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	<title>Ecopolitica</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>Sustentabilidade: tarefa para os líderes de mercado</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Mar 2010 17:30:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
A sustentabilidade não pode ser a busca solitária de um pequeno número de empresas dotadas de valores nobres. É resultado da ação coletiva dentro e entre as principais cadeias de suprimento da economia. No entanto, a liderança das maiores empresas é condição necessária para que se obtenha progresso real nessa busca.
Certa vez, eu falava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>A sustentabilidade não pode ser a busca solitária de um pequeno número de empresas dotadas de valores nobres. É resultado da ação coletiva dentro e entre as principais cadeias de suprimento da economia. No entanto, a liderança das maiores empresas é condição necessária para que se obtenha progresso real nessa busca.<span id="more-870"></span></p>
<p>Certa vez, eu falava a um grupo de executivos sobre corrupção, práticas ilegais, como desmatamento e trabalho escravo, e sustentabilidade. O argumento era que as firmas que admitem essas práticas podem ter sucesso por algum tempo, mas no longo prazo, fracassarão e cairão em desgraça. Já vi várias empresas que pareciam extraordinariamente pujantes virarem pó em questão de horas. O tema mais geral da conversa era gestão de risco e sustentabilidade, com foco no risco associado à mudança climática. A referência específica era o comportamento empresarial no mercado brasileiro. A audiência, um grupo muito seleto de CEO’s, ou presidentes de grandes empresas que pertenciam à cadeia de suprimentos de uma firma líder no seu segmento do mercado brasileiro.</p>
<p>Eu argumentava que o risco climático era uma ameaça real e presente e que demandava ação imediata das grandes empresas. Eles deveriam assumir imediatamente a liderança na transformação de suas cadeias de suprimento em cadeias sustentáveis, de baixo carbono. Eu queria passar a idéia de que a pegada de carbono de uma empresa está inapelavelmente ligada à pegada de carbono de sua cadeia de suprimentos. “Um elo sujo da cadeia suja a cadeia inteira”.</p>
<p>Dei vários exemplos da vida real dos problemas de sustentabilidade e responsabilidade social corporativa, na economia brasileira. O desmatamento na Amazônia estava ligado às exportações de soja e e carne. Logo, o desmatamento era parte indissociável da pegada de carbono desses setores e suas empresas. Pecuária, produção de soja, cana de açúcar e carvão vegetal estavam marcadas pelo uso de trabalho escravo. Mostrei como atividades ilegais e legais coabitavam as cadeias de suprimento desses setores. Como, por exemplo, produtores de ferro-gusa compravam minério de ferro legalmente de grandes mineradoras, carvão ilegal de desmatamento, da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal e da Caatinga, e vendiam legalmente seu produto a grandes siderúrgicas. As mineradoras e siderúrgicas estavam entre as melhores e mais competitivas empresas brasileiras, com fatias importantes de seus mercados globais. Ou como a cana de açúcar, cultivada e colhida usando trabalho escravo, entrava como insumo na produção de duas das principais commodities de exportação do país, o açúcar e o álcool.</p>
<p>Quando terminei de falar, um dos executivos, irritadíssimo, me perguntou, num tom de voz bastante alterado: “por que você faz isso? Por que você faz isso?” Ao olhar em torno da mesa redonda, percebendo que seus colegas estavam perplexos com sua reação, completou: “ Eu concordo com tudo o que ele disse. Concordo com tudo o que ele propôs. Mas, por que dizer dessa forma tão crua?”</p>
<p>Eu sei o que ele queria ouvir. Uma defesa inespecífica da sustentabilidade como uma lista genérica de bondades a fazer. Sem dar nomes. Sem apontar para as empresas líderes em suas cadeias de suprimento como as principais responsáveis pelos erros cometidos ao longo da cadeia. Exceto por uns poucos CEO’s estrangeiros que não tinham conhecimento sobre o Brasil, os outros todos sabiam que eu estava falando de coisas reais. Particularmente o nosso irritado executivo, que presidia uma empresa imersa em uma cadeia de suprimento cheia desses mesmos problemas. Para ele, eu não devia falar tão abertamente das mazelas que mancham setores avançados da economia brasileira.</p>
<p>Eu estou acostumado a esse tipo de reação, quando falo francamente sobre o mal comportamento empresarial em algumas audiências. As pessoas ficam ainda mais irritadas quando digo que uma grande empresa que está no mercado global e compra produtos ilegais é ainda mais responsável que as pequenas que cometem diretamente as ilegalidades. A lógica é simples. Quando se olha, por exemplo, para a cadeia de suprimentos do aço, o que se vê é uma situação de grande heterogeneidade e generalizada conivência. Grandes mineradoras globais que vendem para pequenas e médias guzeiras, para grandes siderúrgicas e para o mercado externo; as guzeiras compram carvão vegetal de desmatamento e vendem seu produto para grandes siderúrgicas. No resultado final dessa cadeia há produção sustentável e produção sem qualidade ambiental alguma. Há insumos legais e ilegais. Quem é responsável? Os elos pequenos e médios da cadeia ou os grandes e dominantes? Todos estão transgredindo leis e princípios. Os pequenos não podem sobreviver sem a complacência dos grandes. Mas os grandes podem se virar sem a presença dos pequenos e médios, de baixa qualidade. Os grandes teriam o poder de disciplinar os pequenos.</p>
<p>Não existe empresa sustentável se sua cadeia de suprimento não é sustentável, do princípio ao fim. Uma cadeia de suprimento insustentável é, em última instância, responsabilidade das maiores companhias que a integram, a montante e a jusante.</p>
<p>Os reguladores e fiscais no Brasil sistematicamente autuam mais os pequenos e médios que os grandes. Isso é inútil, na prática, e alimenta uma extensa rede de corrupção. Atuando com um pequeno grupo de grandes fornecedores e compradores surtiria sempre mais efeito. Fecham-se as empresas menores, apenas para ver outras surgirem em seu lugar.</p>
<p>Foi com pressão pública e falando duro, que se logrou estimular a necessária liderança de mercado para o pacto contra o trabalho escravo. A parceria entre o ministério do Trabalho e a OIT foi reforçada pelo jornalismo investigativo da ONG <a href="http://www.reporterbrasil.org.br/">Repórter Brasil</a>. Dessa forma obtiveram mais evidências para uma lista suja de casos comprovados de trabalho escravo. O  <a href="http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/Default.aspx">Instituto Ethos</a> se encarregou da mobilização e coordenação do apoio empresarial. As companhias que assinam o pacto, se comprometem a não comprar de quem está na lista suja. O pacto foi subscrito por muitas grandes empresas. Não erradicou o trabalho escravo, mas contribuiu para sua redução e essa prática vai sendo gradualmente eliminada das cadeias de suprimento de alto valor agregado do país.</p>
<p>Foi com pressão pública e falando duro que o Greenpeace chamou atenção da  McDonald’s sobre sua contribuição para o desmatamento da Amazônia, ao comprar soja produzida em áreas griladas e abertas ilegalmente. Depois que o Greenpeace deu nome aos responsáveis e mostrou evidências concretas, o McDonald’s chamou seus grandes fornecedores, para exigir que eliminassem a soja de desmatamento. Dessa forma começou a “<a href="http://www.abiove.com.br/ss_moratoria_br.html">moratória da soja</a>”, que contribuiu significativamente para reduzir o papel da soja na grilagem e no desmatamento de terras na Amazônia.</p>
<p>Foi, também, com pressão pública e falando duro que o mesmo Greenpeace convenceu <a href="http://www.greenblog.org.br/?tag=carne">grandes redes</a> de supermercados como Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar a <a href="http://www.agrosoft.org.br/agropag/210824.htm">não comprarem</a> carne dos frigoríficos com operação na Amazônia. A indústria da carne continua a ser um dos fatores determinantes do desmatamento na Amazônia. A “<a href="http://wilsoncenter.org/ondemand/index.cfm?fuseaction=home.play&amp;mediaid=1BCF5A00-E75F-7E60-BBA067E53DB4BE42">moratória da carne</a>” ainda não deu os mesmos resultados que a da soja, mas houve avanços visíveis. Outros grandes <a href="http://www.greenpeace.org.uk/media/press-releases/brazilian-leather-giant-commits-amazon-cattle-moratorium-following-indsutry-pressure-20090813">compradores</a> na cadeia de suprimento da carne e do couro se viram compelidos a aderir a ela.</p>
<p>As empresas aderem a iniciativas desse tipo por causa de seus valores ou respondendo a pressões de mercado e às preferências manifestas de seus consumidores? Eu diria que no mínimo pressões de mercado e preferências de consumidores têm um papel decisivo no fortalecimento e na observância desses valores.</p>
<p>Esses são exemplos extremos, mas ajudam a mostrar claramente que sustentabilidade tem tudo a ver com liderança no mercado. Essa liderança frequentemente precisa de um empurrão da regulação ou de pressões como as geradas pelas ONGs, organizações de consumidores e ministério público. Eles também nos ajudam a entender que não pode haver empresas sustentáveis em cadeias insustentáveis de suprimento. Uma empresa que do portão para dentro é de baixo carbono, não se pode dizer sustentável ou de baixo carbono se é parte ativa de uma cadeia insustentável e de alto carbono. A complacência com o que se passa em sua cadeia de suprimento nega qualquer política interna de sustentabilidade. Sustentabilidade só pode ser alcançada se considerar todo o ciclo de vida do produto, do ponto mais inicial da cadeia de suprimentos ao produto acabado, seu uso ou consumo e destino final dos resíduos e embalagens.</p>
<p>Ainda mais nessa era da mudança climática, a sustentabilidade não pode ser uma busca solitária de algumas empresas heróicas. Só pode ser o resultado da ação coletiva dentro e entre as maiores cadeias de suprimento da economia. Uma palavra final: sustentabilidade, hoje, é baixo carbono. O resto é derivativo.</p>
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		<title>A receita para um grande desastre natural é simples</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 18:08:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Trilhas]]></category>
		<category><![CDATA[catástrofe]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Junte-se a um evento natural extremo, uma população vulnerável e um governo omisso e se garante um número apreciável de mortes que poderiam ser evitadas.
