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	<title>Ecopolitica &#187; política global</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>O risco climático é real e presente dizem os cientistas do IPCC</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 14:16:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
O número de dias e noites quentes aumentou e o número de dias e noites frias diminuiu por toda parte, em escala global. Na maioria das regiões do planeta para as quais há dados suficientes, mas não em todas, observa-se que o número e a duração das ondas de calor aumentaram. Houve aumento estatisticamente [...]]]></description>
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			</a>
		</div>
<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>O número de dias e noites quentes aumentou e o número de dias e noites frias diminuiu por toda parte, em escala global. Na maioria das regiões do planeta para as quais há dados suficientes, mas não em todas, observa-se que o número e a duração das ondas de calor aumentaram. Houve aumento estatisticamente significante do número de chuvas pesadas em algumas regiões do mundo e é provável que a frequência de chuvas torrenciais como uma proporção do total de chuvas aumente ao longo do século em várias áreas do globo. As velocidades médias máximas dos ciclones tropicais, a intensidade e tamanho dos furacões, tufões e ciclones também devem aumentar, embora seu número tenda a ficar mais ou menos constante.<span id="more-2877"></span></p>
<p>Estudos analisados pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da ONU, baseados em evidências de observações coletadas desde 1950, registraram essas e outras mudanças no clima e no tempo da Terra. Estão no Sumário Executivo do Relatório Especial sobre Gerenciamento de Riscos de Eventos Extremos e Desastres para Promover a Adaptação à Mudança Climática (Special Report on Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance Climate Change Adaptation &#8211; <a href="http://ipcc-wg2.gov/SREX/">SREX</a>) que o IPCC tornou público no final da semana passada.</p>
<p>Esses estudos detectaram além de mais calor diário e noturno e chuvas intensas, aumento das secas e de águas costeiras extremamente altas por causa do aumento médio do nível do mar. Algumas regiões do mundo têm experimentado secas mais intensas e mais longas. Esse fato está mais bem documentado no sul da Europa e na África Ocidental. Na parte central da América do Norte e no noroeste da Austrália, os dados indicam secas menos intensas ou menos extensas.</p>
<p>Essas e outras conclusões estão no documento. Mas precisam ser resgatadas do emaranhado de precauções que as cercam por todos os lados. Parte da precaução é justificada, parte é insegurança, parte é determinada por fatores estranhos ao trabalho científico.</p>
<p>O relatório, com todas as precauções, diz que “um clima em mudança leva a alterações na frequência, intensidade, extensão territorial e duração de eventos climáticos extremos e podem resultar em eventos climáticos nunca antes experimentados”.</p>
<p>Os cientistas reunidos pela ONU, no quadro da Convenção do Clima (UNFCCC), alertam para o fato de que essa elevação do risco de desastres associados à mudança climática deve ser incorporada aos planos e políticas públicas de todos os países. Ações de mitigação (redução de emissões de gases estufa) e adaptação à mudança climática já em curso podem ser complementares e contribuir, em conjunto, para reduzir os riscos. Os cientistas chamam atenção para o fato de que políticas governamentais e estratégias de desenvolvimento têm papel crítico na determinação do risco de desastres, que pode aumentar por causa das falhas de políticas e de insuficiências no processo de desenvolvimento.</p>
<p>Degradação ambiental, desmatamento, ocupação inadequada das costas, urbanização rápida e sem planejamento em áreas de risco, falhas de governança e a escassez de oportunidades para os mais pobres podem elevar fortemente a probabilidade de que eventos climáticos extremos se transformem em desastres. A vulnerabilidade das populações está diretamente associada às desigualdades entre países e dentro dos países. “As desigualdades influenciam a capacidade local de enfrentar e se adaptar e impõem desafios adicionais de gestão de risco de desastres e adaptação à mudança climática do plano local ao nacional”, diz o relatório.</p>
<p>Os cientistas recomendam, também, que a recuperação e reconstrução pós-desastres sejam usadas como oportunidades para reduzir o risco climático e aumentar a capacidade de adaptação.</p>
<p>A ênfase na adaptação, em todo o relatório, deixa claro que já estamos experimentando mudança climática e ela tem contribuído para incrementar a incidência de eventos climáticos extremos. Indica ainda que um aumento adicional desses eventos já é inevitável. O que se pode evitar é o agravamento até um ponto em que a mudança climática se torne uma tragédia global.</p>
<p>Os eventos extremos que já ocorrem se distribuem desigualmente pelo planeta. Os mais vulneráveis a esses eventos são os países mais pobres e as populações mais pobres dentro de países com maior desenvolvimento ou já desenvolvidos. Me lembrou uma frase do escritor de ficção científica, William Gibson, em uma entrevista na qual lhe pedem para falar sobre o futuro. Ele disse “o futuro já chegou, ele só está mal distribuído”. O que o IPCC está dizendo é isso: a mudança climática já chegou e ela está mal distribuída. Os riscos climáticos são presentes e reais e estão mal distribuídos.</p>
<p>Pelo título do relatório já se pode ter uma ideia de como seu texto é inóspito. De fato, o relatório é quase ilegível tantas são as precauções adotadas, a cada frase, para mostrar que não há certezas absolutas, em vários casos os dados são ainda insuficientes para grandes conclusões e para algumas áreas faltam estudos mais confiáveis. Tudo isso poderia ser resumido em alguns parágrafos de precaução e o texto consolidando evidências, hipóteses e conclusões escrito em texto corrido e legível para o público em geral. Afinal, as conclusões dos cientistas interessam a todos, deveriam servir para que as comunidades pressionem seus governos para adotarem medidas apropriadas e ajustem seus comportamentos a esse quadro de maior risco.</p>
<p>Mas o IPCC tem duas limitações severas. Primeiro, seus relatórios têm que passar pelo crivo político dos países que são partes na Convenção do Clima e é grande a pressão para tornar suas conclusões mais convenientes do ponto de vista político. As ambiguidades que a política insere na versão para “formuladores de políticas” podem, entretanto, ser corrigidas no relatório completo voltado para cientistas e técnicos. Usualmente, os textos para o público especializado são mais completos e menos ambíguos, embora continuem a padecer de linguagem científica muitas vezes desnecessariamente tortuosa.</p>
<p>A segunda limitação é mais abrangente. O IPCC se tornou o alvo de “negacionistas”, aqueles que negam a ciência do clima e a hipótese de que a mudança climática resulta da ação humana. São também chamados de “céticos”, mas é uma denominação imprópria. O ceticismo é um atributo intrínseco da ciência. A ciência tem como regra de ouro duvidar de suas hipóteses e tentar rejeitá-las.</p>
<p>Como a imprensa abrigou, durante muito tempo &#8211; e os setores mais conservadores da mídia continuam a abrigar &#8211; essas dúvidas sobre a qualidade da ciência climática, o IPCC está na berlinda. Cada afirmação mais direta é prontamente contestada. Os erros são buscados com lupa.</p>
<p>Essa atenção crítica é saudável. O problema é que parte dela não é orientada pelo método científico, nem pela investigação apurada, mas por atitudes ideológicas predeterminadas e largamente imutáveis. Quando o ceticismo deriva de legítima e necessária dúvida científica, ele se resolve no próprio exercício da ciência.</p>
<p>Foi o que aconteceu com o projeto Berkeley Temperatura da Superfície da Terra (<a href="http://berkeleyearth.org/">Berkeley Earth Surface Temperature</a> &#8211; BEST). Ele reconheceu que as tendências de aquecimento global são exatamente aquelas apontadas pelo IPCC, pela NASA e NOOA e pelo Hadley CRU da universidade britânica de East Anglia. Este último foi objeto de acesa controvérsia, a partir da divulgação de emails surrupiados de seus computadores. Analisei esse escândalo em meu livro <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22647269&amp;sid=122110181131121387701727567">Copenhague Antes e Depois</a>. O BEST, como é conhecido, foi criado por Richard Muller, um “negacionista” com boa reputação acadêmica, e financiado em grande parte pela Koch Foundation, uma fundação ligada à indústria de petróleo e que tem financiado generosamente blogs, sites e estudos voltados para a negação da ciência do clima e da mudança climática. Teoria da conspiração à parte, a Koch Foundation tem dado muito dinheiro a propagandistas conservadores da causa anti-ciência do clima, nem sempre cientificamente qualificados. No caso do estudo de Berkeley, o financiamento foi para um projeto respeitável.</p>
<p>Mas esse assédio dos negacionistas e a atenção da mídia, nem sempre versada nos temas da ciência, marcou os textos do IPCC por extrema precaução. Não há uma frase substantiva que não estejam intercaladas por condicionantes relativos à base de dados, à precisão das conclusões, ao escopo e alcance das afirmações. Quem lê o texto, sem atenção para o contexto de autolimitação por fatores ligados à dinâmica interna do IPCC e a controles externos, perde a noção da relevância das conclusões. Elas são relevantes, apontam para riscos reais e concretos e deveriam ser levadas em consideração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Comentei o relatório na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_111121&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>A crise é muito mais profunda e vai longe</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Aug 2011 20:48:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
Quem se aflige com os tropeços da política climática global deve prestar mais atenção  é na economia política global. Não existem compartimentos estanques. Sabemos disso desde o naufrágio do Titanic.
