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	<title>Ecopolitica &#187; Análise</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
	<lastBuildDate>Wed, 28 Jul 2010 20:14:51 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Lições do vazamento</title>
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		<pubDate>Mon, 03 May 2010 17:49:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[desastres]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
O desenho macabro e sinuoso da mancha de petróleo vazado no Golfo do México e que se espalha pela costa sul do EUA conta uma história de avaliação subestimada do risco real da exploração em águas profundas e má governança desse risco.  É prática geral não contabilizar o risco maior em projetos de perfuração [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>O desenho macabro e sinuoso da mancha de petróleo vazado no Golfo do México e que se espalha pela costa sul do EUA conta uma história de avaliação subestimada do risco real da exploração em águas profundas e má governança desse risco.  É prática geral não contabilizar o risco maior em projetos de perfuração e exploração em águas profundas de danos ambientais e perdas econômicas decorrentes.<span id="more-919"></span></p>
<p>O fato de 14 dias após a explosão da sonda, ocorrida em 20 de abril, o vazamento continuar sem controle revela muito da análise de impacto que a BP fez da operação e do controle de qualidade do equipamento utilizado. Mas também mostra que não existe tecnologia adequada para lidar com esse tipo de vazamento. O desastre ocorre na maior e mais rica economia do mundo, no país mais avançando tecnologicamente e em um projeto de uma grande e avançada empresa. Ela pediu ajuda a suas concorrentes e as poucas sugestões que recebeu foram tópicas. Ninguém sabe como estancar o vazamento naquela profundidade em tempo de evitar um desastre dessas proporções.</p>
<p>O custo ambiental será imenso. A limpeza não é limpa. É um mal menor apenas. Os dispersantes são tóxicos e terão também impacto negativo nos ambientes marítimo e costeiro afetados.</p>
<p>A perdas econômicas serão enormes. As indenizações que a BP pagará provavelmente superarão as que a Exxon pagou no caso do vazamento do Exxon Valdez, no Alaska. O acidente do Exxon Valdez foi o <a href="http://climateprogress.org/2010/05/02/oil-spills-by-the-numbers/">mais caro</a> desastre petrolífero até hoje no EUA. Ele também revelou que o dano ambiental, sempre <a href="http://www.politico.com/news/stories/0510/36649.html">subestimado</a> nas análises de risco, se mantém por décadas a fio.</p>
<p>A primeira lição é que o risco é maior do que as empresas admitem. A segunda é que não existe tecnologia adequada nem para prevenção desse risco, nem para controlar prontamente os danos, menos ainda para estancar o processo em tempo hábil. A terceira é que esses desastres têm consequências de longo prazo. A quarta lição é que esses projetos petrolíferos em águas profundas têm um custo escondido.</p>
<blockquote><p>“O que provavelmente se tornará um dos mais danosos vazamentos da história revela os riscos escondidos de nosso vício por combustíveis fósseis. A verdade é que os combustíveis fósseis são prejudiciais de muitos modos &#8211; para nossa saúde, para o ambiente e para a segurança nacional”. (John Podesta e Joseph Romm &#8211; “Limited Government can, and often does, lead to unlimited pollution and unlimited disasters”, <a href="http://climateprogress.org/2010/05/03/limited-government-unlimited-pollution-bp-oil-disaste/">Climate Progress</a>.)</p></blockquote>
<p>Esse custo não entra em nenhum plano de negócios, dimensionamento financeiro de projetos, análises financeiras ou de riscos operacionais. O custo escondido do risco &#8211; ambiental e econômico &#8211; distorce o apreçamento, principalmente o apreçamento comparado que contrapõe o petróleo a fontes alternativas de energia. Ele não aparece nas equações de preço, nem no poço, nem na bomba. O petróleo é mais caro e mais arriscado do que parece. E se tornou ainda mais caro e de alto risco, à medida que nos movemos da exploração convencional em terra, para a perfuração e exploração no mar, em águas profundas. Os mercados e as companhias de seguro deveriam considerar cuidadosamente essas lições, antes de pular sobre os benefícios puramente presumidos da perfuração futura no pré-sal. Os custos escondidos e os riscos reais serão multiplicados por um fator nada desprezível quando sairmos da exploração em águas profundas, para as explorações no pré-sal.</p>
<blockquote><p>“A única estratégia efetiva é forte supervisão regulatória para evitar desastres no curto prazo e nos livrarmos do petróleo, no longo prazo”.(Podesta e Romm)</p></blockquote>
<p>Em Washington, considerações de segurança ambiental já fizeram o presidente Obama recuar da decisão de permitir perfurações no mar e condicioná-las à segurança. Ele, porém,</p>
<blockquote><p>“fez poucas promessas concretas. Disse que ainda acredita que ‘a produção doméstica de petróleo é uma parte importante de nossa estratégia geral para segurança energética’ mas, completou, ‘precisa ser feita de forma responsável para a segurança de nossos trabalhadores e nosso ambiente’.” (Dave Levitan, <a href="http://solveclimate.com/blog/20100503/will-oil-reach-washington-spills-political-effects">Solve Climate</a>).</p></blockquote>
<p>É pouco provável que um desastre dessa magnitude não tenha efeitos políticos colaterais no longo prazo, no EUA e no resto to mundo.</p>
<p>Ele é também um bom caso para que todos examinem mais a fundo as declarações de sustentabilidade das empresas. A credibilidade dos relatórios de sustentabilidade nunca foi muito alta. A extensão dessa mancha de óleo deveria lembrar a todos que não deveriam tomar as afirmações das empresas e seus relatórios pelo valor de face. Ações de sustentabilidade devem ser reportadas de tal forma que possam ser medidas &#8211; por boas e comprovadas métricas &#8211; e verificáveis.</p>
<p>Ouça também o comentário na rádio CBN: <a href="http://bit.ly/RFzG">http://bit.ly/RFzG</a></p>
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		<title>A tragédia não é o lixão: é a má política</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Apr 2010 15:20:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[clientelismo]]></category>
		<category><![CDATA[lixo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[políticas públicas]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
A tragédia de Niterói é apenas mais uma que não deveria ter ocorrido. Mas ocorreu e outras ocorrerão, diante da omissão da autoridade pública no país. Infelizmente, é apenas mais uma &#8211; e grande &#8211; de uma lista que pode crescer e com número ainda maior de vítimas.Primeiro de tudo é preciso fazer distinções. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>A tragédia de Niterói é apenas mais uma que não deveria ter ocorrido. Mas ocorreu e outras ocorrerão, diante da omissão da autoridade pública no país. Infelizmente, é apenas mais uma &#8211; e grande &#8211; de uma lista que pode crescer e com número ainda maior de vítimas.<span id="more-886"></span>Primeiro de tudo é preciso fazer distinções. Essa tragédia aconteceria sem chuva, em algum momento. Ela era provavelmente iminente e foi apenas precipitada pelas chuvas. Não é, exatamente, uma tragédia humana decorrente de uma anomalia climática: chuvas mais intensas e volumosas que a média. É uma tragédia política. E uma tragédia ambiental.</p>
<p>É resultado de absurdo descuido ambiental e sanitário. Lixões a céu aberto são uma anomalia política. Simplesmente não deveriam existir mais. Lixão regulamentado por prefeituras é lixão. Igualzinho os lixões clandestinos. Eles contaminam o lençol freático, criam riscos graves à saúde pública e emitem metano, poderoso gás de efeito estufa. A única forma adequada de dispor o lixo é em aterros sanitários, depois da separação de todo material reutilizável, reciclável e de alta toxicidade. Aterros tecnicamente bem feitos, com adequada impermeabilização e isolamento e respeito aos limites de carga e segurança.</p>
<p>Seja lixão aterrado, seja aterro sanitário técnico, não é para construir habitações nesse terreno. Ele não tem consistência estrutural. É cediço. Vai ceder com o peso, mais cedo ou mais tarde. Ele já passa por um processo de acomodação permanente por causa de  alterações físico-químicas na massa de lixo. Nesses casos, não pode ser proibido proibir.</p>
<p>O tratamento adequado do lixo cria valor e reduz risco. O mal tratamento do lixo, mata. Não é preciso esperar a aprovação da lei de resíduos sólidos e a implementação do plano nacional de resíduos sólidos. Acabar com lixão é decisão que se impõe por razões morais, sanitárias, humanitárias, ambientais, climáticas e econômicas. O metano pode ser usado para gerar eletricidade e esse é um projeto que se enquadra no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, podendo gerar créditos de carbono. Já há um funcionando assim em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Podem atender ao consumo de eletricidade de perto de 300 mil pessoas cada um.</p>
