chefe olha para Treliça, que mete a mão no bolso, conta o dinheiro e passa para B., que ainda tenta recusar, mas desiste diante do olhar do mandão.  “Da próxima vez, você sabe qual será a punição”, ele diz a Treliça, que balança a cabeça compungido e atemorizado. A B., diz“ você pode ir e vir em segurança por aqui. Está fazendo o bem para minha comunidade. Nós temos tolerância zero com esse tipo de desrespeito a pessoas como você”. Treliça se manda. O grandalhão a leva até o carro, olheiros garantem caminho livre para ela deixar a favela sem mais interrupções.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Tolerância zero para pequenas agressões, em relação a pessoas que quebram as regras da sociabilidade, vandalizam a propriedade de terceiros, é isso que o sociólogo <a href="http://www.manhattan-institute.org/pdf/_atlantic_monthly-broken_windows.pdf"><span style="text-decoration: underline;">James Q. Wilson</span></a> diria que a autoridade pública deveria fazer. Combater grandes crimes, o crime organizado, o tráfico, não dá resultado durável, se as autoridades públicas permitem que a desordem, a transgressão e o desrespeito se tornem parte do cotidiano e da cultura das cidades. Esse combate pelo alto só produz um movimento cíclico, no qual ondas de violência crescente se alternam com momentos breves de paz, sob a sombra dos fuzis dos bandidos e da polícia. Isso não é paz, é um momento de silêncio que se segue ao trauma da morte violenta.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Esse contexto de crime e violência é complexo e sistêmico. Mas complexidade não significa que as soluções são grandiosas. Elas frequentemente implicam uma rotina diária de combate à cultura da complacência, à frouxidão na aplicação de leis e regulamentos, à transgressão contumaz e não apenas pelas autoridades, mas <a href="http://conjunturacriminal.blogspot.com/"><span style="text-decoration: underline;">pelos cidadãos</span></a>.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Muitos intelectuais e profissionais que tratam dos problemas de criminalidade e violência, e não só no Brasil, dizem que o diagnóstico das “janelas quebradas”, de Wilson, é pura ideologia de direita, não é uma teoria que funcione, que esteja <a href="http://americancity.org/daily/entry/1801/"><span style="text-decoration: underline;">comprovada</span></a>. É um equívoco ver assim. O capítulo do livro de Malcolm Gladwell <a href="http://www.gladwell.com/tippingpoint/index.html"><span style="text-decoration: underline;">“The Tipping Point”</span></a> sobre New York, é um bom contraponto a esse argumento. Há evidência de que ela funciona. Mas, mais importante que isso, é que a democracia diz respeito à ordem legítima, ao monopólio do uso da força pelo estado, que também deve responder pelo que faz no uso desse monopólio. Desordem, impunidade, corrupção são forças antidemocráticas. A aplicação irredutível da lei aprovada legitimamente é da essência do governo democrático. A imposição de leis e regras à força, por bandidos armados, de acordo com sua vontade, é que é tirânica. Como aconteceu com minha ex-assistente, que chamei de B.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A violência e a estrutura sócio-política impostas pelos traficantes às comunidades por todo o Brasil metropolitano são sintomas de um amplo processo de degradação urbana. As cidades estão mais feias, mais sujas e mais bagunçadas; o tráfego está mais indisciplinado e violento; as pessoas não confiam umas nas outras; os ricos constroem condomínios-bunker, auto-suficientes, para se isolarem da cidade e “dos outros”, na maioria “outros negros”. O número de carros blindados aumenta a cada mês. Outro dia, em São Paulo, o motorista de um serviço de transporte de passageiros de luxo, me disse que estava tendo que comprar um carro blindado, por exigência da clientela.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">As pessoas discutem esses sinais todos de degradação da convivência urbana, de medo, desconfiança, fracasso da governança democrática, ao jantar, com a casualidade com que discutem uma nova oferta de emprego ou comprar objetos de grife. Como se fossem aspectos normais da vida contemporânea. A complacência mata, mas a maioria parece não se dar conta. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">É claro que ela mata muito menos os ricos, do que os pobres, os de classe média baixa, morando nos bairros e favelas “de risco”. Não são eles que causam a violência. Nem eles são criminosos em potencial. A pobreza não gera o crime e a violência, como já havia demonstrado há muito, o sociólogo <a href="http://www.schwartzman.org.br/simon/edmundo.htm"><span style="text-decoration: underline;">Edmundo Campos Coelho</span></a>, morto precocemente. A violência nasce da negligência e do abandono e suas maiores vítimas são os pobres, principalmente os<a href="http://www.ritla.org.br/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=2314&amp;Itemid=278"><span style="text-decoration: underline;"> jovens negros</span></a> pobres. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Outro argumento é que a teoria das“janelas quebradas” levaria ao preconceito. Onde há medo de que alguma coisa gere preconceito é porque o preconceito, a discriminação, já é um traço da cultura daquela sociedade. É o caso do racismo no Brasil. Essa teoria pode ser usada <a href="http://postbourgie.com/2009/10/06/armchair-sociology-broken-windows-theory-of-discrimination/"><span style="text-decoration: underline;">contra a discriminação aberta</span></a> e na proteção a minorias. A violência nasce da <a href="http://chockblock.wordpress.com/2009/09/30/broken-windows-broken-cities/"><span style="text-decoration: underline;">falência das instituições</span></a> e da falta de <a href="http://nikolauseberl.typepad.com/business-2010-blog/2009/10/reversing-the-lucifer-effect-to-make-2010-the-safest-world-cup-ever.html"><span style="text-decoration: underline;">orgulho cívico</span></a>. A ordem democrática, “consertar as janelas quebradas”, pode ajudar muito a conter a violência, combater o medo e criar <a href="http://blog.livablestreets.info/?p=139"><span style="text-decoration: underline;">ruas e bairros habitáveis</span></a>, ao mesmo tempo que as tornamos mais agradáveis, bonitas, e sustentáveis.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica; min-height: 22.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 18.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Se mantivermos nossas janelas quebradas, nossos corações sangrarão recorrentemente por novas mortes próximas e teremos sempre que sobreviver à sombra dos fuzis.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2009/10/19/sob-a-sombra-dos-fuzis-a-tirania-do-crime-organizado-no-brasil-metropolitano/feed/</wfw:commentRss>
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