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	<title>Ecopolitica &#187; Análise</title>
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	<description>Política Mudança Climática Século XXI</description>
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		<title>Agenda proposta para Rio+20 é pouco ambiciosa e omite a mudança climática</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 13:01:38 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
Rascunho da Agenda para a Rio+20 divulgado esta semana, que será discutido na ONU, em Nova York, entre 25 e 27 de janeiro, é pouco específico, não contém metas objetivas, quantificadas e com prazos e não aborda o desafio da sustentabilidade de forma coerente. A mudança climática está ausente do documento, apesar de ser [...]]]></description>
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<p>Sérgio Abranches</p>
<p>Rascunho da Agenda para a Rio+20 divulgado esta semana, que será discutido na ONU, em Nova York, entre 25 e 27 de janeiro, é pouco específico, não contém metas objetivas, quantificadas e com prazos e não aborda o desafio da sustentabilidade de forma coerente. A mudança climática está ausente do documento, apesar de ser o desafio central de qualquer programa de desenvolvimento sustentável neste século. A razão fundamental a justificar a transição para uma economia verde, de baixo carbono, é a mudança climática. Ao não fazer essa conexão crítica, o documento perde coerência e consistência científica.<span id="more-3235"></span></p>
<p>A única referência à mudança climática diz que “a insegurança alimentar, a mudança climática e a perda de biodiversidade afetaram negativamente os ganhos do desenvolvimento”. O documento reconhece, também, que “novas evidências assinalam a gravidade dos desafios que enfrentamos”. Muito pouco para uma agenda para a sustentabilidade global que tem como um dos temas centrais a economia verde.</p>
<p>Essa omissão é resultado do esforço do governo brasileiro em desvincular a agenda da Rio+20 da agenda climática global. Como as conversações para montar a cúpula do Rio se deram simultaneamente às difíceis reuniões preparatórias para a COP17, que ocorreria em Durban, no final de 2011, temia-se que o impasse que então parecia provável acontecer na África do Sul levasse à transferência das negociações para a Rio+20. Nesse caso, a agenda do Rio terminaria dominada pelas negociações do clima, que dificilmente teriam desfecho muito bom, e ameaçariam fazer da Rio+20 um fiasco. A preocupação fazia sentido e era desejável que a Rio+20 não se tornasse um prolongamento da COP17. Mas a diplomacia brasileira exagerou na profilaxia, desfazendo nexos políticos, científicos e históricos indissolúveis.</p>
<p>A Rio 92 está indissoluvelmente ligada à política global sobre mudança climática. Dela nasceram todas as instituições da política global do clima: a Convenção do Clima, o IPCC &#8211; Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, que reúne a evidência científica disponível sobre os riscos do aquecimento global, o Protocolo de Quioto e as diretrizes para formulação de um novo acordo global mais ambicioso e inclusivo sobre mudança climática. Tudo começou a tomar forma a partir da Rio 92, que iniciou um processo de negociação que se estende até os dias de hoje e se prolongará por pelo menos mais uma década.</p>
<p>Não faz sentido discutir desenvolvimento sustentável, economia verde, segurança alimentar e fim da pobreza sem considerar a mudança climática como o desafio central, que articula o processo de mudança rumo à economia verde de baixo carbono. O zelo diplomático dissipou a lógica e a consistência técnica da Rio+20. Agora, os diplomatas terão que mostrar competência para restaurar essa lógica indispensável, embora preservando a autonomia da agenda da Rio+20. A COP17 teve desfecho melhor que o esperado, embora aquém do necessário. Mas nada deixou para ser negociado este ano no Rio. Ela definiu um calendário claro para que se chegue a um novo acordo até 2020. O perigo de contaminação passou e é perfeitamente possível restaurar a conexão entre mudança climática e desenvolvimento sustentável na agenda da Rio+20.</p>
<p>Para que promover a transição para uma economia verde, de baixo carbono, se não para promover reduções ambiciosas de emissões de gases estufa e mitigar a mudança climática que já contratamos e continuamos a contratar para as próximas décadas? Como o próprio documento reconhece ao fazer referência de passagem à mudança climática, desconectada de todos os seus outros parágrafos, ela já nos afeta negativamente. E mais. É a causa principal da insegurança alimentar nos últimos 10 anos e, também, uma das causas das perdas de biodiversidade. Isso o documento não diz.</p>
<p>A proposta de resolução reconhece que apesar dos esforços de governos e entidades não-governamentais em todos os países “o desenvolvimento sustentável continua sendo uma meta distante e há ainda importantes barreiras e falhas sistêmicas de implementação das metas acordadas internacionalmente”. O texto, que passará por negociações adicionais na ONU, em Nova York, no final do mês, e ainda será intensamente negociado até chegar à forma final no Rio, reitera o apoio dos chefes de governo e estado a 10 documentos oficiais adotados em outras cúpulas multilaterais. Nenhum deles teve seus objetivos, metas e propósitos realizados a contento. Uma boa medida das limitações desses instrumentos de governança global.</p>
<p>O documento oferece como opção, ainda não decidida, a promoção do Conselho de Desenvolvimento Sustentável e do Programa de Meio Ambiente &#8211; Pnuma na hierarquia da ONU. Há a hipótese, mais fraca, de “fortalecimento” dos dois. Vários países defendem a criação de uma nova agência, com mais poderes e mais bem aparelhada.</p>
<p>Com relação à economia verde, desvinculada do desafio da mudança climática, o texto afirma que a economia verde pode contribuir para que se alcance metas fundamentais de desenvolvimento sustentável e bem-estar coletivo.</p>
<p>“Estamos convencidos que a economia verde, no contexto do desenvolvimento sustentável deve contribuir para alcançar metas fundamentais &#8211; em particular  as prioridades de erradicação da pobreza, segurança alimentar, gestão racional da água, acesso universal a serviços modernos de energia, cidades sustentáveis, gestão dos oceanos e melhorar a resiliência e a prontidão em relação a desastres, como também saúde pública, desenvolvimento de recursos humanos e crescimento sustentado, inclusivo e equitativo que gere emprego.”</p>
<p>O documento ainda sustenta que a economia verde pode proteger o ambiente e fundar uma economia de baixo carbono.</p>
<p>“Nós vemos a economia verde como meio para realizar o desenvolvimento sustentável, que deve continuar sendo nosso objetivo maior. Nós reconhecemos que a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza deveria proteger e melhorar a base de recursos naturais, aumentar a eficiência no uso de recursos, promover padrões de consumo e produção sustentável e encaminhar o mundo rumo ao desenvolvimento de baixo carbono.”</p>
<p>A insistência da diplomacia brasileira em desvincular a agenda da Rio+20 da agenda da mudança climática produziu uma proposta sem lógica e mal articulada. Ainda há tempo de restaurar os fundamentos científicos que justificam a busca de uma sociedade de baixo carbono e a coerência perdida na agenda da sustentabilidade global.</p>
<p>Meu comentário na CBN:<br />
<iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2012/colunas/ecopolitica_120111&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>O risco climático é real e presente dizem os cientistas do IPCC</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 14:16:11 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
O número de dias e noites quentes aumentou e o número de dias e noites frias diminuiu por toda parte, em escala global. Na maioria das regiões do planeta para as quais há dados suficientes, mas não em todas, observa-se que o número e a duração das ondas de calor aumentaram. Houve aumento estatisticamente [...]]]></description>
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		</div>
<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>O número de dias e noites quentes aumentou e o número de dias e noites frias diminuiu por toda parte, em escala global. Na maioria das regiões do planeta para as quais há dados suficientes, mas não em todas, observa-se que o número e a duração das ondas de calor aumentaram. Houve aumento estatisticamente significante do número de chuvas pesadas em algumas regiões do mundo e é provável que a frequência de chuvas torrenciais como uma proporção do total de chuvas aumente ao longo do século em várias áreas do globo. As velocidades médias máximas dos ciclones tropicais, a intensidade e tamanho dos furacões, tufões e ciclones também devem aumentar, embora seu número tenda a ficar mais ou menos constante.<span id="more-2877"></span></p>
<p>Estudos analisados pelo IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da ONU, baseados em evidências de observações coletadas desde 1950, registraram essas e outras mudanças no clima e no tempo da Terra. Estão no Sumário Executivo do Relatório Especial sobre Gerenciamento de Riscos de Eventos Extremos e Desastres para Promover a Adaptação à Mudança Climática (Special Report on Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance Climate Change Adaptation &#8211; <a href="http://ipcc-wg2.gov/SREX/">SREX</a>) que o IPCC tornou público no final da semana passada.</p>
<p>Esses estudos detectaram além de mais calor diário e noturno e chuvas intensas, aumento das secas e de águas costeiras extremamente altas por causa do aumento médio do nível do mar. Algumas regiões do mundo têm experimentado secas mais intensas e mais longas. Esse fato está mais bem documentado no sul da Europa e na África Ocidental. Na parte central da América do Norte e no noroeste da Austrália, os dados indicam secas menos intensas ou menos extensas.</p>
<p>Essas e outras conclusões estão no documento. Mas precisam ser resgatadas do emaranhado de precauções que as cercam por todos os lados. Parte da precaução é justificada, parte é insegurança, parte é determinada por fatores estranhos ao trabalho científico.</p>
<p>O relatório, com todas as precauções, diz que “um clima em mudança leva a alterações na frequência, intensidade, extensão territorial e duração de eventos climáticos extremos e podem resultar em eventos climáticos nunca antes experimentados”.</p>
<p>Os cientistas reunidos pela ONU, no quadro da Convenção do Clima (UNFCCC), alertam para o fato de que essa elevação do risco de desastres associados à mudança climática deve ser incorporada aos planos e políticas públicas de todos os países. Ações de mitigação (redução de emissões de gases estufa) e adaptação à mudança climática já em curso podem ser complementares e contribuir, em conjunto, para reduzir os riscos. Os cientistas chamam atenção para o fato de que políticas governamentais e estratégias de desenvolvimento têm papel crítico na determinação do risco de desastres, que pode aumentar por causa das falhas de políticas e de insuficiências no processo de desenvolvimento.</p>
<p>Degradação ambiental, desmatamento, ocupação inadequada das costas, urbanização rápida e sem planejamento em áreas de risco, falhas de governança e a escassez de oportunidades para os mais pobres podem elevar fortemente a probabilidade de que eventos climáticos extremos se transformem em desastres. A vulnerabilidade das populações está diretamente associada às desigualdades entre países e dentro dos países. “As desigualdades influenciam a capacidade local de enfrentar e se adaptar e impõem desafios adicionais de gestão de risco de desastres e adaptação à mudança climática do plano local ao nacional”, diz o relatório.</p>
