﻿<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Ecopolitica &#187; Artigos</title>
	<atom:link href="http://www.ecopolitica.com.br/category/sem-categoria/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.ecopolitica.com.br</link>
	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
	<lastBuildDate>Wed, 28 Jul 2010 20:14:51 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0</generator>
		<item>
		<title>Encontro dos países do BASIC no Rio avançou mais do que o comunicado mostrou</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/28/encontro-dos-paises-do-basic-no-rio-avancou-mais-do-que-o-comunicado-mostrou/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=encontro-dos-paises-do-basic-no-rio-avancou-mais-do-que-o-comunicado-mostrou</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/28/encontro-dos-paises-do-basic-no-rio-avancou-mais-do-que-o-comunicado-mostrou/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 28 Jul 2010 20:14:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[África do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[BASIC]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[COP16]]></category>
		<category><![CDATA[Índia]]></category>
		<category><![CDATA[política climática global]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=1095</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Houve várias novidades no encontro do BASIC, no Rio, terminado na última segunda-feira, dia 24, que o protocolar comunicado oficial não revelou. Entre elas, os ministros do Brasil, África do Sul, Índia e China (BASIC) chegaram privadamente à conclusão de que um segundo período de compromisso para os países do Anexo I do Protocolo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Houve várias novidades no encontro do BASIC, no Rio, terminado na última segunda-feira, dia 24, que o protocolar comunicado oficial não revelou.<span id="more-1095"></span> Entre elas, os ministros do Brasil, África do Sul, Índia e China (BASIC) chegaram privadamente à conclusão de que um segundo período de compromisso para os países do Anexo I do Protocolo de Kyoto nunca será aprovado pelas partes na negociação sobre mudança climática global. Esse sentimento de que o Protocolo de Kyoto não é mais viável provavelmente levará a importantes mudanças na estratégia de negociação desses países na Convenção do Clima. A Índia se mostrou particularmente favorável a que o BASIC passe a defender um único e inclusivo acordo global sobre mudança climática. Isso significaria abandonar a demanda de uma solução em duas trilhas, a do Protocolo de Kyoto e outra para os países que não fazem parte do Anexo I do Protocolo ou não o ratificaram, como eles próprios e o EUA.</p>
<p>Ao contrário, o frustrante Comunicado Conjunto do BASIC continuou ressaltando a importância da</p>
<blockquote><p>“abordagem em duas trilhas, que prevê, de um lado, um resultado ambicioso e abrangente para as negociações do Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Ação Cooperativa de Longo Prazo dentro da UNFCCC (AWG-LCA) e do Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Compromissos Adicionais dos Países do Anexo I do Protocolo de Kyoto (AWG-KP).”</p></blockquote>
<p>Outra importante conclusão compartilhada pelos ministros e ausente do comunicado foi a de que a noção de “responsabilidades históricas” e “compartilhamento equitativo dos ônus” das ações de mitigação (redução de emissões de carbono) dificilmente poderiam ter uma tradução legalmente vinculante. Particularmente difíceis de atribuir são aquelas responsabilidades dos países desenvolvidos pelas emissões dos períodos pré-industrial e do início da industrialização após a Revolução Industrial. Naquele tempo as emissões de CO2 não eram sequer consideradas como poluentes. Essa visão mais equilibrada nem transparece no jargão diplomático do comunicado.</p>
<blockquote><p>“Uma meta global para reduções de emissões deveria ser precedida pela definição de um paradigma para o compartilhamento equitativo dos ônus. Eles [os ministros] enfatizaram que o acesso equitativo ao espaço de carbono deve ser considerado no contexto do desenvolvimento sustentável, direito que está no coração do regime sobre mudança climática, e o qual demanda a implementação de um ambicioso programa de financiamento, apoio tecnológico e desenvolvimento de capacitação.”</p></blockquote>
<p><strong>Compromissos quantificados e comparáveis</strong></p>
<p>O que os ministros reunidos no Rio concluíram, embora ainda não estejam todos igualmente convencidos, é que os países em desenvolvimento com economias avançadas terão que quantificar adequadamente sua cota parte no esforço de redução de emissões. Entre esses países estão, pelo menos, os três grandes do BASIC &#8211; China, Índia e Brasil &#8211; a Coréia do Sul e o México. Para fazer isso, eles concordaram em tomar a iniciativa de desenvolver um modelo comum para avaliar quantitativamente os compromissos que registraram no anexo do Acordo de Copenhague. Um grupo de especialistas altamente qualificado estava presente às discussões e recebeu a missão de trabalhar no desenvolvimento desse modelo comum de mensuração. Embora tenha havido alguma oposição, especialmente por parte das autoridades brasileiras presentes, eles decidiram que os especialistas devem tentar tornar todos os compromissos do BASIC sob o Acordo de Copenhague em compromissos comparáveis e igualmente mensuráveis, reportáveis e verificáveis. Idealmente, deveriam encontrar uma base comum para converter esses compromissos para uma mesma medida. Hoje cada país tem um compromisso numa base diferente dos outros e medido de forma distinta. O Brasil não quer nem ouvir falar nisso, porque isso explicitaria nossa trajetória de emissões.</p>
<p>Esse objetivo de compromissos comparáveis em uma só base de cálculo foi defendido com particular ênfase pela Índia e pela África do Sul. A China deu um apoio mais reticente, provavelmente dependente de deliberação dos altos dirigentes do país. O Brasil foi contra, mas não chegou a vetar a iniciativa. Contudo, ficou claro para os participantes que o grupo de especialistas não terá apoio substantivo do governo brasileiro.</p>
<p>Os especialistas da África do Sul apresentaram o que pareceu ser um modelo preliminar muito interessante, que considera vários indicadores. O sentimento geral foi de que serviria como um sólido ponto de partida para o desenvolvimento de uma metodologia para avaliar os compromissos assumidos em Copenhague, dimensionando seu verdadeiro impacto no desenvolvimento econômico e social desses países. A ministra para Assuntos de Água e do Ambiente da África do Sul, Buyelwa Sonjica, deixou claro que seu país tem grande interesse nesse trabalho técnico. Ele permitiria quantificar as necessidades de financiamento do programa sobre mudança climática de seu país.</p>
<p><strong>Menos palavras, mais números</strong></p>
<p>O que ficou claro nas discussões é que os países do BASIC terão em breve que abandonar a retórica e começar a colocar na mesa propostas técnicas mais substantivas nas negociações do clima. Ao invés de dizerem, como ainda insistem em dizer, que sua contribuição ao esforço global de redução de emissões de carbono não podem impor restrições aos seus objetivos de desenvolvimento, terão que mostrar o efeito direto e real das metas de redução de emissões sobre suas economias. O Comunicado Conjunto continua, entretanto, a se referir  ao “acesso equitativo ao espaço de carbono no contexto do desenvolvimento sustentável”. Mas todos eles sabem que essa é uma frase vazia, se não vier acompanhada de números e demonstrações técnico-científicas. Muito em breve terão que trazer números efetivos para as mesas de negociação para adicionar algum valor real a suas demandas e condições. Essa quantificação dos compromissos, seus requisitos e impacto econômico líquido será também necessária para dimensionar as necessidades financeiras dos maiores países em desenvolvimento para contribuírem com os esforços globais de redução das emissões de carbono. O financiamento é uma questão importante para a África do Sul e para a Índia. China e Brasil seriam capazes de financiar com recursos próprios a maior parte de seus programas de mudanças climática, particularmente em seus estágios iniciais. Isso explica porque os dois primeiros querem avançar logo nessa direção, a China se mostra reticente e o Brasil contrário.</p>
<p>É isso que se deve ler nas entrelinhas do comunicado conjunto, quando ele diz que os ministros</p>
<blockquote><p>“enfatizaram a necessidade de colaboração adicional entre os especialistas do BASIC nessa questão, em busca da compreensão das implicações econômicas, sociais, científicas e do acesso equitativo ao espaço de carbono e do fortalecimento de um entendimento comum dessa matéria.”</p></blockquote>
<p><strong>MRVs</strong></p>
<p>O negociador chefe para mudança climática da China, Xie Zhenhua, causou certa surpresa ao propor que o grupo de especialistas discutisse e desenvolvesse a metodologia para os MRVs (ações mensuráveis, reportáveis e verificáveis) associados ao Acordo de Copenhague. Os MRVs estarão na agenda do próximo encontro do BASIC a se realizar em Pequim, em outubro. Essa é outra área na qual há considerável distância entre o que os países do BASIC realmente pensam e o que continuam a dizer em público.</p>
<blockquote><p>O quase ilegível comunicado conjunto diz que os ministros</p>