Desde a reunião de Copenhague as negociações têm se dado em um contexto de grave crise econômica global e impasses políticos locais, regionais e internacionais. [...]]]></description>
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			</a>
		</div>
<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>Quem se aflige com os tropeços da política climática global deve prestar mais atenção  é na economia política global. Não existem compartimentos estanques. Sabemos disso desde o naufrágio do Titanic.<span id="more-2524"></span></p>
<p>Desde a reunião de Copenhague as negociações têm se dado em um contexto de grave crise econômica global e impasses políticos locais, regionais e internacionais. Vivemos um momento de transição ainda pouco evidente, nem por isso menos radical. A velha ordem mundial, que atingiu seu clímax nos anos 1990, está desmoronando. A base financeira do capitalismo global, que foi construída a partir de meados dos anos 1980 e amadureceu ao longo das crises da primeira década dos anos 1990, ruiu no colapso da subprime, em 2008, após sucessivas fraturas parciais. Foi essa fissura, que representava, de fato, o início da ruptura definitiva da ordem financeira da primeira era do capitalismo global, que engoliu as negociações sobre o clima em Copenhague.</p>
<p>Desde então, estamos vivendo a mesma crise. É a velha ordem desmoronando. E as sementes da nova ordem, embora já estejam plantadas, ainda não adquiriram impulso suficiente para se imporem. Vicejam, aqui e ali. Fraquejam lá e acolá. Que caminho e fisionomia terão, ainda não está claro.</p>
<p>A maioria dos economistas, desejosa de atender às demandas de um mercado que, embora saiba ganhar nas marés baixas, precisa de boas condições para circular a imensa liquidez que o ameaça afogar, anuncia toda hora o final da crise. Esse final está  aindamuito distante. São poucas as exceções. <a href="http://www.roubini.com/">Nouriel Roubini</a> é uma delas. Desde 2008 disse que a crise seria longa e teria idas e vindas.</p>
<p>Quando sou chamado a analisar respostas de governos à crise, sempre me lembro de um modelo de análise de sistemas aplicado com muito sucesso a crises na gestão empresarial. Chama-se “ajustes que desajustam”. Ações de caráter que imaginam corretivo, sem alcance estrutural, podem aliviar a crise temporariamente, mas tendem a agravá-la, em seguida, provocando novos desajustes. Se os que tomam as decisões continuam com esse mesmo padrão de respostas, cria-se um círculo vicioso de ajustes que levam a novos desajustes, com um efeito bola de neve. Ou seja, a crise se agrava a cada rodada e esse agravamento pode adquirir uma tendência exponencial. (Veja a imagem).</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Ajustes-que-desajustam.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2525" title="Ajustes que desajustam" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Ajustes-que-desajustam.jpg" alt="" width="509" height="473" /></a></p>
<p>É o que tem ocorrido, desde antes da crise da subprime. No colapso das hipotecas, a reação imediata dos governos foi definir pacotes fiscais de estímulo econômico, para evitar uma recessão pior da que já estava contratada. A ideia é que esses pacotes comprariam tempo para que fossem implantados novos padrões de regulação financeira e bancária, domésticos e globais, que reduziriam o risco estrutural de novas crises como essa se repetirem no futuro. Esses pacotes eram, no conjunto, paliativos mesmo. Buscavam apenas evitar o agravamento da recessão. É verdade que vários países aproveitaram para introduzir estímulos a mudanças estruturais que incentivassem novos investimentos na chamada <a href="http://www.greatenergychallengeblog.com/blog/2011/02/25/back-to-a-global-green-recovery-plan/">“economia verde”</a>, com subsídios à inovação e à pesquisa e desenvolvimento.</p>
<p>O país que mais olhou para o futuro ao desenhar seu pacote de estímulos foi a Coreia. Segundo algumas estimativas 81% dos incentivos foram para a economia verde. A União Europeia no conjunto destinou 59% às novas energias e tecnologias de baixo carbono. A China, 38%. Hoje, é o país que mais investe em energias renováveis. No EUA, estima-se que 12% tiveram esse destino. Em 2010, começaram a surgir os <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/07/14/economia-limpa-gera-empregos-no-eua/">empregos verdes</a>, decorrentes desses investimentos propostos por Obama. (Veja a tabela).</p>
<p><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Estímulos-economia-verde1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2533" title="Estímulos economia verde" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Estímulos-economia-verde1.jpg" alt="" width="509" height="473" /></a></p>
<p>Investimentos que, a partir de 2008, deram impulso adicional à ordem econômica do futuro. Mas esses empurrões têm sido insuficientes e sofrem descontinuidades por causa dos surtos de agravamento da crise.</p>
<p>A mais recente manifestação da crise, na Europa &#8211; Grécia &#8211; e no EUA &#8211; impasse fiscal &#8211; mostrou a complexidade do problema e ajuda a entender porque não surgem respostas mais estruturais. A crise é complexa porque ela é sistêmica &#8211; financeira e fiscal &#8211; atinge todo o sistema financeiro e o desempenho fiscal de praticamente todos os países. E é global. A crítica trivial de que a crise não é mundial porque tem seu epicentro nos países desenvolvidos é superficial e inútil. Vivemos uma economia interligada e interdependente. O colapso de qualquer parte ameaça todas as outras de crise. De início, imaginou-se que só problemas nas partes maiores do sistema repercutiriam por todo ele. Agora já se sabe, basta uma Grécia.</p>
<p>O outro elemento de complexidade desta crise, cuja superação definitiva marcará a transição da ordem econômica e política do século 20 para a nova ordem do século 21, é político. Não é apenas a estrutura do capitalismo financeiro global que entrou em colapso. As estruturas estatais com seus mecanismos regulatórios e fiscais também estão dando sinais de esgotamento e disfunção. Vivemos o desmoronamento regulatório e fiscal do estado. Mas não é só uma crise de estado. É também um crise do sistema político. A governança e a governabilidade vão mal em todos os cantos. Os autoritarismos vão se dissolvendo, espremidos entre o aumento da repressão à beira do genocídio e a revolta popular que a exacerbação da violência estatal não consegue mais sufocar. As democracias vivem um momento decisivo de agravamento de suas contradições internas e stress estrutural determinado por suas limitações. A insatisfação popular com o mau desempenho dos governos democráticos e sua incapacidade de oferecer soluções estruturais aos problemas concretos que afligem suas sociedades é generalizada. Há um problema crescente de qualidade das democracias em todo o mundo. Obama acertou na mosca quando disse que seu país não tem um sistema político AAA. Nenhum país tem. A ficção é que nesse contexto político-econômico existam mercados, empresas ou papéis AAA. Ou seja, sem risco. Ilusão, vivemos uma sociedade, uma economia e uma política de risco.</p>
<p>Um olhar estruturalmente orientado para o quadro global revela com toda a clareza os contornos desse processo de esgotamento estrutural dos modelos do século 20. E para deixar claro, o colapso do modelo socialista autoritário antecedeu o do capitalismo vigente como parte desse processo. As estruturas mais rígidas se vão primeiro. O capitalismo, por ser mais dinâmico, é mais adaptável. Mas não é invulnerável.</p>
<p>Vivemos tipicamente uma transição. Há uma revolução científica e tecnológica em curso. Novas tendências demográficas redesenham o perfil etário das sociedades. A sociedade digitalizada, com amplas possibilidades oferecidas por esse estágio tecnotrônico da humanidade e a socialização da vida digital, muda os <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/02/22/as-revoltas-do-seculo-xxi-e-o-dialogo-digital/">padrões de sociabilidade e de ação coletiva</a>. Esses processos em curso já apontam rumos possíveis dessa transição e dão noção de sua magnitude.</p>
<p>Dou exemplos. Os avanços notáveis em nanotecnologia permitirão radical substituição de materiais na indústria manufatureira como um todo, dos componentes aos produtos finais; dos eletrônicos aos automotivos. A nanotecnologia vai afetar estruturalmente as indústrias química, metalúrgica, alimentar, ótica, farmacêutica, de equipamentos cirúrgicos, militar, entre muitas outras. A genômica e a biotecnologia terão ampla penetração em numerosas dimensões, da energia à saúde; das fibras aos fármacos. A revolução na medicina, para a qual contribuirá também a terapia celular, com base nas células-tronco, aumentará significativamente a expectativa de vida das pessoas, com implicações profundas para a demografia, a economia, a sociedade, o bem-estar humano, o ambiente. As tecnologias digitais e de comunicação, a realidade aumentada, o avanço das redes e mídias digitais, crowd e cloud sourcing, a computação em nuvem, terão forte impacto cultural, político e social. Como o tipo móvel de Gutenberg revolucionou a cultura, quebrou o monopólio da escrita e da leitura, popularizou a bíblia, desaguando na Reforma e nas revoluções liberal-democráticas. Os avanços na neurociência, na robótica, na terapia celular abrirão novos horizontes de possibilidades para a vida humana.</p>
<p>A mudança será provavelmente mais radical que a transição da Idade Média ao Renascimento. Mais revolucionária, economicamente, que a mudança do mercantilismo para o capitalismo. É visível que estamos caminhando para uma nova revolução industrial, muito mais profunda e radical por causa do conteúdo da mudança científica e tecnológica e da convergência e interconectividade das novas tecnologias que vão surgindo e afetando todos os campos da atividade humana.</p>
<p>O agravamento da mudança climática  demarca os rumos necessários da mudança na economia, na energia, no uso da terra e de recursos naturais. Há caminhos vedados, não pela dinâmica de interesses, ou por bloqueio dos setores dominantes da sociedade. Esses serão também superados nessa transição. Os obstáculos são físicos. Estão dados pela possibilidade real e concreta de um cataclismo climático.</p>
<p>Esse lado da complexa conjuntura que vivemos tem dados muito semelhantes aos do lado político e econômico. Só não nos acostumamos ainda a olhá-los do mesmo modo e, mais importante, examiná-los conjuntamente. Vivemos uma crise climática desde 2005. São <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/07/29/perda-economica-no-eua-pode-ser-a-maior-da-decada-em-2011/">sete anos</a> consecutivos de eventos climáticos extremos associados a tragédias humanas e sociais, com perdas de vida em número crescente, em várias partes do mundo, e destruição patrimonial significativa.</p>
<p>A crise econômica tende a se agravar com o impasse político no EUA, na Europa e a política de ajustes que desajustam. A solução para a dívida foi paliativa. O quadro piora com o rebaixamento do EUA pela Standard and Poors. Os Treasure Bonds continuam sendo nível de investimento, mas perderam a hegemonia de padrão de referência que tinham desde que essas avaliações começaram. Em síntese, perdeu-se a referência para o que constitui uma dívida de qualidade, de baixo risco. Em consequência teremos mais incerteza e mais risco. A necessidade de ajuste fiscal, tanto no EUA, quanto na Europa, reduzirá o ritmo de crescimento das economias, portanto a receita tributária, afetando, em decorrência, a capacidade de pagamento das dívidas  aumentando a desconfiança e a volatilidade dos mercados. O pagamento das dívidas representará mais sacrifício para as populações, portanto, mais insatisfação popular, logo mais instabilidade política. Tudo isso é inevitável. Está na lógica do movimento. Sem decisões de natureza estrutural esse é o curso praticamente sobredeterminado da conjuntura nos próximos anos.</p>
<p>Com esse agravamento da crise econômica e a redução da capacidade decisória dos governos, muitos deles mergulhados em crises de legitimidade, outros enfrentando períodos eleitorais complicados, conflituosos e incertos, não há cenário bom para a política global do clima. As decisões crucialmente necessárias do ponto de vista científico para que possamos enfrentar a ameaça da mudança climática extrema serão adiadas.</p>
<p>Esse não é um cenário de apocalipse como pode parecer. É um cenário de mudança. Não seria diferente de uma análise em tempo real da transição que marcou o fim das estruturas aristocráticas do século 19 e que levou a uma longa transição. O processo de dissolução das estruturas aristocráticas começou com as revoluções do final do século 18 e só terminou, de fato, após a primeira guerra. Uma boa análise das crises dos anos 1890-1910 mostraria eventos interdependentes levando a uma trajetória de mudança avassaladora, com muita violência, dor e sofrimento. A novas estruturas que foram se consolidando nesse processo levaram o mundo, no século 20, a um ciclo espetacular do progresso, com seu apogeu no final dos anos 1990. Houve um surto curto de crescimento posterior. Foi um soluço.</p>
<p>Vivemos uma nova conjuntura de crises articuladas. Já experimentamos muita violência, dor e sofrimento. Provavelmente há ainda mais por vir. Mas o que isso tudo indica não é o fim do mundo. É o fim de uma era histórica. Uma transição, por longa que seja. Temos alguma capacidade de, com nossas escolhas coletivas, abreviar essa transição. Mas não temos como estancá-la, nem como bloquear a nova ordem. Esses macromovimentos das placas tectônicas da história, sobretudo quando associam fatores físicos, econômicos, sociais, políticos, científicos e tecnológicos, muitos deles determinantes, são inexoráveis. Também não temos forças para conduzir a mudança e definir a fisionomia da nova ordem que surgirá desse movimento. Somos parte dele, somos protagonistas de parte dos impasses e das mudanças, mas não somos capazes de controlá-lo de acordo com nossa vontade.</p>
<p>Parafraseando o inspirado Caetano, tudo está fora de ordem na ordem mundial. Só que não na nova. Nessa, na qual vivemos. E vem aí uma nova ordem global, nova de cabo a rabo. Pouca coisa restará, como vestígio, dessa que estamos deixando para trás.</p>
<p>A nova ordem é inevitável. Já nasceram parte daqueles que viverão nela a maior parte de suas vidas. Não temos como determinar quando ela chegará, nem como ela será. Mas que uma nova ordem global está a caminho, está.</p>
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		<title>A morte de bin Laden: uma análise imediata</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 16:02:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
A operação que matou Osama bin Laden foi cuidadosamente planejada para não falhar. Um fracasso teria péssimas repercussões políticas nos Estados Unidos, que ingressa no clima de eleições presidenciais. Mas seria pior ainda do ponto de vista estratégico em um momento de tensões múltiplas e abalos significativos na ordem geopolítica global.