<p>Os cientistas recomendam, também, que a recuperação e reconstrução pós-desastres sejam usadas como oportunidades para reduzir o risco climático e aumentar a capacidade de adaptação.</p>
<p>A ênfase na adaptação, em todo o relatório, deixa claro que já estamos experimentando mudança climática e ela tem contribuído para incrementar a incidência de eventos climáticos extremos. Indica ainda que um aumento adicional desses eventos já é inevitável. O que se pode evitar é o agravamento até um ponto em que a mudança climática se torne uma tragédia global.</p>
<p>Os eventos extremos que já ocorrem se distribuem desigualmente pelo planeta. Os mais vulneráveis a esses eventos são os países mais pobres e as populações mais pobres dentro de países com maior desenvolvimento ou já desenvolvidos. Me lembrou uma frase do escritor de ficção científica, William Gibson, em uma entrevista na qual lhe pedem para falar sobre o futuro. Ele disse “o futuro já chegou, ele só está mal distribuído”. O que o IPCC está dizendo é isso: a mudança climática já chegou e ela está mal distribuída. Os riscos climáticos são presentes e reais e estão mal distribuídos.</p>
<p>Pelo título do relatório já se pode ter uma ideia de como seu texto é inóspito. De fato, o relatório é quase ilegível tantas são as precauções adotadas, a cada frase, para mostrar que não há certezas absolutas, em vários casos os dados são ainda insuficientes para grandes conclusões e para algumas áreas faltam estudos mais confiáveis. Tudo isso poderia ser resumido em alguns parágrafos de precaução e o texto consolidando evidências, hipóteses e conclusões escrito em texto corrido e legível para o público em geral. Afinal, as conclusões dos cientistas interessam a todos, deveriam servir para que as comunidades pressionem seus governos para adotarem medidas apropriadas e ajustem seus comportamentos a esse quadro de maior risco.</p>
<p>Mas o IPCC tem duas limitações severas. Primeiro, seus relatórios têm que passar pelo crivo político dos países que são partes na Convenção do Clima e é grande a pressão para tornar suas conclusões mais convenientes do ponto de vista político. As ambiguidades que a política insere na versão para “formuladores de políticas” podem, entretanto, ser corrigidas no relatório completo voltado para cientistas e técnicos. Usualmente, os textos para o público especializado são mais completos e menos ambíguos, embora continuem a padecer de linguagem científica muitas vezes desnecessariamente tortuosa.</p>
<p>A segunda limitação é mais abrangente. O IPCC se tornou o alvo de “negacionistas”, aqueles que negam a ciência do clima e a hipótese de que a mudança climática resulta da ação humana. São também chamados de “céticos”, mas é uma denominação imprópria. O ceticismo é um atributo intrínseco da ciência. A ciência tem como regra de ouro duvidar de suas hipóteses e tentar rejeitá-las.</p>
<p>Como a imprensa abrigou, durante muito tempo &#8211; e os setores mais conservadores da mídia continuam a abrigar &#8211; essas dúvidas sobre a qualidade da ciência climática, o IPCC está na berlinda. Cada afirmação mais direta é prontamente contestada. Os erros são buscados com lupa.</p>
<p>Essa atenção crítica é saudável. O problema é que parte dela não é orientada pelo método científico, nem pela investigação apurada, mas por atitudes ideológicas predeterminadas e largamente imutáveis. Quando o ceticismo deriva de legítima e necessária dúvida científica, ele se resolve no próprio exercício da ciência.</p>
<p>Foi o que aconteceu com o projeto Berkeley Temperatura da Superfície da Terra (<a href="http://berkeleyearth.org/">Berkeley Earth Surface Temperature</a> &#8211; BEST). Ele reconheceu que as tendências de aquecimento global são exatamente aquelas apontadas pelo IPCC, pela NASA e NOOA e pelo Hadley CRU da universidade britânica de East Anglia. Este último foi objeto de acesa controvérsia, a partir da divulgação de emails surrupiados de seus computadores. Analisei esse escândalo em meu livro <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22647269&amp;sid=122110181131121387701727567">Copenhague Antes e Depois</a>. O BEST, como é conhecido, foi criado por Richard Muller, um “negacionista” com boa reputação acadêmica, e financiado em grande parte pela Koch Foundation, uma fundação ligada à indústria de petróleo e que tem financiado generosamente blogs, sites e estudos voltados para a negação da ciência do clima e da mudança climática. Teoria da conspiração à parte, a Koch Foundation tem dado muito dinheiro a propagandistas conservadores da causa anti-ciência do clima, nem sempre cientificamente qualificados. No caso do estudo de Berkeley, o financiamento foi para um projeto respeitável.</p>
<p>Mas esse assédio dos negacionistas e a atenção da mídia, nem sempre versada nos temas da ciência, marcou os textos do IPCC por extrema precaução. Não há uma frase substantiva que não estejam intercaladas por condicionantes relativos à base de dados, à precisão das conclusões, ao escopo e alcance das afirmações. Quem lê o texto, sem atenção para o contexto de autolimitação por fatores ligados à dinâmica interna do IPCC e a controles externos, perde a noção da relevância das conclusões. Elas são relevantes, apontam para riscos reais e concretos e deveriam ser levadas em consideração.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Comentei o relatório na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_111121&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>Brasileiros de bem com a vida mas preocupados com situação atual</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Oct 2011 18:58:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
Brasileiros estão muito satisfeitos com a vida, mas descontentes com a situação atual. A revista Época publicou em sua edição 700 pesquisa sobre a satisfação dos brasileiros com suas vidas, conduzida pela MCI, entre 11 e 14 de setembro. A sondagem abordou vários pontos e repetiu questões de pesquisa similar realizada em 1998.
Eu estava [...]]]></description>
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			</a>
		</div>
<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>Brasileiros estão muito satisfeitos com a vida, mas descontentes com a situação atual. A revista Época publicou em sua edição 700 pesquisa sobre a satisfação dos brasileiros com suas vidas, conduzida pela MCI, entre 11 e 14 de setembro. A sondagem abordou vários pontos e repetiu questões de pesquisa similar realizada em 1998.<span id="more-2837"></span></p>
<p>Eu estava em viagem pelo EUA, quando a pesquisa saiu e só agora, pondo a leitura em dia, pude olhar os números com atenção. Um ponto chamou minha atenção: os brasileiros têm visão mais positiva de sua mobilidade, que de sua situação presente e têm expectativas positivas para o futuro de seus filhos.</p>
<p>Explico. Há dois tipos de satisfação usualmente medidos por sociólogos ou analistas do sentimento dos consumidores. Uma é a que poderíamos chamar de estrutural. Tem a ver com a mobilidade social e é captada pela pergunta: “sua vida, hoje, é melhor, igual ou pior que a de seus pais?” Outra é conjuntural e tem a ver com a percepção da situação econômica corrente e com a renda atual das famílias.</p>
<p>À comparação com seus pais, 44% dos brasileiros responderam que estavam melhor, em 1998, e 73%, em 2011. Em 1998, proporção igual achava que estava pior que seus pais. Significa que hoje a maioria absoluta dos brasileiros se vê em uma situação de vida superior à dos pais. Tem a ver, claro com o crescimento das classes médias propiciada pela estabilidade da moeda e subsequente elevação da renda.</p>
<p>O ideal é que a pergunta pedisse especificamente que avaliassem sua posição em relação a seus pais quando tinham a mesma idade que eles hoje. Mas há evidências, desde pelo menos os anos 1970, de que a mobilidade entre gerações no Brasil é realmente elevada. Essa satisfação “estrutural”, gerada pela percepção de ascensão social, determina grande tolerância das pessoas com os dissabores do dia a dia, as crises e os aspectos negativos da conjuntura, que afetam suas vidas, expectativas e percepções.</p>
<p>A constatação de que se moveram para um andar social superior à de seus pais torna as pessoas também mais otimistas com a mobilidade futura, de seus filhos. De fato, a pesquisa mostra que, em 1998, 55% achavam que os filhos estariam melhores que eles no futuro e, em 2011, essa proporção subiu para 70%.</p>
<p>Quando convidados a olhar para o presente, para medir a satisfação corrente, e conjunturalmente variável, os brasileiros se mostram bem menos positivos. Em 1998, um ano de crise, 11% avaliavam a situação econômica do Brasil como ótima ou boa. Em 2011, um ano de bom desempenho da economia, mas com a inflação em alta, 29% acham a situação ótima ou boa. Em 1998, 88% achavam que a situação econômica do país ia de regular a ruim/péssima e, em 2011, 70% acham a mesma coisa.</p>
<p>Em 1998, ano de inflação baixa, embora de crise grave, que desembocaria no colapso cambial de janeiro de 1999, 49% respondiam “sim”, que seus rendimentos eram suficientes para cobrir todas as despesas do mês e 49% diziam que “não” eram suficientes. Em 2011, ano de inflação em alta, consumo estimulado e aquecido, 70% dizem que seus rendimentos “não” cobrem todas as suas despesas e apenas 29% dizem que “sim” dão para cobrir todas as despesas. Essa insatisfação conjuntural tende a desgastar o apoio social ao governo e a popularidade presidencial.</p>
<p>Essas diferenças de percepção e satisfação tendem a influenciar comportamentos relativamente contraditórios: de tolerância e relativa passividade em relação aos problemas do país e aos dissabores que vivemos, e de descontentamento crescente com o desempenho do governo. A tolerância torna difícil imaginar que um movimento como o “occupy Wall Street” consiga mobilizar a grande massa. A queda da popularidade do governo torna mais fácil para a oposição conquistar votos e adeptos. Mas para isso era preciso que a oposição tivesse liderança e ideias.</p>
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		<title>Reunião no Panamá tentar salvar COP17</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 15:51:15 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
Começou no sábado, no Panamá, a reunião preparatória para a COP17, o encontro das partes da Convenção do Clima e do Protocolo de Quioto (MOP-7). É a última chance oficial que os negociadores terão para fechar um acordo em torno de rascunhos viáveis, para garantir algum sucesso em Durban, no início de dezembro. A [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>Começou no sábado, no Panamá, a reunião preparatória para a COP17, o encontro das partes da Convenção do Clima e do Protocolo de Quioto (MOP-7). É a última chance oficial que os negociadores terão para fechar um acordo em torno de rascunhos viáveis, para garantir algum sucesso em Durban, no início de dezembro. A reunião termina no próximo dia 7, sexta-feira. O encontro oficial começa no dia 27 de novembro, em Durban, na África do Sul.<span id="more-2804"></span></p>