<p>“ indicaram a distinção entre o MRV dos compromissos de redução de emissões dos países desenvolvidos, que diz respeito a obediência e comparabilidade, e o MRV das ações nacionalmente apropriadas de mitigação (NAMAs) dos países em desenvolvimento, que diz respeito à transparência. O Ministros enfatizaram que o trabalho sobre MRV das ações apoiadas internacionalmente deve avançar com urgência, incluindo por meio de procedimentos comuns de relatórios de financiamento.  Eles ressaltaram que somente NAMAs apoiados internacionalmente deveriam ser submetidos a MRV internacional, em conjugação com o MRV do apoio internacional, enquanto aos NAMAs não apoiados deverá se aplicar apenas o MRV doméstico. Consultas internacionais e análises de informações relativas a ação não apoiadas internacionalmente seria úteis para aumentar a transparência, por meio de uma cooperação multilateral sob a UNFCCC.”</p></blockquote>
<p>Traduzido, diz o seguinte: o que os países fizerem com apoio financeiro internacional, tem que ser mensurável, reportável e verificável de acordo com os critérios internacionais. Os que fizerem por conta própria deve ser verificado apenas domesticamente. Mas seria útil para aumentar a transparência aceitar consultas internacionais e análise das informações referentes às ações que não tiveram apoio internacional, por meio de ação multilateral sob comando da Convenção do Clima da ONU. Esta última parte é o que determina o Acordo de Copenhague.</p>
<p>Em suas conversas, os ministros compartilharam a convicção de que os compromissos assumidos em Copenhague não escaparão à aplicação de procedimentos de MRV  cujos critérios ainda precisarão ser acertados. Eles sabem que aos “NAMAs não apoiados” que foram registrados como compromissos oficiais sob o Acordo de Copenhague se aplicará algo mais do que um “MRV doméstico”. Eles concluíram daí, que o melhor a fazer é serem proativos  e apresentarem uma metodologia que atenda aos requisitos de transparência do Acordo de Copenhague. Esse é o verdadeiro significado por trás da frase “consultas internacionais e análises de informações relativas a ação não apoiadas internacionalmente seria úteis para aumentar a transparência, por meio de uma cooperação multilateral sob a UNFCCC.”</p>
<p>Ficou decidido que um ponto de partida para o desenvolvimento do novo formato de MRV a ser aplicado para atender aos requisitos de transparência do Acordo de Copenhague seria o procedimento hoje utilizado para verificar as comunicações nacionais de emissões. Elas são revistas por um comitê composto por representantes tanto do países desenvolvidos, como dos países em desenvolvimento, por pessoal qualificado da UNFCCC e peritos independentes.</p>
<p>É curioso que o comunicado conjunto não faça qualquer menção explícita ao Acordo de Copenhague, ao qual todos se associaram e submeteram compromissos. A maior parte das questões técnicas sobre as quais decidiram trabalhar está relacionada aos compromissos que registraram no anexo do Acordo. A única menção a Copenhague no comunicado é indireta e diz respeito ao financiamento.</p>
<p>Não há referência a Copenhague quando o comunicado informa a posição dos países sobre MRVs. Ele não revela com transparência o que eles realmente concluíram sobre a necessidade de desenvolvimento uma metodologia de MRV que atenda ao que o Acordo de Copenhague diz sobre transparência. Esse item foi objeto de dura negociação entre o presidente Obama e o primeiro-ministro Wen Jiabao em um encontro histórico dos países do BASIC nas horas finais da Cúpula de Copenhague. Obama e Wen Jiabao discutiram por mais de duas horas o tema do MRV e chegaram a um acordo com a intermediação ativa do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e do presidente Lula. É um bom sinal que o governo chinês se mostre disposto a honrar o que acordaram. A sentença relevante do Acordo de Copenhague que resultou dessa negociação é a seguinte:</p>
<blockquote><p>“As Partes Não-Anexo I comunicarão informação sobre a implementação de suas ações por meio de Comunicações Nacionais, com provisões para consultas internacionais e análises mediante roteiro claramente definido que assegure que a soberania nacional seja respeitada.”</p></blockquote>
<p><strong>BASIC+</strong></p>
<p><strong></strong>Um tema lateral que poderia ter consequências disruptivas para a geopolítica das negociações climáticas  foi a se os países deveriam caminhar para um BASIC+, ou seja, se deveriam admitir outros países como membros votantes do grupo. A Indonésia, por exemplo, parece aspirar a se tornar membro pleno do BASIC+. Os ministros e negociadores se mostraram muito preocupados com a possibilidade de que essa idéia criasse dificuldades insuperáveis com outros países do G-77. A ministra sul-africana, Buyelwa Sonjica, se mostrou particularmente preocupada com a possível insatisfação que uma eventual ampliação do BASIC poderia causar entre outros parceiros e no G-77. Desde Copenhague, a África do Sul tem sofrido pressões e reservas por parte de países da União Africana por causa de sua participação no BASIC. O exemplo concreto desses temores é o do G-8, que foi suplantado pelo G8+5, em muitas questões relevantes e, definitivamente, pelo the G-20. Só que em sentido contrário: o G-77 seria esvaziado pelo BASIC+.</p>
<p>Embora todos os países do BASIC façam parte também do G-77, todos os seus ministros têm muita clareza de que os interesses de seus países estão se diferenciando crescentemente dos interesses dos outros estados membros. Eles decidiram, por isso, manter a formação original do BASIC e convidar observadores e debatedores para todos os seus encontros, porém sem direito a voto nas decisões. No Rio, um dos observadores convidados foi a Venezuela. O Iêmen, atualmente na presidência do G-77, também estava presente e está convidado para todos os encontros futuros, enquanto permaneça à frente do G-77. Os  ministros também concordaram que terão sempre um observador dos pequenos Estados-ilha, membros da AOSIS, e um observador da União Africana. Outros países em desenvolvimento poderão ser convidados para ajudar a debater questões centrais da agenda, nas quais tenham participação destacada. Em Pequim, por exemplo, um desses temas será o impacto das negociações do clima no mercado internacional. A Argentina, que tem liderado essa discussão no G-77 será convidada para a reunião de Pequim.</p>
<p><strong>Eppur si muove</strong></p>
<p>Houve pequeno progresso, mas significativo, na reunião dos países do BASIC no Rio. Muito mais do que o Comunicado Conjunto oficial deixou transparecer. O progresso e o consenso sobre essas novas visões do problema são mais fortes no plano dos especialistas. No plano político há ainda importantes diferenças no grau de convicção dos países acerca dessas novas posições. Índia e África do Sul parecem estar muito mais convencidas da necessidade de mudar de atitude e de estratégia de negociação. A China parece estar avançando, mas de forma mais cautelosa. O Brasil é, de longe, o mais relutante a aceitar qualquer mudança.</p>
<p>Jairam Ramesh, o ministro do Ambiente da Índia, fez uma persuasiva defesa dos benefícios de dar mais transparência a essas novas visões por eles compartilhadas. Ele queria, inclusive, que elas aparecessem no comunicado final. Mas as autoridades brasileiras preferiram um comunicado conjunto mais anódino.</p>
<p>Ramesh também mostrou desejo de seu governo em liderar uma aproximação com o EUA. E insistiu com seus parceiros no BASIC a procurarem laços mais estreitos com a França e a Alemanha, que ele considera mais próximos e complementares dessa nova visão sobre a política para a mudança climática global.</p>
<p>É pouco provável que essas visões cambiantes estejam suficientemente maduras e formem consenso dentro do BASIC para levá-lo a ter uma atitude diferente na COP16, em Cancún. Mas alguns desses sentimentos revelados no Rio podem aparecer mais publicamente no  México. É possível, por exemplo, que ponham propostas mais técnicas na mesa de negociação. Também é possível, embora menos provável, que sua insistência em um segundo período de compromisso para o Protocolo de Kyoto perca visivelmente alguns pontos de intensidade, ajudando na obtenção de progresso mais rápido no AGW-LCA rumo a um único acordo global mais inclusivo, em algum momento no futuro próximo. Os sinais de uma futura mudança no paradigma de negociação sobre mudança climática dos países do BASIC estão se tornando mais claros a cada reunião.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/28/encontro-dos-paises-do-basic-no-rio-avancou-mais-do-que-o-comunicado-mostrou/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Wikileaks e o jornalismo: inovação e diferenciação</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/27/wikileaks-e-o-jornalismo-inovacao-e-diferenciacao/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=wikileaks-e-o-jornalismo-inovacao-e-diferenciacao</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/27/wikileaks-e-o-jornalismo-inovacao-e-diferenciacao/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 27 Jul 2010 18:51:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[blogosfera]]></category>
		<category><![CDATA[blogs]]></category>
		<category><![CDATA[convergência de mídias]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Web]]></category>
		<category><![CDATA[wikileaks]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=1088</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
O vazamento pelo Wikileaks de milhares de documentos sobre a operação militar do EUA no Afeganistão está causando grande polêmica na imprensa e na webesfera, no momento. O Wikileaks foi criado para receber “vazamentos” de material confidencial sobre questões sensíveis. O que isso tem a ver com o jornalismo?