Uma falha dessa natureza [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>A operação que matou Osama bin Laden foi cuidadosamente planejada para não falhar. Um fracasso teria péssimas repercussões políticas nos Estados Unidos, que ingressa no clima de eleições presidenciais. Mas seria pior ainda do ponto de vista estratégico em um momento de tensões múltiplas e abalos significativos na ordem geopolítica global.<span id="more-1913"></span></p>
<p>Uma falha dessa natureza complicaria a posição dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque e poderia fortalecer a autoconfiança de grupos terroristas anti-EUA. O sucesso tem uma importante carga efetiva e simbólica do ponto de vista estratégico. Acontece em um momento em que grande parte do mundo árabe pede mais democracia. Pode dar a Obama a razão final para terminar a retirada do Iraque e começar a saída do Afeganistão. Afinal as tropas dos Estados Unidos entraram no Afeganistão, após o 11 de setembro, para derrubar o governo talibã, aliado dos terroristas, capturar Bin Laden e derrotar a Al Qaeda. Bush falhou nesse intento e, ao dar prioridade à invasão do Iraque logo em seguida, enfraqueceu a visão e a capacidade operacional dos militares e do aparato de inteligência e contra-terrorismo de seu país, permitindo a fuga de Bin Laden para o Paquistão e o fortalecimento do Talibã, como força de resistência no Afeganistão.</p>
<p>Por isso a operação foi tão demorada e cuidadosamente planejada. Muito ao contrário do estilo Bush, que tomou seguidas decisões açodadas e sem suficiente informação, a operação que Obama determinou à CIA foi discreta, paciente e cuidadosa. O presidente foi informado da descoberta do complexo que tinha alta probabilidade de ser o esconderijo do líder da Al Qaeda em setembro do ano passado. Segundo <a href="http://thelede.blogs.nytimes.com/2011/05/02/following-the-reaction-to-bin-ladens-death/">relatos</a> à imprensa de altos funcionários do establishment de inteligência, segurança nacional e doméstica, na madrugada de ontem, desde meados de fevereiro, encontros intensivos com Obama na Casa Branca determinaram que havia informação sólida o suficiente para agir.  A partir de março, Obama passou a conduzir reuniões de planejamento e avaliação do Conselho de Segurança Nacional. No dia 29, Obama deu a ordem para que executassem a operação.</p>
<p>Em seu <a href="http://www.whitehouse.gov/blog/2011/05/02/osama-bin-laden-dead">pronunciamento</a>, ontem, no East Room da Casa Branca, às 23:35 horário de Washington, Obama disse que em meados de agosto foi informado de que havia uma pista da possível localização de bin Laden. O presidente disse que pouco depois de tomar posse determinou a “Leon Panetta, o diretor da CIA, que fizesse da captura ou morte de bin Laden a principal prioridade” na guerra contra a Al Qaeda, “mesmo que continuássemos nossos esforços mais amplos para desarticular, desmantelar e derrotar sua rede”. Foram precisos, disse o presidente, meses para confirmar e precisar essa pista e, finalmente, “na semana passada, determinei que havia informação suficiente para agir e autorizei uma operação para encontrar bin Laden e traze-lo à justiça”. Obama contou, ainda, que um pequeno time de americanos realizou a operação, sem baixas. “Após um tiroteio, eles mataram Osama bin Laden e assumiram a custódia de seu corpo”.</p>
<p>Até a divulgação da operação foi cuidadosamente preparada e ensaiada. Quem comparar a carta de Leo Panetta aos funcionários da CIA, os depoimentos dos funcionários destacados para falar à imprensa, transcritos pelo New York Times <a href="http://thelede.blogs.nytimes.com/2011/05/02/following-the-reaction-to-bin-ladens-death/">aqui</a>, com o pronunciamento de Obama, verá que usam os mesmos termos e sequência de eventos. Essa comunicação planejada claramente tem dupla intenção política. Uma, evidentemente, é ter impacto no campanha de Obama pela reeleição que, com esse episódio, o início da recuperação da economia e as divisões republicanas, vai ficando cada vez mais certa. A segunda intenção é estratégica e não visa apenas a Al Qaeda e os grupos terroristas anti-EUA. Ela certamente pretende ter efeito sobre a operação militar conduzida no momento pela OTAN na Líbia contra Muamar Al Kaddafi, mas que tem participação central dos Estados Unidos.</p>
<p>O recado é claro. Nesse tipo de operação, o objetivo é atingir fatalmente a liderança e reduzir ao máximo as operações propriamente militares, de confronto em escala. Um oficial dos Estados Unidos, aparentemente envolvido na operação no complexo localizado em Abbottabad, perto de Islamabad, no Paquistão, disse que ela foi <a href="http://www.reuters.com/article/2011/05/02/us-obama-statement-idUSTRE74107920110502">desenhada para matar</a> bin Laden, não para capturá-lo. Vamos ser realistas e claros: a prisão e julgamento de bin Laden constituiria um <a href="http://www.newyorker.com/online/blogs/newsdesk/2011/05/killing-osama-was-it-legal.html">processo complexo</a>, contraditório, perigoso e demorado.</p>
<p>Toda guerra é suja. O terrorismo é sujo. A guerra antiterrorista é suja. Todas são moralmente condenáveis.</p>
<p>A ação antiterrorista tem elementos específicos: acaba utilizando métodos muito próximos aos que o inimigo usualmente utiliza. O assassinato, a eliminação física de lideranças é parte indissociável desse tipo de ação. Levada a extremos, como aconteceu no governo Bush, resvala facilmente para a tortura e para a supressão dos direitos individuais. Obama, que fez campanha contra a tortura e o desrespeito aos direitos civis, traçou limites algo difusos para as operações dessa natureza em seu governo, embora tenha reduzido a violência contra prisioneiros e a frequência das violações a direitos individuais. Mas a incapacidade de fechar Guantanamo, a retomada do julgamento militar de civis acusados de terrorismo e essa ação, aparentemente desenhada para matar e não capturar bin Laden, mostram que não está disposto a relaxar tanto assim a política de segurança.</p>
<p>É claro que essa questão envolve a necessidade de alguma dose de <em>realpolitik</em>. Um país alvo de terroristas, ainda que tenha contribuído com suas ações para provocar reações extremas, não pode deixar sua população vulnerável. Os tipos de operações de segurança que ameaças dessa natureza pedem não podem variar muito. Nesse mundo é impossível ficar com as mãos limpas, de lado a lado.</p>
<p>As consequências da morte de bin Laden provavelmente irão, como disse, muito além de um fechamento do longo processo iniciado com o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, e à determinação de desarticular e derrotar a Al Qaeda. Pelo menos três questões estratégicas devem ser consideradas.</p>
<p>Primeiro, como indicado acima, pode ser utilizada como um elemento da operação política e psicológica em apoio à ação militar na Líbia. Até ontem, a convicção dominante entre os analistas, de todas as persuasões, era de que seria pouquíssimo provável derrubar Kaddafi sem uma invasão completa, por terra, e a ocupação de Tripoli e outras cidades importantes. Agora, Washington mostrou que uma operação limitada, com recursos de inteligência bem coordenados e a ação executada por um comando de forças especiais &#8211; parece que em Abbottabad foi um grupo da ‘Navy Seals’ &#8211; focada na captura ou morte do líder inimigo é alternativa viável. Não estou dizendo que a Casa Branca está contemplando essa possibilidade na Líbia, mas que esse tipo de ação surge no cenário como alternativa concreta.</p>
<p>As principais tentativas desse tipo no passado fracassaram. O sucesso indica que houve melhora na qualidade da inteligência e muito avanço tecnológico. Não por acaso, a NGA &#8211; Agência Nacional de Inteligência Geoespacial foi citada como importante recurso no sucesso da operação contra bin Laden. Há informações de que, na gestão Obama, diminuiu a notória competição entre as agências e aumentou o grau de cooperação interagência.</p>
<p>A segunda questão estratégica tem a ver com a própria Al Qaeda. A reação de lideranças muçulmanas hostis aos Estados Unidos foi de tratar bin Laden como mártir. Grupos jihadistas que não negaram sua morte, disseram que ela não põe fim à Jihad contra o EUA, porque ela não tem a ver com pessoas. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, chamou bin Laden de “mártir” e “guerreiro sagrado”. Em comunicado oficial, a organização condenou o que caracterizou como “assassinato de um santo guerreiro árabe”. É claro que para a Al Qaeda e outros grupos que compartilham sua causa e seus métodos, a morte de bin Laden é um duro golpe emocional e político. Também revela que o aparato de inteligência dos Estados Unidos evoluiu e que o sistema de segurança desses grupos tem falhas que os enfraquece diante desse aparato renovado. Esse golpe acontece em um momento que os movimentos fundamentalistas estão enfraquecidos pelas revoltas no mundo árabe a favor da democracia, envolvendo grandes maiorias e expressivas frações minoritárias todas muçulmanas. É um momento de fragilidade política dos radicais e fortalecimento das forças muçulmanas pacifistas e mais democráticas.</p>
<p>A Al Qaeda não é mais, há muito tempo, a mesma organização que comandou o 11/9. Ela se fragmentou e cresceu, tornou-se multiétnica, mais difusa ideologicamente e a liderança de bin Laden se tornou muito mais motivacional e política, que operacional e militar. A Al Qaeda já nem é a mais ativa organização terrorista. Certamente, com esse golpe ela vai se fragmentar ainda mais e perder força. Provavelmente, diante da nova conjuntura no mundo árabe, mais pacifista e democrática, e da nova capacidade de ação antiterrorista, o terrorismo se caracterizará por grupos menores, sem lideranças centrais, mais isolados, sem países aliados capazes de lhes dar abrigo, cobertura e financiamento. Grupos mais incontroláveis e radicais, mas também menos eficazes e mortais.</p>
<p>Finalmente, uma questão estratégica envolve o Paquistão. Logo que começaram a circular as notícias da morte de bin Laden, na noite de ontem, autoridades paquistanesas procuraram os correspondentes estrangeiros para dizer que havia sido uma operação conjunta, com participação de forças paquistanesas. Tudo indica que não foi e que o governo do Paquistão só foi avisado após o sucesso da missão. O complexo de bin Laden fica muito próximo a uma base de cadetes, em Abbottabad, e as imagens e descrições mostram que era uma construção de alta segurança, obviamente muito além do que se utilizaria para uma residência particular. O presidente Obama disse que telefonou ontem à noite para o presidente Zardari e que o seu time também falou com suas contrapartes paquistanesas. É curiosa e eloquente a conclusão de Obama: “eles concordam que este é um dia bom e histórico para nossas nações. E, indo adiante, é essencial que o Paquistão continue a se unir a nós na luta contra a Al Qaeda e seus afiliados”. Ou seja, houve conversa a posteriori e um recado delicado e preciso de que os Estados Unidos esperam que o Paquistão também tenha aprendido a lição.</p>
<p>Esse episódio significativo acontece em um momento de fluidez e mudança na geopolítica global. Um período de grandes incertezas políticas e econômicas. De intensa transição científica e tecnológica. É parte dessa grande transição que vivemos e que desenhará os verdadeiros contornos geopolíticos, econômicos e sociais do século XXI.</p>
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		<title>O inesperado gerou novo cenário global e o risco é sistêmico</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2011 23:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
O risco geopolítico alto por causa da instabilidade no Oriente Médio e Norte da África somou-se ao risco econômico elevado pelo desastre no Japão e ao risco financeiro ainda não debelado, acompanhado por déficits públicos elevados em grande parte dos países desenvolvidos, crise da dívida pública em vários países europeus e desequilíbrio cambial. Países [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches</p>