“A falta de cuidado pode ser o pior inimigo. No passado, mesmo que as ondas não fossem tão grandes, houve grandes danos com tsunamis de 2 metros”, disse o primeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Junte-se a um evento natural extremo, uma população vulnerável e um governo omisso e se garante um número apreciável de mortes que poderiam ser evitadas.<span id="more-864"></span></p>
<p>“A falta de cuidado pode ser o pior inimigo. No passado, mesmo que as ondas não fossem tão grandes, houve grandes danos com tsunamis de 2 metros”, disse o primeiro ministro do Japão, Yukio Hatoyama, justificando a evacuação de 245 mil pessoas, por causa do alerta de tsunami após o terremoto no Chile. Quando o alerta foi levantado, apenas um pequeno maremoto, com ondas de 10 cm havia atingido a ilha de Minamitori, a pouco menos de 2 mil quilômetros de Tóquio.</p>
<p>Hatoyama está certo. Não existem catástrofes naturais. As catástrofes são sempre humanas. Sociais. A catástrofe ocorre quando um evento natural extremo de grandes proporções encontra uma população vulnerável, um governo fraco, despreparado ou desprevenido.</p>
<p>Eventos naturais são imprevisíveis, incontroláveis e avassaladores. Não é possível evitá-los. Por isso se insiste tanto em adaptação e prontidão. É preciso adotar medidas preventivas que reduzam o risco de morte e perdas totais de patrimônio público e privado. Isso requer planejamento urbano e do uso da terra, construções adaptadas aos tipos de fenômenos de maior incidência, alertas para evacuação, defesa civil bem aparelhada, bem treinada e sempre de prontidão, entre inúmeras outras. É melhor se desculpar pelo transtorno de uma evacuação causada por zelo e cautela, do que reparar as mortes pela falta de prevenção. No caso do Japão e do Havaí as autoridades se desculparam por terem superestimado o risco de tsunami. Diante das circunstâncias, foi melhor causar desconforto à população, do que expô-la ao risco. Nos dois países, a memória de tsunamis e outros eventos naturais extremos recomenda precaução mesmo.</p>
<p>As populações pobres são vulneráveis em várias dimensões: desamparadas, não dispõem de equipamentos de defesa civil próximos, nem qualquer sistema organizado de proteção e prevenção; suas habitações são precárias e de alto risco; frequentemente estão em altas concentrações de pessoas por metro quadrado. É uma receita trágica, que se manifesta com a introdução de qualquer ingrediente natural forte: chuvas torrenciais, enchentes, deslizamentos, terremotos, vendavais, tornados, furacões e tsunamis provocam, inevitavelmente, grande número de perdas humanas.</p>
<p>Há uma década, uma <a href="http://www.iadb.org/sds/publication/publication_2149_e.htm">análise</a> do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre “desastres naturais” na América Latina, já alertava para o fato de que a maioria dos países prefere seguir uma estratégia de reconstrução e assistência internacional pós-desastre.</p>
<blockquote><p>Ao invés de adotar uma abordagem proativa de gestão de risco focalizada na redução do risco e na prontidão, a região continua a se apoiar em processos caros de reconstrução e assistência internacional pós-desastre. Essa atitude reativa não apenas custa demais em termos de vidas e patrimônio destruído, mas também se mostra largamente insustentável à medida em que a assistência internacional diminui e a exposição a desastres naturais aumenta em toda parte.</p></blockquote>
<p><a href="http://www.wilsoncenter.org/topics/pubs/Report_8_Martine_&amp;_Guzman.pdf">Estudo</a> recentemente publicado pelo Wilson Center mostra que há uma relação direta entre pobreza e exposição a eventos naturais extremos. As populações pobres vivem em condições de vulnerabilidade e risco.</p>
<blockquote><p>Na América Central, a relação entre condições socioeconômicas e o impacto de desastres naturais pode ser geralmente expressa da seguinte maneira: restrições econômicas forçam os pobres a morar em habitações precárias, feitas de materiais frágeis e não-duráveis, nas partes de menor valor da terra. Os pobres constroem suas casas em terrenos nas encostas mais íngremes; em áreas alagáveis; em ecossistemas vulneráveis e cursos d’água; e outras áreas impróprias. Mesmo os programas habitacionais do governo e as políticas de desenvolvimento urbano tendem a desconsiderar restrições ambientais e não têm informação adequada para planejar o uso da terra. Locações impróprias trazem sérios problemas ambientais e sociais, agravados pelo desmatamento e pela gestão inadequada do lixo e dos cursos d’água. Durante os desastres, serviços e infra-estrutura precários complicam ainda mais os esforços de sobrevivência.</p></blockquote>
<p>Nesse estudo, uma análise do impacto do furacão Mitch, em 1998, mostrou que as municipalidades mais afetadas, em Honduras, foram aquelas com maiores índices de pobreza. O mesmo se verificou na Nicarágua e na Guatemala. Em Honduras, as famílias chefiadas por pessoas com o menor nível educacional, tinham risco de serem atingidas pelo furacão Mitch 80 vezes maior que as famílias chefiadas por pessoas com o maior nível de educação.</p>
<p>O Haiti é assim. O Chile, não. O Chile tem sistemas de prontidão e defesa civil experimentados no enfrentamento recorrente de terremotos de extensão considerável. Concepción, a cidade mais duramente atingida pelo terremoto deste final de semana e pelo tsunami resultante, não é novata nesses eventos extremos. Em 1960, na sua costa sul, ocorreu o mais violento terremoto registrado em sismógrafos, com intensidade de 9.5 na escala Richter. Após décadas de crescimento continuado, tendo atingido renda per capita de US$ 14 mil, o Chile atenuou bastante seus problemas de pobreza extrema. A diferença de rendimentos entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres caiu 21% entre 1990 e 2006. O percentual de pessoas em situação de pobreza caiu, nesse período, 64%, e de pessoas em pobreza extrema, 75%.</p>
<p>Os problemas sociais não foram todos superados, mas a vulnerabilidade da população diminuiu muito. Isso certamente terá contribuído para fazer com que o número de mortes, embora alto, seja menor do que em outras situações, no passado, quando o país foi atingido por terremotos de menor intensidade.</p>
<p>Eventos naturais extremos de origem climática aumentarão de frequência nos próximos anos e décadas. Países como o Brasil são muito vulneráveis a eles. Nos grandes centros urbanos e suas periferias há grandes contingentes de população em condições de alto risco. O país gasta bilhões de reais com a reparação de danos e poucos milhões com prevenção. A política habitacional não é planejada considerando critérios de risco de vulnerabilidade. Os estudos de localização são ambientalmente ineptos e os materiais construtivos inadequados. Os critérios de qualificação para os programas habitacionais não são transparentes e não consideram prioritárias as populações sujeitas a risco ambiental e climático. Esta é a receita do desastre.</p>