<p>É muito pequena a probabilidade de que haja realmente avanços significativos no Panamá e que, em Durban, se resolvam os impasses que se agravaram depois da reunião de Cancún, a COP16, no ano passado. Em Cancún, parecia que, com a restauração da confiança entre os principais negociadores, perdida nos descaminhos de Copenhague, as negociações futuras seriam mais frutíferas. Ninguém realmente alimenta esperanças de que  um acordo definitivo seja possível em Durban, no meio de uma crise econômico-financeira que ameaça seriamente as economias dos países desenvolvidos e põe em cheque a resiliência das economias emergentes, como as da China, Brasil e Índia. Mas havia alguma esperança de que não se retornasse à situação anterior, de vetos recíprocos. Quadro que ameaçava a própria credibilidade da UNFCCC como instrumento multilateral para negociação de um futuro acordo global sobre o clima. Um acordo legal que abranja todos os grandes emissores e contemple metas efetivas e suficientes de redução das emissões de gases estufa.</p>
<p>Infelizmente, foi o que aconteceu. Desde as primeiras reuniões preparatórias para a COP17, o fosso entre os países em desenvolvimento, aí incluídas as grandes economias emergentes, e os países desenvolvidos se ampliou. De um lado, os países em desenvolvimento voltaram a impor um segundo período de compromissos para o Protocolo de Quioto, cujo primeiro período se esgota em 2012, como condição imperiosa para qualquer outro acordo. De outro lado, a maioria dos países desenvolvidos diz que não faz mais sentido qualquer acordo, nem mesmo Quioto, sem que haja um regime que englobe todos os grandes emissores. Estados Unidos, China, Índia, Brasil e todos os outros países emergentes com emissões significativas estão fora de Quioto. Tenho mantido <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2010/11/30/cancun-protocolo-de-quioto-ainda-na-agenda-nao-faz-sentido/">aqui</a> a posição de que o Protocolo de Quioto, que hoje representa uma fração pequena demais das emissões globais, não faz mais sentido. Não teve muita importância no passado e não tem importância real no futuro, cuja chave, do ponto de vista do controle de emissões, está no EUA e nas grandes economias emergentes.</p>
<p>Essa polarização já ficou visível no primeiro dia de reunião no Panamá e se repetiu ontem. O representante do Japão reiterou que seu país ficará fora do segundo período de Quioto. A Austrália não disse que não assinará, mas estabeleceu como condição que haja um regime com o mesmo status jurídico para os grandes emissores que não têm compromissos sob o Protocolo. A Nova Zelândia disse que assina, desde que haja este regime. A União Europeia diz que está pronta para assinar o segundo período, mas considera fundamental que se tenha um regime similar para todos os grandes emissores. O EUA jamais participará do Protocolo de Quioto.</p>
<p>Os países com grandes economias emergentes se mantêm alinhados à posição de que Quioto é imprescindível ao avanço das negociações. Impasse garantido. Se sair alguma coisa será tão irrelevante ou mais do que Quioto tem sido até agora.</p>
<p>A secretária executiva da Convenção do Clima, Christiana Figueres, tem se mostrado animada com o progresso que, segundo ela, se obteve has discussões dos grupos que trataram do Fundo Verde para o Clima (GEF) e do Comitê Executivo para Tecnologia (TEC). Mas reconhece que há impasse no ponto central que poderia conciliar os acordos de Copenhague e Cancún e um segundo período de compromissos para o Protocolo de Quioto: as metas reportáveis, monitoráveis e verificáveis (MRV). Ela voltou a se mostrar preocupada com o tempo curto disponível para resolver os problemas relativos ao Protocolo de Quioto. Informalmente, já se negocia um &#8220;regime de transição&#8221;, que mantenha o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL/CDM) ponto de maior interesse dos países em desenvolvimento. A União Europeia disse que manterá o mecanismo, que prevê investimentos para reduzir gases estufa em países em desenvolvimento como compensação das emissões nos países desenvolvidos, mesmo que não haja um segundo período de compromissos para o Protocolo de Quioto.</p>
<p>Outro componente que facilitaria um acordo com a maioria dos países em desenvolvimento seria o compromisso dos países desenvolvidos de realmente aportar dinheiro novo para o Fundo Verde do Clima. Mas isso não deve acontecer, com o agravamento visível da crise econômico-financeira, que <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/08/08/a-crise-e-muito-mais-profunda-e-vai-longe/">dificilmente será debelada</a> no curto prazo. É possível imaginar, contudo, que se consiga aprovar, pelo menos o desenho institucional definitivo tanto para o organismo que cuidará da cooperação tecnológica, quando para o Fundo.</p>
<p>O arranjo institucional da UNFCCC, de decisão por assembleia por unanimidade, alimenta vetos cruzados e tem um viés pela manutenção do status quo. Na melhor das hipóteses permite acordos mínimos. Consensos máximos são praticamente impossíveis. As decisões só melhoram de qualidade e substância, quando a maioria se dispõe a interpretar o critério da unanimidade de forma relativa e não absoluta. Em Copenhague, a interpretação foi como regra absoluta, basta um voto dissidente para ter poder de veto e impedir a decisão. A assembleia terminou em impasse. Em Cancún, a interpretação foi como regra relativa: depende dos grandes números. Uma grande maioria se sobrepõe, como consenso, a uma pequena minoria. Deu mais certo e permitiu, inclusive, a legalização do Acordo de Copenhague, que ficara em suspenso.</p>
<p>Se não produzir melhores resultados, a partir de 2012, a Convenção do Clima se arrisca a perder definitivamente a credibilidade e a relevância. Em 2012, provavelmente não se terá um segundo período de compromissos para o Protocolo de Quioto &#8211; pode haver regras de transição &#8211; ou ele será aprovado em Durban ou logo depois, mas com um formato que o tornará irrelevante para os objetivos de mitigação da mudança climática. Um resultado desses, de uma forma ou de outra, significará um golpe duro na confiança na Convenção do Clima e constituirá um desafio definitivo, para a COP18. A própria sustentabilidade da Convenção como principal arcabouço institucional para o esforço global de enfrentar o perigo da mudança climática estará ameaçada.</p>
<p>Ouça meu comentário na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_111003&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>Como vivi o 11/9/2001</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 15:33:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
Quando vi que um avião havia atingido a torre do World Trade Center, fiquei paralisado pelo horror que, em tempo real, testemunhava na tela da CNN. Um acidente desses é de tão baixa probabilidade que, quando acontece, deve-se sempre imaginar que algo houve de deliberado. Quando vi outro avião atingir a segunda torre, ficou [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>Quando vi que um avião havia atingido a torre do World Trade Center, fiquei paralisado pelo horror que, em tempo real, testemunhava na tela da CNN. Um acidente desses é de tão baixa probabilidade que, quando acontece, deve-se sempre imaginar que algo houve de deliberado. Quando vi outro avião atingir a segunda torre, ficou claro. Era um ataque.<span id="more-2703"></span></p>
<p>O inesperado chegava de surpresa. O impensável ficava gravado na retina e dominava todo o pensamento. Durante o resto do dia, do mês e do ano, praticamente só falamos disso. Aí, vieram as consequências. O doloroso resgate das vítimas, de cujos riscos só se soube depois. Houve as vítimas do ataque cruento e aquelas que, com bravura, mergulharam na atmosfera tóxica para tentar salvar vidas e encontrar corpos, para as famílias enlutadas poderem celebrar e chorar. Sem saber, foram contaminados e muitos morreram ou sofrem em função dessa intoxicação. A dramática e dolorosa contagem dos corpos. O ataque ao Afeganistão. O mundo mudava diante dos nossos olhos. Para mim, ali começava, concretamente, o século XXI.</p>
<p>Na época, eu era colunista da revista eletrônica No. criada por Marcos Sá Corrêa e tantos amigos. Marcos fazia questão que o nome abreviado fosse falado corretamente, não “nôu”, como se fosse a negação em inglês, mas “no ponto”. Com sua dupla acepção de “direto ao ponto”, exatamente o que não estou fazendo aqui, e uma referência ao fato de ser uma revista de notícia e opinião exclusivamente digital, tipo ‘ponto com’. Marcos estava convencido de que só havia futuro para o jornalismo no universo digital, na Webesfera. Na coluna, comentava os principais assuntos políticos e sociais do dia. Mas havia algumas linhas dominantes e uma delas era política internacional. Era também colunista de Veja.</p>
<p>No dia 11 de setembro,  fiz análise fria em No. dizendo que o ataque às torres gêmeas criava a expectativa de uma reação militar iminente. Abri a coluna dizendo:</p>
<blockquote><p>“É difícil imaginar qualquer hipótese de reação do governo dos Estados Unidos que não inclua retaliação militar.”</p></blockquote>
<p>No dia 29, comentei o início da guerra no Afeganistão, nas sombras, com forças especiais fazendo incursões encobertas em território afegão. Parecia até que o EUA optaria por um novo tipo de ação militar, concentrado em operações encobertas por forças especiais. Mas não seria assim. A guerra se tornaria ostensiva e extensiva. E não teria fim tão cedo. O 11/9 deu a George W. Bush a oportunidade trágica de realizar a promessa guerreira que já estava em seu discurso de posse. O desejo da Jihad que Bin Laden expressava encontrou em Bush resposta correlata.</p>
<p>Na coluna que mantinha na revista Veja escrevi, no dia 7 de fevereiro, texto com o título “O fim do consenso de Washington”. Nele, analisava as implicações do que Bush havia dito em seu discurso de posse:</p>
<blockquote><p>“No discurso de posse, reviveu conceitos da Guerra Fria. Falou de ‘equilíbrio de poder’ em favor da liberdade, a teoria típica daquela época, inteiramente superada nos anos 90. O mundo para ele se divide entre ‘inimigos’ e ‘aliados’ dos EUA. Defendeu o rearmamento, em nome da ‘déterrence’, isto é, estar tão armado que ninguém ouse atacar porque seria, literalmente, o fim do mundo. Começou falando de diferenças tão profundas entre os americanos que fazem pensar que vivem num continente, e não em um país. Mas, ao falar de união, não trata de inclusão, e sim de valores. Foi um discurso de um ‘cold warrior’ querendo parecer moderno. Está aquém da nova direita. Bush se vê mais como o ‘comandante-em-chefe’ da nação. Assim se autodefiniu ao falar no ‘baile dos veteranos’. Fará um governo ultraconservador e poderá cair na tentação militarista para resolver suas fragilidades políticas.”</p></blockquote>
<p>Na No. escrevi, no dia 19/11 que</p>
<blockquote><p>“O ataque terrorista acabou com o ‘neoliberalismo’ na política externa americana. Um novo ‘complexo industrial-militar’ pode surgir do novo paradigma de segurança nacional.”</p></blockquote>
<p>No mesmo dia, na coluna de Veja, escrevi que o ataque havia antecipado os planos de Bush para um programa militarista. Ele não precisava mais inventar um pretexto.</p>
<blockquote><p>“O bárbaro ataque terrorista colocou a maioria absoluta dos americanos ao lado de seu presidente, dando-lhe uma base legítima para exercer plenamente a função que mais valoriza entre todas as que são atribuídas ao presidente americano: a de comandante em chefe da Nação. Os terroristas mostraram o que Bush dizia desde a campanha e ninguém levava a sério: os Estados Unidos são vulneráveis.”</p></blockquote>
<p>E concluí.</p>