<p>Para se ter uma idéia do tamanho do problema, o IBGE informa, em seus indicadores de desenvolvimento sustentável, que em 2000, o Brasil coletava 230 mil toneladas de lixo comercial e residencial. Destes, 59,5% iam para lixões. Vários levantamentos, em locais diferentes do país, indicam que menos de 20%, em média, do lixo reutilizável e reciclável, é, de fato, reutilizado e reciclado. A maior parte é inutilizada ao ser enterrada nos lixões a céu aberto. E não imaginem que a situação nos estados mais ricos é melhor. Isso não tem a ver com a riqueza dos estados, tem a ver com a pobreza da política. O índice de tratamento inadequado de lixo em São Paulo, em 2000, era de 57,6% e o do Rio de Janeiro, de 54,1%, muito pouco abaixo da média. Em Minas Gerais, era de 62%, acima da média nacional. Santa Catarina tinha a melhor marca, de 46,3%, ainda assim, escandalosamente alta. O Rio Grande do Sul ficava um pouco abaixo da média, com 50,4% e o Paraná, ligeiramente acima, com 61%. Em resumo, um vício nacional. Isso há 10 anos. Deve ter piorado: certamente aumentou a tonelagem de lixo recolhida e não aumentou proporcionalmente a parcela que é adequadamente disposta.</p>
<p>Precisa apenas bom senso e sentido de responsabilidade social para saber que não se pode construir moradias, ainda mais com processos construtivos precários, em cima de lixões ou em encostas. O que aconteceu no morro do Bumba, em Niterói, é apenas inaceitável. Era um monte de lixo, um lixão desativado em 1986, sobre o qual, como conta <a href="http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/04/09/erros-que-matam-282338.asp">Míriam Leitão</a>, em seu blog, jogaram uma fina camada de terra, para espantar os urubus.</p>
<p>O prefeito, Jorge Silveira (PDT-RJ), em entrevista ao Bom Dia Rio, disse que, no seu primeiro mandato, viu começar a ocupação do Bumba. Ele sabia que tinha sido um lixão, mas havia sido informado que era velho, estava consolidado e que lhe tinham dito que não havia problema. Era óbvio que tinha problema.</p>
<p>Vejam só. Foi complacente com uma ocupação irregular, de um terreno sob o qual havia um lixão. E aceitou a informação de que não havia risco. Certamente não consultou os engenheiros e urbanistas da Universidade Federal Fluminense, que lhe teriam informado que havia risco, sim. No seu segundo mandato, já havia alertas e diagnósticos sobre o risco daquela ocupação. Ela já havia aumentado muito e ele continuou sendo complacente e displicente. No terceiro mandato, assistiu à tragédia humana pela qual foi, em boa parte, responsável. Disse que, nessas situações sempre se procura um culpado e que ele, então aceita, como prefeito ser responsabilizado. Não é porque a imprensa e a opinião pública procuram culpados que ele é responsável. É responsável pelas decisões que tomou e pelas que não tomou.</p>
<p>Perguntado porque não providenciou a relocalização daquela população, o prefeito foi vago. Mas dava para perceber duas idéias: as pessoas não querem sair daqueles lugares e não dá para forçar.</p>
<p>Não querem porque não lhes é oferecida alternativa: moradia digna com serviços urbanos e transporte. Obrigação mínima de qualquer autoridade pública. O governo federal, todos os governos estaduais e as prefeituras das maiores cidades prometem habitação popular nas campanhas e constroem casas populares &#8211; menos do que prometem &#8211; mas sempre constroem. Mas essas casas são distribuídas por critérios políticos. Não porque fazem parte de uma política urbana estratégica, de desabitar áreas de risco e de eliminar moradias precárias. Essas populações, que são as verdadeiramente necessitadas, nunca são atendidas. Não são vítimas de sua própria teimosia. Não são vítimas do ambiente, nem do clima. São vítimas da má política. Eu vi, na televisão, vários depoimentos sobre pessoas que morreram e que estavam se preparando para deixar as casas, porque sabiam do risco. Houve, até, o caso de uma senhora, que deixou sua casa no topo do morro, por causa do risco de desabamento e alugou outra ao pé do morro. Morreu soterrada. Não teve orientação, nem alternativa.</p>
<p>Os problemas urbanos e ambientais do Brasil todos têm solução conhecida. As áreas de risco estão identificadas. Os erros de gestão já foram apontados reiteradamente, pelos especialistas e pela imprensa. Os riscos futuros mais evidentes, relativos à mudança climática, já foram definidos. Não há razão para não agir.</p>
<p>Há muito clientelismo na origem das omissões das autoridades. No Brasil, a política urbana sempre esteve a cargo de políticos clientelistas, em todos os níveis. Sempre fez parte do loteamento político. Por isso o Geddel Vieira Lima era o ministro da área e pode, segundo o Tribunal de Contas da União enviar 64% das verbas para prevenção e preparação para desastres para seu estado, a Bahia. Elas devem pavimentar sua campanha para governador. Se ele tiver chance de vitória, talvez a alocação tenha sido premonitória.</p>
<p>O presidente Lula chamou de irresponsáveis aqueles que disseram ter havido essa concentração indevida de recursos na Bahia e que o Rio só levou 0,9% dessa parte do orçamento. Irresponsável é não verificar, não punir e ainda justificar o uso clientelista de um recurso que já é pouco e se torna cada vez mais estratégico. O TCU foi mais que responsável, cumpriu sua obrigação constitucional. A imprensa que divulgou seu relatório fez o que tem que fazer, tornar público o que se quer esconder.</p>
<p>Há, também, demagogia em parte do movimento social que desconsidera os riscos e defende a permanência da população em áreas inadequadas, como se fosse um direito. Não é. Quando há risco, a ocupação deve ser vedada e isso é da obrigação democrática dos governantes. A população tem direito a boas políticas, não à maquilagem ou a formalização do irregular e do informal, desconsiderando o risco e o bem estar coletivo.</p>
<p>As honrosas e ocasionais exceções de ações urbanas de qualidade e de medidas preventivas que existem, em uma ou outra cidade, servem de ilustração para o que pode ser feito.</p>
<p>Parece complicado, mas é simples. Complicado é aceitar essa degradação absoluta de nossa cultura política, a perda completa da noção de gestão planejada, o abandono total das rotinas de manutenção de equipamentos urbanos críticos e a imprevidência e complacência generalizada das autoridades. O Brasil vive hoje uma extensa patologia política, esta sim muito difícil de curar. Não é bom fingir que nossa democracia vai bem. Ela vai muito mal e isso é um risco para a democracia e para o bem estar coletivo.</p>
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		<title>A prisão de Arruda e as eleições presidenciais</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Feb 2010 19:30:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Aécio]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Prever o que acontecerá numa eleição como essa é impossível. O que se pode é especular educadamente, com base no que se sabe sobre o comportamento do eleitor quando vota para presidente e nas circunstâncias dos partidos dominantes.

Raramente eventos negativos ou positivos, que estão ligados apenas indiretamente aos candidatos, influenciam o voto do eleitor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Prever o que acontecerá numa eleição como essa é impossível. O que se pode é especular educadamente, com base no que se sabe sobre o comportamento do eleitor quando vota para presidente e nas circunstâncias dos partidos dominantes.</p>
<p><span style="font-family: Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: x-small;"><span id="more-856"></span></span></p>
<p>Raramente eventos negativos ou positivos, que estão ligados apenas indiretamente aos candidatos, influenciam o voto do eleitor para presidente. O mensalão do PT, por exemplo, provavelmente não afetará o voto em Dilma Roussef (PT-RS). O caso Arruda dificilmente afetaria a candidatura de José Serra (PSDB-SP), porque ele concorreu à prefeitura de São Paulo em aliança com o DEM paulista e mantém estreita relação com seu ex-vice, agora prefeito, Gilberto Kassab (DEM-SP).</p>
<p>É claro que o melhor caminho para administrar riscos desse tipo é o afastamento do candidato daqueles mais diretamente associados ao escândalo. No caso de Serra, o melhor caminho seria mesmo a candidatura puro sangue, convencendo Aécio Neves a aceitar ser vice na chapa tucana. Aí, eles teriam apenas que lidar que os problemas do próprio PSDB.</p>
<p>O voto para presidente é um voto pessoal. O eleitor vota pensando basicamente nos atributos pessoais que ele vê nos candidatos. O mix de atributos varia muito. Não se pode dizer que um traço particular, simpatia, por exemplo, terá o mesmo peso para todos os candidatos em todas as eleições. Varia muito, depende do conjunto de candidatos e da distribuição desse atributo na percepção dos eleitores entre os candidatos. Usualmente, o fator ambiental mais importante na escolha para presidente é o econômico: o que está acontecendo com a renda real disponível dos eleitores e o que eles acham que cada candidato pode fazer sobre isso. Atributos que sempre tem peso importante, porque reforçam a percepção sobre outras características na cabeça do eleitor são a credibilidade e a autenticidade. Quando estão presentes na receita íntima do eleitor sobre como deve ser um presidente eles aumentam a confiança nas candidaturas que lhes parecem mais confiáveis e autênticas. A psicologia do voto é volúvel e influenciada por fatores distintos, dependendo da própria personalidade do eleitor. Há aqueles que são “cabeça-feita”. Há os que formam opinião em família, outros no trabalho, outros prestando atenção em formadores de opinião que consideram confiáveis e sabidos. Enfim são vários perfis de eleitores que constroem várias imagens diferentes de um mesmo candidato.</p>