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		<title>Mudança climática: uma agenda realista para a 2010</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 19:17:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Acordo de Copenhague]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Há, em muitos setores, o sentimento de que estamos em pleno retrocesso na política de mudança climática. A lei de energia alternativa no EUA parece mais longe hoje do que no final do ano passado. O IPCC, painel científico intergovernamental para mudança climática, parece encurralado. O movimento social globalizado parece estar quieto demais e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Há, em muitos setores, o sentimento de que estamos em pleno retrocesso na política de mudança climática. A lei de energia alternativa no EUA parece mais longe hoje do que no final do ano passado. O IPCC, painel científico intergovernamental para mudança climática, parece encurralado. O movimento social globalizado parece estar quieto demais e na defensiva. O apoio ao Acordo de Copenhague foi morno até agora. Os compromissos que os países registraram no seu anexo são insuficientes para alcançar a meta de 2<sup>o</sup>C. Eles apontam para um cenário de 3,5<sup>o</sup>C, na melhor das hipóteses. Os negacionistas parecem estar levando a melhor.<span id="more-860"></span></p>
<p>Estamos mesmo perdendo terreno? Ou somos prisioneiros de uma visão de curto-prazo, um sentimento de conjuntura baseado apenas em aparências? O que estamos captando são tendências, ou apenas turbulências passageiras?</p>
<p>Não há retrocesso importante na política de mudança climática. O que estamos vendo é a reiteração de um processo de “paradas e arrancadas” que carateriza ambientes decisórios complexos. O ambiente político da mudança climática é quase tão complexo quanto o próprio sistema climático. Ele se defronta com o que eu chamei de  <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2009/10/27/precisamos-de-um-sonho-para-fazer-a-maioria-das-pessoas-demandar-de-seus-governos-que-adotem-acao-climatica-efetiva/">Paradoxo de Asimov</a>. Com tantos interesses, agentes de veto e decisores envolvidos, qualquer solução a um tempo política e cientificamente significativa só será adotada se atender a um dos dois requisitos do Paradoxo de Asimov. Para se conseguir grandes transformações, como o exige o enfrentamento da ameaça da mudança climática, é necessário promover uma transformação profunda na economia e na sociedade, no prazo de  duas décadas, no máximo três. Para se ter esse tipo de mudança, ou se obtém apoio massivo, além da maioria absoluta em todos os países relevantes; ou se espera várias décadas a mais, talvez um século, para que essa mudança ocorra de forma gradual. Como não há tempo a perder, deve-se continuar lutando para obter o grau de consenso necessário para ativar a mudança política necessária. Ao mesmo tempo, é preciso investir em outras frentes de batalha, enquanto se continua a negociar uma política global para mudança climática. A redução efetiva das emissões de gases estufa deve começar o mais rapidamente possível. Daí a importância de investir politicamente, mobilizar a sociedade civil organizada e a vanguarda empresarial no plano local, no âmbito de cada país que é grande emissor de gases estufa.</p>
<p>Há em curso uma campanha muito bem financiada e orquestrada pelos que negam a mudança climática e pelos lobbies fósseis para desacreditar o IPCC e a ciência do clima. O IPCC cometeu alguns <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2010/01/22/o-erro-do-ipcc/">erros importantes</a> e precisa lidar com eles de forma mais direta e efetiva. Ele certamente <a href="http://www.realclimate.org/index.php/archives/2010/02/ipcc-errors-facts-and-spin/">precisa mudar</a> na estrutura e no processo. Se for possível levar o IPCC a um estágio mais avançado de desenvolvimento institucional, que permita gerar balanços da ciência do clima mais imunes a erros de procedimento, em intervalos menores de tempo, e com menos interferência política, ajudaria tremendamente a luta por um marco institucional legalmente vinculante para a política climática global. Finalmente, o IPCC também enfrenta uma crise de liderança. Uma nova presidência poderia trazer mais autoridade científica para seu comando institucional, novas idéias e obter melhor pelo equilíbrio entre ciência e política. Seu atual presidente dificilmente conseguirá se recuperar da perda de confiança e legitimidade pela qual está passando. Seria excelente que a substituição de Yvo de Boer, que pediu para sair, fosse acompanhada pela troca de guarda na presidência do IPCC.</p>
<p>A ciência do clima é sólida e as evidências de mudança climática não foram refutadas. Houve muita crítica e ataque ao IPCC, mas nenhum trabalho sério de cientistas demonstrou que o núcleo da tese sobre mudança climática está errado, ou apresentou hipótese mais aceitável pelas regras do método científico.</p>
<p>O movimento social está muito parado e na defensiva? Acredito que não. As maiores ONGs estão ocupadas avaliando o que aconteceu no ano passado e desenhando suas estratégias futuras para o curto e longo prazo. Elas provavelmente tiveram, em 2009, seu melhor resultado da história, em termos de mobilização, visibilidade e influência. Contudo, a COP15 foi, provavelmente, também a maior frustração que já viveram. Elas certamente estão descobrindo que têm que rever e redesenhar suas estratégias, diante das experiências de 2009. Elas precisarão de uma nova agenda para ação. E precisam fazer isso com a máxima urgência possível, para superar a frustração e começar a confrontar para valer a campanha dos negacionistas contra a ciência, as políticas e a política da mudança climática.</p>
<p>Não perdemos terreno de fato, mas o resultado da Cúpula de Copenhague teve um efeito depressivo sobre o movimento ambientalista focado na mudança climática, nos cientistas, analistas e na maioria dos negociadores governamentais. A frustração das expectativas de um acordo pleno, legalmente vinculante e ambicioso, e a constatação de que as lideranças das principais potências do mundo não haviam conseguido um entendimento em Copenhague, com certeza causou danos temporários ao movimento por um acordo climático global. Também motivou os negacionistas e lhes deu a oportunidade para lançar uma violenta ofensiva política e de opinião pública, especialmente no Reino Unido e no EUA.</p>
<p>Mas vamos olhar o lado bom dessa história.</p>
<p>Todos os grandes países emissores adotaram uma agenda para a mudança climática. No EUA, enquanto o Senado está atolado no exame da lei sobre energia limpa, a EPA, a agência ambiental federal, os estados e as cidades estão trabalhando ativamente para impor regulação mais restritiva às emissões de gases estufa. A lei de energia limpa não é a principal prioridade do presidente Obama ainda. Tampouco é a primeira prioridade da sociedade estadunidense. Portanto, ela provavelmente terá uma trajetória dura e acidentada até ser aprovada, ao invés de ter seu processo acelerado por acordo. A iniciativa local não perdeu momentum, nem o governo federal está paralisado pelo impasse no Senado.</p>
