Herman Hesse, os livros e as gerações
Sérgio Abranches
Herman Hesse, cujo cinquentenário da morte lembramos este ano – ele morreu em 9 de agosto de 1962 – para celebrar sua vida e obra, tinha paixão pelos livros. Para ele “todo livro é uma aventura da mente e um convite para experimentar os regalos da imaginação”.
Hesse não era um escritor de muitas complexidades. Sua literatura é franca. Mas fez suas experimentações, principalmente em O Lobo da Estepe, e abriu caminhos. Um dos expoentes do expressionismo alemão, promoveu inusitada e inédita fusão entre o espírito alemão e a mente oriental.
Escreveu belos poemas, também. Eles têm mais a simplicidade aparente da poesia oriental que a força cerebral de um Goethe ou um Rilke. Seus poemas não têm rebuscamentos, artifícios de linguagem ou adereços formais. São despretensiosos, lembra Andrew Harvey, na edição recente de poemas traduzidos por Ludwig Max Fischer que permaneciam inéditos em inglês. Os poemas de Hesse são reflexões singelas, às vezes soam como conselhos desarmados de um amigo mais velho e experiente.
Hesse foi uma influência decisiva em minha formação literária e intelectual na juventude. Ele marcou muitas gerações, desde a do após guerra de 1914-1918, que recebeu como uma revelação seu Demian, publicado no ano icônico de 1917. Demian pertence à tradição alemã do romance de formação (bildungsroman) mas é literariamente muito distinto de Buddenbrooks ou de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, outra influência fundamental para mim, sobre a qual escrevi na introdução de meu romance O Pelo Negro do Medo (no prelo, setembro 2012, Record). Li Demian com o espanto das grandes descobertas. Não é seu maior romance, mas foi o mais importante na minha busca de um caminho intelectual no início da juventude, na altura de meus 16-17 anos. O Jogo das Contas de Vidro, teve em mim impacto muito mais cerebrino. Um romance filosófico, que li misturado às primeiras leituras de filosofia sempre muito desordenadas, quase anárquicas. Demian foi uma leitura muito mais emocional, de descoberta mesmo, de espanto.
Sentia em Hesse a mesma aversão ao autoritarismo e às ordens pré-estabelecidas. Era essa aversão ao padrão dominante que me fazia recusar as leituras lineares ou com lentes dogmáticas de filosofia. Bordejei, a vida toda, o crime do ecletismo. Só mais tarde fui capaz de inocentar os ecléticos e passar a ver neles qualidades que sempre lhes foram negadas. Quando me liberei dos preconceitos contra o ecletismo, decidi que Hesse cabia melhor entre os ecléticos. Sua fusão entre o pensamento do Ocidente e do Oriente, sua adesão – até por razões existenciais – à psicanálise rompiam claramente com os rigores do sistema intelectual dominante na Alemanha de seu tempo.
Essa rebeldia do espírito de Herman Hesse cativou muitas gerações. Na minha geração fui um dos muitos conquistados por sua literatura. Era um pouco assim: “amávamos os Beatles e os Rolling Stones” e Herman Hesse, mesmo quando não o dizíamos abertamente em todas as rodas que frequentávamos. Me lembro de ter dado livros de Hesse a muitos amigos. A uma amiga em particular, a cópia de Sidarta que lhe dei foi como uma tábua de salvação, à qual se agarrou para começar a sair de uma profunda crise emocional, que a conduziu, depois, à psicanálise e muitas mudanças. Hesse tinha, às vezes, esse potencial de atingir pontos profundos do Eu, de dar pistas de significados para a vida, que ajudam principalmente as almas jovens, inquietas e perplexas diante de emoções fortes que não sabem ainda processar na sua busca da maturidade.
Abaixo um poema de Herman Hesse sobre livros e conhecimento, que traduzi da versão para o inglês de Ludwig Max Fischer, em Seasons of the Soul: The Poetic Guidance and Spiritual Wisdom of Herman Hesse, North Atlantic Books, 2011.
Livros
Herman Hesse
Todos os livros do mundo
não te trarão felicidade,
mas construirão trilha secreta
rumo a teu coração.
O que necessitas está em ti:
o sol, as estrelas, a lua,
a iluminação que estavas procurando
brilha no teu interior.
A busca do conhecimento
te fez garimpar as bibliotecas.
Agora cada página diz a verdade
que emana de ti.