<p>É pouco provável, além disso, que PT e PSDB queiram se envolver em uma campanha negativa, de ataques um ao outro sobre corrupção política. Nenhum dos dois tem a vidraça limpa. Se entrarem nesse tipo de disputa, acaba sendo negativo para ambos. Um dos problemas da democracia brasileira no século XXI é que os quatro grandes partidos políticos do país têm sido lenientes com a corrupção dos seus. Isso tem implicações institucionais muito negativas. Para as candidaturas, fará soar meio falso se insistirem demais no seu sentido ético. Só candidaturas totalmente dissociadas de eventos moralmente condenáveis podem colocar a ética política no centro de suas campanhas.</p>
<p>O caso Arruda pode, mais provavelmente, ter impacto negativo genérico no desempenho do DEM. O partido tem sido muito vacilante e leniente nesse episódio. É muito provável que sofra perdas significativas, nas eleições do DF. Embora o Distrito Federal tenha uma política local muito envolvida com máquinas clientelistas, há candidaturas que poderiam ganhar competitividade porque ainda podem fazer uma campanha ressaltando a ética na política. Nas parlamentares, o partido pode ser bastante prejudicado e é difícil imaginar que seja competitivo na disputa para o governo do DF.</p>
<p>Mas, eleição de governador é como eleição de presidente, o voto é pessoal, portanto, tudo que não está diretamente ligado à pessoa do candidato tende a pesar pouco na decisão do eleitor. Às vezes, a popularidade do candidato lhe permite superar, inclusive, a má imagem ética. Aconteceu com Paulo Maluf durante muito tempo em São Paulo. O caso mais famoso foi o de Ademar de Barros, também em São Paulo.</p>
<p>A cada novo evento dessa magnitude, ganha mais força o cenário de uma eleição cheia de surpresas inevitáveis, cheia de incertezas, muito disputada e muito tensa.</p>
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		<title>Obama: Popularidade e polarização</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 13:56:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>
		<category><![CDATA[Obama]]></category>
		<category><![CDATA[popularidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Barack Obama começou o governo com a segunda maior média de aprovação da história recente dos presidentes, empatado com Eisenhower, com 68%, nos dados do Gallup. Só John Kennedy teve aprovação inicial maior, com 72%. Sua média no primeiro ano de governo, porém, é a segunda menor, igual à de Ronald Reagan: 57%. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Barack Obama começou o governo com a segunda maior média de aprovação da história recente dos presidentes, empatado com Eisenhower, com 68%, nos dados do <a href="http://www.gallup.com/poll/113968/Obama-Initial-Approval-Ratings-Historical-Context.aspx">Gallup</a>. Só John Kennedy teve aprovação inicial maior, com 72%. Sua média no primeiro ano de governo, porém, é a segunda menor, igual à de Ronald Reagan: 57%. E sua popularidade corrente está com viés de baixa. Hoje é de apenas 48%.</p>
<p><span id="more-824"></span></p>
<p>Bill Clinton terminou seu primeiro ano de governo com média de 49%, a mais baixa, e, como se sabe, foi reeleito no meio de um escândalo pessoal. Era a economia. Obama fechou a <a href="http://www.gallup.com/poll/politics.aspx">última semana</a> com 50%. Sua última avaliação, média dos últimos <a href="http://www.gallup.com/poll/politics.aspx">três dias</a>, é 48%. Logo, tendência de queda. É também a economia?</p>
<p>Em grande parte sim. Principalmente as taxas de desemprego &#8211; alta &#8211; e de emprego &#8211; baixa. Mas esses números da popularidade de Obama têm por trás uma realidade política que está ausente na maior parte do noticiário e dos comentários políticos. Nunca a política no EUA foi tão polarizada como no governo Obama.</p>
<p>Sua eleição já havia mostrado essa polarização: ele foi eleito por uma maioria esmagadora de Democratas e Independentes e sua votação entre os Republicanos foi baixa. Entre os estados republicanos, Obama só encostou realmente em McCain em Montana e no Missouri. Entre os Democratas, McCain só ficou perto de Obama em Indiana, Carolina do Norte e Flórida.</p>
<p>Mas o que o Gallup mostra é que essa polarização se tornou mais profunda e aguda durante o primeiro ano de governo Obama e pode influenciar as eleições de meio-mandato.</p>
<p>Obama tem 82% de apoio entre os Democratas, 45% entre os Independentes e 18% entre os Republicanos. Considerando-se a <a href="http://www.gallup.com/poll/125345/Obama-Approval-Polarized-First-Year-President.aspx?version=print">média do primeiro ano</a>, os índices são 88% entre os Democratas &#8211; o maior da história desde Eisenhower &#8211; e 23% entre os Republicanos, igual ao de Bill Clinton. É, também, o menor da série, entre presidentes Democratas. Mas Obama tem, disparado, o maior índice de diferença na sua aprovação entre os eleitores dos dois partidos: 65 pontos percentuais separam sua popularidade entre os Democratas de sua popularidade entre os Republicanos. A diferença para Clinton era de 52 pontos e, para Bush, de 45 pontos.</p>
<p>Quando se examina o gráfico completo com as médias de popularidade do primeiro ano, desde Eisenhower, se nota uma tendência à polarização: de Reagan para cá, a diferença média nas avaliações dos presidentes entre os dois partidos foi de 47,8 pontos percentuais. Entre Eisenhower e Carter foi de 28.1 pontos. Bush pai foi, dos cinco últimos presidentes, o que polarizou menos o EUA: 32 pontos, índice igual ao de Eisenhower e menor que o de Nixon (34 pontos). E não foi reeleito. Além disso, há uma diferença marcante entre os Democratas. No primeiro grupo, “pré-Reagan”, os Democratas tinham as menores marcas de polarização: Johnson, 19 pontos; Carter, 27 pontos; e Kennedy, 29 pontos. Todos índices menores que os dos presidentes Republicanos do período. Após Reagan, os Democratas polarizam mais: Obama, 64 pontos; Clinton, 52 pontos; Bush pai 32 pontos e Bush filho, 45 pontos.</p>
<p>A tendência da popularidade de Obama é de aumento da polarização. Entre os Republicanos, a média semanal da aprovação do presidente caiu 26 pontos entre a primeira semana (41%) do primeiro ano de mandato e a última (15%). Entre os Independentes, o desgaste de Obama levou a uma perda de 17 pontos percentuais na popularidade (62% para 45%). Entre os Democratas, porém, Obama perdeu apenas 4 pontos percentuais (88% para 84%).</p>
<p>Se essa polarização, que tem muito a ver com o que Obama representa, se refletir nas parlamentares de meio-mandato, haverá um recrudescimento do voto republicano nos distritos republicanos e do voto democrata nos distritos democratas. Nesse caso, Obama pode manter a maioria na Câmara, embora ela fique menor e perder no Senado.</p>
<p>Nem toda a polarização é personalizada ou se explica pelas características singulares de Obama: negro, mais à esquerda, com uma agenda distinta da dominante no país. Uma forma grosseira de quanto da polarização é específica a Obama e quanto tem a ver com a crescente diferenciação entre Democratas e Republicanos especialmente em temas novos &#8211; como mudança climática &#8211; e velhos &#8211; como raça &#8211; é a diferença entre os índices de polarização dele e de Clinton.</p>
<p>Com base nessa diferença, 88% da polarização teriam base partidária e 22% estariam associados à rejeição pessoal a Obama entre os Republicanos e menor entre os Democratas. Se for assim, as eleições de meio-mandato tenderão a ser polarizadas também e Obama pode ter uma contribuição específica ajudando os Democratas nos distritos mais polarizados e favoráveis ao partido e prejudicando os Democratas nos distritos onde há equivalência de forças entre os dois partidos, porém com viés republicano entre os Independentes.</p>
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		<title>O Erro do IPCC</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 14:12:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Aquecimento global]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
O IPCC reconheceu na última quarta-feira que errou na estimativa sobre o desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Embora o erro não comprometa em nada as conclusões centrais de seus relatórios sobre mudança climática, ele exige do IPCC uma resposta mais extensa, mais firme e mais concreta do que um comunicado em linguagem burocrática tratando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>O IPCC reconheceu na última quarta-feira que errou na estimativa sobre o desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Embora o erro não comprometa em nada as conclusões centrais de seus relatórios sobre mudança climática, ele exige do IPCC uma resposta mais extensa, mais firme e mais concreta do que um comunicado em linguagem burocrática tratando o erro como um assunto menor. Não é.<span id="more-819"></span>As águas provenientes desses glaciares são essenciais para a sobrevivência de milhões de pessoas. Não é exagero dizer que, além da ideologia da “Grande China”, parte da insistência da China em manter o controle sobre o Tibete tem a ver com o fato de que lá estão as principais fontes de água não poluída da região. O destino dos glaciares do Himalaia não é uma questão periférica na discussão sobre os riscos climáticos no século XXI. Está relacionada ao aquecimento global de forma importante e à segurança de abastecimento de água. É uma questão geopolítica essencial.</p>