<p>A China está liderando o investimento global em energia verde e controle de poluição. Faz isso por seus próprios motivos. O governo chinês tem editado a um ritmo crescente novas regras, mais restritivas, para emissões de carbono. A Índia também começa a implementar ações de baixo carbono por sua própria conta. Nenhum grande emissor de carbono abandonou ou negou os compromissos levados a Copenhague. EUA e Brasil já disseram que cumprirão seus compromissos mesmo que não haja acordo internacional. Em outras palavras, o compromisso político de agir em relação à mudança climática se mantém e há sinais de avanços adicionais em vários desses países. Políticas legalmente vinculantes têm sido adotadas pelos governantes da maioria dos grandes emissores e de inúmeros outros países.</p>
<p>A maior ameaça a progressos no curto prazo no campo da mudança climática vem da nova onda de choque oriunda da crise financeira que não foi ainda superada. As economias europeias estão sendo atingidas por ela antes de estarem plenamente recuperadas do choque original do colapso das hipotecas no EUA. Esse novo ciclo de crise na Europa não se limita à Grécia. Espanha, Portugal, Itália e Irlanda também estão em sérios apuros. O que se vê é um desajuste financeiro e fiscal complexo e profundo, de alto poder explosivo. As maiores economias da União Europeia e a economia do EUA ainda estão muito frágeis para resistirem a um efeito de contágio, se essa rodada da crise escapar ao controle e se espalhar pelo mercado financeiro global.</p>
<p>Isso significa que se o crescimento não for retomado e os efeitos colaterais da crise não forem superados, a agenda climática dificilmente terá prioridade global significativa este ano. O cenário de superação rápida da crise e seus efeitos não parece provável da perspectiva de hoje. A mudança climática ficará na agenda das grandes potências desenvolvidas e emergente como um sério desafio no século 21, mas ações mais abrangentes podem ser adiadas por pelo menos mais um ou dois anos.</p>
<p>A visão mais desalentadora da política da mudança climática resulta, realmente, de uma visão de curto prazo. Mas ela não se baseia apenas em aparências. Há elementos na conjuntura que podem impedir progresso relevante no curto prazo. Nós não estamos andando para trás, mas estamos parados. Hoje, as condições para um tratado pleno e vinculante são parcas, se não adversas. Os países ainda estão ocupados com problemas mais prementes no curto prazo.</p>
<p>O cenário de mais turbulência econômica e adiamento das ações relacionadas com a mudança climática requer reflexão estratégica. Seria importante evitar que a COP16 seja outra grande frustração. O futuro da política global do clima depende de que se obtenha o melhor resultado possível em Cancún, dadas as circunstâncias do momento. São vários os riscos a serem administrados, para que a COP16 tenha sucesso. Três deles são visíveis e podem ser administrados.</p>
<p>Olhando-se primeiro para as expectativas, há dois riscos opostos a evitar. O primeiro é uma inflação de expectativas sobre um acordo legal, semelhante à que se viu na COP15. No momento, é um risco de baixa prioridade, mas que deve ser evitado a qualquer custo. O seu oposto, mais provável nesse clima de frustração, é uma deflação de expectativas que poderia condenar a COP16 ao fracasso, antes mesmo que comece. O terceiro risco se refere à formulação da agenda de demandas aos países e da agenda da própria COP. Dependendo de como se desenvolva o quadro de crise financeira e econômica, seria muito arriscado demandar mais do que os países podem realisticamente fazer e estabelecer metas muito ambiciosas para a COP16.</p>
<p>Um conjunto de metas realistas evitaria a frustração e ajudaria no sucesso da reunião. Realista não significa medíocre, mas pode significar resultados ainda aquém do que a ciência do clima pede. Se o cenário econômico global não melhorar consideravelmente ao longo do primeiro semestre, o objetivo de se obter um acordo legal pleno em Cancún deve ser explicitamente adiado antes do início da COP16. Seria melhor trabalhar para trazer o “espírito” original do Acordo de Copenhague para o marco do documento sobre as ações de longo prazo (AWGLCA) da Convenção do Clima (UNFCCC). O próprio documento sobre o  Protocolo de Kyoto (AWGKP) poderia usar esse “espírito do Acordo” para buscar um ponto de consenso em torno do segundo período de compromissos. Conciliar os objetivos originais do acordo político de Copenhague e o processo legal da UNFCCC é factível, embora ainda requeira muita negociação e bastante complicada em alguns pontos. O objetivo poderia ser obter o melhor alinhamento possível das vias política e legal. Ter uma proposta completa de tratado aprovada e assinada parece, no momento, fora do alcance da COP16.</p>
<p>Outro objetivo importante seria aprofundar, ao longo de 2010, o comprometimento dos principais países desenvolvidos e emergentes com o Acordo político acertado em Copenhague. O fortalecimento do Acordo de Copenhague ao longo do ano, ajudaria muito a realização daquele objetivo de alinhar o máximo possível os canais político e legal da negociação sobre mudança climática. Essa poderia ser uma agenda apropriada para as reuniões do G20 e do Fórum das Maiores Economias (MEF). Claramente, o tema no topo dessas agendas será a crise financeira. Mas os líderes dessa liga de grandes países simplesmente não podem mais descartar em suas conversas a ameaça da mudança climática e as questões pendentes sobre o Acordo de Copenhague. Esses temas constarão muito provavelmente de suas agendas. O desafio é pressionar para que sejam orientados no sentido de fortalecer o Acordo e criar condições para sua absorção pelo conduto legal, até a COP16.</p>
<p>A melhor forma de lidar com o Acordo de Copenhague é levá-lo a sério. Ele pode ser revitalizado, ganhando densidade política. As metas podem ser melhoradas ou revistas, em três a cinco anos. O comprometimento dos países pode ser mais bem explicitado. Isso certamente  facilitaria muito a incorporação do entendimento político à negociação formal- legal no contexto das Nações Unidas. Os países do BASIC, por exemplo, se mostraram ambíguos em relação ao Acordo. A China declarou apenas <a href="http://www.usclimatenetwork.org/policy/copenhagen-accord-commitments">“estar em apoio”</a> e recomendar o Acordo. Nem China, nem Índia disseram ainda que se associam a ele, o que corresponderia a assiná-lo e aceitá-lo como politicamente vinculante. O apoio do EUA também pode ser mais afirmativo e refletir o papel de liderança que Obama prometeu e ainda não cumpriu.</p>
<p>Buscar o progresso possível na preparação de um acordo legalmente vinculante &#8211; um novo Protocolo ou Tratado do Clima &#8211; e o fortalecimento do Acordo de Copenhague, para torná-lo um contrato político efetivo, tirando-o da incubadora, seriam metas relevantes e realistas para 2010 e para a COP16.</p>
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		<title>A prisão de Arruda e as eleições presidenciais</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Feb 2010 19:30:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Prever o que acontecerá numa eleição como essa é impossível. O que se pode é especular educadamente, com base no que se sabe sobre o comportamento do eleitor quando vota para presidente e nas circunstâncias dos partidos dominantes.