<p>O risco geopolítico alto por causa da instabilidade no Oriente Médio e Norte da África somou-se ao risco econômico elevado pelo desastre no Japão e ao risco financeiro ainda não debelado, acompanhado por déficits públicos elevados em grande parte dos países desenvolvidos, crise da dívida pública em vários países europeus e desequilíbrio cambial. Países emergentes como China e Brasil também mostram problemas como pressão inflacionária, nos dois casos, artificialidade cambial na China e desequilíbrio nas contas públicas no Brasil.<span id="more-1752"></span>É possível que estejamos diante de uma elevação do risco do sistema global pela convergência de processos naturais, econômicos e políticos, alguns inesperados e incontroláveis como o desastre no Japão.</p>
<p>O desastre japonês tem dois lados igualmente complexos. Um é a repercussão na economia política do país e do mundo dos estragos no momento incomensuráveis advindos da combinação entre um violento terremoto de grande magnitude e um tsunami devastador. Os dois destruíram infra-estrutura, subverteram toda a logística do país, romperam cadeias de suprimento, interromperam atividades econômicas, destruíram ativos significativos.</p>
<p>Só para se ter uma idéia da extensão desses danos econômicos, o <a href=" http://ow.ly/4dKPd ">Ipad 2</a>, recém lançado pela Apple com estrondoso sucesso no EUA e ansiosamente esperado em outros mercados, tem entre seus componentes dois chips fornecidos, em parte, por fábricas que estão na região atingida. O suprimento pode ser afetado por tempo indeterminado, embora fábricas em outras localidades continuem produzindo os chips. É que a demanda pelos iPads é forte e deve crescer.</p>
<p>A <a href="http://bit.ly/fVr4ml">crise nuclear</a>, que abrange seis <a href="http://goo.gl/Z4YAe">usinas atômicas</a> japonesas e chegou a <a href="http://bit.ly/hRn87c">situação crítica</a> em uma delas, a <a href="http://bit.ly/hRn87c">unidade 3</a> de Fukushima, já alterou todos os planos de investimento nos mercados mais sérios a respeito de <a href="http://gu.com/p/2nm6d/tf">segurança</a>, como <a href="http://www.nytimes.com/2011/03/14/science/earth/14politics.html?_r=2&amp;hp">EUA</a>, União Européia, Austrália e  Nova Zelândia. Certamente terá impacto muito negativo nas ações de empresas do setor nuclear e nos fundos que detenham papéis de empresas de energia nuclear. <a href=" http://bit.ly/gI67YV">Na Alemanha</a>, planos de investimento no setor já voltaram para a prancheta e a chanceler Angela Merkel determinou revisão geral do sistema de segurança de todas as usinas nucleares do país. Algumas delas provavelmente serão fechadas. Aliás, pelos menos três das usinas japonesas, nas quais foi injetada água do mar, podem ter que ser abandonadas, por causa do efeito corrosivo da água marinha.</p>
<p>O efeito desses dois desastres, o natural e o nuclear, na indústria de seguros e resseguros será também devastador.</p>
<p>Esses eventos totalmente inesperados somam-se à crise continuada no Oriente Médio e Norte da África, que tem profundas implicações geopolíticas de médio e longo prazo, com potencial para afetar o preço do petróleo de forma sustentada. Ontem a Liga Árabe decidiu por unanimidade pedir ao Conselho de Segurança da ONU uma área de restrição aérea sobre a Líbia (no-fly zone). Se o CS tomar essa decisão, ela implica, necessariamente, em bombardear as bases aéreas de Kadaffi e suas instalações anti-aéreas. Ou seja, um ato de combate. Não se sabe exatamente qual seria a reação de Kadaffi. Ele aproveitou a tragédia japonesa e a vacilação dos países da OTAN para deflagrar um <a href="http://nyti.ms/i4QXf5">ataque geral e sangrento</a> contras os rebeldes, na esperança de debelar a revolta antes que a decisão do CS seja tomada. Mas os rebeldes, embora recuando, estão se reagrupando e, aparentemente, recebendo armas e munições de setores anti-Kadaffi da região. O que pode ser um complicador para além da continuidade da beligerância, pois esses setores, no caso de saída do ditador, podem aumentar sua influência no governo que venha a substituí-lo.</p>
<p>No Bahrein, o aumento da rebelião popular, levou o governo para o <a href="http://on.ft.com/ibS3JJ">caminho do confronto</a> e não da negociação, como se esperava. Ele pediu ajuda aos países do Golfo Arábico e há notícias de que tropas da Arábia Saudita estão em seu território para ajudar na repressão. O governo saudita havia, dias antes, reprimido duramente manifestações de protesto em duas regiões, uma delas de grande concentração xiita, na fronteira com o Bahrein. A maioria na Arábia Saudita é sunita mas, em Bahrein e no Iraque, as maiorias são xiitas. A repressão saudita em Bahrein pode se revelar um grave erro estratégico porque pode acirrar o conflito xiita-sunita. Neste caso, sunitas de outro país estariam atacando a população xiita de Bahrein. Pode desestabilizar o rei Hamad bin Issa al-Khalifa em Bahrein e complicar o quadro na Arábia Saudita.</p>
<p>Essa situação de maior instabilidade pode <a href="http://bit.ly/hsQiBZ">consolidar o patamar</a> de US$ 100.00 p/b para o preço do petróleo e contribuir para as tendências recessivas oriundas de outras crises. Já se fala, por toda a UE, em risco de estagflação.</p>
<p>É  um cenário de alto risco, que não estava nos cálculos e que pode adquirir contornos sistêmicos pelos efeitos dinâmicos de cada uma das crises nas demais. Do ponto de vista de duração, esse cenário ainda está em aberto. A se confirmar essa contaminação sistêmica, como se sabe, o resultado é sempre maior que a soma das partes.</p>
<p>O grau de incerteza aumentou muito. Situações complexas, de alta capacidade de dano político, econômico, social, humanitário e físico, sobre as quais há grande incerteza, estão, por definição, no ponto mais elevado na escala de risco. Risco tem a ver com incerteza, imprevisibilidade e pouco conhecimento de causas ou efeitos. É o que estamos vivendo atualmente.</p>
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		<title>De volta à &#8220;recuperação verde&#8221; da economia?</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Feb 2011 18:18:51 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
Revolta na África do Norte e no Oriente Médio provoca um surto de aumentos no preço do petróleo. Esse aumento tem reflexos negativos e positivos. Deveríamos aproveitar a ambos para incentivar o crescimento verde.
A elevação do preço do petróleo não tem teto. Há especialistas dizendo que ele pode bater em US$ 150.00 o barril. [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Revolta na África do Norte e no Oriente Médio provoca um surto de aumentos no preço do petróleo. Esse aumento tem reflexos negativos e positivos. Deveríamos aproveitar a ambos para incentivar o crescimento verde.<span id="more-1720"></span></p>
<p>A elevação do preço do petróleo não tem teto. Há especialistas dizendo que ele pode bater em US$ 150.00 o barril. Pode ir além disso. Essa estimativa certamente não inclui instabilidade grave na Arábia Saudita. Mas a monarquia gerontocrática da família Saud tem futuro curto e é pouco provável que os filhos de Abdul-Azys, todos octogenários, consigam promover uma sucessão tranquila para os netos de Abdul-Azys. Embora na Arábia Saudita a renda da maior produção mundial de petróleo permita ao rei pagar uma mesada a cada cidadão, a revolta anda batendo em suas fronteiras. Já há alguns esboços de manifestação em Ryad. Se a revolta chega às ruas do país, o preço do petróleo não terá teto previsível.</p>
<p>Além disso, é pouco provável que ele caia rapidamente abaixo da marca dos US$ 100.00. A rebelião ainda está nas ruas. Os manifestantes voltaram à praça Tahrir, no Cairo, descontentes com a lentidão das reformas prometidas pelo Conselho Militar. Os revoltosos continuam ativos no Iêmen, em Bahrein, no Irã e na Jordânia. Na Líbia, o massacre já fez mil vítimas e está longe de terminar. Depois da derrubada das ditaduras, ainda haverá um caminho longo para construir uma governança estável, que respeite as liberdades e os direitos dos cidadãos. Será um caminho turbulento, com prováveis surtos de instabilidade. Esse contexto instável manterá alto o patamar de preço do petróleo.</p>
<p>Qual a consequência negativa dessa elevação sustentada dos preços do petróleo? Provavelmente ela <a href="http://www.guardian.co.uk/business/2011/feb/22/oil-price-surge-risk-global-recovery-iea">interromperá</a> a recuperação da economia no EUA e na Europa. Além disso, petróleo em alta alimenta o processo inflacionário, que já está em curso por causa do impacto dos eventos climáticos extremos do ano passado e início deste ano na produção (queda) e preço (alta) dos alimentos. Embora ainda não seja este o cenário mais provável, já não se pode descartar um ciclo de estagflação, se as políticas econômicas não derem respostas mais sofisticadas do que as que têm sido dadas. Certamente não há de ser com as medidas anunciadas na última reunião de ministros da Finança do G20 em Paris, que conseguirão enfrentar essa nova realidade que se desenha para a economia global.</p>
<p>O que pode haver de positivo nisso? O caminho é retornar à ideia de uma &#8220;recuperação verde&#8221; das economias investindo em tecnologias e energias limpas e em atividades geradoras de emprego como a construção verde e as reformas de prédios para reduzir sua pegada de carbono, transportes públicos com veículos elétricos, trens de alta velocidade.</p>
<p>Hoje, ao contrário do que ocorreu na primeira crise do petróleo, há alternativas viáveis aos combustíveis fósseis. A alta do petróleo estimula o investimento nessas tecnologias de energia limpa renovável. As ações das empresas de energia solar e eólica já estão subindo nas bolsas de Nova York e da Europa. Com esse preço de petróleo, essas fontes são mais que competitivas. O mesmo é verdade para o biocombustível de segunda geração, que não compete com culturas alimentares.</p>
<p>Além disso, o pipeline &#8211; a cadeia &#8211; de geração de novas tecnologias, que vai do P&#038;D até a produção comercial, está cheia de alternativas para energias limpas renováveis em toda sua extensão. Há numerosos projetos em estágio de P&#038;D; grande número já em fase de demonstração; um bom número em teste piloto. Os investimentos nessa cadeia já estão aumentando significativamente. O resultado é que a entrada de novas alternativas tecnológicas no mercado de energia pode ser acelerada, antecipando os cenários que previam que elas deveriam estar disponíveis entre 2020 e 2030. Agora, provavelmente, muitas poderão estar disponíveis entre 2012 e 2015 e uma segunda onda poderá emergir entre entre 2015 e 2020.</p>
<p>No Brasil, tudo indica que não aproveitaremos essa oportunidade. A Petrobrás já anunciou que não haverá aumento na gasolina, acompanhando o movimento dos mercados internacionais. Portanto, o preço da gasolina terá subsídio ainda maior do que já tem. A safra de cana de 2010-2011 cresceu <a href="http://www.biocana.com.br/index.php/noticia/visualizar/aumento-de-area-de-cana-no-centro-sul-e-tres-vezes-menos-em-20102011">três vezes menos</a> do que a de 2009-2010, segundo mostrou análise de dados de satélite do INPE. E o mix de plantio está enviesado para a produção de açúcar, cujo preço internacional está elevado. A oferta de álcool será menor, o preço maior. Os carros flex serão abastecidos a gasolina, aumentando as emissões de CO2 e a poluição. Coisa que, aliás, já <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/02/16/aumenta-consumo-de-combustiveis-no-brasil-mas-cai-o-consumo-de-etanol/">aconteceu no ano passado</a>.</p>
<p>Não há também intenção de dar prioridade à energia solar e eólica na geração de eletricidade. Provavelmente vamos perder mais esta parada do trem para o século XXI na nossa porta. Mas o mundo deve embarcar nele, inclusive nossos concorrentes do BASIC, Índia e China.</p>
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		<title>Fórum Econômico Mundial em declínio não dá importância à mudança climática</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 14:20:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
Desde 2009 mudança climática perdeu centralidade na agenda do Fórum Econômico Mundial. É verdade que o Fórum também vem perdendo importância e prestígio. Na reunião que encerrou na semana passada, mudança climática foi tema para participantes de agências multilaterais ou governos envolvidos com as COPs.