Primeiro de tudo, virou notícia. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>O vazamento pelo Wikileaks de milhares de documentos sobre a operação militar do EUA no Afeganistão está causando grande polêmica na imprensa e na webesfera, no momento. O Wikileaks foi criado para receber “vazamentos” de material confidencial sobre questões sensíveis. O que isso tem a ver com o jornalismo?<span id="more-1088"></span></p>
<p>Primeiro de tudo, virou notícia. A divulgação dos documentos sobre o Afeganistão, os “War Logs”, ou “Diários da Guerra” está em todos os jornais e sites jornalísticos do mundo. A Casa Branca disse que não há novidades no que foi vazado. A Slate, concorda. <a href="http://www.slate.com/id/2261780/">Fred Kaplan</a> diz que se alguém se surpreender com algo do que está lá, acaba de chegar ao mundo dos que lêem jornais. Mas, como diz <a href="http://www.slate.com/id/2261861/">William Saletan</a>, também da Slate, alegar que não há novidade nos vazamentos é uma tentativa de driblar a opinião pública. Há revelações ou relembranças suficientemente perturbadoras para justificar sua publicação com destaque. Julian Assange, fundador do Wikileaks diz que há nos documentos<a href="http://www.slatev.com/video/classified-us-military-records-released-wikileaks/"> evidências de crimes</a> de guerra.</p>
<p>A noção errônea de que “não é novo, não é notícia”, está desmentida na própria repercussão na mídia internacional. Notícia é. E não só o fato de terem sido vazados 90 mil documentos antes classificados como confidenciais. O próprio conteúdo dos documentos é matéria jornalística e gera controvérsia. Até mesmo no próprio governo, como chama atenção a <a href="http://www.wired.com/dangerroom/2010/07/military-disputes-its-own-wikileaked-missile-report/%23more-28507">Wired</a>: “Militares discordam de seu próprio relatório sobre míssil ‘wikivazado’ (wikileaked)”. Há discordância sobre o teor de relatório que fala de um helicóptero Chinook ter sido derrubado pelos rebeldes.</p>
<p><a href="http://www.niemanlab.org/2010/07/when-do-92000-documents-trump-an-off-the-record-dinner-a-few-more-thoughts-about-wikileaks/">Como diz</a>, com toda razão, C.W. Anderson, pesquisador da escola de jornalismo da universidade Columbia, “descobrir algo novo pode não ser tão importante quanto encontrar um padrão em algo que já está por aí”. David Corn, chefe da sucursal de Washington do site <a href="http://motherjones.com/mojo/2010/07/ground-truth-afghanistan?utm_source=twitterfeed&amp;utm_medium=twitter&amp;utm_campaign=Feed:+Motherjones/mojoblog+(MotherJones.com+%7C+MoJoBlog)">Mother Jones</a> diz que, de qualquer forma, o “Afeganistão foi, verdadeiramente, foi uma guerra que recebeu sub-cobertura, além de ter sido sub-discutida e sub-debatida”.</p>
<p>Jeff Jarvis, jornalista, professor de jornalismo, blogueiro e forte formador de opinião no ambiente jornalístico no EUA, tuitou o seguinte sobre seu primeiro post no blog <a href="http://www.buzzmachine.com/">BuzzMachine</a> sobre o caso:</p>
<blockquote><p>Thinking about wikileaks: Is no secret safe now? Where is the line of transparency? (Pensando sobre wikileaks: nenhum segredo está mais seguro agora? Por onde passa a linha da transparência?)</p></blockquote>
<p>No <a href="http://www.buzzmachine.com/2010/07/26/what-if-there-are-no-secrets/">post</a>, Jarvis diz que a moral dessa história dos vazamentos dos “diários da guerra” é que “nunca se sabe o que será vazado”. Mas o ponto central que ele quer mesmo discutir é se há um limite para vazamentos. Se existe uma ética do segredo que o jornalismo investigativo deveria obedecer. A resposta que ele encontra para a questão é inequívoca:</p>
<blockquote><p>“O caso do Wikileaks é um exemplo de ‘atravessar a linha’? Primeiro, precisamos perguntar onde a linha deveria estar. Eu acho que ela tem que se mover de tal modo a definir que o padrão, especialmente no governo, seja a transparência. Ao invés de perguntar o que deveria ser dado a público, deveríamos perguntar o que deveria permanecer privado.”</p></blockquote>
<p>Para Jay Rosen, professor de jornalismo da New York University, blogueiro e também influente formador de opinião, a novidade maior é que Wikileaks, diferentemente da imprensa convencional, não está submetido às leis que impedem a divulgação de material confidencial. A “lógica da Internet” permite que torne público qualquer coisa. Esta é a grande novidade: embora sediado na Suécia, Wikileaks não é de país algum. É, segundo Rosen, o <a href="http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/2010/07/26/wikileaks_afghan.html">primeiro caso</a> de uma organização noticiosa “apátrida”. Ele usa a expressão “stateless news organization”. Acho que, neste sentido, a melhor tradução é, mesmo, apátrida.</p>
<blockquote><p>“Se você for ao <a href="http://twitter.com/wikileaks">perfil do Twitter</a> do Wikileaks, onde está ‘local’ diz: em todo lugar. Esta é uma das coisas mais surpreendentes sobre ele: é a primeira organização noticiosa apátrida do mundo. Eu não consigo pensar em exemplos anteriores disso. (Dave Winer, no <a href="http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/2010/07/26/wikileaks_afghan.html%23comment54288">comentários</a>: ‘a blogosfera é uma organização noticiosa apátrida’.) Wikileaks está organizado de tal forma que se houver bloqueio legal em um país, os servidores podem ser transferidos para outro. É assim para colocá-lo fora do alcance de qualquer governo ou sistema legal. Por isso é tão estranho a Casa Branca reclamar: “Eles nem nos contataram!”</p></blockquote>
<p>Mas é jornalismo? É a nova fronteira do jornalismo investigativo? A primeira pista para ajudar a responder a essa questão foi levantada pelo próprio Jay Rosen:</p>
<blockquote><p>“Faça-se a seguinte pergunta: por que Wikileaks simplesmente não publicou os diários da guerra e deixou os jornalistas de todo o mundo terem acesso a eles? Por que entregá-los ao The New York Times, ao Guardian e Der Spiegel <a href="http://embargowatch.wordpress.com/2010/07/25/what-wikileaks-julian-assange-has-to-say-about-embargoes/">primeiro</a>? Porque, como Julien Assange, fundador do Wikileaks <a href="http://www.computerworld.com/s/article/9139180/Wikileaks_plans_to_make_the_Web_a_leakier_place">explicou</a> em outubro passado [à Computerworld], se uma grande história estiver disponível a todos igualmente, os jornalistas vão deixá-la de lado.”</p></blockquote>
<p>Em outras palavras, queria que a informação virasse notícia, repercutisse na imprensa convencional, onde as pessoas vão em busca do que consideram notícia. Eu diria, informação com credibilidade vinda de padrões de conduta firmados e testados. Olhem só que órgãos de imprensa foram escolhidos. Essa é a resposta que Dan Kennedy, professor de jornalismo da universidade Northwestern, em Boston, dá no Guardian, ao perguntar porque “Wikileaks <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2010/jul/27/why-wikileaks-turned-to-press">recorreu à imprensa</a>”?</p>
<blockquote><p>“Material chocante e uma queda para relações públicas podem ser suficientes para você ser notado. Mas se é credibilidade que você quer, então as velhas organizações jornalísticas ainda têm algo a oferecer.”</p></blockquote>
<p>Jeff Jarvis, em <a href="http://www.buzzmachine.com/2010/07/27/value-added-journalism/">outro post</a>, sobre “jornalismo com valor agregado”, conta que perguntou ao editor chefe do Guardian se seu jornal deveria ter criado um Wikileaks, como ele começou o <a href="http://commentisfree.guardian.co.uk/">CommentIsFree</a>, inspirado no Huffington Post. O Wikileaks é um recurso para o jornalismo investigativo e, portanto, deveria fazer parte do arsenal próprio, interno de um jornal? Ou deveria ficar como algo à parte? “Eu acho que é melhor separado” foi a resposta de Rusbridger. Porque o Wikileaks “faz coisas que um jornal não gostaria ou não poderia fazer”. Sobretudo pela característica apontada por Rosen, de estar submetido à lógica global e apátrida da Internet e não às leis de qualquer país.</p>
<p>Os critérios de verificação e transparência são diferentes. Mas o que o jornalismo traz, além da credibilidade mencionada por Dan Kennedy, é que ele adiciona um valor que não se cria com facilidade. “Eu acho que o caso do vazamentos” sobre o Afeganistão, disse Rusbridger a Jarvis, “faz a defesa do jornalismo”.</p>
<blockquote><p>“Nós tínhamos as pessoas e a expertise para dar o sentido daquilo tudo.”</p></blockquote>
<p>É mais que o padrão de checagem. São os anos de experiência dos repórteres, correspondentes, colunistas e editores, capazes de transformar o vazamento numa cobertura com consequência e sentido. Jarvis aponta, corretamente, que, dessa forma, o jornalismo adiciona valor ao material descoberto. Essa tarefa não se esgota.</p>
<p>E essa é mais uma razão para justificar plenamente, a crítica de Michelle Mclellan, do Knight Center, ao ‘<a href="http://www.knightdigitalmediacenter.org/leadership_blog/comments/20100726_the_replacement_myth/">mito da substituição</a>’. “A idéia cansativa que as notícias nascidas na Web vão substituir a mídia tradicional.” Anderson concorda: “eu não acho que um “novo” tipo de jornalismo vai tomar o lugar do modo tradicional. Obviamente, as duas formas jornalísticas vão trabalhar juntas, lado a lado”.</p>
<p>O que se está vendo, a sério, é muito menos a tentativa de invadir e tomar espaços e sim, cada vez mais intensa cooperação entre os vários formatos e as várias plataformas. Rusbridger fala em “mutualização”, Jarvis, em cooperação. Sociologicamente, estamos diante de um fenômeno antigo e sempre fundamental da ordem social. Diferenciação de papéis, um processo que não pára, porque é movido a inovação, que se soma à persistência do que mantém valor próprio. Vai ganhando complexidade, produzindo convergências e diferenças e alimentando a mudança e o progresso. Dialeticamente, tudo muda e tudo que tem valor, se perpetua, ainda que se transformando.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/27/wikileaks-e-o-jornalismo-inovacao-e-diferenciacao/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Tetos brancos &#8211; ou verdes &#8211; é coisa séria em matéria de mudança climática</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/26/tetos-brancos-ou-verdes-e-coisa-seria-em-materia-de-mudanca-climatica/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=tetos-brancos-ou-verdes-e-coisa-seria-em-materia-de-mudanca-climatica</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/26/tetos-brancos-ou-verdes-e-coisa-seria-em-materia-de-mudanca-climatica/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 20:15:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[CBN]]></category>
		<category><![CDATA[cidades]]></category>
		<category><![CDATA[energia]]></category>
		<category><![CDATA[futuro]]></category>
		<category><![CDATA[gases estufa]]></category>
		<category><![CDATA[mudança climática]]></category>
		<category><![CDATA[políticas públicas]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=1080</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Vamos pintar nossos telhados de branco? Será que isso faz mesmo sentido ou estamos diante de mais uma lenda urbana?
