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	<title>Ecopolitica &#187; glaciais</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>O Erro do IPCC</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 14:12:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Aquecimento global]]></category>
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Sérgio Abranches
O IPCC reconheceu na última quarta-feira que errou na estimativa sobre o desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Embora o erro não comprometa em nada as conclusões centrais de seus relatórios sobre mudança climática, ele exige do IPCC uma resposta mais extensa, mais firme e mais concreta do que um comunicado em linguagem burocrática tratando [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches</p>
<p>O IPCC reconheceu na última quarta-feira que errou na estimativa sobre o desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Embora o erro não comprometa em nada as conclusões centrais de seus relatórios sobre mudança climática, ele exige do IPCC uma resposta mais extensa, mais firme e mais concreta do que um comunicado em linguagem burocrática tratando o erro como um assunto menor. Não é.<span id="more-819"></span>As águas provenientes desses glaciares são essenciais para a sobrevivência de milhões de pessoas. Não é exagero dizer que, além da ideologia da “Grande China”, parte da insistência da China em manter o controle sobre o Tibete tem a ver com o fato de que lá estão as principais fontes de água não poluída da região. O destino dos glaciares do Himalaia não é uma questão periférica na discussão sobre os riscos climáticos no século XXI. Está relacionada ao aquecimento global de forma importante e à segurança de abastecimento de água. É uma questão geopolítica essencial.</p>
<p>A revelação desse erro ocorreu poucas semanas após o <a href="http://www.realclimate.org/index.php/archives/2009/11/the-cru-hack/">vazamento dos emails</a> do Headley Center da Unidade de Pesquisa Climatológica da Universidade de East Anglia (CRU), que provocou uma <a href="http://pajamasmedia.com/richardfernandez/2009/11/20/the-cru-hack/">campanha</a> concertada contra a <a href="http://michellemalkin.com/2009/11/20/the-global-warming-scandal-of-the-century/">integridade</a> da ciência do clima por parte dos que <a href="http://blogs.telegraph.co.uk/news/jamesdelingpole/100017393/climategate-the-final-nail-in-the-coffin-of-anthropogenic-global-warming/">negam</a> o aquecimento global. Os “céticos” falaram em conspiração, colusão, destruição de evidência científica.</p>
<p>No caso dos emails, a resposta substantiva dos cientistas não deixou muita dúvida sobre a validade dos procedimentos científicos postos sob suspeição. Os emails não eram evidência de fraude científica. No máximo mostravam que cientistas não têm, necessariamente, bons modos. Mas o vazamento deixou clara a desorganização e falta de cuidado com a documentação e transparência dos bancos de dados e seu tratamento estatístico.</p>
<p>O diretor de mudança climática do Met Office, Richard Betts, <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2009/12/14/caso-dos-emails-roubados-vai-terminar-com-ciencia-mais-transparente/">me disse</a> que o banco de dados do CRU será refeito de forma transparente e independente, para que não reste dúvidas sobre a qualidade da ciência nele baseada. Me disse, também, que os estudos do CRU-Universidade de East Anglia, passarão por completa revisão independente. Cientistas do Reino Unido e de outros países estão envolvidos em um esforço importante para proteger a credibilidade da ciência do clima e dos dados gerados pelo CRU e outras unidades de pesquisa mencionadas nos emails.</p>
<p>É essa a resposta que se espera sobre uma questão tão importante.</p>
<p>O caso do Himalaia é mais grave. Não de trata de vazamento ilegal de emails interpretados fora de contexto. Trata-se de um erro grave incluído no Documento Síntese oficial do IPCC para apoiar o processo de decisão sobre o Protocolo de Kyoto e a Convenção do Clima. Pede mais que uma sintética <a href="http://www.ipcc.ch/pdf/presentations/himalaya-statement-20january2010.pdf"> resposta burocrática</a>. Nela o IPCC diz que:</p>
<blockquote><p>Chegou, contudo, recentemente a nosso conhecimento que um parágrafo na página 938 da contribuição do Grupo de Trabalho II à avaliação se refere a estimativas não substanciadas da taxa de recessão e data de desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Na redação do parágrafo em questão, os padrões claros e bem estabelecidos de evidência requeridos pelos procedimentos do IPCC não foram aplicados de forma apropriada.</p></blockquote>
<p>A presidência, vice-presidências e co-presidências do IPCC lamentam a aplicação pobre dos procedimentos do IPCC já firmemente estabelecidos neste caso. Esse episódio demonstra que a qualidade da avaliação depende da adesão absoluta aos padrões do IPCC, incluindo a completa revisão da “qualidade e validade de cada fonte antes de incorporar os resultados da fonte ao Relatório do IPCC”. Nós reafirmamos nosso forte compromisso de assegurar esse nível de desempenho.</p>