<p>A revelação desse erro ocorreu poucas semanas após o <a href="http://www.realclimate.org/index.php/archives/2009/11/the-cru-hack/">vazamento dos emails</a> do Headley Center da Unidade de Pesquisa Climatológica da Universidade de East Anglia (CRU), que provocou uma <a href="http://pajamasmedia.com/richardfernandez/2009/11/20/the-cru-hack/">campanha</a> concertada contra a <a href="http://michellemalkin.com/2009/11/20/the-global-warming-scandal-of-the-century/">integridade</a> da ciência do clima por parte dos que <a href="http://blogs.telegraph.co.uk/news/jamesdelingpole/100017393/climategate-the-final-nail-in-the-coffin-of-anthropogenic-global-warming/">negam</a> o aquecimento global. Os “céticos” falaram em conspiração, colusão, destruição de evidência científica.</p>
<p>No caso dos emails, a resposta substantiva dos cientistas não deixou muita dúvida sobre a validade dos procedimentos científicos postos sob suspeição. Os emails não eram evidência de fraude científica. No máximo mostravam que cientistas não têm, necessariamente, bons modos. Mas o vazamento deixou clara a desorganização e falta de cuidado com a documentação e transparência dos bancos de dados e seu tratamento estatístico.</p>
<p>O diretor de mudança climática do Met Office, Richard Betts, <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2009/12/14/caso-dos-emails-roubados-vai-terminar-com-ciencia-mais-transparente/">me disse</a> que o banco de dados do CRU será refeito de forma transparente e independente, para que não reste dúvidas sobre a qualidade da ciência nele baseada. Me disse, também, que os estudos do CRU-Universidade de East Anglia, passarão por completa revisão independente. Cientistas do Reino Unido e de outros países estão envolvidos em um esforço importante para proteger a credibilidade da ciência do clima e dos dados gerados pelo CRU e outras unidades de pesquisa mencionadas nos emails.</p>
<p>É essa a resposta que se espera sobre uma questão tão importante.</p>
<p>O caso do Himalaia é mais grave. Não de trata de vazamento ilegal de emails interpretados fora de contexto. Trata-se de um erro grave incluído no Documento Síntese oficial do IPCC para apoiar o processo de decisão sobre o Protocolo de Kyoto e a Convenção do Clima. Pede mais que uma sintética <a href="http://www.ipcc.ch/pdf/presentations/himalaya-statement-20january2010.pdf"> resposta burocrática</a>. Nela o IPCC diz que:</p>
<blockquote><p>Chegou, contudo, recentemente a nosso conhecimento que um parágrafo na página 938 da contribuição do Grupo de Trabalho II à avaliação se refere a estimativas não substanciadas da taxa de recessão e data de desaparecimento dos glaciares do Himalaia. Na redação do parágrafo em questão, os padrões claros e bem estabelecidos de evidência requeridos pelos procedimentos do IPCC não foram aplicados de forma apropriada.</p></blockquote>
<p>A presidência, vice-presidências e co-presidências do IPCC lamentam a aplicação pobre dos procedimentos do IPCC já firmemente estabelecidos neste caso. Esse episódio demonstra que a qualidade da avaliação depende da adesão absoluta aos padrões do IPCC, incluindo a completa revisão da “qualidade e validade de cada fonte antes de incorporar os resultados da fonte ao Relatório do IPCC”. Nós reafirmamos nosso forte compromisso de assegurar esse nível de desempenho.</p>
<p>Muito pouco. No mínimo deveriam revelar os responsáveis e afastá-los de posições de decisão na redação do próximo relatório, o AR5.</p>
<p>Muitos cientistas ligados ao IPCC,<a href="http://bit.ly/649rQj"> inclusive no Brasil</a>, afirmam, com razão, que a credibilidade do IPCC não fica abalada com o episódio. Realmente, não é suficiente para desacreditar o IPCC. Mas não se deve subestimar a intensificação da campanha contra o IPCC e a ciência do clima. Os “céticos” conseguiram adesões e apoio na opinião pública informada, que haviam perdido, desde o que chamam de “climategate”.</p>
<p>O IPCC não é infalível, da mesma forma que a ciência também não é. Trabalha-se com hipóteses e padrões metodológicos rigorosos de uso de dados e aceitação de evidências. Os cientistas do clima têm que adotar padrões de conduta ainda mais rigorosas porque estão sob fogo adversário.</p>
<p>Mais importante ainda é que a integridade e a credibilidade da ciência do clima são elementos essenciais para dar substância a um acordo global sobre mudança climática, que lance as bases da arquitetura de governança climática global de que se precisa. Tanto as políticas de adaptação, quanto as de mitigação, têm que ser rigorosamente apoiadas na ciência e para isso a ciência tem que ter a confiança absoluta dos governos e da opinião pública.</p>
<p>Esse episódio tem uma lição também para as ONGs que passaram a divulgar trabalhos de pesquisa, sobretudo as globalizadas e de grande porte. Elas não estão isentas do uso dos padrões de verificação científica e avaliação de pares, quando fazem relatórios científicos. Precisam tomar cuidado com o que divulgam, porque ganharam muito peso e influência. São ouvidas e também têm uma reputação a cuidar.</p>
<p>Lendo as matérias na imprensa, fiquei com a impressão de que o relatório do WWF não deixava claro que se tratava de uma opinião em uma reportagem de divulgação científica. Fui checar.</p>
<p>A notícia de que o cientista indiano citado pela revista e pelo WWF havia feito uma “<a href="http://www.timesonline.co.uk/tol/news/environment/article6991177.ece">especulação</a>”, é posterior à publicação de ambos os textos. O reconhecimento do IPCC ocorre após publicação de matéria na <a href="http://www.newscientist.com/article/dn18363-debate-heats-up-over-ipcc-melting-glaciers-claim.html?DCMP=OTC-rss&amp;nsref=online-news">New Scientist</a> indagando como uma afirmação altamente contenciosa pode acabar em um relatório do IPCC.</p>
<p>A informação foi retirada de matéria da <a href="http://www.newscientist.com/article/mg16221893.000-flooded-out.html">New Scientist</a>, que entrevista o cientista indiano Syed Hasnain, sobre um trabalho que seria apresentado à Comissão Internacional sobre Neve e Gelo. Em outras palavras, não se tratava de evidência científica, mas da opinião de um cientista, em uma entrevista para uma reportagem. O <a href="http://www.panda.org/what_we_do/footprint/climate_carbon_energy/climate_deal/publications/asia_pacific.cfm?19092/An-Overview-of-Glaciers-Glacier-Retreat-and-Subsequent-Impacts-in-Nepal-India-and-China">relatório do WWF</a> disse, claramente, que a informação, depois incorporada ao relatório do IPCC, vinha de um artigo da New Scientist.</p>
<blockquote><p>A revista The New Scientist publicou o artigo “Flooded Out &#8211; Retreating Glaciers spell disaster for valley communities” em seu número de 5 de Junho de 1999. Ela citou o professor Syed Hasnain, então presidente do Grupo de Trabalho sobre Glaciologia do Himalaia da Comissão Internacional para a Neve e o Gelo, que disse que a maior parte dos glaciares da região do Himalaia “desaparecerão em 40 anos como resultado do aquecimento global”.</p></blockquote>
<p>É um caso exemplar do que não pode acontecer no trabalho de sistematização da informação científica pelo IPCC. O resultado é uma repercussão muito maior do que o caso justifica.</p>
<p>Mas jornalismo e política obedecem a outros padrões de verificação e uso de informação. Do ponto de vista de ambos esse caso tem relevância. É um alerta aos cientistas do clima sobre os riscos da politização da ciência. Esse encontro entre ciência e política, essencial para o sucesso dos esforços de enfrentamento do desafio climático global, requer muito rigor, precisão e atenção para o fato de que a ciência do clima não ficará mais restrita aos círculos acadêmicos e precisa aprender a ser mais transparente e inteligível.</p>
<p>PS. Lendo matérias adicionais, de jornais da Índia, fiquei sabendo que o cientista indiano citado na matéria da New Scientist, Syed Hasnain, que depois disse que havia feito apenas uma especulação, passou a trabalhar no TERI &#8211; The Energy and Resources Institute, cujo diretor-geral é Rajendra Pachauri, o presidente do IPCC. A opinião do cientista sobre o recesso mais rápido que esperado, publicada no Deccan Herald está reproduzida no site do TERI, <a href="http://www.teriin.org/index.php?option=com_teriinnews&amp;task=details&amp;sid=1100">aqui</a> e <a href="http://www.teriin.org/index.php?option=com_teriinnews&amp;task=details&amp;sid=1091">aqui</a>. Razão maior para uma resposta mais efetiva do IPCC ao episódio.</p>
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		<title>Pense no Haiti, reze pelo Haiti, seja um Haitiano</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Jan 2010 16:51:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[clima]]></category>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Se a história continuar a se repetir no Haiti, o país corre o risco de mergulhar em uma profunda regressão social. Ele já está no limiar do estado da natureza. Um estado no qual as pessoas são movidas por instinto e alimentadas pela dor, pela raiva, pelo desespero e pela desconfiança.