<blockquote><p>“O ataque terrorista unificou o país em torno de um presidente que marchava para uma das mais vertiginosas perdas de popularidade e credibilidade da história recente da presidência americana. A polarização que o próprio radicalismo de Bush e sua gente havia recrudescido acabou quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center. A resposta americana terá proporções talvez inéditas, dada a convergência de circunstâncias, que soma um presidente belicista à ousadia de terroristas e outros grupos políticos que lutam contra a hegemonia americana.</p>
<p>Quando o mundo entra em uma trajetória recessiva, a ação dos terroristas e a presumida retaliação americana projetam o preço do petróleo em uma nova escalada, podem reduzir o fluxo global de investimentos e atingir a saúde financeira de empresas já combalidas pela depressão recente da bolsa americana. Pior ainda, cria-se novamente um clima de tensão internacional, inédito desde o fim da guerra-fria. O mundo está imobilizado pela expectativa de dois desastres mundiais: uma recessão global e a primeira guerra do Século XXI. Tudo dependerá do escopo do vôo da águia americana em sua missão de vingança.”</p></blockquote>
<p>Em dezembro de 2001, escrevi na NO. coluna tentando por o ano de 2001 em perspectiva. Visto no seu conjunto, o ano teve muitos eventos marcantes. Nenhum tão dramático e brutal como o ataque às torres gêmeas. Juntos, porém, mostravam com clareza que havia sido um ano singular, que dava de fato início ao novo século e apontava para uma longa transição, marcada por guerras e ciclos recorrentes de crise econômica, social e política. Bush substituía a doutrina da Guerra Fria pela guerra contra o “eixo do mal”, os “países párias” que abrigam os terroristas. Queria a anti-Jihad.</p>
<blockquote><p>“O ano de 2001 ficará na história, mais que os seus antecessores diretos. Do ponto de vista da nova ordem global, marcará o fim histórico do Século XX, quando a Guerra Fria foi definitivamente encerrada como parâmetro para as ações estratégicas dos estados. O ataque de 11 de setembro às torres gêmeas &#8211; no centro financeiro do capitalismo &#8211; e ao Pentágono, aposentou a velha doutrina de segurança nacional e tornou dominante a ideologia do antiterrorismo, como justificativa para a ação militar preventiva e punitiva da potência hegemônica. Isto mudou os termos da globalização. Ela deixou de ser eminentemente financeira e comercial, sob o comando hegemônico e exclusivo dos mercados de capitais e das coalizões comerciais, para ser predominantemente política e econômica. Desta forma, as decisões comerciais e financeiras passarão a sofrer influência das considerações de ordem política e estratégica dos governos. As alianças globais se refarão.”</p></blockquote>
<p>Reproduzi o inteiro teor dessa coluna de No. em outro post: <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/09/11/2001-ano-historico/">2001, ano histórico</a>.</p>
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		<title>2001, ano histórico</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Sep 2011 15:12:33 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
No final de 2001 fiz um balanço do ano, marcado tragicamente pelo 11/9. Não foi o único evento marcante do ano, embora tenha sido o mais terrível. Outros teriam efeitos também de longo prazo, nenhum com consequências tão sangrentas. Analisei os fatos que me pareciam mais definidores dos rumos dos anos seguintes e arrisquei [...]]]></description>
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			</a>
		</div>
<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>No final de 2001 fiz um balanço do ano, marcado tragicamente pelo 11/9. Não foi o único evento marcante do ano, embora tenha sido o mais terrível. Outros teriam efeitos também de longo prazo, nenhum com consequências tão sangrentas. Analisei os fatos que me pareciam mais definidores dos rumos dos anos seguintes e arrisquei algumas previsões. Como em toda previsão, nem tudo naquele início tormentoso da transição, na primeira década do século, seria como parecia que poderia ser. Coisas da vida de comentarista da cena cotidiana. Resolvi reproduzir aqui a coluna de 28 de dezembro para No. a revista eletrônica editada por Marcos Sá Corrêa, da qual era colunista.<span id="more-2697"></span></p>
<p style="text-align: center;"><strong>No.</strong></p>
<p style="text-align: center;">2001, um ano singular</p>
<p style="text-align: center;">[ 28.Dez.2001 ]</p>
<p>O ano de 2001 ficará na história, mais que os seus antecessores diretos. Do ponto de vista da nova ordem global, marcará o fim histórico do Século XX, quando a Guerra Fria foi definitivamente encerrada como parâmetro para as ações estratégicas dos estados. O ataque de 11 de setembro às torres gêmeas &#8211; no centro financeiro do capitalismo &#8211; e ao Pentágono, aposentou a velha doutrina de segurança nacional e tornou dominante a ideologia do antiterrorismo, como justificativa para a ação militar preventiva e punitiva da potência hegemônica. Isto mudou os termos da globalização. Ela deixou de ser eminentemente financeira e comercial, sob o comando hegemônico e exclusivo dos mercados de capitais e das coalizões comerciais, para ser predominantemente política e econômica. Desta forma, as decisões comerciais e financeiras passarão a sofrer influência das considerações de ordem política e estratégica dos governos. As alianças globais se refarão.</p>
<p>A reunião da Organização Mundial do Comércio, em Doha, que lançou a “Nova Agenda para o Desenvolvimento”, já foi um sinal desses novos tempos. A “Rodada de Doha”, como se verá, será muito diferente das de Tóquio e do Uruguai e não apenas no sentido óbvio de que a agenda será diferente. Ela se diferenciará pelo comportamento dos parceiros e pelas mudanças nas coalizões comerciais e na correlação de forças. É provável que, movido por considerações estratégicas, o EUA apóie, nesta rodada, mudanças no campo dos subsídios à agricultura, afastando-se do “consenso europeu”. Terá a seu lado outras nações de <em>agribusiness</em>, de alta tecnologia e mais competitivo, como Brasil, Nova Zelândia e Austrália. É muito provável também que, como resultado dessas mudanças na ideologia da globalização, se inicie uma discussão mais séria sobre a reforma do FMI e do Banco Mundial, organismos oriundos de Bretton Woods – outra marca do fim do Século XX que deixamos para trás. É mesmo possível que ela comece na controvérsia em torno do que fazer em relação à moratória Argentina, que deverá ocupar as atenções no primeiro bimestre do ano que vem. Justiça seja feita, o Banco Mundial já mudou bastante a sua agenda e seu comportamento. O FMI é que continua paralisado e perplexo diante de sua inadequação a toda a história cambial e monetária da última década do século passado, o que dizer dos eventos deste novo século.</p>
<p>Após uma década de predomínio do mercado sobre a política, o atentado de 11 de setembro restabeleceu a primazia da política nas relações internacionais. O “consenso neoliberal” “economicizava” a política, ao estabelecer que o mercado deveria ficar livre dela, para aproveitar as oportunidades abertas pela globalização. Houve uma despolitização das relações internacionais e, mesmo, da política econômica da maioria dos países. Claro, uma despolitização relativa, porque a economia é sempre economia política. Mas o atentado restabeleceu o primado do interesse político nas relações internacionais e demarcou uma área na qual se e quando a visão do mercado e o interesse político conflitarem prevalecerão, novamente, as razões de estado e não mais puramente as razões de mercado.</p>
<p>Na América Latina, o trágico colapso da convertibilidade argentina também encerra o ciclo de estabilizações que marcou o último terço do Século passado no continente.</p>
<p>No Brasil, o fim simbólico da impunidade parlamentar, com a expulsão de dois ícones do poder oligárquico do Senado da República, de certa forma marca o fim do padrão de política do Século XX no país. No ano que vem, provavelmente, a sucessão de Fernando Henrique será decidida por políticos que não fizeram parte desse padrão. Se confirmada a candidatura de Roseana Sarney, ela será a única oriunda de uma linhagem oligárquica, ainda que de nova geração e se dispondo a concorrer em uma eleição não qual os recursos da oligarquia já não têm mais o peso definitório que tiveram no passado.</p>
<p>Portanto, em vários sentidos, o reveillon no qual comemoraremos a passagem de 2001 para 2002 será o mais importante dos últimos três. Em 2002 estaremos, em termos históricos, no terreno cediço da zona indefinida entre um século e outro. Definitivamente, já deixamos para trás o Século XX, mas não é totalmente certo que já estejamos no Século XXI.</p>
<p><strong>A história do ano</strong></p>
<p>Um breve passeio pela história deste ano mostra como as situações se alteraram de forma muitas vezes inesperada, mas sempre vertiginosa. Essa velocidade é sempre indicadora de que há catalisadores históricos e estruturais em operação, provocando a condensação de uma longa cadeia de eventos – muitos que só serão identificados a posteriori pela análise histórico-comparativa – em um punhado de eventos marcantes e altamente visíveis. Nada acontece por acaso. Nem mesmo o caos.</p>
<p>É dessa forma que a “grande história” se faz. Essa é a morfologia das transições entre velha e nova ordem. Há um momento em que novo e velho convivem, como nas charges do encontro entre o ano que passa – desenhado como um velhinho arqueado – e o que começa – apresentado como uma criança rechonchuda e vivaz – os velhos elementos ainda não foram inteiramente superados, mas a ordem emergente já se instalou e já comanda os eventos mais relevantes.</p>
<p>É assim com a história dos anos que fazem história.</p>
<p><strong>Do <em>soft landing</em> ao <em>novo crash</em></strong></p>
<p>No EUA, no final de 2000, a discussão era se a economia teria um <em>soft landing</em>, uma desaceleração suave, ou um mergulho abrupto na recessão. O ano termina contando uma história diferente desses dois cenários polares. A desaceleração começou ainda em 2000: no terceiro trimestre, o crescimento do PIB já havia caído de robustos 5,7%, para magros 1,3%. No mesmo período deste ano, já houve perda de produto, de -1,3%. O último trimestre deve confirmar essa tendência. O ano fecha com a discussão sobre a “decolagem” da economia americana – se ela vai ou não ocorrer em 2002, se já há sinais dela em alguns indicadores – e a recusa pelo Senado de maioria democrata do pacote de estímulos à economia apresentado pelo presidente Bush, aprovado na Câmara.</p>
<p>No plano político, o ano americano começou com a apresentação de um gabinete muito conservador pelo presidente Bush e com cheiro da naftalina da Guerra Fria na área militar e de segurança nacional. O presidente tentou encontrar rapidamente um inimigo externo, para exercitar essa musculatura, posta em desuso por Bill Clinton, portanto sem uso desde o governo de Bush pai. Não teve credibilidade.</p>
<p>Foi atendido, de forma trágica, em seu desejo de comandar alguma guerra, pelo ataque terrorista a Manhattan e ao Pentágono. Termina o ano tendo vencido uma batalha sem muito sentido. Logrou a derrubada do Talibã, no Afeganistão, substituído por um governo provisório, heterogêneo e frágil, que provavelmente sucumbirá à guerra intestina, movida pelos pequenos senhores da guerra locais. Definiu como meta destruir a Al Qa’ida e capturar ou matar Osamah bin-Ladin. Ninguém será capaz de dizer quando e se a Al Qa’ida foi destruída. Osamah bin-Ladin se dedica a provocar Bush, em vídeos filmados em local e data desconhecidos, que tanto podem ser atestado da alta capacidade de previsão do líder terrorista, quanto improvisos de última hora.</p>