Raramente eventos negativos ou positivos, que estão ligados apenas indiretamente aos candidatos, influenciam o voto do eleitor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Prever o que acontecerá numa eleição como essa é impossível. O que se pode é especular educadamente, com base no que se sabe sobre o comportamento do eleitor quando vota para presidente e nas circunstâncias dos partidos dominantes.</p>
<p><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;"><span id="more-856"></span></span></p>
<p>Raramente eventos negativos ou positivos, que estão ligados apenas indiretamente aos candidatos, influenciam o voto do eleitor para presidente. O mensalão do PT, por exemplo, provavelmente não afetará o voto em Dilma Roussef (PT-RS). O caso Arruda dificilmente afetaria a candidatura de José Serra (PSDB-SP), porque ele concorreu à prefeitura de São Paulo em aliança com o DEM paulista e mantém estreita relação com seu ex-vice, agora prefeito, Gilberto Kassab (DEM-SP).</p>
<p>É claro que o melhor caminho para administrar riscos desse tipo é o afastamento do candidato daqueles mais diretamente associados ao escândalo. No caso de Serra, o melhor caminho seria mesmo a candidatura puro sangue, convencendo Aécio Neves a aceitar ser vice na chapa tucana. Aí, eles teriam apenas que lidar que os problemas do próprio PSDB.</p>
<p>O voto para presidente é um voto pessoal. O eleitor vota pensando basicamente nos atributos pessoais que ele vê nos candidatos. O mix de atributos varia muito. Não se pode dizer que um traço particular, simpatia, por exemplo, terá o mesmo peso para todos os candidatos em todas as eleições. Varia muito, depende do conjunto de candidatos e da distribuição desse atributo na percepção dos eleitores entre os candidatos. Usualmente, o fator ambiental mais importante na escolha para presidente é o econômico: o que está acontecendo com a renda real disponível dos eleitores e o que eles acham que cada candidato pode fazer sobre isso. Atributos que sempre tem peso importante, porque reforçam a percepção sobre outras características na cabeça do eleitor são a credibilidade e a autenticidade. Quando estão presentes na receita íntima do eleitor sobre como deve ser um presidente eles aumentam a confiança nas candidaturas que lhes parecem mais confiáveis e autênticas. A psicologia do voto é volúvel e influenciada por fatores distintos, dependendo da própria personalidade do eleitor. Há aqueles que são “cabeça-feita”. Há os que formam opinião em família, outros no trabalho, outros prestando atenção em formadores de opinião que consideram confiáveis e sabidos. Enfim são vários perfis de eleitores que constroem várias imagens diferentes de um mesmo candidato.</p>
<p>É pouco provável, além disso, que PT e PSDB queiram se envolver em uma campanha negativa, de ataques um ao outro sobre corrupção política. Nenhum dos dois tem a vidraça limpa. Se entrarem nesse tipo de disputa, acaba sendo negativo para ambos. Um dos problemas da democracia brasileira no século XXI é que os quatro grandes partidos políticos do país têm sido lenientes com a corrupção dos seus. Isso tem implicações institucionais muito negativas. Para as candidaturas, fará soar meio falso se insistirem demais no seu sentido ético. Só candidaturas totalmente dissociadas de eventos moralmente condenáveis podem colocar a ética política no centro de suas campanhas.</p>
<p>O caso Arruda pode, mais provavelmente, ter impacto negativo genérico no desempenho do DEM. O partido tem sido muito vacilante e leniente nesse episódio. É muito provável que sofra perdas significativas, nas eleições do DF. Embora o Distrito Federal tenha uma política local muito envolvida com máquinas clientelistas, há candidaturas que poderiam ganhar competitividade porque ainda podem fazer uma campanha ressaltando a ética na política. Nas parlamentares, o partido pode ser bastante prejudicado e é difícil imaginar que seja competitivo na disputa para o governo do DF.</p>
<p>Mas, eleição de governador é como eleição de presidente, o voto é pessoal, portanto, tudo que não está diretamente ligado à pessoa do candidato tende a pesar pouco na decisão do eleitor. Às vezes, a popularidade do candidato lhe permite superar, inclusive, a má imagem ética. Aconteceu com Paulo Maluf durante muito tempo em São Paulo. O caso mais famoso foi o de Ademar de Barros, também em São Paulo.</p>
<p>A cada novo evento dessa magnitude, ganha mais força o cenário de uma eleição cheia de surpresas inevitáveis, cheia de incertezas, muito disputada e muito tensa.</p>
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		<title>Agenda da COP16 começa a ser definida</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Feb 2010 18:00:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Começam as preparações para a COP16. O Secretário Geral da Convenção do Clima, Yvo de Boer está fazendo consultas aos países sobre quantas reuniões eles acham recomendável fazer, antes da COP em Cancún, para negociar um acordo sobre mudança climática.
A Reuters informa que já há reuniões marcadas, algumas diretamente voltadas para a preparação da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Começam as preparações para a COP16. O Secretário Geral da Convenção do Clima, Yvo de Boer está fazendo consultas aos países sobre quantas reuniões eles acham recomendável fazer, antes da COP em Cancún, para negociar um acordo sobre mudança climática.<span id="more-853"></span></p>
<p>A Reuters informa que já há reuniões marcadas, algumas diretamente voltadas para a preparação da COP16, e outras nas quais ela certamente estará na agenda. A primeira reunião preparatória da Convenção será em Bonn, na Alemanha, entre 31 de maio e 11 de junho. Certamente haverá outras reuniões preparatórias além dessa e é para essa definição que de Boer pediu aos países suas recomendações até o dia 16 de fevereiro. A COP16 será entre 29 de novembro e 10 de dezembro, em Cancún, no México.</p>
<p>Entre as reuniões já previstas e que certamente tratarão da posição específica de grupos de países na negociação do acordo, uma das mais importantes é a dos países do BASIC. Brasil, África do Sul, Índia e China, na sua última reunião em Delhi, em janeiro, quando discutiram se iriam ou não registrar suas ações no anexo do Acordo de Copenhague,  decidiram também manter reuniões trimestrais. A próxima será na África do Sul, em abril. Em Delhi, esses países, ainda segundo a Reuters, pediram que fossem feitas cinco reuniões preparatórias, antes da COP no México e que a primeira fosse já em março.</p>
<p>O G20, que está se tornando a principal força geopolítica multilateral, substituindo o G8 e o chamado G8+5, que inclui os emergentes China, Brasil, índia, África do Sul e México, se reúne pela primeira vez em junho. O G8 é um clube de alguns dos países desenvolvidos &#8211; EUA, Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Itália &#8211; mais a Rússia emergente. A União Européia participa como observadora. O G20 inclui, além do G8+5, a União Européia, Austrália, Argentina, Indonésia, Arábia Saudita, Coréia do Sul e Turquia. No ano passado, na Cúpula do G20 em Pittsburgh, mudança climática foi parte na agenda junto a crise financeira. Mas ela não contribuiu para avanço algum. Sua reunião de cúpula, com os chefes de governo, este ano está marcada para Seoul, na Coréia do Sul, nos dias 11 e 12 de novembro. É improvável o destino de Cancún não esteja na agenda dessa reunião, que levará em conta o que tiver acontecido até lá.</p>
<p>Mas o G20 deve se reunir antes disso, no Canadá, juntamente com a cúpula do declinante G8, de 25 a 27 de junho. Também é pouco provável que o Acordo de Copenhague e o deve acontecer em Cancún não estejam na agenda dessas reuniões.</p>
<p>A Reuters informa que a França deverá hospedar um encontro para discutir desmatamento no dia 11 de março, que deverá ter continuidade em maio, na Noruega. A agência de notícias da China, Xinhua, relata que o Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon criou um <a href="http://news.xinhuanet.com/english2010/world/2010-02/12/c_13173932.htm">grupo assessor</a> de alto nível, co-presidido pelos primeiro ministros do Reino Unido, Gordon Brown, e da Etiópia, Meles Zenawi, para mobilizar os recursos financeiros comprometidos pelo Acordo de Copenhague.</p>
<p>Da perspectiva de hoje, ainda são muitas as dificuldades para que se chegue a um acordo em Cancún que tenha mais substância que o Acordo de Copenhague. Um sinal <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2010/01/30/o-acordo-de-copenhague-ganha-vida/">positivo sobre Copenhague</a> é que ele recebeu certo alento, quando todos os grandes países emissores de carbono e vários outros preencheram seus anexos em branco, com suas metas ou ações para redução de emissões. Ganhou ainda um pouco mais de força quando Brasil e Índia esclareceram à UNFCCC que, além de registrarem suas ações, estavam se associando ao Acordo.</p>