História não é fatalidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Se a história continuar a se repetir no Haiti, o país corre o risco de mergulhar em uma profunda regressão social. Ele já está no limiar do estado da natureza. Um estado no qual as pessoas são movidas por instinto e alimentadas pela dor, pela raiva, pelo desespero e pela desconfiança.<span id="more-817"></span></p>
<p>História não é fatalidade ou destino. É o resultado da interação de forças sociais e fatores naturais. Como alerta <a href="http://www.iacenter.org/haiti/ramsey.htm">Ramsey Clark</a>, “a história do Haiti vai partir seu coração”. Nós brasileiros continuamos cantando a canção dos 80 de Caetano: “pense no Haiti, reze pelo Haiti”&#8230;</p>
<p>A história do Haiti sempre foi um intercurso entre predadores humanos implacáveis e forças naturais brutais. Exploração, isolamento, ocupação, pesadas reparações, furacões, terremotos e tsunamis destruíram recorrentemente o direito do país a um futuro civilizado, desde os tempos coloniais.</p>
<p>Sua população nativa foi dizimada em menos de três décadas desde que Colombo pôs seus pés na Ilha de Hispaniola. Os nativos foram substituídos por escravos sequestrados na África. O Haiti pagou duas vezes um preço impagável por sua Guerra de Independência. A ousadia de negros nunca custou tão caro, em lugar algum. Como Clark escreveu:</p>
<blockquote><p>O Haiti está em ruínas, quase metade de sua população foi perdida. Os escravos africanos do Haiti derrotaram o exército de Napoleão Bonaparte. A guerra de liberação que durou 12 anos destruiu quase todo o sistema de irrigação e o maquinário que, com trabalho escravo, havia criado a colônia mais rica da França e eram a base da economia da ilha.</p></blockquote>
<p>Depois da Independência, em 1804, veio o isolamento. As economias das Américas eram fundadas na escravidão. As européias eram de base colonialista. Nenhuma nação queria legitimar uma ordem nascida da revolta de escravos pela liberdade ou da rebelião de colônias. Os Estados Unidos só reconheceram a república independente depois que a Guerra Civil extirpou de lá o sistema escravocrata, em 1862. A escravidão só foi abolida no Brasil em 1888, 66 anos após sua independência de Portugal.</p>
<p>Os proprietários mais ricos que não deixaram o Haiti após sofrerem pesadas perdas com a destruição das plantações de café, cacau, algodão e tabaco, ou não foram mortos durante da Guerra da Independência, fugiram antes da rendição dos franceses ou saíram junto com as tropas de Napoleão.</p>
<p>O medo do vírus da insurreição negra transformou a “Pérola do Caribe” no pária das Américas. Isolamento foi um preço ainda maior a pagar pela rebelião do que as vidas perdidas e a economia devastada. Ela retirou da ilha empobrecida os meios de sua recuperação de desenvolvimento futuro. Cortou suas conexões com a economia mundial. O EUA só permitia comércio limitado antes do reconhecimento oficial. O Haiti precisava desesperadamente da integração econômica com o resto do mundo. Sua única fonte de receita eram as commodities de exportação (açúcar, café, algodão, cacau e tabaco). Não tinha capital para investir na reconstrução de sua infra-estrutura e na recomposição do capital físico de sua economia, nem conseguia atrair investidores. O acesso ao seu mercado mais tradicional, o francês, só lhe foi aberto após se comprometer a pagar pesadíssima indenização, em grande parte ilegítima, por expropriação de terras e escravos.</p>
<p>Depois do isolamento, veio a ocupação. O EUA ocupou o Haiti por 19 anos, de 1915 a 1934. Quando saiu, o país estava mais pobre do que quando os marines desembarcaram na ilha.</p>
<p>Durante a ocupação, milhares de haitianos desempregados migraram para a República Dominicana em busca de qualquer trabalho. O ditador dominicano Rafael Trujillo comandou uma campanha racista de genocídio contra os haitianos negros. Foram assassinados 40 mil.</p>
<p>Depois dos abusos estrangeiros veio a opressão doméstica brutalizada. Os dois Duvaliers, Papa Doc e Baby Doc, com seus Tonton Macoutes, fundaram um regime criminoso de terror, exploração e corrupção que durou 30 anos. Durante quase todo esse reinado de terror, os dois tiranos tiveram o apoio formal ou informal dos países ocidentais, particularmente do EUA. Ao final só dor e miséria.</p>
<p>Ainda em 2003 o EUA, a União Européia e bancos multilaterais se negavam a <a href="http://www.iacenter.org/haiti/repar-sanct.htm">liberar</a> US$500 milhões em ajuda sob a alegação de que o governo recém eleito de Aristide não se esforçava para fazer um acordo com a oposição que havia boicotado a eleição presidencial. Novamente, a ameaça de sanções e isolamento político contra um Haiti empobrecido e desestabilizado.</p>
<p>O que dizer das forças naturais? O Haiti tem uma localização geográfica de alto risco natural. Quando o risco natural é avaliado considerando-se as deficiências da ilha, o que se tem é um país de alto risco de tragédias humanas.</p>
<p>Os furacões eram desconhecidos para os Europeus que se aventuravam pela primeira vez pelos mares do Caribe. Cristóvão Colombo encontrou o seu primeiro em 1495, perto de Hispaniola, e ficou assustado com sua violência. No período colonial tempestades tropicais e furacões devastaram as plantações em todo o Caribe. As maiores perdas se davam nas plantações de maior valor e que demandavam mais tempo e cuidado para atingir a fase produtiva, como café, algodão, cacau e tabaco. As culturas de cana de açúcar também eram destruídas, mas seu ciclo mais curto de cultivo permitia a retomada da produção mais cedo, com menos investimento. Isso explica, em boa parte, a tendência rumo à monocultura da cana. Também fazia com que os proprietários de fazendas com lavouras de maior valor migrassem, levando consigo o resultado da comercialização da produção e o capital poupado. Daí a redução progressiva do tamanho das propriedades e o empobrecimento das elites agrárias. Uma elite empobrecida, tentando extrair o máximo de resultado de suas terras no menor prazo possível, significava mais exploração, brutalidade, violência e destruição ambiental. Os proprietários não tinham a menor preocupação com o bem-estar dos escravos e da não-elite. Pobreza crescente e destituição resultavam das dificuldades impostas pelo clima à economia local.</p>
<p>Produção extensiva e a busca por locais mais defesos das tormentas levavam ao desmatamento quase total. Hispaniola tinha uma enorme riqueza de biodiversidade quando foi descoberta. Toda essa riqueza foi perdida com o desmatamento. E o desmatamento aumentou a vulnerabilidade da ilha em relação a eventos climáticos extremos.</p>
<p>Em resumo, desde o período colonial, os haitianos são vítimas de um ciclo impiedoso de miséria causado pela interação entre a violência humana, a degradação ambiental e fenômenos naturais extremados.</p>
<p>Desmatamento, falta de serviços adequados de defesa civil e péssima infra-estrutura também ajudam a explicar a <a href="http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/centralamericaandthecaribbean/haiti/6978919/Haiti-earthquake-history-of-natural-disasters-to-hit-the-country.html">história recente de eventos naturais extremos</a> fazendo com que a tragédia humana se repita recorrentemente no Haiti.</p>
<p>Em 1935, uma tempestade matou mais de 2000 pessoas. Em 1946, um terremoto de magnitude 8.1 foi registrado em Hispaniola. Embora seu epicentro tivesse sido na República Dominicana, ele atingiu fortemente o Haiti. Em 1954, o furacão Hazel matou muita gente e destruiu 40% das culturas de café 50% da plantação de cacau. Em 1963, o furacão Flora matou 8000 pessoas. Em 1994, o furacão Gordon devastou 80% das culturas do país. Em 2004, a tempestade tropical Jeanne provocou enormes enchentes e deslizamentos de terra, matando 2500 pessoas e deixando vários milhares desabrigados. Em 2008, o Haiti foi atingido por quatro diferentes furacões &#8211; Fay, Gustav, Hanna e Ike &#8211; no espaço de 30 dias: 800 pessoas morreram e 60% da agricultura do país foram devastados. Cidades inteiras ficaram isoladas e inabitáveis.</p>
<p>“Hoje somos todos haitianos”, Nicolas Kristof (@nickkristof ), colunista do New York Times, tuitou de Nova Iorque. A âncora da CNN Kristie Lu Stout (@klustout) retuitou de Hong Kong e a colunista de O Globo, Míriam Leitão (@MiriamLeitaoCom), re-retuitou do Rio de Janeiro. Mas por quanto tempo ainda o Haiti estará em nossos corações e mentes?</p>
<p>Temo que esqueceremos o Haiti em alguns poucos meses. O país não receberá a ajuda necessária, no valor apropriado para reconstruir suas cidades. Os haitianos não receberão casas melhores e mais seguras. A infra-estrutura não será recuperada, muito menos melhorada. Não se implantará um serviço adequado de prevenção e socorro de desastres. As áreas de risco serão reocupadas e continuarão sem monitoramento.</p>
<p>O melhor cenário, infelizmente pouco provável, seria uma história de sucesso da solidariedade mundial para com o Haiti sem precedentes. O mundo passaria a pensar no Haiti e ele não seria esquecido. Os países lhe dariam de volta, sob a forma de ajuda incondicional e sem preconceitos, parte da riqueza que ele transferiu para países mais ricos, ao longo de sua história. As crianças haitianas, metade da população do país, teriam boa educação e sem preconceito. Educação de qualidade permitiria aos jovens haitianos aproveitar o melhor de sua cultura, adquirir novos conhecimentos e se qualificar para serem bons e ativos cidadãos e liderar seu país rumo a uma vida civilizada em algum momento do século 21.</p>
<p>Termino com a frase completa de Ramsey Clark sobre a história do Haiti.</p>
<blockquote><p>A história do Haiti vai partir seu coração. Ao conhecê-la, os fracos se desesperarão, mas aqueles que se importam se esforçarão para quebrar os elos dessa cadeia de tragédias.</p></blockquote>
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		<title>Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jan 2010 14:33:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
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		<category><![CDATA[eleições]]></category>
		<category><![CDATA[Iraque]]></category>
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		<description><![CDATA[Iraque: Uma eleição conturbada
Sérgio Abranches
A eleição parlamentar no Iraque, a segunda após a nova Constituição, assume relevância pelo impacto que pode ter na popularidade do presidente do EUA, Barack Obama, já abalada pelo desemprego, e nas eleições de meio-mandato, em novembro.
