Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria aconteceria
Sérgio Abranches
Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria iria acontecer. Nós já sabíamos que choraríamos centenas de mortes, que ficaríamos chocados diante dos aparelhos de TV, ouvindo o rádio, buscando mais informações nas redes sociais na Internet. Nós já sabíamos que passaríamos dias falando, chocados, sobre a tragédia, comentando, analisando, opinando.
Nós já sabíamos quem seriam os culpados. Nós já sabíamos que faltaria precaução, que a segurança seria analisada de forma superficial e burocrática. Nós já sabíamos que ninguém se perguntaria antes “e se acontecer um acidente, estaremos preparados? Teremos como salvar as vidas?” Nós já sabíamos que ninguém pensaria nas consequências, coletiva ou individualmente. Nós já sabíamos que ninguém examinaria seriamente os riscos envolvidos. Nós já sabíamos que todos tomariam decisões insensatas, assumiriam riscos inaceitáveis, deixariam de olhar para a frente e para as pessoas.
Nós já sabíamos que continuaríamos desperdiçando vidas jovens, recursos vitais e criativos críticos para o nosso futuro. Nós já sabíamos que ninguém levaria em consideração o valor humano e social daquelas quase duas mil pessoas, como grupo e como indivíduos. Nós já sabíamos que o espírito fraternal, a solidariedade, a identificação de cada um de nós com nossos semelhantes, só se manifestaria, como choro e revolta, depois da tragédia acontecida.
Nós já sabíamos que aceitaríamos como aceitáveis instalações inaceitáveis para eventos públicos. Nós já sabíamos que ninguém examinaria o conjunto e a interação entre suas partes: risco de incêndio; uso em excesso de material inflamável e tóxico, capaz de exalar vapores fatais em grande quantidade e pouco tempo; falta de sistemas adequados e bem dimensionados de exaustão do ar; falta de planejamento de segurança para a circulação das pessoas em circunstâncias extremas (são muitas as circunstâncias extremas muito prováveis, em eventos de massa, inclusive pânico sem razão forte. No caso o pânico era real e a circunstância, fatal.); superlotação, a mesma que vemos nos ônibus, metrôs e trens do país e que, em um acidente, aumenta o número de fatalidades inevitavelmente; pessoal de segurança treinado para a finalidade errada, não para assegurar a segurança das pessoas.
Nós já sabíamos que tudo seria tratado de forma burocrática e com descuido e desmazelo, antes da tragédia. Nós já sabíamos que ninguém assumiria a responsabilidade pela tragédia. Nós já sabíamos que enterraríamos nossos mortos em choque e com raiva.
Nós já sabemos, que daqui a algumas semanas esqueceremos nossos mortos, talvez porque estaremos chorando outros mortos nossos também, vítimas de outras tragédias que já sabemos que acontecerão. Ou talvez porque nenhuma tragédia aconteça no curto prazo, sabemos que esqueceremos tudo até a próxima, que sabemos que virá. Voltaremos à nossa rotina, à nossa vida diária, que não é fácil para a maioria de nós. Ela nos absorverá, até a próxima tragédia. Nossa indignação se esvairá como aquelas estrelinhas de bolo de aniversário. Resistentes ao sopro, mas não ao tempo breve da matéria que as anima a queimar. E esperaremos pela próxima tragédia.
Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria aconteceria. Só não sabíamos que seria em Santa Maria, na boite Kiss, na madrugada do último domingo. Pusemos a culpa nos responsáveis diretos e todos tivemos dificuldade de dormir no dia seguinte. Mas não nos perguntamos sinceramente, não consultamos nossos corações para saber porque nossa indignação dura tão pouco tempo e não se manifesta de forma mais efetiva. Não nos olhamos no espelho, ao lavar o rosto e escovar os dentes para ir correndo ler os jornais do dia, ver e ouvir o noticiário que já sabíamos seria dominado pela tragédia e não nos perguntamos por que continuarmos a tolerar o intolerável por tanto tempo. As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas. Mas são tragédias somente por causa do encontro entre a ocorrência e o comportamento humano. Tragédia nunca é destino, fatalidade, acaso. Tragédia é sempre o resultado das escolhas que fazemos.
Tags:desastres, precaução, Santa Maria, tragédia



Sérgio, não me contive e copiei este seu texto para compartilhar no Facebook.
Toda a minha indignação está contemplada no que vc escreveu.
Sérgio,
ótimo texto, mas vou desviar um pouco do assunto. Tragédias como esta, ou seja, muita gente falecendo no mesmo local no mesmo momento ganham a divulgação e o interesse de todos. Em algumas vezes a tristeza e revolta geram atos que ajudarão a prevenir eventos semelhantes. Tenho certeza, que a partir de agora a fiscalização (auto fiscalização, dos clientes ou das autoridades) será muito mais minuciosa em todas as casas noturnas
.
Entretanto tragédias homeopáticas, ou seja, onde muitos falecem pelo mesmo conjunto de causas, mas não necessariamente no mesmo local e mesmo instante, demoram ou jamais geram ações. O exemplo que mais me consome é a incivilidade dos motoqueiros paulistanos. Morrem 2 por dia. Mais por ano que cabe em qualquer avião. Todos sabemos. Ninguém age. Outro ponto é a quantidade de fogos de artifício estourados a cada gol de futebol. Quantos feridos por conta? O que precisa para gerar comoção e ação com tais tragédias.
abs
Balde de água fria necessário e verdadeiro. De fato nós já sabíamos.
Caro Sérgio. a Paz do Senhor Jesus Cristo.
Essa paz que os pais e mães tem que buscar, incessantemente. Nós já sabemos que, choraremos estes mortos, tão jovens, só até o carnaval, ou até a próximo tragédia, como sempre quiseram os políticos brasileiros envolvidos em escândaos.
Parabens pelo texto!
I am so sorry I do not speak Portugese. But your words bring tears to my eyes because they are so true. And what you say is so true about so many horrible things that we allow to happen from a fire in your country to senseless gun violence in mine. Thank you for such a moving essay.
Texto bem interessante, compartilhei para os meus contatos via e-mail.
Sergio
a gente já sabia que iria ocorrer isso, concordo, só não sabia que seria em Santa maria naquele dia, mas já sabíamos; e foi preciso que ocorresse para que o governo do RJ, fechasse os olhos para a corrupção e corresse a fechasse cento e poucos locais, que serão reabertos com certeza mais cedo ou mais tarde. DA mesma forma que a gente já sabia que as matanças em escola nos USA iriam ocorrer; só que na próxima (e vai haver)Obama dirá viu? eu avisei e vocês não me atenderam; a gente só não sabia embora pudesse imaginar porque possuia meios para amenizar é que o João Helio morreria arrastado preso a um cinto de segurança(aí envolve o fator criminalidade) e que haveria um tsunami na Asia e uma tromba d’água em Teresopolis(natureza) porque são questões que reunem um efeito de alguma causa, como no incendio do circo de niteroi RJ ou o holocausto. Salvam-se sempre quem não deve ser premiado com a fatalidade. Mas a gente sempre sabe ou imagina;nossa hipocrisia é que é muito maior do que o valor da vida.
abraços