<p>O G77, um heterogêneo grupo de 130 países, pressionou os membros do BASIC para que não se associassem ao Acordo. Associar-se equivale a subscrevê-lo. Aparentemente, China, Brasil e Índia, estavam dispostos a ceder à pressão. Tanto que, quando registraram suas ações, não mencionaram explicitamente estar, também, se associando. Um estratagema diplomático, para participar a meias e tentar atender tanto ao fato de que o Acordo teve a participação decisiva do BASIC, quanto à pressão do G77. O fato real é que o G77 implodiu em Copenhague, sendo substituído, para todos os efeitos, pelo BASIC, pelo OASIS, organização que reúne os pequenos estados-ilha e pelo grupo dos Países Africanos. A África do Sul ficou como ponte entre este último e o BASIC. Por pressão dos parceiros com quem o BASIC negociou o Acordo de Copenhague e também em função de pressão interna, Brasil e Índia, posteriormente, esclareceram que estavam associados a ele. Só a China, dos países do BASIC, ainda não afirmou estar associada ao Acordo.</p>
<p>Como se vê, haverá muita confusão no caminho de Cancún.</p>
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		<title>O Pantanal ameaçado</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 12:07:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho paixão pelo Pantanal e ele está ameaçado pelo descaso, pela produção predatória de aço, carvão ilegal, gado e álcool. Suas águas estão sendo poluídas, os rios sofrem com a erosão. Vai aí uma lembrança do tesouro de biodiversidade que estamos perdendo, nesse áudioslide show de uma de minhas visitas ao Pantanal do Rio Negro, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho paixão pelo Pantanal e ele está ameaçado pelo descaso, pela produção predatória de aço, carvão ilegal, gado e álcool. Suas águas estão sendo poluídas, os rios sofrem com a erosão. Vai aí uma lembrança do tesouro de biodiversidade que estamos perdendo, nesse áudioslide show de uma de minhas visitas ao Pantanal do Rio Negro, uma das áreas mais preservadas, e ao rio Paraguai, onde ele mais sofre.<br />
<object classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" width="540" height="440" id="soundslider"><param name="movie" value="http://www.ecopolitica.com.br/Soundslides/Pantanal/publish_to_web/soundslider.swf?size=1&#038;format=xml&#038;embed_width=540&#038;embed_height=440" /><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="quality" value="high" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="menu" value="false" /><param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /><embed src="http://www.ecopolitica.com.br/Soundslides/Pantanal/publish_to_web/soundslider.swf?size=1&#038;format=xml&#038;embed_width=540&#038;embed_height=440" quality="high" bgcolor="#FFFFFF" width="540" height="440" menu="false" allowScriptAccess="sameDomain" allowFullScreen="true" type="application/x-shockwave-flash"></embed></object></p>
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		<title>O Acordo de  Copenhague ganha vida</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 22:48:09 +0000</pubDate>
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Estados Unidos e União Européia aderiram formalmente ao Acordo de Copenhague sem reservas. Os países do BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) fizeram questão de dizer que ele não é legal. Legal só o Protocolo de Kyoto. Faz diferença, se eles aderirem formalmente e registrarem publicamente suas ações voluntárias quantificadas? Essa é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Estados Unidos e União Européia aderiram formalmente ao Acordo de Copenhague sem reservas. Os países do BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) fizeram questão de dizer que ele não é legal. Legal só o Protocolo de Kyoto. Faz diferença, se eles aderirem formalmente e registrarem publicamente suas ações voluntárias quantificadas? Essa é realmente uma divisão importante entre potências desenvolvidas e emergentes?</p>
<div><span style="color: #0b0b0b; font-size: medium;"><span id="more-838"></span>Fico cada vez mais inclinado a responder <strong>não</strong> às duas questões acima.</p>
<p>Vamos ser práticos. O Protocolo de Kyoto é legalmente vinculante. Mas suas metas são tão baixas, que se tornaram irrelevantes. O EUA não ratificou o Protocolo. Os países do BASIC são “não-Anexo I”, o que significa que não têm obrigações legalmente vinculantes.</p>
<p>O resultado concreto é que o Protocolo de Kyoto tem uma cobertura muito parcial das emissões totais de gases estufa. O fato de ser legalmente vinculante não fez qualquer diferença na trajetória das emissões ou no comportamento das Partes do Protocolo. Para os países do BASIC o caráter legal do Protocolo significa que os países desenvolvidos têm obrigações legais e eles não, porque não estão no Anexo I. O EUA jamais ratificará o Protocolo de Kyoto. Houve pouquíssimo progresso nas negociações para o Segundo Período do Protocolo. E China, Brasil e Índia não estarão no Anexo I no período pós-2012. Sem EUA, China, Brasil e Índia, ele continuará um instrumento ineficaz para enfrentar a ameaça da mudança climática global.</p>
<p>Já o Acordo de Copenhague apoiado por EUA, União Européia, Canadá, Austrália, China, índia, Brasil e África do Sul cobrirá parcela majoritária das emissões de gases estufa. Adicionando-se Japão e Rússia, que provavelmente aderirão nos próximos dias, e ele alcança o volume de emissões que, se corretamente regulado, pode cumprir a tarefa de evitar um cataclismo climático. Esse grupo seleto de países representa a maior parte do poder político, econômico e científico do mundo, também. E esse é um dado relevante para a eficácia de qualquer acordo político global.</p>
<p>O Acordo não é mesmo legal. Ele sempre foi político. Desde o começo. Com todos esses países dizendo que estão politicamente comprometidos com seus termos e fazendo o registro público de suas <a href="http://www.usclimatenetwork.org/policy/copenhagen-accord-commitments">ações voluntárias</a> para reduzir suas emissões de carbono ele ganha, apesar de tudo, substância e relevância. Todos estão registrando objetivos quantitativos. Chamá-los metas vinculantes ou ações voluntárias parece ter pouca importância a essa altura. Basta olhar o que aconteceu com as metas vinculantes do Protocolo de Kyoto. Nunca fizeram diferença alguma no esforço de conter o crescimento das emissões globais de carbono.</p>
<p>Para mim é muito mais importante o fato de que, pela primeira vez, EUA, China, Brasil e Índia estão assumindo o compromisso político de reduzir suas emissões e esse compromisso vem com um número anexado.</p>
<p>Essas metas que estão sendo registradas estão muito aquém dos níveis requeridos pela ciência. Mas o Acordo também prevê revisão periódica de desempenho para tornar as ações compatíveis ao objetivo expresso de evitar que o aquecimento global ultrapasse a média de 2<sup>o</sup>C neste século. Isso já é muito mais do que o Protocolo de Kyoto jamais conseguiu. E o Acordo de Copenhague também resolveu conflitos que geravam impasse a uma década, como nos temas de financiamento e transferência de tecnologia.</p>
<p>O que o Acordo de Copenhague não tem, o Protocolo de Kyoto também não tem: um mecanismo de implementação eficaz. Estamos longe de termos um marco institucional adequado para a governança global do clima. E teremos que chegar a ele forçosamente em algum momento, o qual não pode tardar muito.</p>
<p>O Acordo de Copenhague pode avançar por duas trilhas distintas. A primeira, seria entrar no trilho diplomático da Convenção do Clima. Para isso, seus termos e metas/ações teriam que ser transcritos para o documento oficial do Grupo de Trabalho sobre a Convenção do Clima (AWG-LCA) e formalmente apresentado ao plenário de 192 países para ser aprovado por unanimidade. O ideal é que isso acontecesse na COP 16 , em Cancún, no México.</p>
<p>A trilha alternativa seria continuar por um caminho independente. Os países que aderirem ao Acordo continuariam a negociar um estatuto adequado e aceitável para ele. As negociações deveriam, também, alcançar o regime de governança que permita implementá-lo e torná-lo um instrumento relevante de política climática coletiva global.</p>
<p>A primeira trilha parece ser a mais difícil. A história da Convenção do Clima mostra como é difícil formar consenso em um grupo tão grande e heterogêneo de países.</p>
<p>O Acordo de Copenhague ganhou nova substância com a adesão das “potências do carbono” do mundo. Um grupo menos de países, ainda que esteja polarizado, tem maior probabilidade de chegar a um acordo efetivo do que um grupo grande, com mais de 100 nações com interesses disparatados.</p>
<p>O plenário da Convenção do Clima é tão dividido que é difícil até mesmo de formar coalizões polarizadas nele. O que nós vimos em Copenhague é que, à medida que o Acordo foi parecendo mais possível, os agrupamentos existentes de países foram se fracionando. Foi assim que o G77 + China rachou e foi substituído com vantagem pelo BASIC, pelo AOSIS (pequenos estados-ilha) e pelo bloco Africano. Esses três blocos se provaram muito mais produtivos politicamente do que o G77.</p>
<p>O Acordo de Copenhague estar vivo, apesar de todas as frustrações geradas pelo fechamento melancólico &#8211; se não patético &#8211; da COP15, é um bom sinal. Um acordo climático global ainda é possível.</p>
<div><span style="color: #0b0b0b; font-size: medium;"><br />
</span></div>
<p></span></div>
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		<title>Notas sobre a Conjuntura Política</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 16:24:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
A conjuntura política vai se complicando com a proximidade das eleições. Há uma boa chance de que essas eleições não sejam tão triviais como acham alguns. O quadro pode ficar bastante complexo.