Sexta-feira, 23 de julho, um tuíte de @monica_nunes na minha “timeline” dizia o seguinte:
Vamos!! One Degree Less! RT @psustentavel: Vamos pintar nossos telhados? http://migre.me/Z91V #PlanetaUrgente
11:19 AM Jul 23rd via Echofon
Era um retuíte de Mônica Nunes, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Vamos pintar nossos telhados de branco? Será que isso faz mesmo sentido ou estamos diante de mais uma lenda urbana?<span id="more-1080"></span></p>
<p>Sexta-feira, 23 de julho, um tuíte de @monica_nunes na minha “timeline” dizia o seguinte:</p>
<blockquote><p>Vamos!! One Degree Less! RT @psustentavel: Vamos pintar nossos telhados? http://migre.me/Z91V #PlanetaUrgente<br />
11:19 AM Jul 23rd via Echofon</p></blockquote>
<p>Era um retuíte de Mônica Nunes, editora do Planeta Sustentável, apontando para um post do jornalista José Eduardo Mendonça, que perguntava: “Vamos pintar nossos telhados?”</p>
<p>Respondi:</p>
<blockquote><p>@monica_nunes já pintei o meu telhado e recomendo: enorme redução no uso de ar condicionado<br />
03:52:39 PM Jul via Seesmic</p></blockquote>
<p>De fato, pintei o telhado preto do meu escritório com uma tinta especial, branca, que tem alta refletividade e alta irradiação de infra-vermelhos. O segundo andar ficava insuportável no verão e exigia ar condicionado o tempo todo, na menor temperatura possível. Mais que insustentável, era desconfortável e caro. Custo de luz muito alto. Manutenção do ar condicionado muito cara, porque, ao ser exigido no limite, dava problema com frequência. A pintura do telhado zerou o problema. Agora, ar condicionado só no pico do calor. Ajustado para 24o-25o fica confortável e só é necessário mantê-lo ligado durante as duas ou três horas de maior calor do dia. Fora o verão, as salas ficam frias e pedem agasalho, mesmo quando só dá para ficar na rua de camiseta.</p>
<p>Nessa minha tarefa diária de pesquisar tendências de todo tipo que afetem a ordem social presente e futura, aprendi a necessidade de pôr o foco central na mudança climática. Não é minha preocupação exclusiva, mas é um foco diretor. Sustentabilidade passou a se estruturar em torno da mudança climática, ou da “descarbonização” da estrutura sócio-econômica contemporânea. Há outras dimensões de sustentabilidade? Há. Mas a questão das emissões de carbono é a dimensão central e dominante.</p>
<p>Há muita controvérsia sobre a relação séria, relevante, que possa haver entre telhados brancos e mudança climática. Essa troca de tuítes com a @monica_nunes, depois retuitada pelo @psustentavel, fez com que muitas pessoas me perguntassem isso. Algumas, com certa ironia, num tom de descrença. Outras, seriamente, porque estão pensando em pintar seus telhados e querem saber se não seria tolice. Se não estariam pagando mico, sem fazer qualquer diferença.</p>
<p>Claro, nem tudo é tão simples assim. Um telhado pequeno não faz diferença no universo, como uma andorinha não faz verão. No plano macro, quero dizer. Porque no plano do seu microuniverso, vai refrescar a casa, independentemente do tamanho do telhado.</p>
<p>E no plano macro, tem jeito de fazer diferença? Há gente qualificada que acredita que sim. O físico e prêmio Nobel, Stephen Chu, secretário de Energia de Obama, diz, por exemplo, que faz sentido. Tanto que ele acaba de lançar uma série de iniciativas para utilização de tecnologias de “tetos frescos” nos prédios do Departamento de Energia do EUA e nos prédios federais. É uma forma de estimular a disseminação dessas tecnologias em seu país. Os “tetos frescos” são aqueles cuja superfície é pintada com cores claras ou recebem um revestimento especial para refletir mais a luz solar e irradiar o calor ainda retido. Esses tetos reduzem os custos de refrigeração.</p>
<p>Nova York optou pelos telhados brancos na sua iniciativa de enfrentar as ilhas de calor e a mudança climática. Mas não são apenas os “tetos brancos” que caem nessa categoria dos “tetos frescos”. Os “tetos verdes” também. São tetos cobertos por vegetação, na maioria dos casos grama e flores que não exigem raízes profundas. A cidade de Toronto, por exemplo, estuda os tetos verdes desde 2004 e tem um plano para cobrir os tetos da cidade com vegetação.</p>
<p>Aí, estamos falando de outra escala, algo muito maior. É só imaginar grandes cidades, que representam um enorme território, um vasto espaço de solo ocupado. Estamos falando em milhões de quilômetros quadrados de espaço. Uma parte substancial dele pode ser, com poucas adaptações, coberta com tintas refletivas ou vegetação. Se isso fizer algum efeito, estamos falando em efeitos de muito larga escala. Será que faz?</p>
<p>Em 2004, Toronto encomendou um estudo ao Departamento de Ciência Arquitetônica da universidade Ryerson sobre os benefícios dos tetos verdes. Os resultados foram os mais encorajadores possíveis. Do ponto de vista ambiental, os benefícios indicados pelo estudo seriam: redução da quantidade de água das chuvas que escorre para o sistema de águas pluviais e do consumo de energia; vantagens estéticas, a cidade fica mais bonita; criação de  mais espaços verdes e oportunidades para produção local de alimentos.</p>
<p>Hoje, em várias cidades, condomínios inteiros transformaram seus telhados e espaços verdes em centros de produção de verduras, hortaliças, ervas e legumes orgânicos, tornando-se autosuficientes. Finalmente, um efeito muito significativo para várias cidades seria a eliminação das “ilhas de calor” que hoje caracterizam o ambiente de várias cidades grandes e médias. Várias capitais e cidades de porte médio no Brasil sofrem com o problema das ilhas de calor.</p>
<p>São Paulo já conhece bem as suas e a prefeitura pensa em parques lineares, desde 2007, para enfrentar o problema. A vantagem dos tetos verdes é que eles poupam recursos de desapropriação em que os parques fatalmente incorrem. Não devem ser pensados para substituir a idéia de dar mais parques à cidade, mas poderiam ser um complemento muito eficaz e barato. As duas idéias juntas teriam importante impacto positivo na qualidade de vida da cidade.</p>
<p>O programa de Nova York, que pretende “pintar” mais de 90 mil metros quadrados apresenta como benefícios dos tetos brancos reduzir custos de refrigeração, economizar energia e reduzir as emissões de gases estufa.</p>
<p>A questão mais controvertida está relacionada a um cenário no qual grandes extensões urbanas da terra adotassem “tetos frescos”, particularmente tetos brancos. Isso teria algum impacto no efeito estufa? A teoria diria que sim, pelo menos intuitivamente. Cidades brancas deveriam aumentar o chamado “efeito albedo”, que está diminuindo com a redução das áreas nevadas e geladas do mundo. O que é isso? É o potencial de refletividade da luz solar pelas superfícies terrestres. No caso estaríamos falando da possibilidade de termos um “efeito albedo” urbano, obtido artificialmente. Parece ficção científica, mas não é. É a idéia de “geoengenharia” mais sensata e sem danos que já ouvi.</p>
<p>O secretário Stephen Chu, não tem muita dúvida sobre os ganhos a se obter com os “tetos frescos”.</p>
<blockquote><p>“Tetos frescos são uma das formas mais rápidas e de menor custo com que podemos reduzir as emissões globais de carbono e começar o árduo trabalho de desacelerar a mudança climática”. (Stephen Chu)</p></blockquote>
<p>Em artigo publicado na revista Climatic Change de junho de 2009, pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory, concluem que</p>
<blockquote><p>“Em escala global, estimamos que o aumento nos albedos, mundialmente, dos telhados urbanos e superfícies pavimentadas induziria um forçamento radiativo negativo na Terra equivalente à neutralização de perto de 44 Gt de emissões de CO2.” Hashem Akbari, Surabi Menon e Arthur Rosenfeld &#8211; “Global cooling: increasing world-wide urban albedos<br />
to offset CO2”</p></blockquote>
<p>Traduzindo: em escala global, tetos e ruas adequadamente revestidos ou pintados refletiriam luz solar, tendo um efeito na mudança climática equivalente à neutralização de 44 gigatoneladas de carbono. Um efeito nada desprezível.</p>
<p>Em estudo publicado no início deste ano, na Environmental Research Letters, pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory, da NASA e da universidade Concordia, de Montreal, elevaram essa estimativa, para todas as áreas urbanas do globo para o equivalente à neutralização de 57 Gt de carbono.</p>
<p>Art Rosenfeld, um dos autores, dá uma idéia mais prática do que isso significaria:</p>
<blockquote><p>“Contudo, se nós assumirmos que os tetos têm uma vida útil de 20 anos, podemos pensar em uma taxa anual equivalente a 1,2 Gt por ano. Isso neutraliza as emissões de aproximadamente 300 milhões de carros (em torno do total de carros no mundo) por 20 anos!”</p></blockquote>
<p>Ou seja, seria o mesmo que tirar todos os carros da rua. Claro, nem todos os telhados e nem todas as ruas do mundo serão tratados assim. Mas só de imaginar se a maioria das grandes cidades conseguisse realmente pintar e plantar seus telhados e pintar as áreas de estacionamento, já teríamos um efeito enorme.</p>
<p>Estudo liderado por Keith Oleson do National Center for Atmospheric Research, publicado na Geophysical Research Letters, examinando os “efeitos dos tetos brancos na temperatura urbana em um modelo global do clima”, chegou a conclusões semelhantes. Com a cautela típica dos cientistas, Oleson disse sobre suas conclusões que: “nossa pesquisa demonstra que tetos brancos, pelo menos em teoria, podem ser um método efetivo para reduzir o calor urbano”. Segundo ele, “ainda é preciso determinar se é realmente viável para as cidades pintarem seus tetos de branco”.</p>
<p>Uma coisa é certa. A tentativa de espalhar tetos frescos, brancos ou verdes pelas cidades deveria ser parte de qualquer política de cidades sustentáveis.</p>
<p>Ouça também meu comentário hoje na CBN:<br />
<iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2010%2Fcolunas%2Fecopolitica_100726&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/07/26/tetos-brancos-ou-verdes-e-coisa-seria-em-materia-de-mudanca-climatica/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Serra: ou muda ou perde</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/24/serra-ou-muda-ou-perde/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=serra-ou-muda-ou-perde</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/24/serra-ou-muda-ou-perde/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 24 Jun 2010 21:00:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=1027</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Acendeu a luz vermelha na campanha de José Serra. Ou o candidato muda de atitude e revê sua estratégia de campanha e comunicação, ou perde.