O quadro inicial foi marcado por forte conflito entre os grupos hoje no poder e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Iraque: Uma eleição conturbada</strong></p>
<p>Sérgio Abranches<span id="more-806"></span></p>
<p>A eleição parlamentar no Iraque, a segunda após a nova Constituição, assume relevância pelo impacto que pode ter na popularidade do presidente do EUA, Barack Obama, já abalada pelo desemprego, e nas eleições de meio-mandato, em novembro.</p>
<p>O quadro inicial foi marcado por forte conflito entre os grupos hoje no poder e culminou com o veto pelo vice-presidente Tareq al-Hashemi à lei eleitoral aprovada pelo parlamento. No centro do problema estava ainda o conflito entre curdos e sunitas. Os curdos queriam maior representação no parlamento e acabaram levando: terão mais três cadeiras. Mas os sunitas também saíram beneficiados com o aumento do número total de cadeiras no parlamento.</p>
<p>Um dos problemas subjacentes à eleição é que os alinhamentos partidários são cortados por clivagens sectárias. Houve um importante realinhamento dos sunitas, que estão, agora divididos em três grandes coalizões. O “Acordo Iraquiano”, sua força principal é o Partido Islâmico do Iraque, o maior partido sunita do país, mas tem muitas divisões internas que podem prejudicar o desempenho da coalizão nas eleições. Outra coalizão é o Movimento Nacional Iraquiano, que tem três facções importantes: o Front Iraquiano para o Diálogo Nacional, o segundo maior partido sunita, liderado por Saleh al-Mutlaq; o Partido da Renovação, liderado pelo vice-presidente Tareq al-Hashemi; e o Movimento Nacional do Iraque, liderado pelo ex-primeiro ministro interino no governo que antecedeu as eleições de 2005, Iyad Allawi, um xiita que formou uma coalizão pluralista, na qual os sunitas têm participação importante. A Coalizão pela Lei do Estado, do atual primeiro-ministro Nouri al-Maliki, reúne pequenas facções sunitas e tem confrontado duramente o Movimento Nacional Iraquiano, provocando tensão entre seu governo e os xiitas moderados. A Aliança pela Unidade do Iraque, formada por importantes lideranças políticas sunitas, entre elas o presidente do Parlamento, Abdulghafour Sammurraie, o Ministro da Defesa, Saadoun al-Dulaimi e o presidente dos Conselhos do Despertar do Iraque, um programa inspirado pelo EUA, Ahmed Abu Risha. Mahmoud Mashhadani, importante liderança sunita, que pertence a uma corrente religiosa mais radical do Islamismo, abriu uma dissidência e se afastou dos outros grupos sunitas. Os xiitas estão predominantemente agrupados na Aliança Nacional Iraquiana.</p>
<p>O cenário eleitoral se complicou porque uma comissão do parlamento <a href="http://www.nytimes.com/2010/01/09/world/middleeast/09baghdad.html">negou registro</a> ao Front Iraquiano para o Diálogo Nacional, bloqueando o acesso do líder Saleh al-Mutlaq ao próximo parlamento. Mutlaq tem ampla penetração em províncias predominantemente sunitas, que foram sub-representadas na última eleição parlamentar. Nessa eleições, os sunitas boicotaram a votação, aumentando desproporcionalmente a representação de xiitas e curdos. A proibição é um fator significativo de risco de deslegitimação das eleições. O argumento utilizado para impedir Mutlaq de disputar seria a persistência de relações com antigos militantes do partido Baath, de Sadam Hussein, banido pela atual Constituição, que ele deixou em 1977. É certo que Mutalq cortejava ostensivamente setores ligados ao partido banido. O problema implícito nesse desdobramento é o que fazer com os seguidores do Baath. Eles são numerosos, dominantes em algumas províncias predominantemente sunitas e têm, de alguma forma, que ser incorporados à vida política pós-Sadam Hussein. A decisão ainda precisa ser oficializada pela “Alta Comissão Eleitoral Independente”.</p>
<p>Esse novo alinhamento das forças sunitas tem, segundo os analistas, um lado positivo, porque pode indicar um esforço genuíno para superar o sectarismo e se integrar de forma mais organizada ao processo político. Essa divisão entre grandes coalizões também aumentaria a probabilidade de que os sunitas tenham representação significativa no parlamento, evitando radicalização pós-eleitoral e deslegitimação dos resultados eleitorais.</p>
<p>Mas ela tem, também, um lado negativo. Esse realinhamento e a formação dessas coalizões parecem resultar basicamente de ambições pessoais de lideranças que continuam a dividir fortemente os sunitas do Iraque e não de adesão a programas partidários consistentes. Essas rivalidades pessoais e a recusa da maioria dessas lideranças em cooperar com o Partido Islâmico produzem alianças instáveis e efêmeras e ameaçam as chances de governança estável após as eleições.</p>
<p>Há, porém, analistas mais conservadores empolgados com o que chamam de bem sucedida construção da primeira democracia árabe genuína do Oriente Médio. É duvidoso que isto esteja realmente acontecendo de forma tão positiva assim. Um desses analistas, de um think-tank conservador e que foi muito ligado ao governo Bush, sustenta que esse movimento está, de fato, ocorrendo e o que não está claro é se a administração Obama entende o valor de uma parceria estratégica de longo prazo com um Iraque democrático, para difundir o governo representativo no Oriente Médio. Obviamente, por trás dessa dúvida está a defesa da permanência de tropas no Iraque para estabilizar essa democracia e viabilizar essa aliança de longo prazo. Para esses analistas Obama só veria valor em um bom resultado das eleições para acelerar a saída do EUA do Iraque.</p>
<p>O argumento mais moderado dos defensores da presença continuada no Iraque é do conhecido analista de relações internacionais, Walter Russel Meade. Ele diz que Obama precisa se livrar da “Síndrome de Jimmy Carter” e reconciliar seu “jeffersonianismo” com uma dose maior de “wilsonianismo”. Ele se refere às doutrinas concorrentes de política externa no EUA. Os seguidores de Jefferson &#8211; e ele diz que Carter e Obama estão entre eles &#8211; acreditam que o melhor que os Estados Unidos podem fazer é reduzir o intervencionismo externo e dar bons exemplos de governança democrática em casa. Seria melhor investir em aperfeiçoar a democracia domesticamente e liderar pelo exemplo. Obama, em seu jeffersonianismo acreditaria, ainda, que mesmo maus regimes podem ser cidadãos ordeiros no plano internacional &#8211; uma alusão nada discreta à suspeita de que ele estaria disposto a negociar com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Segundo Meade, Obama deveria seguir mais seus impulsos wilsonianos. Os que seguem o pensamento de Wilson, acreditam que é preciso ter uma política externa global sustentada em um governo forte e com força militar  &#8211; como pensam os seguidores de Hamilton também. Mas, para os wilsonianos, essa política tem um objetivo finalístico claro. O propósito da projeção internacional seria promover a democracia e os direitos humanos como elementos centrais da “grande estratégia americana”. Em outras palavras, ser menos Carter e mais Bush. Meade chega a dizer que, para os wilsonianos, o jeffersonianismo de Obama seria covardia moral.</p>
<p>Daí se pode ter uma boa idéia de como as eleições no dividido Iraque provocam polarizações apaixonadas no EUA. Essas divisões em torno da missão global de Washington e do que fazer no Iraque e no Afeganistão e qual a atitude a adotar com o Irã, provocarão um grande confronto entre republicanos e democratas nas eleições de meio-mandato.</p>
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		<title>Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas &#8211; Reino Unido</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jan 2010 14:30:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sérgio Abranches
Reino Unido: uma eleição sem vencedores?
