Comentário
05 setembro, 2013

Extremos climáticos afetam agricultura brasileira

Sérgio Abranches

Estudo da Embrapa Informática Agropecuária e do CEPAGRI da UNICAMP tem evidências de que eventos climáticos extremos estão se acentuando no Brasil. Relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PMBC) a ser divulgado na semana que vem, confirmará essa constatação e alertará para o agravamento do quadro climático do Brasil, a persistir o grau de emissão global de gases estufa.

Eduardo Assad, agroclimatologista da Embrapa, coordenador do estudo Embrapa/Unicamp e membro do PMBC conta que avaliaram nos últimos anos os máximos e os mínimos de temperatura no Brasil, “sendo que a série para as mínimas é maior”. Os pesquisadores constataram que os eventos extremos estão se acentuando. Nas temperaturas mínimas essa intensificação é muito clara, diz ele. “Frio intenso por pouco tempo.”

Foram pesquisadas todas as estações meteorológicas do Brasil, para buscar “as máximas das máximas e as mínimas das mínimas”. O resultado obtido foi de tendência crescente dos extremos de frio e calor, em períodos mais curtos. Isto é, ondas de frio e calor intensos. “É isso, frio ou calor intenso por poucos dias e não na estação toda”, diz Assad.

Esses extremos climáticos estão afetando a produtividade da agricultura brasileira e seu agravamento pode pôr em risco a segurança alimentar brasileira, se nada for feito globalmente e no país. No Brasil, é preciso “reorganizar urgentemente o espaço agrícola brasileiro”, disse Eduardo Assad a Jan Rocha, da Scientific American.

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, que reúne mais de 300 cientistas brasileiros e é similar ao IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU, dirá em seu relatório que os riscos para o Brasil são grandes e que a agricultura brasileira sofrerá muito.

Eduardo Assad disse a Jan Rocha que perdas de produtividade e quebras de safra têm sido notadas desde o ano 2000. A produtividade tem caído em algumas culturas e regiões, notadamente no café, soja e milho, diz Assad. Agricultores da região cacaueira me disseram pelas redes sociais, após comentário que fiz na CBN sobre esse tema, que o cacau há anos sofre com os extremos climáticos. O mesmo se tem observado com a cana de açúcar.

Assad alerta que é preciso agir já, para evitar que esse quadro piore. Recomenda investir em sistemas agrícolas mistos, abandonando a monocultura, aumentar a fixação biológica do nitrogênio no solo, aumentar rotatividade de culturas e reduzir o uso de pesticidas dos quais somos hoje o maior consumidor mundial.

Todas essas iniciativas já fazem parte do plano para agricultura sustentável, o Plano ABC, cujo nome oficial tem mais letras que vontade de implementação: Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura. Por isso Assad diz que já se sabe o que fazer e se tem o conhecimento técnico para fazer. Falta governança, melhor orientação e regulação dos agricultores. Segundo ele é preciso elevar a produtividade no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul e preservar a Amazônia.

Aliás, estudo que será divulgado na próxima segunda feira, do Observatório ABC, uma iniciativa da GVAgro para acompanhar a implementação do plano para a agricultura sustentável, confirma. Coordenado pelo professor Sérgio Túlio da FGV-SP, o estudo mostra que o maior problema do plano é sua governança, ou seja, a estrutura de gestão e comando, que tem prejudicado muito sua implementação.

Por enquanto estamos fazendo tudo ao contrário. Os ruralistas estão promovendo investida sobre as terras indígenas e as unidades de conservação, somente uma minoria busca de fato uma agropecuária sustentável e de baixo carbono.

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Meu comentário na CBN: http://glo.bo/9KYOiU

 


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