Minas maliciosa
O anúncio da candidatura de Itamar Franco ao Senado, pelo PPS de Minas Gerais, está agitando os partidos e os políticos. Provocou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>A conjuntura política vai se complicando com a proximidade das eleições. Há uma boa chance de que essas eleições não sejam tão triviais como acham alguns. O quadro pode ficar bastante complexo.</p>
<p><span id="more-833"></span><strong></strong></p>
<p><strong>Minas maliciosa</strong><br />
O anúncio da candidatura de Itamar Franco ao Senado, pelo PPS de Minas Gerais, está agitando os partidos e os políticos. Provocou uma onda de conversas ao pé do ouvido, rumores e especulações no estado.</p>
<p>Não há como Itamar ter tomado essa decisão sem consultar o governador Aécio Neves (PSDB-MG). Nem o PPS faria o convite sem consultar o governador. Aécio tem garantida uma das duas vagas ao Senado. É imbatível. Mas isso não significa que vá realmente concorrer.</p>
<p>Com Itamar no páreo serão três possíveis candidatos fortes para duas vagas, porque o vice, José Alencar disse que pretende disputar também. Informações da família são de que está bem de saúde o suficiente para enfrentar a campanha. Mas ainda pode haver outros candidatos fortes, dependendo das definições para as vagas à candidatura ao governo do estado. Se o PT escolher Fernando Pimentel (PT-MG), o ministro Patrus Ananias (PT-MG) pode querer tentar uma vaga no Senado. Se Patrus sair para governador, Pimentel pode querer o Senado. Se o PT não se acertar com o PMDB, o ministro Hélio Costa (PMDB-MG), também pode querer a vaga.</p>
<p>Itamar diz que disputará ao lado de Aécio. Fariam uma dobradinha para tentar ficar com as duas vagas entre eles. Tem uma boa chance de dar certo. Mas Aécio pode ainda sair candidato a vice, numa chapa puro sangue com José Serra (PSDB-SP). Tudo ainda pode acontecer até março, abril. Mas o quadro geral está ficando cada vez mais complexo.</p>
<p><strong>Partidos divididos</strong><br />
Esta poderá ser uma eleição de partidos divididos. O PMDB se dividirá irremediavelmente e a divisão será ainda maior se o PT bloquear Michel Temer (PMDB-SP) para vice de Dilma Roussef (PT-RS). O apoio oficial do PMDB à candidatura governista ainda não está garantido.</p>
<p>O PT, pela primeira vez, terá defecções: uma parte dele votará em Marina Silva (PV-AC) no primeiro turno. Também há muita fricção interna por causa da intervenção do presidente Lula na disputa paulista. Lula quer porque quer Ciro Gomes (PPS-SP/CE) candidato ao Palácio Bandeirantes. Mas ele não tem base, nem prestígio eleitoral em São Paulo. Ninguém no PT paulista realmente deseja Ciro como candidato. Todos querem candidatura própria.</p>
<p>Marta Suplicy (PT-SP) tem o maior número de apoios e a melhor posição competitiva, embora Geraldo Alckmin (PSDB-SP) seja o favorito. O problema é que o PSDB anda tão atrapalhado e dividido, que pode escolher outro nome, abrindo caminho para uma vitória petista. Lula disse que se não for Ciro, quer Aloízio Mercadante (PT-SP). Mercadante tem menos apoio e menos competitividade que Marta, mas não é um candidato fraco, sobretudo se Alckmin for preterido. Antonio Palocci também tem sido falado. É o mais fraco dos três eleitoralmente.</p>
<p>O PDT vai se dividir. Uma parte apoiará Dilma, outra não. Apesar do apoio oferecido ontem pelo ministro Carlos Luppi (PDT-RJ) presidente licenciado do partido.</p>
<p>Dependendo de como Lula conduza essa questão da candidatura de Ciro Gomes e do comportamento do PT paulista, o PSB pode também se dividir.</p>
<p><strong>Lula transformou Ciro em problema</strong><br />
O presidente Lula pode ser bom de voto e gênio de comunicação e mobilização de massas. Mas isso não faz dele, necessariamente, bom estrategista eleitoral. Duas de suas insistências não levam necessariamente a boa estratégia.</p>
<p>Primeiro, a idéia da polarização. Pode funcionar a favor ou contra. Não se força um voto plebiscitário. É o eleitor que define a natureza do voto. Quando cair a ficha de que Lula está saindo do governo, o cálculo do eleitor vai mudar em direção que ainda não é totalmente previsível. Incorrer em custos políticos muito altos para forçar a polarização e tentar gerar uma campanha plebiscitária pode ser má estratégia eleitoral e ainda prejudicar fortemente a governabilidade futura, no caso de muita polarização e vitória do governismo.</p>
<p>Segundo, a insistência em tirar Ciro Gomes da disputa presidencial e forçá-lo a concorrer ao governo de São Paulo. Dois problemas aqui. Quando se olha as pesquisas por dentro, apesar de toda a inimizade, o que os dados mostram é que Ciro tem mais interseção no eleitorado de Serra do que no de Dilma. Lula acha que Ciro tira votos do governismo, mas ele tira votos mesmo é de Serra. Fica difícil entender a lógica do veto à candidatura de Ciro. E se houver algum contratempo com a candidatura de Dilma? O governismo ficará sem alternativa? Se ela não crescer o suficiente, se a polarização não ocorrer, sem Ciro, a oposição poderia ganhar no primeiro turno. Aliás foi argumento parecido que o PSB usou para argumentar com Lula.</p>
<p>O outro problema é com São Paulo. Como disse acima, nenhum petista quer Ciro Gomes candidato. Ciro não é competitivo no estado. É mais fraco que Marta e Mercadante.</p>
<p>O melhor momento para uma candidatura presidencial de Ciro Gomes é este. Melhor do que em suas outras tentativas. Deve ser difícil para ele e para o PSB deixar passar essa oportunidade.</p>
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		<title>Lei de Mudança Climática: Vai começar a batalha pela regulamentação</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 16:46:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Aquecimento global]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<description><![CDATA[Começa o trabalho de preparação do decreto para regulamentar a Lei de Mudança Climática.