Até recentemente, a maioria esmagadora dos analistas dizia que os Trabalhistas deixariam o governo este ano, entre março e maio, numa derrota acachapante frente aos Conservadores. Agora, muitos estão adotando uma terceira via de análise: o maior risco é que as eleições sejam inconclusivas. Isto é, não produzam uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sérgio Abranches</p>
<p><strong>Reino Unido: uma eleição sem vencedores?<span id="more-809"></span></strong></p>
<p>Até recentemente, a maioria esmagadora dos analistas dizia que os Trabalhistas deixariam o governo este ano, entre março e maio, numa derrota acachapante frente aos Conservadores. Agora, muitos estão adotando uma terceira via de análise: o maior risco é que as eleições sejam inconclusivas. Isto é, não produzam uma clara maioria no Parlamento. Brown perderia e teria que renunciar, mas os Conservadores não conquistariam a maioria. O resultado seria um novo governo fraco e a necessidade de nova eleição talvez em menos de um ano.</p>
<p>O que leva a essas conclusões? Em primeiro lugar, a diferença entre Gordon Brown e David Cameron, que esteve em dois dígitos na maior parte das pesquisas de opinião no ano passado, caiu agora para um dígito. Um analista descreve esse movimento, no qual Brown parece ressurgir das cinzas, mas ainda abalado, como “o que era para ser uma coroação [de Cameron] se transformou em uma disputa”. De fato, uma das pesquisas mais recentes mostra uma queda de 6 pontos na diferença entre Conservadores e Trabalhistas, entre outubro e janeiro, embora ficando ainda em 11 pontos. A pesquisa ICM-Guardian, mostra uma diferença de 9 pontos entre Conservadores e Trabalhistas, indicando uma queda de 8 pontos em relação à pesquisa anterior.</p>
<p>Em segundo lugar, as pesquisas indicam um descompasso entre a opinião dos eleitores sobre os dois líderes e a opinião sobre os partidos. Para alguns analistas, essa é a questão chave: Cameron tem grande popularidade e transfere parte dela para os Conservadores. Sem Cameron, o partido Conservador não teria força para ganhar. Com ele, talvez não tenha força para governar. Já a popularidade de Brown está em baixa, e ele prejudica o partido Trabalhista, cuja popularidade é maior que a dele. Com Brown, os Trabalhistas não teriam condições de governar, sem Brown poderiam ganhar a maioria e a governabilidade.</p>
<p>Foi exatamente essa impopularidade de Brown que levou dois de seus ministros tentarem derrubá-lo da liderança no final da semana passada. Eles propuseram um voto secreto sobre a permanência de Gordon Brown na liderança do partido, em email aos parlamentares Trabalhistas. A proposta, imediatamente definida como um golpe contra Brown, provocou um dia de drama e crise. O golpe foi revelado às 12:38, durante uma sessão de questões ao primeiro ministro no Parlamento. A primeira reação do gabinete favorável a Brown foi quase imediata: às 12:35 o ministro para Europa, Chris Bryant, disse à BBC que era um ato “impróprio e totalmente errado”. O presidente do partido no Parlamento, Tony Lloyd disse, às 13:36 que um voto secreto seria errado e inconstitucional. As manifestações se sucederam ao longo do dia. Muito poucos e reconhecidamente antagônicos a Brown apoiaram a idéia. A ameaça a Brown estava politicamente superada antes de anoitecer.</p>
<p>Mas o partido permanece inquieto e dividido. Muitos especulavam que o verdadeiro responsável pelo golpe seria o ministro das Relações Exteriores, David Miliband, que segundo observadores e trabalhistas teria demorado a se manifestar. Miliband, falado como candidato à sucessão de Brown na liderança Trabalhista, foi o último ministro importante de Brown a se manifestar, às 18:53, em uma nota em que dizia estar trabalhando junto a Brown e que “apoiava uma campanha pela reeleição de um governo Trabalhista que ele lidera”. Seu irmão, Ed Miliband, ministro da Energia e Mudança Climática, disse à BBC às 17:22 que Brown era o líder certo para os Trabalhistas e para o país.</p>
<p>Os rivais de Brown obviamente se aproveitaram da crise. O Conservador David Cameron aproveitou para denunciar a divisão dos Trabalhistas e a crise no gabinete, sintomas da deterioração da governança. O líder dos Liberal Democratas, Nick Clegg, disse que os Trabalhistas perderam o rumo e provavelmente só resolverão suas diferenças quando já estiverem na oposição.</p>
<p>Com base em uma pesquisa da ComRes, que dá diferença de 10 pontos para os Conservadores (37% x 27% e 20% para os LibDems) e outra do Ipsos-MORI, que dá uma diferença ainda mais apertada, de seis pontos (37% x 31% e 17% para os LibDems), o editor político do The Independent, Andrew Grice, diz que o Reino Unido caminha para um parlamento sem maioria (hung parliament), o que indicaria um governo efêmero e novas eleições em curto prazo. Se nas urnas se repetisse o resultado da pesquisa da ComRes, por causa da natureza do voto majoritário distrital britânico os Tories ficariam a seis cadeiras da maioria, com 320 parlamentares, contra 240 dos Trabalhistas, 58 dos Liberal-Democratas e 14 de outros partidos (320 x 312), diz ele.</p>
<p>Esse é, hoje, claramente, um cenário provável, mais plausível do que uma vitória arrasadora dos Conservadores, hipótese que dominou as análises até o final do ano passado. Mas, como diz um experiente analista da cena política britânica, pesquisa de opinião é uma coisa, voto na urna é outra. Tem pesquisa hoje para provar qualquer ponto, argumenta. O que se deve considerar é que o que parecia impossível, se tornou provável: se houver um alto comparecimento, Gordon Brown pode manter a maioria.</p>
<p>A tentativa de golpe interno terá impacto na opinião pública e deixará sequelas no partido. É preciso ver no que dará. Na opinião pública pode até melhorar a imagem de Brown, que mostrou liderança e firmeza ao debelar a tentativa de golpe.</p>
<p>O que é certo é que a incerteza é o traço dominante desse período pré-eleitoral. Se a economia melhorar no primeiro trimestre, os Trabalhistas podem recuperar o fôlego e passar os Tories. Não é uma trajetória improvável para a economia britânica. Ela pode ter um suspiro de alívio no primeiro trimestre e perder o fôlego mais tarde, ao longo do ano. Por isso a oposição quer eleições já e Brown, aparentemente, planeja convocá-las para o final de março.</p>
<p>Para constituir um governo viável, Cameron teria que liderar uma vitória realmente esmagadora, coisa que já não parece provável. A distância entre Trabalhistas e Conservadores hoje é muito grande, de 157 cadeiras: os Trabalhistas controlam 355 cadeiras, os Conservadores, 198, e os LibDems, 62. Superar essa diferença e adicionar cadeiras suficientes para fazer a maioria corresponderia a um salto maior do que aquele que levou Blair ao poder nas eleições gerais de 1997.</p>
<p>Do ponto de vista do risco, o pior cenário é de um parlamento em impasse, porque produz um governo fraco, em um momento crucial de crise econômica ainda não superada, e um cenário internacional agitado por questões importantes que exigirão liderança clara e governabilidade.</p>
<p>Mas, como se vê por trás de toda a fleuma britânica há uma fogueira de vaidades e ambições o que dá uma dinâmica muito própria e imprevisível à política sucessória.</p>
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		<title>Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas &#8211; Chile</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Jan 2010 13:53:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
				<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
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		<description><![CDATA[Chile: Um duro segundo turno
Sérgio AbranchesA maioria esmagadora dos analistas aponta o milionário Sebastián Piñera como o provável vitorioso do segundo turno das presidenciais chilenas. Um pequeno grupo dá três razões principais para sustentar que o resultado se tornou incerto e que existe a chance de vitória de Eduardo Frei, por uma margem não superior [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Chile: Um duro segundo turno</strong></p>
<p>Sérgio Abranches<span id="more-801"></span>A maioria esmagadora dos analistas aponta o milionário Sebastián Piñera como o provável vitorioso do segundo turno das presidenciais chilenas. Um pequeno grupo dá três razões principais para sustentar que o resultado se tornou incerto e que existe a chance de vitória de Eduardo Frei, por uma margem não superior a 2 pontos percentuais.</p>
<p>A primeira razão é a popularidade pessoal de Michele Bachelet, que, segundo a empresa de pesquisa de opinião Adimark, é um recorde histórico, com uma evolução muito robusta: em setembro de 2008, ela tinha 42% de aprovação, em maio de 2009, alcançou 69%, um recorde em sua gestão. Em junho, novo recorde, chegando a 74%, e, em dezembro, embalada pelas eleições que, entretanto, deram o primeiro lugar ao oposicionista de direita Piñera, chegou aos 81%, melhor resultado jamais alcançado por um presidente chileno na pesquisa Adimark. Sua aprovação pessoal, como ocorre com Lula no Brasil, é melhor que a avaliação de desempenho de seu governo, que tem hoje está em nada desprezíveis 65%.</p>
<p>Uma das razões desse ganho de popularidade da presidente Bachelet e de seu governo é a melhora acentuada das expectativas econômicas. O Índice de Percepção Econômica, IPEC, está em recuperação há dois meses seguidos &#8211; outubro e novembro, o de dezembro ainda não foi divulgado. O sentimento de conforto econômico pessoal corrente está em recuperação, embora ainda baixo. Mas a avaliação do estado atual da economia já está bem acima da média. As expectativas sobre o país para os próximos 12 meses não apenas se recuperaram, como já indicam o fim do pessimismo, e estão também muito acima da média. As expectativas sobre a situação pessoal e familiar futura são ainda melhores. As expectativas sobre queda do desemprego são muito positivas e houve queda acentuada nas expectativas de aumento da inflação.</p>