<p>O verdadeiro <em>crash</em> de Wall Street não se deu quando as ações das empresas de tecnologia e informática despencaram. Aquilo foi apenas o estouro de uma bolha especulativa e o fim da insensatez. Uma mania, que virou pânico, para citar um clássico estudo sobre crises financeiras, de Charles Kindleberger, <strong>Manias, Panics, and Crashes, A History of Financial Crises</strong>, publicado em 1978. O verdadeiro <em>crash</em> se deu quando as <em>Twin Towers</em> do <em>World Trade Center</em> ruíram com o impacto dos dois aviões seqüestrados e pilotados por terroristas.</p>
<p>Foi esse <em>crash</em> que lançou o país em uma guerra nas sombras da Ásia Central e a incerteza sobre a economia doméstica e mundial. Provavelmente 2002 será o ano da recuperação. Mas Wall Street não será mais a mesma que aquela que acordou com apreensões financeiras e pânicos rotineiros e terminou o dia abalada por uma agressão brutal. Foi indelevelmente marcada e alterada pela maior tragédia diretamente vivida por aquele pedaço da bela ilha de Manhattan. Tampouco a glamourosa, cosmopolita, rica e criativa New York será mais a mesma.</p>
<p><strong>A queda das oligarquias</strong></p>
<p>Em 2000, o PT colheu algumas vitórias significativas nas eleições municipais, no vazio deixado pelas oligarquias em crise, principalmente em cidades do Nordeste. Não foi a primeira vez que o domínio oligárquico foi posto em cheque pelo avanço eleitoral de um partido apoiado por uma parcela organizada dos assalariados. No passado, esse avanço acompanhava o progresso da manufatura. Primeiro vinha o sindicato e, no seu rastro, o PTB. Agora, a fraqueza das oligarquias favorece o PT com o voto principalmente de assalariados do setor público, por causa do rompimento dos nexos clientelistas entre os chefes políticos e o serviço público.</p>
<p>Em uma análise dessas eleições, escrevi o seguinte sobre esse fenômeno: “Quando se examina qualitativamente os resultados eleitorais, por município e por estado, aparecem tendências que são duradouras na história política do Brasil. Por exemplo, o avanço do PT nos municípios de menor porte e menor desenvolvimento. O PT ganha eleições em circunstâncias que marcam o fortalecimento de organizações populares, ou divisão e conflito nas oligarquias ou, ainda, maior peso do funcionalismo público e presença de sindicatos do setor público atuantes, sob controle da CUT. Nos municípios mais organizados politicamente, nos quais a população é mais politizada e mobilizada para a atividade política, continua valendo a velha lei eleitoral: esquerda dividida/direita vitoriosa, direita dividida/esquerda vitoriosa.”</p>
<p>Do mesmo modo que no passado eram sinais de fraqueza oligárquica, que prenunciavam mudanças políticas mais abrangentes. Não necessariamente a vitória nacional e avassaladora de um só partido antioligárquico. Há mais que uma força antioligárquica no Brasil de hoje. Algumas muito distantes do PT. Mas é o fim de um ciclo da política nacional.</p>
<p>Em 2001, o ano político começou com muita gente achando que Antônio Carlos Magalhães, o símbolo desse poder oligárquico, modernizado e reciclado, não obstante oligárquico, era todo-poderoso. Muitos até julgavam que ele seria a eminência parda do governo FHC, manobrando nos desvãos dos corredores do poder. Em maio, esse poder se mostrou ilusório. ACM era defenestrado do Senado que presidira. Saiu irrevogavelmente da primeira página, para ocasionais fotos em colunas sociais, que cobrem eventos de alcance nacional, como desfiles de moda ou shows de música, na Bahia, onde continua, não obstante a reinar. Mas já enfrenta seus percalços e dificilmente terá a mesma eficácia hegemônica que exerceu por três décadas.</p>
<p>Essa defenestração simbólica marcou um momento importante da política brasileira. Teria como subproduto a expulsão de outro chefe oligárquico, de linhagem algo diferente e antagônica, no exercício da presidência do Senado. Em setembro, Jader Barbalho viveu seu dia de <em>crash</em>, desaparecendo da cena política nacional. Na seqüência desses eventos simbólicos, o Congresso fechou o ano votando o fim da imunidade para crimes comuns – ainda que de desfaçatez incomum – que abrigava a mais escandalosa impunidade.</p>
<p>A sucessão deu alguns sinais vitais, que podem ser efêmeros, mas já indicam que tudo o que se imaginava em janeiro de 2001, pode não acontecer em outubro de 2002. Muitas certezas ficaram abaladas. Muitas vitórias, cantadas com antecipação, perderam o rebolado. Eleição é assim mesmo. Uma caixa de surpresas.</p>
<p>O ano começou com consumidores otimistas. O índice de confiança do consumidor em janeiro estava quase 10% abaixo do de janeiro de 2000. A razão era a recuperação da economia, que começara lentamente no último trimestre de 99. No início de 2001, o PIB já contava seis trimestres positivos. Muita gente acha medíocre o desempenho da economia brasileira, nos últimos dois anos. Eu não acho não. Foram anos de muita turbulência externa e nossa economia mostrou robustez e não fragilidade, como pensam alguns.</p>
<p>No meio do ano, com toda razão, ficamos pessimistas. Em junho, o índice de confiança do consumidor estava 22% abaixo do de janeiro. Em outubro, estava 5% abaixo da marca de julho. E terminamos o ano mais confiantes. Em dezembro o índice fechou quase 10% acima do de junho. Com toda razão, descolamos da Argentina e, apesar da recessão na Ásia, da desaceleração na Europa e no EUA, vamos fechar o ano em crescimento e com um índice superior ao dos países centrais.</p>
<p><strong>Colapso anunciado</strong></p>
<p>Para a Argentina, o ano havia começado com alguma esperança. O Ministro da Economia, José Luís Machinea, havia conseguido negociar recursos com o FMI para a blindagem da convertibilidade, abalada por percalços domésticos e novas crises financeiras, como a da Turquia, que ganhava virulência em janeiro. Parece que foi há muito mais tempo, né?<br />
Mas não deu. No dia 5 de março, Machinea caía e era substituído por Lopez Murphy, que resistiu apenas 14 dias no ministério. No dia 20 de março, Domingo Cavallo era nomeado ministro, como a última esperança dos argentinos. Era a bala de prata de De la Rúa. Mas, em junho, já estava claro que Cavallo havia caído na armadilha dos “ajustes que desajustam”. Perdia credibilidade. Em julho, escrevi aqui na nossa no.: “A lógica do processo argentino é do tipo bola de neve e aponta para a ruptura, se as causas do desequilíbrio econômico-financeiro não forem efetivamente atacadas. O xis da questão é que o déficit já é sintoma da anemia da sua economia, produzida por deficiências microeconômicas e pela disparidade cambial, que reduzem dramaticamente sua competitividade e seu dinamismo. A estagnação e a recessão reduzem a receita tributária e mantêm o déficit. A falta de confiança daí decorrente inibe os investimentos e torna os consumidores arredios, comprometendo o desempenho econômico futuro. O resultado é “um efeito carcará”: se combater o déficit faz mais recessão e a receita cai mais; se não combater; o país quebra”.</p>
<p>Para concluir que, “Cavallo enfrenta agora um encurtamento geral de seus prazos. Tem pouco tempo para encontrar uma solução, antes que chegue realmente ao limite, seja do crédito – econômico ou político – seja da capacidade de atender aos credores, aos cidadãos e às forças políticas. O Risco Argentina era de 890 pontos básicos, quando Cavallo assumiu – a média do primeiro trimestre foi de 690 – fechou, na terça, 10 [de julho], em 1217. A Argentina está no limite. Cavallo era a última esperança do presidente De La Rúa. Se falhar, pode não ter ninguém para chorar por ele”.</p>
<p>Em outubro, Cavallo já estava rompido com a classe política, especialmente com os governadores. Perdera o apoio de Manuel de la Sota. Já não conseguia ser ouvido pelas autoridades econômicas do EUA, nem pelo FMI. Em novembro, comete o erro fatal. Lança o pacote “déficit zero”, sem a mínima chance de sucesso, interno ou externo, e provoca a imediata reação negativa de políticos e da população. Em dezembro, a explosão social o derruba. Horas depois, como previsto, De la Rúa não resiste à queda de seu principal ministro, a quem ele e o Congresso haviam delegado muito poder, que jamais esteve acompanhado dos elementos necessários à eficácia das decisões por ele propiciadas.</p>
<p>Para a sofrida Argentina, o tango trágico ainda não acabou. O novo presidente, Adolfo Rodríguez Saá, que deveria pacificar o país e presidir a eleições representativas e democráticas, parece ter caído na insensatez movida pela ambição. Descambou para o populismo e a demagogia típicos do velho peronismo. Está prometendo mundos, sem ter fundos. Imagina que, se tudo que fizer der certo, teria o apoio do Congresso, para sua permanência no poder, respaldado por Menem, pelos empresários industriais e por Raúl Alfonsín. Menem é contra as eleições em março, porque não poderia concorrer. Se Saá puder cumprir o mandato de De la Rúa, o ex-presidente estaria habilitado a se candidatar em 2003. Alfonsín não quer eleições, porque teme um julgamento duro demais de seu partido. Prefere deixar o pó da revolta social assentar mais. Os empresários temem que as eleições levem o país mais para a esquerda.</p>
<p>Mas o projeto de Adolfo Saá, além do risco de insucesso econômico, poderá sofrer dura oposição de lideranças justicialistas de peso, todas candidatas às presidenciais, entre elas, Carlos Ruckauf, o político com maior prestígio popular na Argentina, Eduardo Duhalde, Manuel de la Sota, Néstor Kirchner (Santa Cruz) e Carlos Reutemann (Santa Fe).</p>
<p>Suas chances de sucesso são pequenas. As divisões no justicialismo podem se agravar, com a possibilidade de várias candidaturas aberta pela “Lei de Lemas”. A idéia de sublegendas é de extremo risco. Ela incentiva a competição interna porque não ameaça a hegemonia eleitoral do partido – a divisão do voto não beneficia a oposição, porque ao final os votos são somados para eleger o mais votado da legenda. O partido pode se esfacelar nessa disputa, enfraquecendo sua capacidade de usar a hegemonia que detém para garantir a governabilidade. Não seria a primeira vez. Ainda não se vislumbra uma saída efetiva da crise que retire a Argentina simultaneamente da armadilha cambial, da desordem monetária, da depressão econômica, da anemia fiscal – a queda de arrecadação em dezembro pode ser de 25% – e da crise de governabilidade. Existe uma passagem da convertibilidade e dessa desordem monetária para uma nova ordem econômica racional. Do ponto de vista da economia política argentina essa passagem é estreitíssima e não pode ser vencida com demagogia e populismo. O justicialismo pode estar marchando, mais uma vez, por ambição e erro, para a insensatez, tomando decisões que se voltarão contra ele.</p>
<p>É gente, em 2001 assistimos a História, com H maiúsculo, ser feita. Como um vulcão, que se forma de processos que se dão nas profundezas, no âmago das estruturas, invisíveis, para aflorar em explosões espetaculares, cheias de som e fúria.</p>
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		<title>Reduzir álcool na gasolina é paliativo</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Aug 2011 14:47:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
A decisão de reduzir o percentual de álcool na gasolina de 25% para 20% corre o risco de não alcançar os objetivos do governo, ter efeitos colaterais negativos muito superiores aos poucos benefícios que possa gerar.