No painel principal sobre mudança climática, falaram os presidentes do [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches<br />
Desde 2009 mudança climática perdeu centralidade na agenda do Fórum Econômico Mundial. É verdade que o Fórum também vem perdendo importância e prestígio. Na reunião que encerrou na semana passada, mudança climática foi tema para participantes de agências multilaterais ou governos envolvidos com as COPs.<span id="more-1623"></span></p>
<p>No painel principal sobre mudança climática, falaram os presidentes do México, Felipe Calderón, por ter sido o organizador político da COP16, em Cancún, o presidente da África do Sul, que exerce esse papel para a COP17, em Durban, a secretaria-executiva da Convenção do Clima, Christiana Figueres e a Comissária para Mudança Climática da União Européia, Connie Hedegaard. <a href="http://www.huffingtonpost.com/2011/01/27/davos-2011-forum-greater-_n_815048.html ">Disseram</a> que as empresas, principalmente no EUA, precisam se envolver mais no esforço global para desacelerar a mudança climática e ajudar a pressionar os políticos a implementarem políticas que promovam o crescimento verde.</p>
<p>Há empresas globais que estão seriamente envolvidas nesse esforço. Outras, embora adotem atitude pública a favor de  políticas de mitigação da mudança climática, financiam os que atacam a credibilidade da ciência climática e os lobbies que bloqueiam legislação mais abrangente, principalmente nos Estados Unidos. Mas o que fica bem claro analisando as últimas reuniões de Davos, os cenários futuros apresentados ao Fórum e a hierarquia de riscos globais, que mudança climática perdeu espaço na agenda. O auge de atenção para o tema no Fórum foi em 2008 e, principalmente, 2009, na onda de expectativas sobre Copenhague.</p>
<p>A única referência mais substantiva ao tema do aquecimento global foi um <a href="http://www3.weforum.org/docs/WEF_ClimateChange_WorldTradeDiscussionPaper_2010.pdf">texto para discussão</a> preparado pelo Fórum, sobre mudança climática e comércio internacional. Não chega a ter muita novidade, nem aprofunda as questões. Pede um acordo global sobre o clima que ajude a dissipar as incertezas sobre as políticas nacionais e a legalização pela OMC dos subsídios que induzam o desenvolvimento de uma economia verde. </p>
<p>O <a href="http://www.weforum.org/ ">Fórum Econômico Mundial</a> perdeu repercussão, influência e prestígio. Já não tem grande importância ou espaço na política econômica global. O declínio do G-8 como arena decisória da política econômica global. As visões econômicas no centro da agenda política se multiplicaram com a afirmação do <a href="http://www.g20.org/index.aspx ">G20</a> como a principal arena de negociação econômica global e o recurso ao Fórum das Maiores Economias (<a href="http://www.majoreconomiesforum.org/">Major Economies Forum</a>) como uma espécie de reunião extraordinária do G20 para as emergências, eles têm a mesma composição. Essa multiplicação de visões econômicas faz com que seja cada vez mais difícil firmar consenso dominante no plano global para orientar políticas econômicas locais.</p>
<p>A crise da subprime e seus desdobramentos reduziu fortemente o peso do setor financeiro como fator de decisão econômico. Essa crise em andamento, a ameaça de regulação restritiva e a própria impossibilidade de se impor uma visão consensual para a economia global enfraquecem a influência do capital financeiro na arena política global. Ele tem grande dificuldade de operar sem uma visão dominante. As próprias nações do capitalismo avançado têm hoje políticas econômicas muito diferentes entre si e não estão de pleno acordo sobre como lidar com alguns dos problemas de curto e médio prazo enfrentados pelo capitalismo global, como a crise e a regulação do mercado de capitais e a crise do Euro.</p>
<p>A multiplicidade de visões de política econômica nos principais centros econômicos globais &#8211; desenvolvidos e emergentes &#8211; deixa o setor empresarial sem referência única. As empresas tendem a adotar visões distintas até por força da competição entre elas e da heterogeneidade de situações nas diferentes cadeias produtivas: umas têm um largo futuro pela frente, outras tendem a desaparecer até meados do século. Um fórum como o de Davos não consegue processar tamanha polifonia. Ele foi pensado para emitir mensagens convergentes, para formar consensos entre os principais agentes do capitalismo global e influenciar os governos mais poderosos. A multiplicidade de vozes e visões torna o consenso impossível e reduz a eficácia do fórum. Ele tende a se tornar mais um dos vários centros de debates existentes, uma exposição para o novo mosaico que caracteriza a segunda década do século XXI, uma década tipicamente de transição, portanto, de tensa convivência entre o velho e o novo, de heterogeneidade de caminhos e de incerteza crescente. </p>
<p>A mudança climática acaba perdendo espaço nessa busca infrutífera de uma visão comum. Para encontrar convergências, é preciso adotar teses tão gerais e amplas, que elas perdem substância e não fazem sentido como matéria prima para o pensamento estratégico. A agenda da mudança climática que é mais ampla e exigente, cede lugar para uma pauta de energia limpa, mais focada e menos abrangente.</p>
<p>O que é preocupante é que esse deslocamento da preocupação com o aquecimento global do centro para a periferia da agenda estratégica dos mercados e dos governos, não ocorre apenas no Fórum Econômico Global, cuja influência está em declínio. Ocorre, também, nas arenas de negociação global, cuja influência e poder estão em ascensão, como o próprio G20. No discurso sobre o Estado da União, do presidente Obama, na semana passada, ele fez exatamente esse movimento de saída da agenda da mudança climática para uma proposta de energia limpa para o EUA.</p>
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		<title>O G20 pode fazer de Cancun um sucesso?</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Nov 2010 14:19:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
As lideranças do G20 disseram em comunicado que “não pouparão esforço algum para alcançar um resultado equilibrado e bem sucedido em Cancún”. Será que isso pode mesmo acontecer?O G20 sem dúvida tem o poder de fazer com que Cancún dê resultados significativos. Eles usarão esse poder? Os governantes dos países membros incluíram na “Declaração [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches</p>
<p>As lideranças do G20 disseram em comunicado que “não pouparão esforço algum para alcançar um resultado equilibrado e bem sucedido em Cancún”. Será que isso pode mesmo acontecer?<span id="more-1272"></span>O G20 sem dúvida tem o poder de fazer com que Cancún dê resultados significativos. Eles usarão esse poder? Os governantes dos países membros incluíram na “Declaração da Cúpula de Seoul” um parágrafo aparentemente forte sobre as negociações do clima. Nela dizem que:</p>
<blockquote><p>&#8220;Reafirmamos nosso compromisso determinado de combater a mudança climática, tal como refletido no “Documento das Lideranças da Cúpula de Seoul”. Apreciamos as informações do presidente Felipe Calderón sobre o status das negociações na Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, assim como a informações do primeiro-ministro Meles Zenawi quanto ao relatório do Grupo Consultivo de Alto Nível sobre o Financiamento para a Mudança Climática, apresentado ao Secretário-Geral da ONU. Não pouparemos esforço algum para alcançar um resultado equilibrado e bem sucedido em Cancún.”</p>
<p>Da <a href="http://www.seoulsummit.kr/eng/boardDetailView.g20?boardDTO.board_seq=2010110000003391&amp;boardDTO.board_category=BD02&amp;boardDTO.menu_seq="><strong><em>Declaração de Seul</em></strong></a></p></blockquote>
<p>Para termos uma pista do que eles podem fazer em Cancún, devemos olhar primeiro o que foi realmente feito em Seul sobre o desequilíbrio cambial global. Esta crise é problema mais premente, que requer ação imediata e coordenada. O diagnóstico econômico dos desequilíbrios correntes está claro, suas causas também são sabidas.  As ações que devem ser tomadas são bem conhecidas e já se provaram eficazes em mais de uma ocasião. Tudo isso levaria a esperar uma declaração clara, direta, prática e operacional, dizendo o que deve ser feito, por quem e em que prazo. Não uma nota diplomática escrita para atender a qualquer circunstância e dando a todos uma desculpa para optar por não fazer o que precisa ser feito.</p>
<p>O quadro decisório é muito similar ao da mudança climática. É tipicamente uma situação em que cada jogador diz para o outro: “Eu faço, se você fizer mais”; ou “Eu faço a minha parte depois que você fizer a sua”. As posições são definidas com base na avaliação pelos atores da ‘responsabilidade primária’ de cada um dos outros pelo que aconteceu e pelo que continua a acontecer. Este é um jogo sem resultado ótimo. Só tem soluções sub-ótimas. Em outras palavras, uma situação que leva à decisão de empurrar com a barriga.</p>
<p>Vejamos o que os governantes puseram no papel sobre políticas fiscais, reformas financeiras e políticas monetárias e cambiais, os três pilares de uma solução efetiva para a crise:</p>
<blockquote><p>“<strong>Políticas Fiscais</strong>: As economias avançadas formularão e implementarão planos de consolidação fiscal de médio prazo, claros, críveis, ambiciosos e pró-crescimento em linha com os compromissos de Toronto, diferenciados de acordo com as circunstâncias nacionais. Temos consciência do risco do ajustamento sincronizado para a recuperação global e do risco de que o fracasso na implementação da consolidação, onde imediatamente necessária, possa minar a confiança e o crescimento.</p>
<p><strong>Reformas Financeiras</strong>: Nós nos comprometemos a agir nos níveis nacional e internacional para elevar os padrões e assegurar que nossas autoridades implementem os padrões globais até agora desenvolvidos, consistentemente, de forma que assegurem igualdade de condições, a busca dos melhores resultados e evitem a fragmentação dos mercados, o protecionismo e a arbitragem regulatória. Em particular, nós implementaremos plenamente os novos padrões para capitalização dos bancos e liquidez e enfrentaremos problemas do tipo “grande demais para quebrar”. Nós concordamos em aprofundar os trabalhos sobre reformas regulatórias para o setor financeiro.</p>
<p><strong>Políticas Monetárias e Cambiais</strong>: Reafirmamos a importância dos compromissos dos bancos centrais com a estabilidade de preços, dessa forma contribuindo para a recuperação e o crescimento sustentado. Nós marcharemos rumo a sistemas cambiais mais determinados pelo mercado e à flexibilidade cambial para refletir os fundamentos econômicos subjacentes e restringir a desvalorização competitiva das moedas. As economias avançadas, incluindo aquelas com reservas cambiais, serão vigilantes contra o excesso de volatilidade e movimentos desordenados nas taxas de câmbio. Essas ações em conjunto ajudarão a mitigar o risco de excessiva volatilidade nos fluxos de capitais que ameaçam as economias de alguns mercados emergentes.</p>
<p>Não obstante, em circunstâncias nas quais países estejam enfrentando sobrecargas indevidas de ajustamento, as respostas das políticas de países emergentes com reservas adequadas e taxas de câmbio flutuantes sobrevalorizadas podem também  incluir medidas macro-prudenciais cuidadosamente formuladas. Nós  revigoraremos nossos esforços para promover um sistema monetário internacional estável e em bom funcionamento e pedimos ao FMI para aprofundar seu trabalho nessas áreas.”</p>
<p>Do <a href="http://www.seoulsummit.kr/eng/boardDetailView.g20?boardDTO.board_seq=2010110000003391&amp;boardDTO.board_category=BD02&amp;boardDTO.menu_seq="><strong><em>Documento da Cúpula de Seul</em></strong></a><strong><em>: Quadro de Referências para o Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado</em></strong></p></blockquote>
<p>Os trechos acima dispensam comentários. A Cúpula de Seul não conseguiu decidir sobre um conjunto claro de ações concretas para enfrentar a chamada “guerra cambial”. Os parágrafos de detalhamento falam do que já foi feito, sem efeito; do que foi decidido, mas não implementado; e de tarefas futuras. Uma história conhecida de lideranças que assumem compromissos vagos em fóruns globais, não adotam qualquer ação concreta em casa, apenas para se encontrar novamente e prometer que implementarão o que não conseguiram implementar antes. Foi exatamente o que aconteceu com o “financiamento de uso imediato” acertado em Copenhague. Ele foi decidido, mas não foi desembolsado.</p>