<p>Muito pouco. No mínimo deveriam revelar os responsáveis e afastá-los de posições de decisão na redação do próximo relatório, o AR5.</p>
<p>Muitos cientistas ligados ao IPCC,<a href="http://bit.ly/649rQj"> inclusive no Brasil</a>, afirmam, com razão, que a credibilidade do IPCC não fica abalada com o episódio. Realmente, não é suficiente para desacreditar o IPCC. Mas não se deve subestimar a intensificação da campanha contra o IPCC e a ciência do clima. Os “céticos” conseguiram adesões e apoio na opinião pública informada, que haviam perdido, desde o que chamam de “climategate”.</p>
<p>O IPCC não é infalível, da mesma forma que a ciência também não é. Trabalha-se com hipóteses e padrões metodológicos rigorosos de uso de dados e aceitação de evidências. Os cientistas do clima têm que adotar padrões de conduta ainda mais rigorosas porque estão sob fogo adversário.</p>
<p>Mais importante ainda é que a integridade e a credibilidade da ciência do clima são elementos essenciais para dar substância a um acordo global sobre mudança climática, que lance as bases da arquitetura de governança climática global de que se precisa. Tanto as políticas de adaptação, quanto as de mitigação, têm que ser rigorosamente apoiadas na ciência e para isso a ciência tem que ter a confiança absoluta dos governos e da opinião pública.</p>
<p>Esse episódio tem uma lição também para as ONGs que passaram a divulgar trabalhos de pesquisa, sobretudo as globalizadas e de grande porte. Elas não estão isentas do uso dos padrões de verificação científica e avaliação de pares, quando fazem relatórios científicos. Precisam tomar cuidado com o que divulgam, porque ganharam muito peso e influência. São ouvidas e também têm uma reputação a cuidar.</p>
<p>Lendo as matérias na imprensa, fiquei com a impressão de que o relatório do WWF não deixava claro que se tratava de uma opinião em uma reportagem de divulgação científica. Fui checar.</p>
<p>A notícia de que o cientista indiano citado pela revista e pelo WWF havia feito uma “<a href="http://www.timesonline.co.uk/tol/news/environment/article6991177.ece">especulação</a>”, é posterior à publicação de ambos os textos. O reconhecimento do IPCC ocorre após publicação de matéria na <a href="http://www.newscientist.com/article/dn18363-debate-heats-up-over-ipcc-melting-glaciers-claim.html?DCMP=OTC-rss&amp;nsref=online-news">New Scientist</a> indagando como uma afirmação altamente contenciosa pode acabar em um relatório do IPCC.</p>
<p>A informação foi retirada de matéria da <a href="http://www.newscientist.com/article/mg16221893.000-flooded-out.html">New Scientist</a>, que entrevista o cientista indiano Syed Hasnain, sobre um trabalho que seria apresentado à Comissão Internacional sobre Neve e Gelo. Em outras palavras, não se tratava de evidência científica, mas da opinião de um cientista, em uma entrevista para uma reportagem. O <a href="http://www.panda.org/what_we_do/footprint/climate_carbon_energy/climate_deal/publications/asia_pacific.cfm?19092/An-Overview-of-Glaciers-Glacier-Retreat-and-Subsequent-Impacts-in-Nepal-India-and-China">relatório do WWF</a> disse, claramente, que a informação, depois incorporada ao relatório do IPCC, vinha de um artigo da New Scientist.</p>
<blockquote><p>A revista The New Scientist publicou o artigo “Flooded Out &#8211; Retreating Glaciers spell disaster for valley communities” em seu número de 5 de Junho de 1999. Ela citou o professor Syed Hasnain, então presidente do Grupo de Trabalho sobre Glaciologia do Himalaia da Comissão Internacional para a Neve e o Gelo, que disse que a maior parte dos glaciares da região do Himalaia “desaparecerão em 40 anos como resultado do aquecimento global”.</p></blockquote>
<p>É um caso exemplar do que não pode acontecer no trabalho de sistematização da informação científica pelo IPCC. O resultado é uma repercussão muito maior do que o caso justifica.</p>
<p>Mas jornalismo e política obedecem a outros padrões de verificação e uso de informação. Do ponto de vista de ambos esse caso tem relevância. É um alerta aos cientistas do clima sobre os riscos da politização da ciência. Esse encontro entre ciência e política, essencial para o sucesso dos esforços de enfrentamento do desafio climático global, requer muito rigor, precisão e atenção para o fato de que a ciência do clima não ficará mais restrita aos círculos acadêmicos e precisa aprender a ser mais transparente e inteligível.</p>
<p>PS. Lendo matérias adicionais, de jornais da Índia, fiquei sabendo que o cientista indiano citado na matéria da New Scientist, Syed Hasnain, que depois disse que havia feito apenas uma especulação, passou a trabalhar no TERI &#8211; The Energy and Resources Institute, cujo diretor-geral é Rajendra Pachauri, o presidente do IPCC. A opinião do cientista sobre o recesso mais rápido que esperado, publicada no Deccan Herald está reproduzida no site do TERI, <a href="http://www.teriin.org/index.php?option=com_teriinnews&amp;task=details&amp;sid=1100">aqui</a> e <a href="http://www.teriin.org/index.php?option=com_teriinnews&amp;task=details&amp;sid=1091">aqui</a>. Razão maior para uma resposta mais efetiva do IPCC ao episódio.</p>
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