A pesquisa do Ibope traz a primeira indicação de que a estratégia de comunicação do candidato do PSDB, José Serra, está dando resultados negativos. Esse resultado ainda precisa ser confirmado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Acendeu a luz vermelha na campanha de José Serra. Ou o candidato muda de atitude e revê sua estratégia de campanha e comunicação, ou perde.<span id="more-1027"></span></p>
<p>A pesquisa do Ibope traz a primeira indicação de que a estratégia de comunicação do candidato do PSDB, José Serra, está dando resultados negativos. Esse resultado ainda precisa ser confirmado por pesquisas cujo campo se dê nos próximos dias, para ver se houve algum efeito positivo retardado, com defasagem, entre a aparição do candidato nos programas partidários e seu reflexo na opinião pública.</p>
<p>Enquanto Serra buscava o máximo de exposição pela via dos programas partidários, o governo escondeu Dilma Roussef e pôs propaganda institucional nos horários nobres e, estrategicamente, nos intervalos de entrevistas dos outros candidatos. Propaganda que, depois, será refletida nas peças publicitárias de Dilma Roussef, quando começar a campanha na TV.</p>
<p>Como mostra o gráfico abaixo, com as médias do IBOPE e DATAFOLHA, Serra caiu e Dilma subiu, exatamente nesse período de maior exposição do candidato tucano. A única explicação é que a mensagem do candidato da oposição <a href="http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/">não está convencendo</a>. E não convence por causa da falta de visão estratégica, do conteúdo e do estilo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Gráfico-24.06.2010.jpg"><img class="size-medium wp-image-1029  aligncenter" title="Gráfico 24.06.2010" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Gráfico-24.06.2010-300x211.jpg" alt="Clique no gráfico para ampliar" width="300" height="211" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Clique no gráfico para ampliar</p>
<p>Dou dois exemplos. O primeiro tem a ver com a viagem de Dilma Roussef à Europa. Um fracasso político. Mas permitiu que ela aparecesse sozinha no Jornal Nacional pelo menos dois dias. Serra não gerou notícia importante para garantir sua presença no JN. É claro que o JN podia ter procurado Serra e Marina para gerar matéria e fazer uma cobertura mais equilibrada. Mas a responsabilidade pela geração de fatos suficientemente relevantes é da campanha, do candidato. Serra está muito mal assessorado na área de comunicação. Poderia, por exemplo, ter trabalhado para anunciar o nome do vice em sua chapa nesse período. Teria roubado a cena.</p>
<p>O segundo exemplo é o programa Roda Viva com Serra. Um desastre de comunicação. Ele não conseguiu produzir boas mensagens. Ao contrário, criou um ambiente de tensão. Esgrimiu o tempo todo com os jornalistas. Começava a responder antes de terminadas as perguntas, mostrando impaciência e irritação. Ora desprezava a importância das perguntas, ora dava instruções de pauta aos jornalistas. Interrompia explicações no meio, dando por sabido o que estava falando e mudava de assunto. Respostas longas, agressivas e pouco esclarecedoras.</p>
<p>Acusar o entrevistador de estar vocalizando propaganda petista, que ele chama “trolóló petista” é um erro elementar. O candidato pode até contar para o eleitor que aquilo é coisa que os petistas dizem para desacreditá-lo ou desmerece-lo, mas tem que, em seguida, complementar com uma mensagem propositiva, ou informativa, de carga positiva. Ficar na carga negativa contamina de negatividade todo o discurso.</p>
<p>Virou um debate tenso entre o candidato e os jornalistas, não uma conversa, um diálogo entre o candidato e o eleitor/telespectador. O candidato não pode se preocupar com o entrevistador, não é para ele que deve responder. Deve responder para o eleitor. O diálogo é com o eleitor e é por meio desse diálogo que se forma a opinião pública sobre o candidato.</p>
<p>O resultado líquido é o mal desempenho junto à opinião pública. Serra não está conseguindo se construir como candidato. Está, hoje, tão sem cara para a opinião pública, como esteve na campanha de 2002, quando perdeu para Lula. O desempenho nas pesquisas é apenas um indicador da visão da opinião pública sobre o candidato. Serra não dialoga com a opinião pública, bate boca, o tempo todo, com o governo, com Dilma, com jornalistas. Não conta ao eleitor quem é, o que pretende, o que já demonstrou ser capaz de fazer.</p>
<p>Dilma Roussef não é muito diferente. Suas entrevistas na Europa foram trôpegas. De uma pessoa que não sabia por que estava ali. Eram viagens sem propósito e sem relevância, mesmo, campanha vazia. Mas, aparentemente, sua associação com o governo, que tem uma campanha de propaganda de boa qualidade, construída sobre o conforto econômico das pessoas, parece estar funcionando melhor.</p>
<p>Dilma é uma candidata sem cara também. É uma figurante por trás do carisma de Lula e da propaganda do governo. Pode ser que, em algum momento da campanha, o eleitor queira ver a cara da candidata, saber quem e como de fato ela é. Se isso acontecer, teria que mudar radicalmente sua estratégia de campanha. O lado forte de Dilma, a propaganda do governo e a campanha de Lula pode ser, também, seu lado fraco. Confiando demais nele, se tiver que mudar, pode entrar num ciclo de improvisações que causem problemas com a opinião pública. Dilma também não dialoga com o eleitor.</p>
<p>A única que dialoga com o eleitor, de forma serena, que conta estórias e transmite uma mensagem clara e pessoal é Marina Silva. Não aparece na opinião pública, porque sua exposição é muito menor. Mas pode estar construindo uma base de apoio pulverizada que, para ser captada pela pesquisa, precisaria ganhar escala, amplitude. É um tipo de situação que, se a candidata estiver de fato construindo numerosos “micro-nichos” de apoio podem surpreender. Se não ganharem escala, levam a uma votação que pode, no máximo, forçar um segundo turno. Se ganharem escala, seu comportamento é tipo “tipping point”, aparecem de repente nas estatísticas. Significaria um salto surpreendente nas pesquisas. Se for um salto considerável, forçaria os outros candidatos a passarem a levar sua candidatura em consideração em suas respectivas estratégias. Isso daria maior visibilidade à candidatura.</p>
<p>O retrato de hoje, porém, é outro. Serra não está convencendo. A estratégia de esconder Dilma Roussef da opinião pública usando a propaganda do governo e a popularidade de Lula como biombo está dando certo. Os acertos da candidata Marina Silva ainda não tiveram efeito estatístico. Mas é bom lembrar que a campanha ainda nem começou para valer.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/24/serra-ou-muda-ou-perde/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Crianças, aves da Mata Atlântica, preservação</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/23/criancas-aves-da-mata-atlantica-preservacao/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=criancas-aves-da-mata-atlantica-preservacao</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/23/criancas-aves-da-mata-atlantica-preservacao/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 23 Jun 2010 17:23:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=1004</guid>
		<description><![CDATA[Um dia de conversa séria e simples com crianças carentes sobre a Mata Atlântica, suas aves e os perigos que correm.