<p>Como explicar o péssimo resultado do candidato de Bachelet no primeiro turno, no final do ano passado? Eduardo Frei, da Concertación, teve 30% dos votos, contra 44% para Piñera. A explicação é simples: o voto da esquerda se dividiu e a direita tinha um candidato só. A esquerda tinha três nomes, Frei, na centro-esquerda demo-cristã, o candidato independente, o ex-socialista Marco Enríquez Onimami Gomuci, conhecido como ME-O, na faixa mais próxima ao socialismo, que obteve 20%, e o candidato do PC, Jorge Arrate Mac-Niven, que teve 6% dos votos.</p>
<p>A segunda razão pela qual alguns analistas apostam na possibilidade de que a Concertación se mantenha no poder é que consideram que Onimami terminará por dar seu apoio a Frei. Um dos sinais que levam esses analistas a pensar assim é que, quando o cientista político, Patricio Navia, consultor de sua campanha, declarou apoio a Piñera no início da semana, ele disse à imprensa “essa não é minha opção”. Outro sinal, a declaração de apoio a Frei dada ontem pelo deputado Esteban Valenzuela, coordenador da campanha de Onimami. Valenzuela é o primeiro do círculo estreito do candidato independente a declarar apoio a Frei. Seu apoio indicaria avanço nas negociações entre Onimami, Bachelet e Frei. O terceiro sinal seria a declaração de Eduardo Frei de que governará por fora dos partidos. Ela está sendo vista como uma resposta à demanda de Onimami de que se “mude a forma de fazer política na Concertación”.</p>
<p>Também pesa na avaliação daqueles que não dão Freire por batido, o fato de ele ter recebido o apoio ostensivo da Central Única dos Trabalhadores e do Partido Comunista, que obteve 6% dos votos para presidente no primeiro turno.</p>
<p>Finalmente, esses analistas, em franca minoria, indicam a pesquisa Adimark, que mostra empate na avaliação de desempenho da Concertación e da Alianza, que apóia Piñera: 31% a 30%, respectivamente.</p>
<p>Se esse cenário em minoria entre os analistas, de vitória apertada de Frei, não se confirmar, a direita voltará a governar o Chile pelo voto democrático pela primeira vez em 52 anos e poria fim a 20 anos de governo da Concertación. Uma vitória marcada pela presença simbólica na disputa, também pela primeira vez, de um dos ex-presidentes pela Concertación. Frei foi o segundo presidente eleito democraticamente no Chile, governando o país entre 1994 e 2000. O primeiro foi Patrício Alwin.</p>
<p>Um segundo turno saído de disputa com resultados tão divididos como foi o primeiro turno chileno &#8211; a direita em peso votou em Piñera e a esquerda dividida quase ao meio entre dois candidatos &#8211; tende a equilibrar e polarizar rapidamente a disputa. A vitória acaba mesmo se dando por uma pequena vantagem, a ser obtida com os votos volantes bem no centro do espectro ideológico, que podem pender para a direita ou para a esquerda, e dos indeciso, estimados em 9% pelas pesquisas.</p>
<p>Por essa razão tendo a dar peso à opinião dissidente de que o segundo turno está indefinido e existe a possibilidade de uma virada. Basta olhar o resultado. Se todos os votos dados a Onimami forem de esquerda e tenderem para Frei, ele passaria Piñera, ficando com 50% dos votos. O Partido Comunista, que já declarou apoio a Frei, obteve 6% dos votos. É razoável supor que a vasta maioria dos que votaram em Onimami é de eleitores tradicionais da Concertación, principalmente socialistas que não gostam de Frei.</p>
<p>Os votos comunistas tendem a ser muito fiéis. Se o Chile votar de acordo com os alinhamentos ideológicos que sempre marcaram sua política, Piñera enfrentará um segundo turno muito duro, porque já teria conquistado todos os votos da direita. Sua vitória teria que se dar pela conquista de votos de eleitores ideologicamente identificados com os partidos da Concertación. Pelo alinhamento ideológico, Frei é o favorito do segundo turno. Pela tendência, pela rejeição a Frei e pela popularidade, Piñera teria a vantagem.</p>
<p>A vitória de Frei significaria continuidade do projeto da Concertación e os riscos estariam associados à crescente fadiga com uma coalizão há 20 anos poder. No caso de vitória de Piñera, os riscos de polarização radicalizada na sociedade chilena aumentam, os riscos operacionais de governança, ligados à pouca experiência no governo também. O grau de instabilidade política poderia se elevar no Chile. É bom lembrar, que Michelle Bachelet enfrentou momentos difíceis de insatisfação social, que chegaram criar risco concreto de instabilidade política.</p>
<p>Na área ambiental, é difícil avaliar concretamente o que seriam os governos de um e de outro, apenas com base no programa de governo apresentado em campanha. Piñera promete implantar o sistema &#8220;quem polui paga&#8221; e estrutura suas propostas em torno da qualidade do ar e da mudança climática. O programa de Frei tem um quadro de referências menos claro. Ele promete criar uma &#8220;economia verde&#8221;. Ambos põem muita ênfase em economia de energia. Aparentemente, nessa área não haveria muita diferença entre os dois.</p>
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		<title>Golpe pré-eleitoral no Reino Unido</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jan 2010 16:38:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pelo menos na política o Reino Unido anda bastante desunido. Ontem ex-membros do gabinete de Gordon Brown tentaram derrubá-lo da liderança e do governo, por meio de uma manobra para sublevar os Trabalhistas. Aparentemente fracassaram.
Sérgio AbranchesOntem, dois ex-membros do Gabinete, Geoff Hoon e Patricia Hewitt, tentaram derrubar Brown da liderança, propondo voto secreto sobre a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pelo menos na política o Reino Unido anda bastante desunido. Ontem ex-membros do gabinete de Gordon Brown tentaram derrubá-lo da liderança e do governo, por meio de uma manobra para sublevar os Trabalhistas. Aparentemente fracassaram.</p>
<p>Sérgio Abranches<span id="more-798"></span>Ontem, dois ex-membros do Gabinete, Geoff Hoon e Patricia Hewitt, tentaram derrubar Brown da liderança, propondo voto secreto sobre a permanência de Gordon Brown na liderança do partido, em email aos parlamentares Trabalhistas.</p>
<p>A proposta, imediatamente definida como um golpe contra Brown, provocou um dia de <a href="http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/politics/8444684.stm">drama e crise</a>. O golpe foi revelado às 12:38, durante uma sessão de questões ao primeiro ministro no Parlamento. A primeira reação do gabinete favorável a Brown foi quase imediata: às 12:35 o ministro para Europa, Chris Bryant, disse à BBC que era um ato “impróprio e totalmente errado”. O presidente do partido no Parlamento, Tony Lloyd disse, às 13:36 que um voto secreto seria errado e inconstitucional. As manifestações se sucederam ao longo do dia.  Muito poucos e reconhecidamente antagônicos a Brown apoiaram a idéia.</p>
<p>A ameaça a Brown estava politicamente superada antes de anoitecer. Mas o partido permanece inquieto e dividido. Muitos ainda especulam que o verdadeiro responsável pelo golpe seria o ministro das Relações Exteriores, David Miliband, que segundo observadores e trabalhistas teria demorado a se manifestar. Miliband, falado como candidato à sucessão de Brown na liderança Trabalhista, foi o último ministro importante de Brown a se manifestar, às 18:53, em uma nota em que dizia estar trabalhando junto a Brown e que “apoiava uma campanha pela reeleição de um governo Trabalhista que ele lidera”. Seu irmão, Ed Miliband, ministro da Energia e Mudança Climática, disse à BBC às 17:22 que Brown era o líder certo para os Trabalhistas e para o país.</p>
<p>Os rivais de Brown obviamente se aproveitaram da crise. O Conservador David Cameron aproveitou para denunciar a divisão dos Trabalhistas e a crise no gabinete, sintomas da deterioração da governança. O líder dos Liberal Democratas, Nick Clegg, disse que os Trabalhistas perderam o rumo e provavelmente só resolverão suas diferenças quando já estiverem na oposição.</p>
<p>Hoje continuou o jogo de acusações. A Vice-líder Trabalhista, Harriet Harman está sendo apontada como uma das articuladoras do golpe. David Miliband continua a ser acusado de encorajar discretamente o movimento contra o primeiro-ministro. Uma <a href="http://www.globalpost.com/webblog/united-kingdom/new-comres-poll-%E2%80%93-labour-are-divided">pesquisa</a> divulgada hoje mostrou que 60% acham que o Trabalhista é o partido mais dividido. Entretanto, 69% concordam que se Brown renunciasse os Trabalhistas não teriam um candidato mais popular que ele.</p>
<p>Essa tentativa da afastar Brown, que tem menos popularidade que o partido, ao contrário de seu concorrente, David Cameron, mais popular que o Partido Conservador, acontece em um momento muito delicado da política britânica. Brown reduziu sua desvantagem em relação aos conservadores de dois dígitos para um, de uma média de 18 pontos para 8 pontos. Se economia recuperar um pouco e houver alto comparecimento às urnas, ele pode manter a maioria, uma hipótese na qual ninguém apostava até o final do ano passado. A oposição quer convocação imediata das eleições. Brown aparentemente pretendia convocá-las para o final do trimestre, quando provavelmente estaria em melhor posição. Agora, é preciso ver qual será a reação dos eleitores a essas divisões agudas no Trabalhismo. Por baixo da fleuma britânica há uma fogueira de vaidades e ambições. Lá, a política nunca é monótona, nem monotemática.</p>
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