O Brasil tem uma mania velha de décadas: nunca tem política de precaução, olhando par a frente. Sempre adota [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>A decisão de reduzir o percentual de álcool na gasolina de 25% para 20% corre o risco de não alcançar os objetivos do governo, ter efeitos colaterais negativos muito superiores aos poucos benefícios que possa gerar.<span id="more-2665"></span></p>
<p>O Brasil tem uma mania velha de décadas: nunca tem política de precaução, olhando par a frente. Sempre adota medidas de emergência, surpreendido por eventos anunciados. Nunca tenta prever os efeitos colaterais dessas medidas de afogadilho. Tarda a agir sobre as causas do problema, quando o faz.</p>
<p>Acaba de acontecer de novo com essa decisão sobre o etanol. Reduzir em 5%, ameaçando reduzir ainda mais, a mistura de álcool anidro na gasolina, dificilmente atingirá o objetivo proposto pelo Ministério das Minas e Energia, de “regularizar o abastecimento” de etanol. Mas terá efeitos não antecipados pelo governo que pioram o bem-estar da população e aumentam nossas emissões de carbono.</p>
<p>Mais gasolina nos automóveis já é ruim em si. Aumenta as emissões de gases estufa e piora a qualidade do ar. O governo errou o timing, o diagnóstico, a avaliação do problema e das políticas que poderiam mitigar seus efeitos e no julgamento do que deveria oferecer, preferindo o paliativo à solução estrutural para o problema.</p>
<p>A pressão de demanda de etanol é global. Problemas climáticos têm afetado a a safra das culturas dedicadas à produção de etanol no EUA , na Europa, no Caribe e no Brasil por vários anos. Empurrados por dificuldades na oferta e aumento na demanda, os preços do açúcar e do álcool aumentaram globalmente. O Brasil tem importado etanol do EUA, produzido de milho, com preços elevados. Fez isso no ano passado e está fazendo novamente este ano, em que o preço no EUA está no topo e a demanda prejudicada. A Petrobrás, que faz essa importação subsidia esse álcool para os distribuidores. Mas o álcool doméstico entra na bomba sem subsídio. Em suma, só medidas que desajustam ainda mais o mercado, as contas do governo e da Petrobrás, sem ajustar coisa alguma no mercado.</p>
<p>Nenhuma medida isolada no mercado doméstico pode alterar significativamente o preço do etanol no mercado global. Como o álcool e o açúcar são commodities globais, seu preço de referência será sempre o do mercado internacional. Se o preço do açúcar for superior ao do etanol, as usinas produzem mais açúcar para exportar. Parte do álcool liberado pela redução da mistura provavelmente será exportada.</p>
<p>A pressão de demanda do etanol não é doméstica. Ao contrário. Domesticamente, a maior parte dos anos de 2010 e de 2011, os preços do etanol mantiveram uma diferença em relação aos da gasolina misturada (75 gasolina: 25 etanol) inferior a 30%. Como o motor flex consome perto de 30% mais quando roda com álcool do que quando abastecido com gasolina, só compensa encher o tanque com o biocombustível se o preço estiver 30% ou mais abaixo do preço da gasolina. Como não é o caso, a demanda que está pressionada é a de gasolina misturada, não de álcool. O álcool com maior demanda é o anidro para misturar à gasolina. Estima-se que hoje 80% dos carros flex estejam rodando com gasolina misturada.</p>
<p>O preço da gasolina está congelado. O preço do álcool é que está subindo. Ao tirar 5% de álcool da gasolina, na verdade uma redução da ordem de 20% na mistura, o preço da gasolina misturada cairá na bomba. O consumo de gasolina receberá estímulo ainda maior. Dificilmente essa liberação de álcool anidro terá efeito comparável no preço do álcool, a ponto de induzir o consumidor  a abastecer seus carros flex com etanol, em lugar de gasolina misturada, reduzindo a demanda por álcool anidro.</p>
<p>A consequência imediata da redução do preço da gasolina será o aumento do consumo de gasolina e do uso do automóvel particular. Logo, maior demanda por álcool anidro, mais emissões e poluição. Mais gastos com saúde pública. O aumento de veículos particulares nas ruas, geralmente conduzindo apenas um passageiro, piora o engarrafamento e estende o horário de rush. É comum as pessoas nas grandes cidades brasileiras reclamarem que “parece que estamos sempre na hora do rush”. É que a “hora” pode se prolongar por duas, três, quatro, no trajeto trabalho-casa, porque o trânsito está mais lento. A política para o etanol está na <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/07/28/politica-para-etanol-na-contramao-da-logica-da-economia/">contramão da lógica da economia</a>.</p>
<p>Tráfego congestionado significa que a grande quantidade de ônibus em circulação com diesel altamente poluente leva mais tempo bombeando sua fumaça tóxica para completar cada ciclo de seu trajeto. Essa quantidade de ônibus é desnecessária. Poderia ser muito reduzida se a engenharia de trânsito fosse atualizada, passando a adotar princípios de logística inteligente, racionalizando trajetos, linhas e reduzindo o tamanho da frota. Fiscalização mais adequada e menos corrupção também permitiram frotas de ônibus mais novos e menos poluentes. Boas políticas de transporte e logística associadas a objetivos gerais de sustentabilidade, permitiriam substituir ônibus por veículos elétricos, bondes modernos, veículos leves sobre trilhos ou, no mínimo, por BRTs (Bus Rapid Transit) uma solução tipicamente de transição, temporariamente benéfica. Mas logística urbana é assunto para outro post.</p>
<p>O ministro das Minas e Energia, cuja compreensão das complexidades da produção de biocombustíveis é ainda menor que a escassa intimidade que tem com questões de energia em geral, diz que é uma medida de “segurança”, uma “medida de precaução”. Ao que parece o ministro tem pouca compreensão do que significam “segurança” e “precaução”. As duas pressupõem medidas de prevenção. Assegurar o abastecimento e evitar consequências negativas são objetivos que se alcançam apenas com medidas que se antecipam a efeitos previstos e que resolvem os problemas estruturais que produzem efeitos adversos.</p>
<p>O ministro se considera precavido porque imagina que esteja evitando consequências adversas sobre a oferta de etanol de safras comprometidas este ano e no ano que vem. Esses problemas de safra já estavam previstos muito antes. A cultura da cana sofre com problemas estruturais e climáticos há bem mais tempo. O ministro não parece ter visto.</p>
<p>Medidas de segurança são aquelas que o governo anterior, no qual esse ministro ocupava o mesmo cargo, deveria ter tomado e não tomou para estimular e acelerar a renovação dos canaviais e o <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/08/12/biocombustivel-precisa-de-nova-politica-no-brasil/">aumento de produtividade</a> por hectare. Medidas que o governo atual deveria ter reforçado de imediato e não o fez.</p>
<p>O ministro das Minas e Energia não olha para os problemas da agricultura, nem mesmo quando se trata de produzir biocombustíveis, ou seja, combustíveis de base agrícola. O ministro da Agricultura talvez se interesse menos do que deveria pelos problemas de produção de álcool, um tema que talvez imagine deva pertence ao orçamento das Minas e Energia, embora o etanol seja, essencialmente, um produto agrícola, agroindustrial. Este é um dos dilemas dos biocombustíveis. Estão naquela zona de falta de visão tanto da política agrícola, quanto da política energética. </p>
<p>A marca dos governos brasileiros é sempre essa: decisões fragmentadas, compartimentadas, da mão para a boca, sem pensar nos efeitos colaterais adversos, sem olhar o problema por todos os seus ângulos, sem prevenção. Na reunião que decidiu a medida, estavam com a presidente os ministros das Minas e Energia, Agricultura, Fazenda e Casa Civil. Mas não estava a ministra do Meio Ambiente, embora os principais efeitos adversos dela sejam aumento das emissões de gases estufa e piora da qualidade do ar. Nem tampouco estava o ministro da Saúde, cujo orçamento será pressionado pelo aumento da demanda por atendimentos ambulatoriais e hospitalares por causa do agravamento das doenças respiratórias e cardiovasculares provocadas pela poluição do ar. A qualidade do ar está piorando em todo o Brasil. As poucas medições que se tem feito indicam isso.</p>
<p>Em pesquisa que coordenei em seis áreas metropolitanas, em 2007, obtive as seguintes respostas. Na região metropolitana de São Paulo: 75% dos entrevistados disseram que eles mesmos ou suas famílias usavam medicamentos para tratar de problemas de saúde cuja causa diagnosticada era a poluição do ar; 69% precisaram de assistência médica por estas razões; 35% necessitavam de controle médico permanente; e 13% de internações recorrentes. Na RM do Rio de Janeiro, os resultados foram os seguintes: uso de medicamentos, 80%; assistência médica, 65%; controle médico permanente, 42%; internações, 13%. Belo Horizonte: uso de medicamentos, 84%; assistência médica, 70%; controle médico permanente, 37%; internações, 17%. Porto Alegre: uso de medicamentos, 79%; assistência médica, 77%; controle médico permanente, 54%; internações, 19%. Curitiba: uso de medicamentos, 74%; assistência médica, 72%; controle médico permanente, 46%; internações, 16%. Recife: uso de medicamentos, 75%; assistência médica, 67%; controle médico permanente, 35%; internações, 20%.</p>
<p>Como se vê, nada trivial. O que isso custa ao sistema público de saúde, o ministério da Saúde não sabe. Não será pouco. Toda vez que o governo toma medidas que pioram a qualidade do ar, aumentam os gastos com saúde. Todos reclamam da falta de recursos para saúde, mas ninguém olha para os gastos que poderiam ser suprimidos por doenças evitáveis, mas que dependem de políticas do governo como um todo e não da política de saúde.</p>
<p>Os principais problemas do país, que oneram o orçamento público e fazem nosso gasto fiscal parecer incomprimível, estão em áreas fora do estreito e compartimentado campo de visão do poder público. Este só parece saber olhar pelo retrovisor e à frente, mas para baixo, para o pedaço de tempo em que está, nunca para cima, para o horizonte das possibilidades e dos eventos antecipáveis.</p>
<p>Ouça também meu comentário na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_110830&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>Biocombustível precisa de nova política no Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 14:04:48 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
Safra de cana será 8,4% menor este ano. É o terceiro ano consecutivo de quebras de safra por razões climáticas. Sinais fortes de que o Brasil precisa uma política agressiva de pesquisa em biocombustíveis de segunda geração.