<p>Por que deveríamos esperar que as lideranças do G20 serão mais  afirmativas e  decididas em Cancún? Por que deveríamos esperar que Cancún seja mais bem sucedida que Seul, e vá além de Copenhague?</p>
<p>Essas lideranças foram generosas em palavreado e promessas ao redigir os parágrafos relacionados à mudança climática no Documento de Seul. Sobre o fim do subsídio para combustíveis fósseis, medida clara e direta que poderia ajudar a acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, aprovaram o seguinte:</p>
<blockquote><p>“<strong>Subsídios para Combustíveis Fósseis</strong>: Reafirmamos nosso compromisso de racionalizar e terminar, no médio prazo, os subsídios ineficientes para combustíveis fósseis que encorajam o excesso de consumo, com o prazo baseado nas circunstâncias nacionais, ao mesmo tempo oferecendo apoio focalizado para os mais pobres. Nós determinamos a nossos ministros de Finanças e Energia para nos relatar sobre os progressos alcançados na implementação de estratégias específicas a cada país e na realização das metas sobre as quais concordamos em Pittsburgh e Toronto, na Cúpula de 2011 na França.”</p>
<p>Do <strong><em>Documento da Cúpula de Seul: Quadro de Referências para o Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado</em></strong></p></blockquote>
<p>“Médio prazo” e “prazo baseado nas circunstâncias nacionais”, além de outros termos similares, dão a qualquer país uma opção de escape legítimo, baseada  na interpretação subjetiva de “médio” e “circunstâncias”. Chance de sucesso próxima de zero.</p>
<p>Em seguida, o que eles disseram no comunicado sobre mudança climática e a economia de baixo carbono:</p>
<blockquote><p>“<strong>Mudança Climática e Crescimento Verde</strong>: Enfrentar a ameaça da mudança climática global é uma prioridade urgente para todas as Nações. Reiteramos nosso compromisso de adotar medidas fortes e voltadas para a ação e continuar totalmente dedicados às negociações da ONU sobre mudança climática. Reafirmamos os objetivos, provisões, e princípios da Convenção Quadro sobre Mudança Climática da ONU (UNFCCC), incluindo as responsabilidades comuns porém diferenciadas e capacidades respectivas. Agradecemos ao México por hospedar as negociações da UNFCCC em Cancún, começando no final de Novembro de 2010. Aqueles de nós que nos associamos ao Acordo de Copenhague reafirmamos nosso apoio a ele e à sua implementação. Estamos todos comprometidos a alcançar um resultado bem sucedido e equilibrado que inclua os temas centrais da mitigação, transparência, financiamento, tecnologia, adaptação, e preservação florestal. Nesse sentido, nós recebemos com satisfação o trabalho do Grupo Consultivo de Alto Nível sobre o Financiamento para a Mudança Climática criado pelo Secretário-Geral da ONU e pedimos a nossos ministros das Finanças que levem em consideração o seu relatório. Também apoiamos e encorajamos o desembolso dos compromissos do financiamento de uso imediato.</p>
<p>A perda continuada de biodiversidade é um desafio ambiental e econômico global. Mudança climática e perda de biodiversidade estão inextricávelmente ligados. Reconhecemos os resultados do estudo global sobre a economia dos ecossistemas e da biodiversidade. Recebemos com satisfação a conclusão bem sucedida da  COP10 em Nagoya.</p>
<p>Estamos comprometidos em apoiar as políticas nacionalmente conduzidas de crescimento verde que promovam o crescimento global ambientalmente sustentável junto com a criação de empregos, ao mesmo tempo que asseguram acesso dos pobres à energia. Reconhecemos que o crescimento verde sustentável, na medida em que é uma parte inerente ao crescimento sustentado, é uma estratégia de desenvolvimento de qualidade, permitindo aos países saltar etapas e ultrapassar tecnologias superadas em muitos setores, incluindo o recurso à eficiência energética e o uso de tecnologia limpa. Para esse fim, daremos os passos necessários para criar, quando apropriado, os ambientes propiciadores, que conduzam ao desenvolvimento e provisão de eficiência energética e tecnologias de energia limpa, incluindo políticas e práticas em nossos países e além fronteiras, inclusive transferência de tecnologia e capacitação.</p>
<p>Nós apoiamos as iniciativas em curso sob o Grupo Ministerial de Energia Limpa e encorajamos discussão adicional sobre cooperação em P&amp;D e medidas regulatórias, com a participação de lideranças empresariais, e pedimos ao nosso Grupo de Especialistas em Energia que monitore o progresso alcançado e nos reporte na Cúpula de 2011 na França. Nós também nos comprometemos a estimular o investimento em tecnologia de energia limpa, eficiência no uso de energia e de recursos, transportes verdes e cidades verdes, mobilizando recursos financeiros, estabelecendo padrões claros e consistentes, desenvolvendo políticas energéticas de longo prazo, apoiando a educação, o empreendedorismo e P&amp;D, e continuando a promover colaboração além fronteiras e coordenação de abordagens legislativas nacionais.”</p>
<p><strong><em>Documento da Cúpula de Seul: Quadro de Referências para o Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado</em></strong></p></blockquote>
<p>Um misto de literatura diplomática e promessas sem qualquer ação real por trás.</p>
<p>“Também apoiamos e encorajamos o desembolso dos compromissos do financiamento de uso imediato.” O financiamento de uso imediato foi decidido por essas mesmas lideranças &#8211; com a exceção do primeiro-ministro do Reino Unido &#8211; em Copenhague, e era para estar plenamente disponível a partir do início deste ano. Nada aconteceu. É mesmo o caso de dizerem que apóiam e encorajam sua provisão? Não seria apenas questão de assinar alguns cheques?</p>
<p>Os elementos que nos poderiam ajudar a ter alguma idéia do que pode acontecer em Cancún não estão nos comunicados de cúpulas globais ou no que ocorreu nos encontros preparatórios da UNFCCC. Devemos procurar por eles no âmbito da política interna. A questão relevante é se houve alguma mudança nas circunstâncias políticas de cada país que possa afetar a posição dos principais atores nas negociações sobre o clima.</p>
<p>A resposta é sim para um bom número de atores poderosos. No EUA, o presidente Obama perdeu a maioria na Câmara e mal que mal conseguiu manter uma ligeira vantagem no Senado. Agora, vive o contexto do que a análise política conhece em seu país como “governo dividido”. O presidente no EUA não tem o poder de iniciar legislação. É monopólio do Congresso. O Capitólio foi invadido por uma onda republicana e a nova bancada republicana é maior e mais conservadora que a anterior. O Congresso ficou mais hostil a qualquer legislação sobre mudança climática do que era quando Obama já não foi capaz de aprovar um projeto de energia limpa, proposto por senadores em acordo com a Casa Branca.</p>
<p>No Reino Unido, a nova coalizão impôs cortes danosos aos programas ambientais, para mudança climática e para ciência. Conversei recentemente com um professor de Cambridge que dirige importante programa sobre economia de baixo carbono, o qual transfere know how para as empresas. Ele me disse que espera “muita mudança”, para pior, com os cortes orçamentários. “Estamos perdendo nossos melhores quadros e desativando programas importantes”. O diretor de uma organização britânica que oferece consultoria e financiamento para as iniciativas de baixo carbono das empresas me disse que também está sentindo os efeitos dos cortes. Sua organização está reduzindo programas e perdendo pessoal.</p>
<p>A União Europeia está emaranhada nas crises fiscais e financeiras de vários países membros. Na França, o presidente Sarkozy enfrenta crescente insatisfação social. Na Alemanha, Angela Merkel perde popularidade e luta para manter coesa a sua coalizão. (A Reuters acaba de circular um <a href="http://www.reuters.com/article/idUSTRE6AB24W20101112">Especial</a> muito interessante sobre a chanceler Merkel.)</p>
<p>No Brasil, nos preparamos para a presidência de Dilma Rousseff. Ela foi eleita cavalgando a mística do PAC. Quase tudo no PAC tem alta pegada de carbono. Em Copenhague, como chefe da delegação brasileira, mostrou-se avessa a qualquer avanço na posição brasileira e manietou a ação dos nossos negociadores. A posição brasileira só mudou depois que o presidente Lula chegou.</p>
<p>Analisei em detalhe o que aconteceu com os principais atores na COP15, no meu livro recente <a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3068509/copenhague-antes-e-depois/?ID=BACDC9D67DA0B0C11022B0155">Copenhague Antes e Depois</a>.</p>
<p>A lição mais importante que aprendemos em  Copenhague foi que as lideranças se comprometerão globalmente com o que negociaram em casa. Não assumirão compromissos novos, em reuniões globais, que depois imporão em seus países. Isso significa que as metas e os compromissos globais têm que ser politicamente aprovados internamente, com antecedência. Somente então, teremos metas mais significativas do que em Copenhague. Só quando essas metas e compromissos se tornam leis no plano nacional, elas serão implementadas e obedecidas. E nada disso aconteceu em país algum. Um acordo vinculante que não esteja refletido em um conjunto de leis nacionais é uma impossibilidade política. Basta examinar o Protocolo de Kyoto. Faz parte da legislação internacional, mas é realmente vinculante? Que poder assegura que seja obedecido? A União Europeia está na frente do resto do mundo em políticas de redução de emissões, porque tem o seu próprio programa compulsório aprovado e em execução. Não é porque obedece ao inócuo Protocolo de Kyoto.</p>
<p>O que podemos esperar de Cancún é progresso localizado em algumas áreas, construindo uma ponte para negociações mais objetivas no futuro, na COP17 ou na COP18. Nenhuma mudança real é provável, no campo da política climática, antes que o desequilíbrio econômico global esteja resolvido. Nenhum país ou grupo de países assumirá compromissos adicionais em fóruns globais, antes de tê-los aprovado nacionalmente.</p>
<p>É irrealista imaginar que o presidente Obama será capaz de negociar uma lei efetiva  sobre mudança climática, no Congresso recentemente eleito. Teremos provavelmente que esperar para ver se será reeleito. Se for reeleito e a situação econômica melhorar, então poderá ter nova chance de persuadir o Congresso a votar uma lei sobre mudança climática. Se ela for além dos compromissos assumidos em Copenhague, então ele aprofundará o comprometimento global do EUA.</p>
<p>É pouco provável que, já presidente, Dilma Rousseff  dê mais apoio a políticas e posturas ambientais e sobre mudança climática do que deu quando era a todo-poderosa Chefe da Casa Civil e tocou com mão de ferro os programas governamentais. Foi ela que bateu o martelo na maior parte dos projetos do PAC e todo o modelo energético foi desenhado sob sua autoridade.</p>
<p>Não há fatos novos que levem a liderança chinesa a mudar de atitude em Cancún. Ninguém consegue saber de fato o que acontecerá com a política chinesa global para mudança climática quando assumir a nova liderança, sobre a presidência de Xi Jinping, a partir de 2012.</p>
<p>Todos os principais atores da política global para o clima têm razão para apenas manter as posições que adotaram em Copenhague. É pouco provável que Cancún vá muito além de onde chegou Copenhague. Será uma espécie “encontro ponte”, que nos levará, sem muitas perdas e danos, à próxima estação de negociações.</p>
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		<title>Você sabe, a complacência voltou…</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2009 02:18:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[crise]]></category>
		<category><![CDATA[G20]]></category>
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Acabou a crise? A economia global está muito diferente do que era antes da tragédia? Os governos fizeram o dever de casa? Estamos mais seguros agora? Sérgio AbranchesEu examinei várias análises econômicas da crise financeira global no aniversário da queda do Lehman Brothers.