Foi simples. Eles entenderam tudo.  Os mais velhos conheciam mais da metade das espécies. Os mais novos, identificavam menos, mas sabiam muita coisa. Todos sabiam muita coisa. Eram crianças de 4 a 7 anos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia de conversa séria e simples com crianças carentes sobre a Mata Atlântica, suas aves e os perigos que correm.<span id="more-1004"></span></p>
<p>Foi simples. Eles entenderam tudo.  Os mais velhos conheciam mais da metade das espécies. Os mais novos, identificavam menos, mas sabiam muita coisa. Todos sabiam muita coisa. Eram crianças de 4 a 7 anos, no primeiro grupo, e de 8 a 10 anos, no segundo. Todos filhos de famílias de baixa renda. Alunos da escola do bairro das Perobas, um distrito de Santos Dumont, em Minas Gerais.</p>
<p>Nós levamos dois biólogos, os ornitólogos, <a href="http://www.avesgerais.com.br/">Luciene Faria e Lucas Carrara</a>, para contar a eles sobre as espécies de aves que avistaram na primeira etapa do trabalho de campo na RPPN do Brejo Novo para fazer o inventário de sua avifauna. Faz parte do projeto compartilhar as informações com as crianças da vizinhança. Porque faz parte da vida delas e elas ouvem muitas estórias sobre a <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2010/01/04/na-mata-atlantica-um-micro-universo/">micro-reserva</a>. Uma menina me informou que lá tem até onça. Um outro me disse que, antes, as pessoas entravam lá para pegar passarinhos. Eram pequenas estórias indicando que a reserva já fazia parte do imaginário delas. Coisa de gente bacana da cidade que não entendiam muito bem. Por isso, também, era importante mostrar outras estórias, mais precisas, com mais informação.</p>
<p>Por isso foi simples. Uma conversa sobre aves, pássaros, Mata Atlântica, biodiversidade, preservação.</p>
<p>Eles sabiam que desmatar é ruim e que não se deve queimar a mata. Sabiam que não se pode jogar lixo no Rio. Em uma região onde água mineral aflora das pedras, mas o rio que corre embaixo da janela da escola é poluído, quando se fala em evitar desperdício, imediatamente gritam: “de água”.</p>
<p>Seria mais simples, se os pais não fizessem tudo isso, como vários contaram, com a sinceridade das crianças.</p>
<p>Luciene e Lucas mostraram as fotos e o canto de umas quinze das 119 espécies inventariadas na primeira etapa do inventário. Das mais comuns, das que dependem do fragmento de Mata Atlântica que preservamos para sobreviver, espécies florestais, mais difíceis de ver, das que estão ameaçadas, como a Maracanã.</p>
<p>Eles identificaram várias delas e não só as mais comuns. Todos conheciam, por exemplo, o trinca-ferro. Uma espécie que já foi abundante e, infelizmente, já não ocorre na reserva. Mas quase todos dizem que o pai tem um na gaiola. Em pelo menos um caso, é certo que o pai da menina tem, mesmo, um indivíduo em cativeiro. Faz parte da cultura do lugar, ter trinca-ferros na gaiola. Como faz também <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/deliquencia-pirotecnica/">queimar a mata</a>.</p>
<p>São crianças da roça. Os pais trabalham em fazendas da região, prestam serviços ou são pequenos sitiantes. Ficaram encantadas em saber que aquilo que elas conhecem, que a partezinha do planeta em que moram tem valor. Quando viram a foto do planeta projetada na tela logo gritaram: “a Terra!”</p>
<p>São bem informadas, dadas as condições em que vivem e estudam. Umas são mais arredias que bicho do mato. Outras mais tagarelas que as maritacas. Formam uma rica amostra da biodiversidade brasileira. Todas pobres, todas lindas, todas insaciáveis de saber. Sabem bem mais que seus pais, pelo menos sobre os riscos que corre o planeta e os cuidados que se precisa ter com ele.</p>
<p>Compunham um retrato completo. Um fragmento de Brasil, de esperança e urgência, de riqueza e carência, de perigo por toda parte.</p>
<p>A riqueza da primeira amostra da avifauna da RPPN do Brejo Novo mostrou que a decisão de preservar estava certa. Principalmente por causa de algumas espécies endêmicas que atestam a qualidade da mata. Mas ela é pequena demais para manter e reproduzir tanta diversidade.</p>
<p>Aquelas 80 crianças não são muito diferentes das espécies daquele fragmento de mata. Estão tão ameaçadas quanto o Jacú ou o Maracanã. São lindas como um Tangará dançarino, uma Saíra-douradinha ou um Papa-taoca. Tão frágeis quanto, precisando criticamente da expansão da qualidade de seu território existencial. No caso delas, educação de qualidade, para dar conteúdo àqueles olhares brilhantes de inteligência. As aves precisam de corredores, de mais mata. As crianças, de recursos e oportunidade para poderem voar à altura de suas capacidades. Mata mais densa e madura, para fazerem seu ninhos e terem alimento. Um contexto social e familiar mais denso, para sustentar aqueles sorrisos francos, que muitas vezes se transformam em olhar triste, “pidão”. São todos carentes, belos e simples.</p>
<p>O resultado da primeira etapa do inventário, identificou entre 60% e 70% das espécies existentes e foi muito animador. Mas nada se compara à experiência de levar essa informação àquela escolinha mínima, com o telhado condenado e àquelas crianças. Ouvir um bem treinado “sejam bem vindos à nossa escola.” Obter uma unânime e espontânea reação, ver a inibição se dissipar na alegria de ver sua experiência de vida valorizada. E ao sair, já não ouvimos frases declamadas, mas animados relatos de experiências, fantasias criativas, de crianças com a mente ágil. Falação excitada, até o ônibus escolar chegar.</p>
<p>Simples e importante como deve ser a vida.</p>
<p>Veja também o áudio slide show:</p>
<p><object id="soundslider" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="540" height="470" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="quality" value="high" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="menu" value="false" /><param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /><param name="src" value="http://ecopolitica.com.br/Soundslides/Aves_do_BN/publish_to_web/soundslider.swf?size=1&amp;format=xml&amp;embed_width=540&amp;embed_height=470" /><embed id="soundslider" type="application/x-shockwave-flash" width="540" height="470" src="http://ecopolitica.com.br/Soundslides/Aves_do_BN/publish_to_web/soundslider.swf?size=1&amp;format=xml&amp;embed_width=540&amp;embed_height=470" bgcolor="#FFFFFF" menu="false" allowfullscreen="true" quality="high" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/23/criancas-aves-da-mata-atlantica-preservacao/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>15</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>BP: Crime e Castigo</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/18/bp-crime-e-castigo/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=bp-crime-e-castigo</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/18/bp-crime-e-castigo/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Jun 2010 11:30:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=996</guid>
		<description><![CDATA[O mercado pune a irresponsabilidade da BP, pelo menos temporariamente.
O criminoso desleixo da BP no Golfo do México está sendo duramente punido pelo mercado, como mostra o gráfico abaixo, publicado pelo The Guardian.

Na versão original, ele é interativo e registra cada evento que causou queda no valor das ações da empresa na bolsa. Você pode [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O mercado pune a irresponsabilidade da BP, pelo menos temporariamente.<span id="more-996"></span></p>
<p>O criminoso desleixo da BP no Golfo do México está sendo duramente punido pelo mercado, como mostra o gráfico abaixo, publicado pelo The Guardian.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2010/06/BP-shares.jpg"><img class="size-medium wp-image-995  aligncenter" title="BP shares" src="http://www.ecopolitica.com.br/wp-content/uploads/2010/06/BP-shares-300x175.jpg" alt="" width="300" height="175" /></a></p>
<p>Na versão original, ele é interativo e registra cada evento que causou queda no valor das ações da empresa na bolsa. Você pode ver o gráfico original <a href="http://www.guardian.co.uk/business/interactive/2010/jun/18/bp-shares-deepwater-horizon-oil-spill">aqui</a>.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/18/bp-crime-e-castigo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Deliquência pirotécnica</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/deliquencia-pirotecnica/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=deliquencia-pirotecnica</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/deliquencia-pirotecnica/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 22:39:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=990</guid>
		<description><![CDATA[Mal começou a seca, as queimadas já ameaçam e devastam.
Sérgio Abranches
A temporada de seca ainda nem começou. Na semana passada choveu. Mas quem corre a BR-040 do Rio para Minas, como eu fiz esta tarde, em muitos de seus trechos viaja dentro de uma nuvem de fumaça. A seca mal começou, mas as queimadas já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mal começou a seca, as queimadas já ameaçam e devastam.</p>
<p>Sérgio Abranches<span id="more-990"></span></p>
<p>A temporada de seca ainda nem começou. Na semana passada choveu. Mas quem corre a BR-040 do Rio para Minas, como eu fiz esta tarde, em muitos de seus trechos viaja dentro de uma nuvem de fumaça. A seca mal começou, mas as queimadas já se alastram pelos morros e pelas margens da estrada.</p>
<p>Logo depois de Itaipava, a quinhentos metros do posto de pedágio, a vegetação ardia dos dois lados da estrada. Chegamos ao posto numa nuvem de fumaça. O cheiro intenso de queimado. Durante alguns metros o ar era irrespirável. Daí em diante, o fumo denunciava queimadas em diversos pontos da estrada.</p>
<p>A partir de Ewbank da Câmara, até a entrada de Santos Dumont, havia fogo em toda a margem da rodovia. Onde não havia fogo, restavam brasas. A mata queimada e as cinzas mostravam que já houvera fogo em muitos trechos. Em outras palavras, marcas de vários dias seguidos desse insensato atear fogo em tudo que está seco, sem medir consequências.</p>
<p>Fogo intencional, sempre. Na chegada de Santos Dumont, as chamas traçavam o caminho de uma pessoa ou um pequeno grupo, que foi andando pela estrada, ateando fogo em cada moita ressequida que encontrava. Em vários pontos via-se o fogo se alastrando, já fora de controle. Ao chegar próximo à reserva que mantemos e que está rodeada por um aceiro de vários metros, como proteção contra essa deliquência contumaz, vi que um vizinho que havia roçado a horta no dia anterior fizera uma queimada. Interpelado disse que era fogo controlado. O desenho das chamas mostrava que, se quisesse, já não seria capaz de controlar o fogo, que ia alto, nas asas do vento outonal. Para nossa sorte, um rio separa nossas propriedades.</p>
<p>Essa região de Minas, entre Juiz de Fora e Barbacena, especialmente o trecho entre Ewbank da Câmara e Santos Dumont é reincidente. Toda temporada de seca é uma desolação. Uma amostra persistente da cultura do fogo, desse desvio pirotécnico da personalidade do Brasil rural. Se é que ainda se pode chamar essa região conurbada. O que tem é a mentalidade atrasada.</p>
<p>Mas já vi as pegadas e o trabalho dessa persona deliquente em muitas partes de Minas Gerais, do Pantanal mato-grossense, do Cerrado e da Amazônia.</p>
<p>Vi queimada nos sertões do Curvelo, nos fundos sertões das Gerais, na minha infância e pré-adolescência. Vi na Belém-Brasília, na minha adolescência. Vi em Brasília, devastando o Cerrado do Centro-Oeste, por toda a minha juventude e parte de minha vida adulta. Vi-vejo queimada sempre.</p>
<p>Já ouvi defesas da queimada. Conversa de subdesenvolvido. Aquela prosa sem nexo que tenta transformar a barbárie em sabedoria. Não é. A queimada é um erro, técnico e social.</p>
<p>Volto a citar Monteiro Lobato, a quem nenhum engenheiro agrônomo pode responder, tão técnica é sua literária descrição da queimada:</p>
<blockquote><p>“ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas. As velhas camadas de húmus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralisado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para pior do clima com a agravação crescente das secas… Isto bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar, ninguém soma…”</p></blockquote>
<p>Está em Urupês.</p>
<p>Enquanto tivermos queimadas, teremos educação cívica de menos, respeito de menos pela natureza, desinformação e deseducação afirmados como pseudo conhecimento.</p>
<p>As queimadas, hoje em dia me deixam enlutado. Mas aí, é uma história mais longa e mais triste.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/deliquencia-pirotecnica/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Vazamento mudará economia do petróleo</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/vazamento-mudara-economia-do-petroleo/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=vazamento-mudara-economia-do-petroleo</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/vazamento-mudara-economia-do-petroleo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 14:35:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=982</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Os sinais são claros, embora as ações sejam ainda fracas. O vazamento do Golfo vai afetar de forma durável a economia do petróleo.