Sérgio Abranches
A lei é complexa e envolve muitos setores e numerosas questões. O processo de negociação para regulamentar toda ela provavelmente ultrapassará os limites desse governo. Uma fonte em Brasília me disse que a melhor possibilidade é de uma regulamentação seletiva e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Começa o trabalho de preparação do decreto para regulamentar a Lei de Mudança Climática.</p>
<p>Sérgio Abranches<span id="more-829"></span></p>
<p>A lei é complexa e envolve muitos setores e numerosas questões. O processo de negociação para regulamentar toda ela provavelmente ultrapassará os limites desse governo. Uma fonte em Brasília me disse que a melhor possibilidade é de uma regulamentação seletiva e estratégica. Serão escolhidos alguns itens considerados mais urgentes e relevantes para preparar o decreto de regulamentação. De outra fonte recolhi, também, a informação de que outras questões começarão a ser estudadas de modo a próxima administração já encontre pronta boa parte dos estudos e encaminhamentos.</p>
<p>Em breve os ministros que concorrerão a cargos eletivos terão que deixar o governo e o ideal é que essa regulamentação básica fosse negociada pelos que negociaram a própria lei. O fundo climático também precisa ser regulamentado e esta é outro processo complexo e demorado.</p>
<p>As decisões relativas a leis extensas, que dependem de regulamentação, envolvem várias etapas de negociação. A primeira é aquela que leva à aprovação da lei pelo Congresso. Durante essa etapa, há perdas e ganhos. A lei saiu pior do que o projeto original, nesta etapa, e o projeto já não era muito bom. A segunda etapa, também já vencida, é a da negociação de vetos. Os ambientalistas perderam uma parte importante da lei para os opositores, com os vetos do presidente Lula, particularmente ao artigo 10, que tratava de incentivos a fontes renováveis de energia. Também foi eliminado um objetivo importante para a transição para uma economia de baixo carbono que era o abandono progressivo dos combustíveis fósseis. Todos os países terão que fazer isso. A questão não é abandonar ou não a economia fóssil, mas o prazo em que isso se dará.</p>
<p>Os ambientalistas conseguiram, entretanto, reduzir a apenas 3 os 10 vetos pedidos pelos contrários à lei.</p>
<p>A terceira etapa é a batalha da regulamentação. A mais crítica, porque ela é que define qual será o verdadeiro alcance da lei. Como ela não diz como fazer o que ela determina que seja feito, nem em que prazo, é aí que se dará a batalha decisiva. Daí a cautela de todos. Por isso, também, todos acham que o caminho mais eficaz é o de regulamentar por partes, seletivamente, mesmo ao custo de deixar várias seções da lei sem possibilidade de efetivação por falta de regulamentação.</p>
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		<title>Obama: Popularidade e polarização</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 13:56:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>
		<category><![CDATA[Obama]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Barack Obama começou o governo com a segunda maior média de aprovação da história recente dos presidentes, empatado com Eisenhower, com 68%, nos dados do Gallup. Só John Kennedy teve aprovação inicial maior, com 72%. Sua média no primeiro ano de governo, porém, é a segunda menor, igual à de Ronald Reagan: 57%. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Barack Obama começou o governo com a segunda maior média de aprovação da história recente dos presidentes, empatado com Eisenhower, com 68%, nos dados do <a href="http://www.gallup.com/poll/113968/Obama-Initial-Approval-Ratings-Historical-Context.aspx">Gallup</a>. Só John Kennedy teve aprovação inicial maior, com 72%. Sua média no primeiro ano de governo, porém, é a segunda menor, igual à de Ronald Reagan: 57%. E sua popularidade corrente está com viés de baixa. Hoje é de apenas 48%.</p>
<p><span id="more-824"></span></p>
<p>Bill Clinton terminou seu primeiro ano de governo com média de 49%, a mais baixa, e, como se sabe, foi reeleito no meio de um escândalo pessoal. Era a economia. Obama fechou a <a href="http://www.gallup.com/poll/politics.aspx">última semana</a> com 50%. Sua última avaliação, média dos últimos <a href="http://www.gallup.com/poll/politics.aspx">três dias</a>, é 48%. Logo, tendência de queda. É também a economia?</p>
<p>Em grande parte sim. Principalmente as taxas de desemprego &#8211; alta &#8211; e de emprego &#8211; baixa. Mas esses números da popularidade de Obama têm por trás uma realidade política que está ausente na maior parte do noticiário e dos comentários políticos. Nunca a política no EUA foi tão polarizada como no governo Obama.</p>
<p>Sua eleição já havia mostrado essa polarização: ele foi eleito por uma maioria esmagadora de Democratas e Independentes e sua votação entre os Republicanos foi baixa. Entre os estados republicanos, Obama só encostou realmente em McCain em Montana e no Missouri. Entre os Democratas, McCain só ficou perto de Obama em Indiana, Carolina do Norte e Flórida.</p>
<p>Mas o que o Gallup mostra é que essa polarização se tornou mais profunda e aguda durante o primeiro ano de governo Obama e pode influenciar as eleições de meio-mandato.</p>
<p>Obama tem 82% de apoio entre os Democratas, 45% entre os Independentes e 18% entre os Republicanos. Considerando-se a <a href="http://www.gallup.com/poll/125345/Obama-Approval-Polarized-First-Year-President.aspx?version=print">média do primeiro ano</a>, os índices são 88% entre os Democratas &#8211; o maior da história desde Eisenhower &#8211; e 23% entre os Republicanos, igual ao de Bill Clinton. É, também, o menor da série, entre presidentes Democratas. Mas Obama tem, disparado, o maior índice de diferença na sua aprovação entre os eleitores dos dois partidos: 65 pontos percentuais separam sua popularidade entre os Democratas de sua popularidade entre os Republicanos. A diferença para Clinton era de 52 pontos e, para Bush, de 45 pontos.</p>
<p>Quando se examina o gráfico completo com as médias de popularidade do primeiro ano, desde Eisenhower, se nota uma tendência à polarização: de Reagan para cá, a diferença média nas avaliações dos presidentes entre os dois partidos foi de 47,8 pontos percentuais. Entre Eisenhower e Carter foi de 28.1 pontos. Bush pai foi, dos cinco últimos presidentes, o que polarizou menos o EUA: 32 pontos, índice igual ao de Eisenhower e menor que o de Nixon (34 pontos). E não foi reeleito. Além disso, há uma diferença marcante entre os Democratas. No primeiro grupo, “pré-Reagan”, os Democratas tinham as menores marcas de polarização: Johnson, 19 pontos; Carter, 27 pontos; e Kennedy, 29 pontos. Todos índices menores que os dos presidentes Republicanos do período. Após Reagan, os Democratas polarizam mais: Obama, 64 pontos; Clinton, 52 pontos; Bush pai 32 pontos e Bush filho, 45 pontos.</p>
<p>A tendência da popularidade de Obama é de aumento da polarização. Entre os Republicanos, a média semanal da aprovação do presidente caiu 26 pontos entre a primeira semana (41%) do primeiro ano de mandato e a última (15%). Entre os Independentes, o desgaste de Obama levou a uma perda de 17 pontos percentuais na popularidade (62% para 45%). Entre os Democratas, porém, Obama perdeu apenas 4 pontos percentuais (88% para 84%).</p>
<p>Se essa polarização, que tem muito a ver com o que Obama representa, se refletir nas parlamentares de meio-mandato, haverá um recrudescimento do voto republicano nos distritos republicanos e do voto democrata nos distritos democratas. Nesse caso, Obama pode manter a maioria na Câmara, embora ela fique menor e perder no Senado.</p>
<p>Nem toda a polarização é personalizada ou se explica pelas características singulares de Obama: negro, mais à esquerda, com uma agenda distinta da dominante no país. Uma forma grosseira de quanto da polarização é específica a Obama e quanto tem a ver com a crescente diferenciação entre Democratas e Republicanos especialmente em temas novos &#8211; como mudança climática &#8211; e velhos &#8211; como raça &#8211; é a diferença entre os índices de polarização dele e de Clinton.</p>
<p>Com base nessa diferença, 88% da polarização teriam base partidária e 22% estariam associados à rejeição pessoal a Obama entre os Republicanos e menor entre os Democratas. Se for assim, as eleições de meio-mandato tenderão a ser polarizadas também e Obama pode ter uma contribuição específica ajudando os Democratas nos distritos mais polarizados e favoráveis ao partido e prejudicando os Democratas nos distritos onde há equivalência de forças entre os dois partidos, porém com viés republicano entre os Independentes.</p>
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