A maioria se resume ao seguinte: a. as projeções para a crise foram muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p>Acabou a crise? A economia global está muito diferente do que era antes da tragédia? Os governos fizeram o dever de casa? Estamos mais seguros agora? Sérgio Abranches<span id="more-270"></span><span style="font-family: Helvetica, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; line-height: normal; font-size: 15px;">Eu examinei várias análises econômicas da crise financeira global no aniversário da queda do Lehman Brothers.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A maioria se resume ao seguinte: a. as projeções para a crise foram muito pessimistas; b. o pior já passou; c. a economia mundial está se recuperando, ainda que devagar; d. o estímulo fiscal funcionou; e. os governos, porém, não adotaram as regras de precaução e a reforma do quadro regulatório que se haviam mostrado necessárias. Alguns criticaram o volume excessivo de recursos comprometidos com os estímulos fiscais, especialmente no EUA. Outros dizem que a Alemanha, por exemplo, não fez o suficiente esforço fiscal para estimular sua economia. Houve elogios moderados à coordenação fiscal entre as maiores economias, basicamente no âmbito do G20. O desempenho do FMI e do Banco Mundial também recebeu avaliação positiva.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Foi tudo assim tão bom mesmo?</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Os cenários de crise foram de fato mais pessimistas do que a realidade se mostrou. Quem acredita nisso, não pode aceitar a crítica de que o estímulo fiscal foi excessivo, porque ele foi dimensionado com base nos cenários de fim de mundo apresentados aos governos e parlamentos pelos economistas e pelos gênios dos gigantes financeiros em perigo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alguns analistas argumentam que o tamanho dos pacotes fiscais de países como o EUA e o Japão levarão a uma segunda fase da crise, marcada por alta inflação. Porque a crise reverteu mais rápido que o esperado e foi menos que o tsunami previsto por muitos cenários, os estímulos fiscais ficaram superdimensionados em ambos os países. Alta inflação levará a políticas fiscais e monetárias mais conservadoras que trarão de volta a recessão.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alguns outros, em menor número, são ainda mais céticos sobre a afirmação de que o pior já passou. Ainda acreditam em um cenário no qual uma crise estrutural de longa duração, com altos e baixos de curta duração no seu interior, não pode ser totalmente descartado. Significando que haverá mais episódios de crise, após a recuperação atual, e antes que o pior fique para trás de verdade.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Confesso meu desconforto com os quadros mais róseos que pintam uma crise que já passou em definitivo. Também me preocupo com o risco de inflação e políticas contracionistas. Mas minha maior preocupação é com o que não mudou e com o que não aconteceu no momento que a quebra trouxe o pânico.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A morfologia do sistema financeiro mudou muito. Vários ícones do império financeiro de antes da crise não estão mais por lá. Wall Street ficou menos lotada e mais concentrada. No entanto, nada mudou realmente nas camadas mais profundas do sistema que determinam a maior parte do comportamento dos mercados financeiros. A mudança que ocorreu foi na superfície.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Mais ainda, a onda de choque teve consequências negativas mais duráveis no “andar de baixo”, sob a forma de empregos e negócios da economia real destruídos. Parte da riqueza perdida no andar superior, das altas finanças, eram poupança dos estratos médios mais jovens da sociedade, que financiariam a educação dos filhos, a casa própria, ou pequenos e médios negócios no futuro. Uma outra porção significativa da riqueza financeira perdida era para pagar a complementação de renda na inatividade e as aposentadorias dos estratos mais maduros da classe média. Esses são fatores de distúrbio a longo prazo, ainda por vir.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Uma fonte do mercado financeiro me disse que quase tudo está de volta em seu lugar, em Wall Street, na City de Londres e outros centros do império financeiro global. A complacência voltou, a aversão ao risco está cedendo, a busca de ganhos de curto prazo voltou. Vários daqueles que perderam seus empregos nas finanças estão de volta.  Enquanto isso, as economias reais se movem a um ritmo muito menor. Mesmo em países como o Brasil, onde muita gente, e especialmente os governos, acham que as coisas nunca foram realmente tão mal assim e que a recuperação foi rápida e completa, as feridas ao longo da economia real e nas casas dos desempregados ainda estão abertas e sangrando.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Esta semana, em New York, conversei com um cara que tem um pequeno negócio no setor de serviços. Eu havia estado com ele, lá mesmo, no auge da crise. Naquela época estava em desespero. Havia acabado de comprar casa nova próximo a New York, e estava tendo problemas com a hipoteca.  A casa estava com valor de mercado 40% abaixo do que ele havia hipotecado. Estava com medo de não ser capaz de pagar as prestações e com medo de ser capaz de pagar e dar mais dinheiro ao banco do que jamais conseguiria obter com a venda do imóvel no futuro. Lutava com o risco do despejo e com o risco de pagar mais do que o valor real da casa. Ele me contou que estava tentando renegociar a hipoteca, mas não conseguia sequer marcar uma entrevista com seu gerente no banco. “Ele está tendo que lidar com milhares de casos iguais ao meu”, me explicou.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Perguntei a ele, na última quarta-feira, se havia resolvido o problema da hipoteca. “Não, ainda estou esperando por uma resposta ao meu pedido de negociação”, respondeu. Mas ele não estava nem desesperado, nem ansioso. “Preenchi todos os papéis, o gerente finalmente me recebeu, agora estou esperando. As coisas estão melhorando devagarinho”, disse. “Os bancos não estão mais em crise, eles estão ganhando tanto dinheiro quanto antes, o valor dos imóveis está recuperando. A pressão diminuiu já não corro o risco de ser despejado. Eles estão demorando muito a me dar uma resposta, mas, você sabe, eles estão tendo muito trabalho, têm que processar milhares de casos como o meu”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Era o que minha fonte no mercado estava me dizendo também. Eles estão ganhando muito dinheiro e esquecendo as lições da crise. A complacência voltou.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">E a regulação? Eu vi o discurso do presidente Obama em Wall Street, no aniversário do colapso do Lehman Brothers. Ele repetiu todas as promessas em relação ao projeto de lei definindo um novo quadro regulatório para o setor financeiro, especialmente mirando nos setores e atividades que hoje estão fora do alcance de qualquer agência. Nada foi feito até agora. A reação entre os congressistas e os representantes do setor financeiro foi negativa. Muitos disseram que não há necessidade de mais regulação. Alguns viram até socialismo e estatismo nas palavras de Obama.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Os presidentes Obama, Sarkozy e Lula, e o primeiro ministro Gordon Brown prometem lutar por um quadro regulatório multilateral para transações financeiras globais, e por regras para a efetiva coordenação global macroeconômica e regulatória, no G20, em Pittsburgh, semana que vem.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O presidente Obama disse em seu discurso que a regulação doméstica não funcionará se não houver coordenação global e se todas as nações com papel relevante no mercado global de capitais não adotarem quadros regulatórios similares, para seus próprios mercados.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O primeiro ministro da Austrália, Kevin Rudd, e o presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, <a href="http://www.ft.com/cms/s/0/55fd681a-97f3-11de-8d3d-00144feabdc0.html?nclick_check=1"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;">fizeram várias recomendações</span></a></span><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;"> ao G20</span><span style="letter-spacing: 0.0px;"> sobre a coordenação macroeconômica necessária para administrar a transição da crise para a recuperação.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A história é simples: fizemos a parte fácil, com custos futuros, isto é, o estímulo fiscal, e ela funcionou, pelo menos para evitar uma depressão econômica mundial longa e profunda e para reverter a crise, no curto prazo. A tarefa pesada de construir um novo marco regulatório e promover a coordenação macroeconômica e regulatória no âmbito do G20 ficou por fazer.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Perguntei a um economista agora na vida universitária, mas que trabalhou em Wall Street por mais de três décadas e saiu pouco antes da crise, se ele acreditava que Obama conseguiria passar o projeto de lei regulatória. Ele respondeu que não. “A crise já passou, você sabe, a complacência voltou…”</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O politólogo Daniel Drezner, da Fletcher School of Law and Diplomacy, na Universidade Tufts, diz em <a href="http://drezner.foreignpolicy.com/posts/2009/09/03/ill_believe_in_macroeconomic_policy_coordination_at_the_g_20_when_i_see_it"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;">seu blog</span></a> na Foreign Policy que ele acreditará em coordenação macroeconômica no G20 no dia em que a vir acontecer. Digo o mesmo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Parece que o encontro do G20 discutirá duas decisões fundamentais que estão bloqueadas até agora e que têm a mesma lógica: reformas regulatórias e macroeconômicas, e um novo protocolo sobre mudança climática. Nos dois casos, esforços domésticos não darão resultados duráveis a não ser que todos os países relevantes adotem políticas similares, mesmo havendo espaço para alguma diversidade de ritmo e intensidade, e na ausência de efetiva coordenação global.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Não faço altas apostas no <a href="http://bloggingheads.tv/diavlogs/22515?in=08:30&amp;out=35:10"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;">papel do G20</span></a> em Pittsburgh para romper esses bloqueios, seja na reforma estrutural dos sistemas financeiro e econômico, seja no acordo global do clima. Mas estou pronto apostar algumas fichas de que a cúpula também não será uma perda total. Haverá algum progresso na compreensão comum de ambos os desafios e essa convergência de entendimento será muito importante no futuro próximo, quando eventos tanto econômico-financeiros, quanto climáticos vierem a exigir decisões muito mais duras do que aquelas que estamos preparados para tomar agora.<br />
</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Grandes empresas brasileiras se comprometem com política de redução de gases estufa</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 19:02:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[mudança climática]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[política global]]></category>

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Sérgio Abranches
Um grupo contendo algumas das maiores empresas brasileiras se reuniu em São Paulo nessa terça-feira, para  assinar uma “Carta aos Brasileiros sobre a Mudança Climática,” durante no seminário “Brasil e Mudanças Climáticas: oportunidades para uma economia de baixo carbono”, promovido pelo Valor Econômico e pela GloboNews.