Os danos do vazamento como já se sabe são extensos e se propagarão por décadas. Os efeitos econômicos são importantes e também de médio prazo no mínimo: perda de atividade econômica na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Os sinais são claros, embora as ações sejam ainda fracas. O vazamento do Golfo vai afetar de forma durável a economia do petróleo.<span id="more-982"></span></p>
<p>Os danos do vazamento como já se sabe são extensos e se propagarão por décadas. Os efeitos econômicos são importantes e também de médio prazo no mínimo: perda de atividade econômica na região do Golfo; pescadores mergulhando na pobreza, diante do colapso da pesca; receitas do turismo despencando; altos custos de indenizações e pagamentos de seguros.</p>
<p>Mas a própria indústria do petróleo não ficará livre de repercussões de curto, médio e longo prazo em sua economia. Os impactos de curto prazo são claros: a BP perdeu 40% do seu valor de mercado e tem sua sustentabilidade como empresa em dúvida. Nas principais bolsas do mundo, as ações de empresas direta ou indiretamente ligadas à exploração de petróleo offshore viram suas ações caírem muito. Na City de Londres, o estrago foi maior: muitos fundos de investimentos têm participação relevante de papéis da BP em seus portfólios. Perderam muito e não têm muito o que fazer. Se venderem as ações agora, realizam um enorme prejuízo. Se esperarem elas se revalorizarem, assumirão o risco BP por um período ainda mais longo e podem não recuperar todo o valor perdido.</p>
<p>No médio prazo, a principal questão é o valor real dos custos finais de limpeza das águas e costas do Golfo, das reparações por perdas e danos, e das limitações à exploração de petróleo no mar. Especula-se, no momento, diante da elevação da estimativa do volume do vazamento de 35 milhões de barris/dia para 60 milhões de barris/dia, que só a limpeza deverá ultrapassar os US$ 60 milhões. O fundo de US$ 20 bilhões criado por acordo entre o governo Obama e a BP não dará nem para o começo. Alguns analistas falam, hoje, em no mínimo US$ 60 bilhões, para cobrir os custos de limpeza e as indenizações. Mas esse valor pode subir todo dia. Como disse um ambientalista que está envolvido no salvamento da vida silvestre afetada: cada dia é um dia diferente e tem sido impossível prever que sustos novos teremos no dia seguinte. E tudo dependerá, ainda, de quando o vazamento será definitivamente interrompido. O gestor de um fundo britânico, que tem 4% de seus ativos em papéis da BP, diz que carregará o risco BP e espera que “em algum momento até o final deste ano, o vazamento seja estancado”.</p>
<p>As consequências de longo prazo é que são mais importantes e positivas, na sua maioria. A primeira delas, já em curso no EUA, mas em estudo em todo o mundo &#8211; menos no Brasil, diga-se de passagem &#8211; é a reestruturação do marco regulatório para esse tipo de exploração. Tanto as regras, quanto a governança regulatória da exploração no mar (offshore) vão mudar. No Estados Unidos, enquanto o Congresso começa a analisar um novo marco legal, Obama determinou uma moratória de seis meses na exploração no mar e interveio na agência que regula essas atividades, o <a href="http://www.globalwarmingisreal.com/blog/2010/06/16/gulf-oil-spill-and-the-changing-energy-equation/">Minerals Management Service</a>. Demitiu todas as chefias importantes e dividiu a agência em três departamentos. O Bureau of Ocean Energy Management cuidará da exploração de petróleo e gás na plataforma continental (Outer Continental Shell) e do licenciamento de projetos de energia, inclusive renovável; o Bureau of Safety and Environmental Enforcement será responsável pelas ações de comando e controle; e o Office of Natural Resources Revenue coletará os royalties. A Noruega também interrompeu a exploração no Mar do Norte, para reavaliar os riscos e, certamente, adotará novas regras.</p>
<p>A indústria de seguros será forçada a adotar novos procedimentos cautelares no seguro desse tipo de operações. O custo do seguro aumentará com certeza. O setor nem tem ainda noção de quanto esse desastre lhe custará. É bom lembrar que as empresas de seguros e resseguros já estavam muito pressionadas por causa da série de terremotos que aconteceu este ano, alguns no EUA, onde a maior parte das propriedades é segurada. O presidente da Associação de Seguros do Caribe, <a href="http://www.thedailyherald.com/regional/2-news/4796-carib-insurance-conference-concerned-about-bp-oil-spill.html">Desmond Camacho</a>, abriu a 30<sup>a</sup> Conferência de Seguros do Caribe, dizendo que “nós ainda não sabemos o que isso significará para nós e para esta região e certamente todos ao longo da costa serão afetados”. Ele disse, ainda, que em consequência desses eventos “nós estamos vendo que o tom da regulação se tornou muito mais restritivo, muito menos tolerante e demandará muito mais de nós em termos de governança e estruturas apropriadas”, particularmente para evitar uma debacle financeira.</p>
<p>Esse é o tipo do desastre que não cai no esquecimento, porque suas consequências continuarão visíveis e provocarão perdas por anos a fio. A exploração de petróleo em profundidade no mar sofrerá restrições regulatórias e enfrentará cláusulas de precaução, em várias frentes. No médio e longo prazo, aumentarão os desincentivos ao uso de combustíveis fósseis e os incentivos à energia renovável limpa. Os programas de pesquisa e desenvolvimento em novas energias serão acelerados. A adoção de veículos elétricos e híbridos também.</p>
<p>Esse é um evento que acelera uma transição que já está determinada pelas condições físicas decorrentes da mudança climática. Acelera porque afeta o processo político, mais lento, que não tem acompanhado o crescimento das restrições físicas às emissões de gases estufa e à poluição. A adoção de padrões de baixo carbono é um imperativo inarredável. O que se discute é o tempo que isso levará e, em consequência, os seus custos econômicos, climáticos e ambientais.</p>
<p>Ouça também meu comentário na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2010%2Fcolunas%2Fecopolitica_100617&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/17/vazamento-mudara-economia-do-petroleo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Indústria brasileira reclama do custo da energia</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/07/industria-brasileira-reclama-do-custo-da-energia/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=industria-brasileira-reclama-do-custo-da-energia</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/07/industria-brasileira-reclama-do-custo-da-energia/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 18:56:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=966</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
A indústria reclama do alto custo da energia. Mas essa é uma tendência inexorável. Ao invés de olhar para o custo e para o quê o governo pode fazer para reduzi-lo, precisa olhar para o uso e o consumo de energia. A economia brasileira ainda não se deu conta de que a sustentabilidade é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
A indústria reclama do alto custo da energia. Mas essa é uma tendência inexorável. Ao invés de olhar para o custo e para o quê o governo pode fazer para reduzi-lo, precisa olhar para o uso e o consumo de energia.<span id="more-966"></span> A economia brasileira ainda não se deu conta de que a sustentabilidade é um imperativo.</p>
<p>Matéria do Estado de São Paulo mostra representantes da indústria reclamando do aumento no preço da energia elétrica. Parte dessa elevação tem a ver com a eliminação de subsídios na matriz elétrica. Parte tem a ver com impostos. E parte tem a ver com a entrada no sistema de KWh mais caro de termelétricas. No futuro haverá a pressão das hidrelétricas do Norte.</p>
<p>Todo o sistema de subsídio e incentivo do setor elétrico brasileiro está errado. Há um viés contra a auto-geração. Ela devia ser incentivada, desde que com fontes renováveis novas: biogás, eólica, solar.</p>
<p>O ministro das Minas e Energia diz que o KWh de Belo Monte é mais barato do que o KWh das eólicas. Depende de como se calcula esse custo. Se ele considerar as compensações ambientais, a geração efetiva possível, os subsídios do BNDES e o custo proporcional dos linhões necessários para trazer a eletricidade do Xingu para os centros consumidores, dificilmente será verdade. No caso das eólicas, ao invés de criar novas linhas seria necessário apenas adaptar o sistema para receber sua energia.</p>
<p>E mais: o custo da eólica no Brasil é maior do que no resto do mundo por culpa da política energética do governo. Como ela desincentiva seu uso, não há produção doméstica em escala de turbinas. Na China, que incentiva o uso de eólica, já existem 70 fabricantes. O Brasil tem mais dias com vento e o vento sopra mais tempo na mesma direção. Isso reduz o custo e aumenta o fator de geração das eólicas. Não está na comparação de custo. Nem há dados oficiais para isso.</p>
<p>A política energética não leva a sério fontes novas renováveis de energia. Pior, desconsidera a mais limpa e mais barata energia que existe: a energia poupada. O programa de economia de energia, para racionalização do uso, eliminação do desperdício e aumento da eficiência energética, é pífio.</p>
<p>Se a política energética do governo é errada, a postura da indústria é ainda pior. É uma postura sempre reativa. O foco da indústria brasileira está no governo, no BNDES e nas compras das estatais, quando devia estar em sua própria operação. A indústria espera que o governo resolva seus problemas. Demanda favores e subsídios, depois reclama dos altos impostos e do alto gasto público.</p>
<p>Devia ser proativa e olhar para as tendências globais. Se mudasse o foco, veria que: 1. o custo da energia só aumentará, no médio e longo prazo; 2. o carbono terá um preço no mercado global, tributário ou regulatório, não importa; 3. haverá barreiras comerciais aos produtos de alta intensidade de carbono; 4. o Brasil desperdiça oportunidades de ter uma indústria e uma agricultura de baixo carbono, em larga medida por causa da mentalidade empresarial dominante; 5. a sustentabilidade já é um imperativo e nada tem a ver com boa imagem ou filantropia, tem a ver com rentabilidade, market-share, competitividade.</p>
<p>A indústria devia ter um programa agressivo de redução de energia, com metas setoriais próprias, independentemente da regulação governamental. Algumas empresas têm programas bastante ambiciosos de redução do uso de energia e de água. Eles reduzem seus custos, aumentam sua rentabilidade e as tornam mais competitivas.</p>
