Análise
28 dezembro, 2012

Previsão para 2013: mais surpresas do que certezas

HAPPY 2013

Sérgio Abranches

Quem disser que é possível prever como será o ano de 2013, está enganado ou querendo enganar. São tantas as incógnitas que a única certeza que podemos ter sobre o novo ano é que o inesperado trará surpresas em quantidade.

O Met Office, o centro de pesquisa meteorológica do Reino Unido, diz que 2013 pode ser um dos anos mais quentes já registrados. Pelo calor que se espalhou por praticamente todo o Brasil nesses últimos dias parece mais que provável. Já para quem está sofrendo com as  nevascas e tornados no EUA ou com a brutal onda de frio na Rússia parece implausível. Mas o que a ciência climática tem dito é que os extremos não são incompatíveis, ao contrário, andam juntos no processo de mudança climática. O ano pode ser o mais quente já registrado e, ainda assim, ter eventos localizados de frio extremo. Tudo é probabilístico. Quando olhamos para o que aconteceu nos últimos anos, o que vemos é que eventos climáticos extremos estão, mesmo, se tornando mais frequentes. Mas não é possível prever com precisão o que acontecerá com o clima em 2013. Certamente seremos surpreendidos.

Na economia, os modelos de previsão, tanto acadêmicos, quanto do mercado financeiro, têm errado muito mais que acertado. Há quem diga que é preciso ter uma visão histórica da economia, para poder entender o que se passa e prever o que se passará. Mas a experiência da história só ajuda, se não houver descontinuidades. E o que temos visto na última década na economia global é uma sucessão de rupturas e descontinuidades. O celebrado economista neokeynesiano Robert Skidelsky diz que os modelos dos economistas estão mesmo se comportando muito mal. Ele argumenta que a previsão econômica é necessariamente imprecisa: muitas coisas acontecem e os preditores não são capazes de prever todas elas. Entram, por isso mesmo, inevitavelmente, nas previsões conjecturas e julgamentos subjetivos altamente falíveis. Mas, alerta Skidelsky, imprecisão é uma coisa, erros sistemáticos são outra muito distinta. As premissas dos modelos estão falhando. Howard Davies, da Sciences Po de Paris, relembra que pouco antes de deixar a presidência do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet reclamou que os modelos econômicos e financeiros haviam sido de muito pouca valia para tomar decisões durante as crises. Disse mais, que diante da crise, “nos sentimos abandonados pelos instrumentos convencionais” de análise e previsão.

Todos os que admitem o fracasso dos modelos de previsão têm uma receita para melhorar o desempenho das análises. Correções derivadas dos paradigmas econômicos tradicionais. Trichet, pelo menos, demonstrou menos confiança nos paradigmas da disciplina e pediu que se examinassem modelos da física, da engenharia, da psicologia e da biologia para tentar entender o que está se passando. Davies lembra que o especialista em mudança climática Robert May tem sugerido que modelos ecológicos ajudariam a explicar melhor o que se passa na economia. Em seus artigos, May argumenta que sistemas complexos não são necessariamente estáveis e que sua instabilidade aumenta com a complexidade, isto é, com o número e a intensidade das interações. A economia global aumentou dramaticamente sua complexidade nas últimas duas décadas. Segundo May, o ecossistema financeiro havia atingido a complexidade de uma floresta tropical quando entrou em colapso. Epidemiologistas sugerem que a maneira pela qual as pandemias ocorrem podem ajudar a compreender o processo de contágio nas crises financeiras.

Certamente a fertilização transdisciplinar ajudaria muito a melhorar os modelos dos economistas. Na sociologia, o estudo de eventos de contágio há muito incorporou os modelos epidemiológicos, adaptados aos processos sociais. A raiz do problema não está exatamente nos modelos, mas no fato de que a economia está em transição para um novo padrão estrutural. Os paradigmas econômicos oferecem soluções adequadas a um padrão estrutural que está em declínio e o novo padrão ainda não está suficientemente visível para que um paradigma ou modelo analítico e de previsão possa ser desenvolvido e dê resultados melhores. O mais provável é que qualquer análise ou previsão sobre os aspectos mais complexos da crise econômica mundial fiquem muito longe do alvo. O mais provável é que as surpresas do inesperado furem qualquer modelo.

Na política, desde a chamada “Primavera Árabe” em 2011, a imprevisibilidade das análises prospectivas já havia ficado estabelecida. Ninguém foi capaz de antecipar o que aconteceu, nem a forma como aconteceu, nem como se deu o contágio que se espalhou da Tunísia ao Egito, chegando à Líbia e à Síria. Não se previu, tampouco, que a revolta popular na Síria levaria a uma sangrenta guerra civil e que Bashar Al Assad se mostraria um tirano ainda mais sanguinário que Muammar Gaddafi. No Egito, muitos imaginaram que o resultado seria um regime islâmico fundamentalista. Outros, que o processo levaria a uma democracia emergente. Não deu uma coisa, nem outra. Sem instituições sólidas da sociedade civil, a mudança emulada por um movimento espontâneo e contagioso de massas está levando a um resultado que está mais próximo da cultura política do país: um novo regime autoritário. Era previsível. Imprevisível é o que resultará da frustração do sonho de liberdade que animou a praça Tahrir. Nem os modelos que explicavam a história política desses países, nem os modelos ocidentais sobre democratização têm poder explicativo ou preditivo para essas novas situações.

Há fenômenos inteiramente novos intervindo na vida social e política, que também está se tornando mais complexa. O acesso às redes digitais por meio da comunicação móvel aumentou o número e a intensidade das interações. Há mais margem para o inesperado, do que para o esperado na efervescência política. Ela atinge não apenas o Norte da África e o Oriente Médio, mas todo o mundo. É possível ver os sinais do descontentamento e da frustração com a economia e a política na Europa, na Ásia, nas Américas e na África.

Vivemos um mundo em transição. Não bastasse o aumento da complexidade econômica, social e política, que tem um previsível efeito desestabilizador, estamos também no primeiro estágio de uma longa e transformadora revolução científica e tecnológica. Essa revolução terá numerosos efeitos disruptivos, mas de direção imprevisível, em toda a nossa vida econômica, social e política. Ela afetará nossa demografia, nossas ocupações, nossas interações, criará novos riscos, resolverá velhos problemas e criará problemas totalmente novos. É o que Thomas Khun chamou de mudança paradigmática. Uma mudança que produz eventos muito disruptivos, que requerem rupturas radicais com o passado. Ela vai alterar as instituições e normas existentes, transgredindo os limites da ordem atual e de forma inapreensível pelos atuais modelos de análise.

Não se deve esquecer que essa instabilidade na sociedade global se dará em um planeta ecologicamente mais instável, por causa da aceleração da mudança climática.

Portanto, a única coisa a fazer é exorcizar o medo do desconhecido e do inesperado. Isso não significa que não devamos nos esforçar para reduzir os riscos mais perigosos que estão em todos os alertas. Por precaução, pelo menos, deveríamos tentar mitigar esses riscos, mesmo que as previsões sobre sua ocorrência sejam incertas. É porque não sabemos que devemos mudar. Que 2013 seja um ano em que aprendamos a surfar melhor as ondas da mudança.


Tags:, , , , , , , , ,