Pode ter sido um momento histórico, quando uma porção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sérgio Abranches</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Um grupo contendo algumas das maiores empresas brasileiras se reuniu em São Paulo nessa terça-feira, para  assinar uma “Carta aos Brasileiros sobre a Mudança Climática,” durante no seminário “Brasil e Mudanças Climáticas: oportunidades para uma economia de baixo carbono”, promovido pelo Valor Econômico e pela GloboNews.</span></p>
<div><span style="font-family: Helvetica, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-size: medium;"><span style="line-height: normal;"><span id="more-228"></span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Pode ter sido um momento histórico, quando uma porção representativa da elite empresarial brasileira finalmente adere a uma política climática efetiva. Pode, também, se provar um blefe, caso tudo termine em maquilagem verde. Promessas têm pouco valor até começarem a ser cumpridas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A carta, entretanto, dá elementos para que se possa responsabilizar as empresas, pelas promessas feitas e não cumpridas. Se cumprirem, também terão credibilidade para pedir o registro público de seu diferencial. Elas se comprometem com ações concretas, embora não totalmente especificadas. Mas são claras o suficiente para os vigilantes vigiar e cobrar suas afirmações. E a sala estava cheia de vigilantes.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A carta foi assinada na base da adesão, não da negociação de termos. Entre os assinantes, pesos-pesados como Vale, Única, Aracruz, Suzano, Pão de Açúcar, e 17 outras. Entre elas grandes empreiteiras como Camargo Correia, Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS, todas envolvidas nos projetos ambientalmente mais controvertidos do governo. Muitas as signatárias são grandes exportadoras e algumas, como a Vale, globalizadas, com operações em vários países, atravessando os continentes. Estas sofrem diretamente as pressões do mercado internacional e os sinais de elevação das barreiras climáticas e ambientais.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Grandes multinacionais também pediram para assinar a carta, como a Wall Mart, mas uma decisão política dos organizadores a restringiu apenas a empresas brasileiras. Queriam evitar a crítica de que era “coisa de estrangeiro”. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">De acordo com o presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, “trata-se de um pacto formal”. O Ethos esteve na frente, junto com o Imazon, centro de inteligência e ação da Amazônia, na redação da carta-compromisso e na mobilização inicial das empresas. O presidente da Vale Roger Agnelli liderou a convocação das lideranças empresariais para aderirem à carta.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">As empresas que a assinaram formalmente se comprometeram a:</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">“Publicar anualmente o inventário das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) de nossas empresas, bem como as ações para mitigação de emissões e adaptação às mudanças climáticas. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Incluir como orientação estratégica no processo decisório de investimentos a escolha de opções que promovam a redução das emissões de GEE nos nossos processos, produtos e serviços.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Buscar a redução contínua de emissões específicas de GEE e do balanço líquido de emissões de CO2 de nossas empresas por meio de ações de redução direta das emissões em nossos processos de produção, investimentos em captura e sequestro de carbono e/ou apoio às ações de redução de emissões por desmatamento e degradação.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Atuar junto à cadeia de suprimentos, visando a redução de emissões de fornecedores e clientes.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; text-align: justify; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Engajar-nos junto ao governo, à sociedade civil e aos nossos setores de atuação, no esforço de compreensão dos impactos das mudanças climáticas nas regiões onde atuamos e das respectivas ações de adaptação.”</span><span style="font: 10.5px Helvetica; letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 10.5px Helvetica; min-height: 12.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">São promessas que poderão ser cobradas em breve. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Roger Agnelli, da Vale argumentou no seminário que o “mundo já está mudando, já mudou muito, e nós temos que mudar também, se quisermos manter nossa competitividade”. Ele insistiu que “todas as empresas terão que publicar seus balanços de carbono e o governo também terá que fazer o inventário nacional das emissões anualmente”. Agnelli afirmou que o “mundo já está em uma clara transição para uma economia verde”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Sua companhia, a Vale, está longe de ser uma empresa verde e ele terá que comandar profundas mudanças nela, para respeitar os compromissos que tem advogado ativamente nos últimos dois meses e que acabaram inscritos na carta. Vários presidentes de empresas presentes no ato de assinatura reconheceram publicamente que estavam respondendo a um chamado de Agnelli para a ação.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O co-presidente do conselho da Natura, Guilherme Leal, também um dos signatário, disse com ênfase no seminário, que o Brasil está seguindo um modelo de crescimento meio século XIX, meio século XX, e que “com esse modelo o país não será competitivo no século XXI”. Ele também lembrou que o PIB é um “péssimo indicador de qualidade de vida e desenvolvimento equitativo”, ao criticar o PAC. Ricardo Young, do Ethos, concordou. Ele tem papel ativo no lado brasileiro do Fórum Econômico Mundial, e disse que tem certeza de que  “em Davos, durante a próxima reunião do Fórum, serão discutidas alternativas ao PIB como alternativa para medir efetivamente a qualidade do desenvolvimento de cada país”.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Adalberto Veríssimo, do Imazon, que teve participação chave na redação das várias versões da carta, como principal consultor técnico do grupo que liderou todo esse processo disse que o Brasil carece de um “espaço para um diálogo permanente entre empresas, ambientalistas e governo sobre a economia de baixo carbono”.  Ele seria um instrumento importante, segundo ele, para implementar ações mais profundas e ambiciosas em relação à mudança climática. Também alertou para o fato de que a Amazônia não aguenta mais, “ela precisa da meta de desmatamento-zero até 2014, o único caminho para salvar a floresta e reduzir as emissões por desmatamento e degradação”. Vale lembrar que a meta do governo é insuficiente: 70% de redução do desmatamento até 2020.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A parte menos interessante e menos momentosa do evento foi protagonizada pelas autoridades governamentais, particularmente o ministro Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia, e o Secretário de Mudança Climática do Itamaraty, e negociador-chefe para mudança climática, Luiz Alberto Figueiredo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O ministro Sérgio Rezende, de quem é a responsabilidade pelo inventário de emissões, nem fazer o dever de casa para o seminário fez. Foi impreciso ao explicar porque só temos um inventário de emissões até 1994. Vago ao dizer quando será publicado o novo inventário, “com dados até 2002 ou 2004, não me lembro bem”. O relatório 1994-2004 não apresenta as dificuldades técnicas que ele alegou e está engavetado por razões estritamente políticas. O ministro disse que, embora o inventário não esteja concluído, “os dados existem e todo mundo conhece, apenas não estão publicados em um livrão”. Não é verdade que todo mundo conheça os dados, porém, mais importante, é que não é possível usar a sério dados não oficialmente publicados. Fica-se à mercê do desmentido político das autoridades governamentais. A realidade é que só se pode usar os dados publicados em 95, que vão até 1994. O novo relatório, cobrirá o “boom” pós Plano Real, mas não os anos de alto crescimento mais recentes: 2005-2008. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, disse que seu ministério desenvolveu um modelo para fazer estimativas confiáveis de emissões de carbono e que vai divulgar seus próprios números em breve, para os principais setores da economia brasileira. A Secretária para Mudança Climática do ministério, Suzana Kahn, parte do grupo de brasileiros que integra o IPCC, me disse que o relatório para a indústria sairá na semana que vem. Subsequentemente, o ministério divulgará as estimativas para agricultura e florestas (mudanças no uso da terra) e transportes.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Minc também confirmou que o Brasil levará uma meta de emissões a Copenhague, que “não será compulsória, mas será mensurável e verificável”. Em entrevista a André Trigueiro, da Globonews, mostrada no evento, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim disse que não é contra o Brasil aceitar um número máximo para suas emissões, com prazos, que seja “compatível com nossas necessidades de desenvolvimento”. O negociador-chefe do Brasil para mudança climática, Luiz Alberto Figueiredo, disse à platéia que discorda quando se diz que o Brasil está mudando de posição. “Estamos convergindo para um compromisso quantificável e verificável, à medida que as negociações vão chegando ao final”. Ele também argumentou que esse número não poderia ser considerado uma meta “em diplomatês”, porque não é um compromisso formalmente inscrito na parte compulsória do protocolo.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 12.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Alan Charlton, embaixador do Reino Unido no Brasil, me disse estar muito animado com a firmeza  e segurança com que os empresários brasileiros estavam defendendo essa nova postura. Ele vê também sinais de que há avanços na posição oficial do Brasil. </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Pela primeira vez, havia o sentimento de que se o governo brasileiro ainda não mudou sua posição, pode vir a mudar. Mas muitos continuam com sérias dúvidas sobre a real atitude do governo e de fato qual será o grau de comprometimento e cooperação que marcará a posição oficial brasileira em Copenhague.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A senadora Marina Silva me disse que “os intelectuais já mudaram, os povos da floresta já mudaram, os governadores da Amazônia já mudaram, agora as lideranças empresariais estão mudando. Só o governo está ficando para trás.” Bem, ele tem menos de 100 dias para mudar de atitude, antes que a COP-15 comece em Copenhague, com as negociações centrais já previamente fechadas, como é da praxe diplomática.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O governo está muito longe de ter uma posição adequada com relação à mudança climática e ao ambiente. O ministro Minc, por exemplo, está prestes a perder uma batalha relevante, confrontados por todos os outros ministros, inclusive a candidata do presidente Lula a sua sucessão, a ministra Dilma Roussef. Eles querem que o Ibama revogue a decisão sobre as compensações ambientais das termelétricas a carvão e diesel.  Minc me disse que está cada vez mais difícil resistir. Há muito lobby de grandes empresas e de políticos. O argumento é que retira competitividade das termelétricas porque eleva seu custo. Mas essa é a idéia.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O Ministério das Minas e Energia usa critérios tecnicamente equivocados nos leilões, que tornam as termelétricas da pior espécie de maior custo, competitivas, com enorme dano ambiental e climático. A regra do Ibama corrige esse erro, eliminando uma vantagem competitiva ilegítima para o uso de combustíveis fósseis e quer se certificar de que as absurdas emissões que elas representam serão de fato compensadas.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Investidores e empresas deveriam estar explorando os imensas potenciais eólicos e fotovoltaicos do país. Deveriam estar pedindo ao governo uma nova política de energia, que estimule essas fontes renováveis, em lugar de carvão e óleo diesel.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Grandes empresas &#8211; especialmente empreiteiras &#8211; o ministro dos Transportes, a ministra Dilma Roussef e o próprio presidente Lula mostram irritação com as exigências de compensação e precaução prévias feitas pelo ministério para a BR 319, Porto-Velho Manaus. Ela corta o coração de uma área de floresta ainda intocada. Minc nunca quis a rodovia, ele me disse pessoalmente mais de uma vez. Mas, diante da determinação presidencial de fazê-la, “o mínimo que podia fazer era exigir medidas de precaução e compensação prévias”. Ele já me havia dito anteriormente que o ministério já detectou aumentou significativo do desmatamento no início da estrada, onde o Exército está trabalhando para acelerar a obra.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">A BR 319 é um enorme erro técnico, econômico, logístico e ambiental. O Ministro dos Transportes insiste nela, porque pretende se candidatar ao governo do Amazonas. Isso apenas torna ainda mais suspeitas as motivações para a estrada.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O professor de logística do COPPEAD-UFRJ, Paulo Fernando Fleury, também do ILOS &#8211; Instituto de Logística e Supply Chain me mostrou uma avaliação recente das rodovias amazônicas ligadas à soja, que coordenou recentemente. elas são a pior opção modal do ponto de vista econômico, logístico e ambiental.  Seu custo de frete por tonelada é 1,7 vezes maior que das ferrovias e 2,3 vezes maior que das hidrovias. O prazo de retorno do investimento das rodovias é 14 anos, enquanto para ferrovias é de 9 anos e para hidrovias, 3 anos. As emissões dos gases estufa estudados são muito mais elevadas. Quando comparadas às ferrovias as emissões de N</span><span style="font: 10.0px Helvetica; vertical-align: -3.5px; letter-spacing: 0.0px;"><sub>2</sub></span><span style="letter-spacing: 0.0px;">O são 5,5; de NOx, 5,6; de CO</span><span style="font: 10.0px Helvetica; letter-spacing: 0.0px;"><sub>2</sub></span><span style="letter-spacing: 0.0px;">, 3,4; e de CO, 3,0 vezes maiores. Confrontadas com as emissões de hidrovias:  as de N</span><span style="font: 10.0px Helvetica; vertical-align: -3.5px; letter-spacing: 0.0px;"><sub>2</sub></span><span style="letter-spacing: 0.0px;">O são 16,7; de NOx, 15,9; de CO</span><span style="font: 10.0px Helvetica; letter-spacing: 0.0px;"><sub>2</sub></span><span style="letter-spacing: 0.0px;">, 5,0; e de CO, 8,3 vezes maiores.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O sentimento dominante no governo brasileiro ainda é antagônico à idéia de uma agenda de desenvolvimento tendo como eixo central a transição para uma economia de baixo carbono, o mais rápido possível. Esse sentimento negativo em relação às políticas de mudança climática está diretamente ligado às convicções pessoais do presidente Lula sobre o que o desenvolvimento realmente é.  Ele considera desenvolvimento grandes obras visíveis &#8211; barragens e rodovias, em particular &#8211; e rápido crescimento do PIB. ele tem grande preocupação com o emprego, mas parece cético com relação à criação de empregos verdes. Também não parece ver o risco de destruição de empregos com a manutenção de uma economia de alto carbono. Esse ceticismo provavelmente se deve à diferença de qualificações exigidas pelos empregos “verdes”, comparados aos empregos “cinzas”. O presidente conhece bem o que e necessário para criar empregos de “colarinho-azul“, mas talvez não esteja informado sobre o que é necessário para criara empregos de “colarinho verde”. Lula sabe o valor dos empregos de colarinho azul, mas os empregos verdes são uma entidade desconhecida para ele.</span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica; min-height: 18.0px;"><span style="letter-spacing: 0.0px;"> </span></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 15.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">O Brasil ainda tem um longo caminho para trilhas, antes que possamos dizer que está, realmente, no rumo de uma economia de baixo carbono. </span></p>
<p></span></span></div>
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		<title>China revê posição em relação aos gases que causam efeito estufa</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Aug 2009 11:44:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Os sinais de que a China deverá mudar de posição na Convenção do Clima. Deve adotar medidas para que suas emissões desacelerem a partir de 2020, para ter seu ápice em 2030 e, em seguida, começarem a cair. Comentário de Sérgio Abranches, na CBN.
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			</a>
		</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica;"><span style="letter-spacing: 0.0px;">Os sinais de que a China deverá mudar de posição na Convenção do Clima. Deve adotar medidas para que suas emissões desacelerem a partir de 2020, para ter seu ápice em 2030 e, em seguida, começarem a cair. Comentário de <a href="http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/sergio-abranches/SERGIO-ABRANCHES.htm"><span style="text-decoration: underline; letter-spacing: 0.0px color;">Sérgio Abranches, na CBN.</span></a></span></p>
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