<p>Ouça, também, meu comentário na CBN:<br />
<iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2010%2Fcolunas%2Fecopolitica_100607&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/06/07/industria-brasileira-reclama-do-custo-da-energia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Uma estratégia auto-destrutiva</title>
		<link>http://www.ecopolitica.com.br/2010/05/31/uma-estrategia-auto-destrutiva/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=uma-estrategia-auto-destrutiva</link>
		<comments>http://www.ecopolitica.com.br/2010/05/31/uma-estrategia-auto-destrutiva/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 31 May 2010 14:27:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[agronegócio]]></category>
		<category><![CDATA[agrotóxico]]></category>
		<category><![CDATA[carne]]></category>
		<category><![CDATA[frigoríficos]]></category>
		<category><![CDATA[supermercados]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.ecopolitica.com.br/?p=942</guid>
		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Agronegócio brasileiro adota as piores práticas sócio-ambientais. Despreza a tendência do mercado global de adotar práticas de sustentabilidade em toda a cadeia de suprimentos. Um projeto economicamente suicida. O Brasil é o maior importador de agrotóxicos banidos no EUA e na União Européia, por razões sanitárias. Esses produtos, muito tóxicos, são muito nocivos à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches<br />
Agronegócio brasileiro adota as piores práticas sócio-ambientais. Despreza a tendência do mercado global de adotar práticas de sustentabilidade em toda a cadeia de suprimentos. Um projeto economicamente suicida.<span id="more-942"></span> O Brasil é o maior importador de agrotóxicos banidos no EUA e na União Européia, por razões sanitárias. Esses produtos, muito tóxicos, são muito nocivos à saúde humana e ao ambiente, especialmente à água.<br />
Em matéria, no último domingo, para o Estado de São Paulo, Lígia Formenti conta que aumenta a importação de produtos proibidos nos países desenvolvidos, como o endossulfam, associado a problemas endócrinos. “Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o País importou 1,84 mil tonelada do produto em 2008. Ano passado, saltou para 2,37 mil toneladas”.</p>
<p>Esses agrotóxicos são de difícil remoção dos produtos em cuja produção são utilizados. Fazem mal à saúde. Envenenam o lençol freático, a terra e os rios. Eles marcam os produtos agrícolas brasileiros como de má qualidade.<br />
Qual o projeto estratégico do agronegócio brasileiro? Adotar as piores práticas e enfrentar barreiras comerciais crescentes?</p>
<p>O agronegócio brasileiro cresceu de forma espetacular. Acompanhei esse desempenho. Cheguei a escrever uma coluna na Veja, mostrando que “vender commodities” era chique, porque nossa agricultura estava se transformando em um negócio de alta tecnologia. Naquela época, prevalecia no Brasil a idéia de que só era bacana exportar produtos da indústria manufatureira, que se dizia tinham mais tecnologia. Uma tese falsa. Na comparação em teor de tecnologia, o setor do agronegócio dá de goleada na indústria.</p>
<p>Mas os avanços na genética, na nutrição e outros ganhos tecnológicos, não foram acompanhados por progressos nas práticas de sustentabilidade e responsabilidade social. O agronegócio brasileiro desmata, convive com práticas ilegais, como trabalho escravo, trabalho degradante, não assume responsabilidade pela cadeia de suprimentos (supply chain). Ao adotar más práticas ambientais e trabalhistas, carimba os produtos como de má qualidade.</p>
<p>Alguns setores começaram a melhorar suas práticas, mas só depois que passaram a enfrentar o risco real e presente de perderem seus melhores mercados externos. Foi o caso da soja, que terminou por fazer a moratória, que reduziu significativamente sua contribuição para o desmatamento ilegal na Amazônia.</p>
<p>Os frigoríficos brasileiros ainda não aprenderam essa lição, mesmo depois de serem advertidos pelos grandes supermercados de que não comprariam mais carne daqueles que não fossem capazes de demonstrar sua origem. Grandes supermercados como o Walmart, o Carrefour e o Pão de Açúcar têm programas de sustentabilidade que olham para a cadeia de suprimentos. E, por essas políticas, cada fornecedor tem que se responsabilizar por seus fornecedores também.</p>
<p>O mesmo acontece com o couro, grandes importadores, como a Nike, a Timberland, a Puma, a Columbia e a Patagônia já disseram que não continuarão a comprar couro brasileiro, se não tiverem garantia de origem, comprovando que não contribuem para o desmatamento da Amazônia</p>
<p>Agora mesmo, o Brasil teve que suspender, em comum acordo com as autoridades de Washington, as vendas de carne para o EUA, nosso maior mercado. Qual a razão? O JBS Friboi exportou para o EUA 40 toneladas de carne processada com teores de Ivermectina muito acima do permitido pelos padrões sanitários, informa Raquel Landim, do Estado de São Paulo. A Ivermectina é um vermífugo utilizado na criação de bovinos, mas que pode ser danoso à saúde humana. Esse frigorífico, que é financiado com subsídio pelo BNDES, também não obedeceu ao compromisso de garantir a origem de sua carne, assumido no acordo com os supermercados, intermediado pelo Greenpeace, para eliminar da cadeia de suprimentos a carne de desmatamento. Aliás, o Greenpeace está também na origem da moratória da soja.</p>
<p>O agronegócio brasileiro tem uma história de sucesso. Somos, hoje um dos maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo. Somos o maior fornecedor do mercado global de carnes, tendo, ao longo dos anos superado grandes e tradicionais produtores como Argentina, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Não fosse o agronegócio brasileiro, nossa balança comercial seria deficitária. É ele que equilibra o sistema de comércio externo brasileiro.</p>
<p>Mas essa história de sucesso tecnológico e econômico tem bases podres, por causa das péssimas práticas sócio-ambientais. A liderança ruralista não representa a atitude dos bons produtores. Representa as piores práticas. Faz isso quando defende mudança no Código Florestal, para reduzir a área de reservas florestais. Diz que não precisa desmatar, mas trabalha politicamente para poder desmatar. Faz pressão sobre o governo, para atrasar a revisão dos agrotóxicos em uso, que tendem a ser banidos. Chama de absurdas as regras elementares de práticas trabalhistas mínimas. Míriam Leitão mostrou, em coluna recente, que o agronegócio tem sido campeão de flagrantes indiscutíveis de trabalho escravo e condições degradantes de trabalho, que lideranças como a senadora Kátia Abreu, nega existirem.</p>
<p>“Ao todo, de 2003 para 2009, foram encontrados 30 mil trabalhadores em condições análogas às da escravidão nas fazendas inspecionadas”, conta Míriam Leitão. E que regras absurdas são essas?</p>
<blockquote><p>“A empresa tem que fornecer água potável para os trabalhadores. Essa é uma das 252 normas do Ministério do Trabalho para as fazendas. Por que escrever uma exigência óbvia? Entre 2003 a 2008, em 451 fazendas ficou constatado que os trabalhadores não tinham acesso à água minimamente aceitável. Há regras que não precisariam ser escritas desde o fim das senzalas.<br />
Exemplos de regras espantosamente básicas: é preciso haver banheiro nos alojamentos; água para lavar o agrotóxico das mãos antes das refeições; os alojamentos têm que ser divididos por sexo; alojamentos de famílias não podem ser coletivos; trabalhador não pode pagar pelo equipamento de trabalho; se sofrer acidente, tem que receber primeiros socorros. Não deveria existir instruções assim tão detalhistas. O normal é que não houvesse. Mas os relatórios dos grupos móveis de fiscalização, que foram a quase 1.800 fazendas desde 2003, mostram que o que deveria ser normal numa sociedade civilizada, nem sempre é oferecido ao trabalhador de certas propriedades rurais”. (Miriam Leitão, na coluna Contra os fatos).</p></blockquote>
<p>Eu estive visitando uma região de produção de soja no cerrado mineiro e os produtores estão desesperados com a baixa disponibilidade de água. A água era abundante e sumiu. Por quê? Porque desmataram tudo, destruíram as matas ciliares, poluíram os mananciais, usaram água de forma abusiva. Agora estão querendo acabar com as áreas protegidas da região, para terem acesso às suas águas.</p>
<p>A liderança do agronegócio, ao optar por defender a banda suja do setor, como se fizesse a defesa geral dessa indústria, está trocando benefícios de curtíssimo prazo por um desastre econômico e comercial de médio prazo. Ao estimular a adoção das piores práticas produtivas e ao negar a sustentabilidade como parte de sua estratégia futura para garantir a continuidade de sua trajetória vitoriosa, está condenando o agronegócio brasileiro à condição de pária na economia global. E está comprometendo a sustentabilidade econômico-financeira do setor na economia brasileira.</p>
<p>Um dos argumentos utilizados para o uso de agrotóxicos comprovadamente nocivos, por exemplo, é de que a lei brasileira não proíbe. É verdade que vivemos um apagão regulatório. Nenhuma agência regulatória está funcionando bem no Brasil: Anvisa, Anatel, Aneel, Ibama. Mas isso não justifica o mau comportamento. O argumento é tosco. Adota-se as melhores práticas porque elas são melhores, não porque o governo manda. Responsabilidade empresarial é uma vantagem privada, não uma determinação do estado. É essa mentalidade atrasada do empresário mediano brasileiro, que vive atrelado ao estado e dependente dos subsídios estatais que atrasa a economia brasileira. Ao invés de fazer lobby para poder continuarem errando, deviam buscar acertar para progredir.</p>
<p>Estamos entrando na era em que a gestão da cadeia de suprimentos vai ser ditada pelo consumidor. A busca da qualidade técnica, social e ambiental dos produtos, de todas as cadeias, é uma tendência inexorável. Quem não acompanhá-la sairá dos bons mercados, ficará nos mercados de baixa qualidade, como fornecedores de baixa qualidade.</p>
<p>O agronegócio brasileiro, as empresas líderes que adotam boas práticas, ao admitir essa liderança atrasada e reacionária, está aceitando riscos que se voltarão contra ele. Os boicotes vão aumentar. Os recalls de produtos brasileiros nos melhores mercados vão se suceder. O Brasil perderá fatias nobres do mercado global de commodities. É esse mesmo o projeto da agricultura brasileira?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.ecopolitica.com.br/2010/05/31/uma-estrategia-auto-destrutiva/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