A UNICA anunciou nova  revisão da estimativa de moagem de cana-de-açúcar para a safra 2011/2012. Agora, estima-se [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>Safra de cana será 8,4% menor este ano. É o terceiro ano consecutivo de quebras de safra por razões climáticas. Sinais fortes de que o Brasil precisa uma política agressiva de pesquisa em biocombustíveis de segunda geração.<span id="more-2577"></span></p>
<p>A <a href="http://www.unica.com.br/noticias/show.asp?nwsCode=%7BC9F3A339-4AAA-4B26-8F65-73C8D25AEDD2%7D">UNICA</a> anunciou nova  revisão da estimativa de moagem de cana-de-açúcar para a safra 2011/2012. Agora, estima-se moagem de 510,24 milhões de toneladas, redução de 4,36% em relação à revisão anterior, que foi de 533,50 milhões de toneladas. Representará queda de 8,39% sobre o valor final da safra 2010/2011, que atingiu 556,95 milhões de toneladas. Serão quase 46,7 milhões de toneladas a menos.</p>
<p>A geada e o florescimento da cana prejudicaram a produtividade agrícola do canavial com maior intensidade do que havia sido inicialmente previsto. Por isso, houve, também, antecipação da colheita, agravando o problema e estendendo o período de entressafra. Os canaviais brasileiros <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/07/28/politica-para-etanol-na-contramao-da-logica-da-economia/">estão envelhecendo</a> e perdendo produtividade.</p>
<p>O resultado é que haverá menos etanol no mercado. O preço do açúcar também está pressionado no mercado internacional, com demanda bastante forte. Dessa forma, muitas usinas apostarão no açúcar. O preço do etanol ficará elevado por pelos menos mais três anos, se não houver problemas climáticos adicionais e se a idade média, medida em número de cortes, dos canaviais brasileiros for reduzida, com ganhos de produtividade. Significa que, na bomba, o álcool perderá da gasolina por vários meses do ano, quando não praticamente o ano inteiro, este ano e no ano que vem. Isso praticamente anula as vantagens dos carros flex.</p>
<p>O governo vem dando respostas conjunturais e não estruturais ao problema. Recorrentemente ameaça reduzir a adição de álcool anidro à gasolina. Seria um erro grave. Piora a poluição, aumenta o gasto com saúde pública e desacredita uma política que nos custou caro demais, mas agora está de pé, que é a dos carros flex. Adquirimos duas vantagens nessa área: todo posto brasileiro tem bomba para álcool (uma vantagem de infra-estrutura nada desprezível) temos um percentual elevado de motores flex nos carros que saem das montadoras (que corre o risco de cair). Conseguimos substituir perto de 40% da gasolina por álcool no Brasil, com os motores flex e a adição de álcool anidro à gasolina. No EUA essa substituição ainda <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1208201119.htm">não chegou a 10%</a>.</p>
<p>Para fortalecer a política de carros flex, o governo deveria atuar em duas pontas pelo menos: no etanol e na indústria automotiva. No caso do etanol, uma política mais seletiva de subsídios agrícolas poderia liberar recursos para um programa mais agressivo de renovação dos canaviais e aumento de produtividade, sem necessidade de aumento expressivo da área. Mas, mais importante ainda, uma política realmente forte de estímulo à pesquisa e desenvolvimento de etanol de segunda geração. O governo induziu a Petrobrás a se associar a usinas de álcool provavelmente imaginando que a empresa forçará as usinas a darem preferência ao álcool em relação ao açúcar. Em determinadas circunstâncias de mercado seria uma atitude antieconômica que poderia levar à retirada dos sócios privados. A Petrobrás não deveria entrar em negócios agrícolas. Não é o ramo dela. Mas poderia entrar em etanol de segunda geração.</p>
<p>O etanol de base celulósica, que usa principalmente resíduos agrícolas e florestais, de certa forma “desagriculturalizaria” o etanol, desculpem a agressão vocabular. Ele se tornais menos dependente das culturas e dos caprichos do mercado de commodities agrícolas. O bagaço de cana, as aparas de eucalipto, as partes rejeitadas dos grãos em geral (cascas, palha, sabugo) são boas fontes de celulose. Nesse caso, a Petrobrás seria recicladora de residuos para produção de biocombustível em usinas especializadas. Faria muito mais sentido. Com o amadurecimento da tecnologia e do negócio, ela poderia começar um plano de diversificação de atividades para fora do combustível fóssil, o que todas as companhias de petróleo terão que fazer, para sobreviver a longo prazo. Muitas já estão fazendo.</p>
<p>Até agora, a Petrobrás tem apostado no caminho errado para o biocombustível. Como no caso do biodiesel, imaginando que pequenos produtores podem ser supridores de matéria prima com regularidade, confiabilidade, e custos adequados. Não dá. Só a complexidade logística operação torna a atividade pouco viável. Fora os problemas sérios de produtividade, escala, regularidade e confiabilidade da produção. O biocombustível de segunda geração faz mais sentido não só para a Petrobrás, como também para os atuais grandes produtores de álcool. Será a base para usinas exclusivamente de biocombustível, capazes de produzir um leque variado de combustíveis, de acordo com a demanda e a necessidade do mercado.</p>
<p>Pelo lado da indústria automotiva, o governo perdeu uma ótima oportunidade ao aprovar novos subsídios para <a href=" http://www.ecopolitica.com.br/2011/08/10/eua-cria-metas-de-reducao-de-consumo-para-caminhoes-e-brasil-subsidia-lucro/">as montadoras</a>, sem qualquer condicionalidade. Poderia tê-los atrelado a um programa de melhoria tecnológica dos motores flex, para que se tornem mais eficientes no uso do etanol, reduzindo a vantagem de preço da gasolina sobre o álcool.</p>
<p>Com a quebra de safra, o preço do etanol vai superar o da gasolina. Por vários meses do ano, se não praticamente o ano inteiro, em 2011 e em 2012, os proprietários de carros flex farão economia se encherem seus tanques com gasolina. Para que o álcool compense precisa sempre custar na bomba menos de 70% do que custa a gasolina, porque os motores flex consumem 30% a mais, quando rodam com álcool. Mas o preço do álcool sobe mais que o da gasolina, porque a Petrobrás o mantém congelado para o distribuidor. A gasolina sobe na bomba por causa da elevação do preço dos 25% de álcool a ela adicionais, dos impostos e das margens do distribuidor e dos postos.</p>
<p>Ontem na Globonews, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrieli, <a href="http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2011/08/presidente-da-petrobras-jose-sergio-gabrielli-diz-que-acionistas-podem-ficar-calmos.html">disse à jornalista Miriam Leitão</a> que a empresa só pode alterar o preço quando três fatores estiverem em relativa estabilidade: o preço do petróleo, o preço dos combustíveis no mercado do EUA e o câmbio. Dadas as atuais circunstâncias globais, nenhum dos três tende a se estabilizar no curto ou médio prazo. Vivemos um período de volatilidade macroeconômica que persistirá por bastante tempo e que afeta diretamente esses três fatores de preço.</p>
<p>O Brasil terá que importar gasolina e etanol. A maior parte dessa importação será feita pela Petrobrás. Comprará gasolina mais cara do que venderá aos distribuidores, subsidiando o combustível fóssil. Já o etanol será importado a preços muito mais altos, talvez até mais elevados que o da gasolina. A <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/08/11/seca-no-eua-mantem-inflacao-de-alimentos/">quebra de safra do milho no EUA</a> e a demanda aquecida por etanol no mercado doméstico por causa das novas políticas de redução de emissões federal e em vários estados, reduzirá o excedente exportável. Na verdade, os produtores só se disporão a exportar a preços muito compensadores. Importamos etanol do EUA. O que significa que o importaremos a preços muito mais altos. O preço do etanol será inteiramente repassado ao consumidor. O uso de gasolina aumentará &#8211; só o consumidor “verde” se disporá, talvez, a pagar o sobrepreço para rodar com álcool &#8211; a poluição se agravará e os custos com saúde pública associados a doenças provocadas pela má qualidade do ar se elevarão. A participação do setor de transportes nas emissões brasileiras de gases estufa crescerá.</p>
<p>Esse quadro é típico daqueles que justificam e demandam políticas estruturais. Inovação tecnológica. Mudança de padrões. Ganhos de produtividade. Diversificação de fontes. Mas as respostas do governo tem, sido pobres, diante das necessidades do país.</p>
<p>Ouça também meu comentário na CBN:</p>
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		<title>Seca no EUA mantém inflação de alimentos</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Aug 2011 13:39:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>sabranches</dc:creator>
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Sérgio Abranches
A seca castiga o Sul do EUA, com epicentro no Texas, produtor de carne, algodão e grãos. Chega ao Meio Oeste, grande produtor de soja e milho. Isto significa mais pressão nos preços globais de comida, mais inflação alimentar, boas perspectivas para a exportação e risco de desmatamento no Brasil.
O epicentro dessa seca violenta [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>A seca castiga o Sul do EUA, com epicentro no Texas, produtor de carne, algodão e grãos. Chega ao Meio Oeste, grande produtor de soja e milho. Isto significa mais pressão nos preços globais de comida, mais inflação alimentar, boas perspectivas para a exportação e risco de desmatamento no Brasil.<span id="more-2571"></span></p>
<p>O epicentro dessa seca violenta é o Texas, que tem 75% de seu território em estado de “seca excepcional”, o mais grave da escala do Centro Nacional para Mitigação da Seca (NDMC). No EUA continental, 12% do território estão nesta condição. No Sul, além do Texas, estão sofrendo muito com a seca o Arizona, que enfrentou queimadas inéditas este ano, a Georgia, estado usualmente úmido, e o Oklahoma, grande produtor de algodão, que está com 65% do território em estado de “seca excepcional”. No Texas, 800 mil hectares de terra agrícola estão comprometidos. O pior é que o Sul já havia enfrentado seca muito rigorosa e grave em 2007, que atingiu Florida, Georgia, Alabama e Texas.</p>
<p>Agora a seca já entra em estágio mais grave também no Meio Oeste, região que está com 38% do território em situação “anormalmente seca”, a segunda mais grave do NDMC. Iowa, o maior produtor de soja e milho do país, está com 45% de sua área “anormalmente seca” e 19% do território de Indiana, outro grande produtor de milho, em situação de “seca moderada”, categoria imediatamente inferior. A onda de calor e seca atinge a soja no seu período reprodutivo.</p>
<p>A seca castiga os pastos e as plantações de soja, milho e algodão, principalmente. As culturas de soja e milho já haviam sido afetadas na primavera pelo excesso de chuva. Agora, mal recuperadas do stress hídrico, são atingidas pela seca. A maioria dos analistas já prevê uma safra pobre, como resultado.</p>
<p>Os preços do milho estão subindo fortemente. A demanda por etanol, que no EUA é de milho, está muito alta também. No começo desta semana o preço do milho superou o limite de 30 centavos por dia da <a href="http://www.dtnprogressivefarmer.com/dtnag/common/link.do;jsessionid=09848B059840834E421CAE5706D7EE24.agfreejvm2?symbolicName=/free/news/template1&#038;vendorReference=81adb8a8-9bec-43c0-ac3c-07dea59a884d">Bolsa de Futuros de Chicago</a>, que acabou sendo elevado pela agência reguladora federal. Significa admitir um período anormalmente longo e inevitável de volatilidade nos preços do milho no mercado de futuros. A pressão nos preços do milho vem desde junho, quando a seca já era grave e as estimativas de safra começavam a piorar relativamente à expectativas.</p>
<p>Para o Brasil, cria-se uma situação típica de oportunidade e risco. Oportunidade, porque em um momento de crise e de valorização do real, os exportadores de soja e etanol e, em menor escala, de carne, vêem os preços internacionais em forte subida. Os preços das outras commodities já estão caindo por causa dos sinais de nova recessão mundial. Risco porque a elevação do preço e demanda internacionais de soja e carne representam sempre um grande perigo de mais desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Desmatamento que já está <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/08/04/desmatamento-na-amazonia-aumenta-pelo-quarto-mes/">crescendo este ano</a>. No caso do etanol, vai agravar a <a href="http://www.ecopolitica.com.br/2011/07/28/politica-para-etanol-na-contramao-da-logica-da-economia/">contradição</a> entre a política federal de congelamento do preço da gasolina e estímulo ao carro flex. O preço do etanol pode se aproximar e até superar o preço da gasolina, fazendo com que os proprietários de carros flex encham seus tanques com gasolina. Isso desacredita a função redutora de emissões do motor flex e aumenta os danos ambientais e de saúde pública causados pela poluição automotiva. É o que em inglês chamariam de “mixed blessing”.</p>
<p>A consequência global desses efeitos econômicos da seca no EUA é que os preços globais dos alimentos continuarão altos. A inflação alimentar continuará elevando os índices de inflação. Na China, este já é o principal fator inflacionário. No Brasil, também tende a pressionar a inflação, porém mais moderadamente. O preço do etanol em alta acaba entretanto reduzindo o efeito redutor na inflação do congelamento do preço da gasolina. Como ela tem uma mistura de 25%, esses 25% levam ao aumento da gasolina na bomba. Mas, em muitos países, esse quadro de oferta de grãos em baixa e preços em alta significa fome e morte. É o que se está vendo dramaticamente &#8211; e numa trágica e dolorosa repetição &#8211; na Somália  e na Etiópia.</p>
<p>No Brasil, o governo terá que, em algum momento, rever sua política para a gasolina &#8211; que é economicamente contraditória e ambientalmente danosa &#8211; e aumentar as ações de comando e controle nas áreas críticas de desmatamento associadas à soja e à pecuária.</p>
<p>Ouça também meu comentário na CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_110811&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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		<title>EUA cria metas de redução de consumo para caminhões e Brasil subsidia lucro</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Aug 2011 15:53:45 +0000</pubDate>
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Sérgio Abranches
A agência ambiental do EUA, EPA, estabeleceu, pela primeira vez, parâmetros para redução do consumo de combustíveis para veículos pesados. A medida atinge caminhões, picapes e SUVs de grande porte e tem metas progressivas até 2018. Os veículos leves haviam sido objeto de regulação anterior. Já o governo brasileiro deu incentivos de graça à [...]]]></description>
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<p style="text-align: center;">Sérgio Abranches</p>
<p>A agência ambiental do EUA, EPA, estabeleceu, pela primeira vez, parâmetros para redução do consumo de combustíveis para veículos pesados. A medida atinge caminhões, picapes e SUVs de grande porte e tem metas progressivas até 2018. Os veículos leves haviam sido objeto de regulação anterior. Já o governo brasileiro deu incentivos de graça à indústria automotiva e perdeu uma bela oportunidade de gastar bem e formular uma política capaz de gerar benefícios duráveis.<span id="more-2555"></span></p>
<p>Os grandes caminhões terão que alcançar redução de 20% no consumo de combustível até 2018. A meta para picapes, vans e SUVs, que já consomem menos hoje, é de 15% até 2018. Segundo os estudos encomendados pela EPA, o aumento de preço dos veículos com os novos motores será compensado pelos proprietários em menos de dois anos com a economia de combustível.</p>
<p>A <a href="http://rfflibrary.wordpress.com/2011/08/09/final-rulemaking-greenhouse-gas-emissions-standards-and-fuel-efficiency-standards-for-medium-and-heavy-duty-engines-and-vehicles/">medida</a> é modesta, mas significativa. Primeiro, porque regula o desempenho desses veículos pela primeira vez. Os veículos leves e de passeio (automóveis, picapes e SUVs de menor porte) são regulados desde 1975 e passaram a ter novos e mais exigentes parâmetros meses atrás.</p>
<p>Segundo, o que faz essa medida relevante é a escala de seu alcance. Cada veículo pesado desses roda, em média, 320 mil quilômetros por ano, consumindo 95 mil litros de combustível, com um gasto anual de R$ 160 mil. No EUA, a idade média dos caminhões é de 11 anos e essas medidas levarão a uma renovação mais rápida da frota, fazendo com que as emissões totais desses veículos caia consideravelmente. Lá, muitos caminhões rodam com gasolina e etanol, ao contrário daqui, onde rodam apenas com diesel.</p>
<p>O próximo passo da EPA será regular a aerodinâmica desses veículos, para que seja possível aumentar ainda mais as metas de redução de consumo.</p>
<p>Obama já havia criado incentivos para energias renováveis, inclusive biocombustíveis de segunda geração, e para a produção de veículos a combustão mais eficientes, veículos híbridos e elétricos. Essa regulação estabelece critérios quantitativos a serem alcançados pela indústria com o uso desses subsídios e incentivos.</p>
<p>Muito diferente do que faz o governo brasileiro. Este, acaba de anunciar renúncia fiscal a favor da indústria automotiva, para que ela possa aumentar sua margem de lucro. O argumento é que aumentou muito a importação de carros e a indústria perdeu espaço. O governo desconsiderou o fato de que parte dessa importação foi feita pelas próprias montadoras, que trazem seus carros topo de linha e mais caros, de seus países de origem. Vai ganhar dos dois lados agora.</p>
<p>Redução de impostos é gasto fiscal. Deveria ser usada com parcimônia, quando é para subsidiar setores dinâmicos e ricos da economia. Com parcimônia e exigências para receber o benefício. O governo poderia, perfeitamente, ter exigido da indústria caminhões mais eficientes e motores flex que consomem menos quando movidos a álcool. O álcool já está custando 68% do que custa a gasolina. Nos próximos dias ou poucas semanas, ultrapassará a marca dos 70%, a partir da qual é desinteressante economicamente usar o álcool no lugar da gasolina. O preço da gasolina aos distribuidores está congelado pela Petrobrás. Na bomba, ele aumento por causa do aumento do preço dos 25% de álcool que são misturados ao combustível que é oferecido aos consumidores. Significa que a gasolina sobe sempre menos que o álcool. Tanto o etanol, quanto o açúcar estão com seus preços elevados pela grande demanda global e redução da oferta por razões climáticas. Resultado, o movimento de preços anula a vantagem de termos uma frota crescentemente equipada com motores flex. Se o governo exigisse que a indústria reduzisse a diferença na eficiência de uso dos dois combustíveis dos motores flex como contrapartida para os subsídios, encontraria uma justificativa melhor para essa transferência de renda dos contribuintes para um setor dinâmico e rico da indústria.</p>
<p>Os caminhões rodam com diesel de péssima qualidade e a frota brasileira tem idade média entre 19 e 23 anos, de acordo com diferentes estimativas. A mais recente, de um estudo encomendado pela ANTT, é de 23 anos. Veículos velhos, super usados e muito ineficientes.  Perto de 70% da carga no Brasil é terceirizada para autônomos. A idade média da frota dos autônomos é de 25 anos. Pior ainda. A manutenção é precária e a vistoria raramente funciona por causa da corrupção. Caminhões inadequados, com excesso de carga, desequilibrados rodam por todas as partes do país.</p>
<p>O governo teria feito muito melhor em gastar a maior parte desse pacote de estímulos à indústria, melhorando as condições do programa de renovação da frota de caminhões. Poderia também ter criado um teto limite de idade para os veículos, forçando a renovação da frota. Continuaria incentivando a produção industrial, mas buscaria benefícios mais duráveis, econômicos, de saúde pública, segurança nas estradas e ambiental.</p>
<p>Mas, as políticas são pensadas no Brasil olhando pelo retrovisor. Esse pacote atual é uma cópia mais ou menos atualizada do que os militares fizeram na década de 1970, com o Conselho de Desenvolvimento Industrial e o Befiex. Políticas que provocaram mais distorções que benefícios e atrasaram a modernização da indústria automotiva no Brasil. Estudei essas políticas com profundidade e detalhe em minha tese de doutorado para a universidade Cornell, O Leviatã Dividido (The Divided Leviathan). Não são recomendáveis. Como também não há o que recomendar no pacote do governo destinado à indústria automotiva. O governo perdeu uma bela oportunidade e vai gastar muito mal o dinheiro de nossos impostos.</p>
<p>Ouça também meu comentário para a CBN:</p>
<p><iframe src='http://www.cbn.com.br/Player/player.htm?audio=2011/colunas/ecopolitica_110810&#038;OAS_sitepage=cbn/comentarios/sergioabranches' width='475' height='193' marginheight='0' marginwidth='0' frameborder='0' scrolling='no' bgcolor='#CCCCCC'/></iframe></p>
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