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29 julho, 2012

Sorry, Amado

Sérgio Abranches

O texto que se segue foi escrito sob a emoção da notícia da morte de Jorge Amado. Lembrei-me dele, hoje, lendo Caetano Veloso, no Segundo Caderno de O Globo, dedicado ao centenário de Jorge Amado. Caetano fala da emoção de ouvir o excelente escritor moçambicano Mia Couto contar-lhe sobre a influência de Jorge Amado na literatura africana de língua portuguesa. Posteriormente, um amigo dos Estados Unidos lhe diria que essa influência transcende a África de língua portuguesa.

Essa influência de Jorge Amado é realmente geral e foi por causa desse reconhecimento do poder de sua literatura, muito além das fronteiras da língua e já de longa data, que terminei lendo e admirando sua obra. Emocionado, na época, com sua morte, fui assaltado pela memória de meus dois primeiros encontros literários com Jorge Amado e resolvi escrever sobre eles em minha coluna em No.:

Vou confessar um pecado da adolescência. Quando li Jorge Amado pela primeira vez, não gostei. O primeiro livro dele que me caiu às mãos foi Cacau, o seu segundo. Achei grosseiro, populista. Eu era jovem e algo precoce nas minhas leituras, o que empoava ainda mais minha soberba de adolescente intelectual. O próprio Jorge Amado diria dele mesmo as razões que me fizeram, de início, desgostar da leitura de seu romance. Ele era o antidoutor, o antierudito, folhetinesco, um intruso nas letras, um estranho no ninho da inteligentzia. E, embora ele mesmo, não sem ironia, se definisse dessa forma, evidentemente não era popularesco, muito menos populista, era popular. Um defensor das causas populares, na vida e na literatura. Um bravo, incansável lutador, até agora, quando foi encantado, nunca vencido.

Já que comecei, confesso tudo. Quem me fez ler Jorge Amado novamente, primeiro com atenção, depois com gosto, foi Albert Camus, então uma referência central para mim. Continua sendo uma inspiração importante, embora o que dele hoje me fale mais fundo, não seja o mesmo que me mobilizou na adolescência e na juventude.

Um dia, um sofisticadíssimo amigo me trouxe como lembrança de uma viagem a Paris uma coletânea de textos de Camus para a imprensa. Entre eles, lá estava, para minha surpresa, uma aclamação de Bahia de Todos os Santos, o quarto livro de Jorge Amado. Li, com espanto, a frase curta de Camus sobre ele: “um livro magnífico e atordoante”. E lá estava a denúncia firme de minha ignorância. Ao comparar Bahia de Todos Santos com o romance de Jean Giraudoux, Choix des Elus, então celebrado como uma grande obra intelectual, o relato de Jorge Amado saía vitorioso, exatamente porque, segundo Camus, poucos livros estariam tão distantes dos jogos gratuitos da inteligência. Via em Bahia de Todos os Santos, o uso comovente dos temas folhetinescos, uma entrega à vida, naquilo que ela tem de excessivo e desmesurado.

Atordoado, fui à biblioteca de meus pais – os dois eram leitores fiéis dele – para pegar imediatamente Bahia de Todos os Santos para ler e tentar descobrir nele a trajetória apaixonada de um ser natural em busca da revolta autêntica. A palavra mágica, naquele dia de revelação, foi revolta. Era o culto da revolta que então me ligava a Camus.

Demorou, mas me curei. Há mais anos do que gostaria de confessar, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, velho marinheiro sem barco e sem mar, desmoralizado em terra, mas não por culpa sua, ou vagabundo por excelência, é para mim um marco inexcedível da literatura brasileira. E não pela revolta – e revolta houve, contra aquele asqueroso espanhol que lhe serviu água por pinga – mas pelo que tinha de picaresco, por seu tom de folhetim, pelo suspense em torno daquela morte anunciada, pelos cortes quase cinematográficos da narrativa, pelos flashbacks. Um folhetim inigualável.

Nunca mais duvidei das evidentes virtudes de Jorge Amado, que me deixaram atento para o extraordinário exercício intelectual que é escrever um bom folhetim. Uma crônica autêntica do dia a dia, suspensa nos mistérios criados pelo ritmo da pena. Acabei leitor admirado dos dois maiores folhetinescos que tivemos, antípodas políticos, aproximados pelo domínio genial desse gênero enganador, Jorge Amado e Nelson Rodrigues.

Já adulto, estava uma vez em casa de amigos, em uma gelada cidade de upstate New York, conversando sobre literatura, e falei de minha lista particular de grandes autores brasileiros e das obras marcantes para mim. Jorge Amado e seu A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água já devidamente presentes. Havia um argentino na roda de discussão e a conversa acabou fluindo naturalmente para a literatura de seu país. Em meio à conversa fiz um elogio de Borges e disse, numa empolgação típica dessas conversas noturnas regadas a vinho, que ele expressava uma parte importante da alma argentina. Estava pensando no lado ‘tanguero’, ‘milonguero’ de suas narrativas e em seus poemas sobre o Sur. São expressões com raízes populares, mas com predominante visão elitista. O argentino, um esquentado revolucionário, sentiu-se ofendido, me ofendeu diretamente em revide e a coisa quase acaba em pancadaria. Para ele Borges nada tinha de expressão do sentimento argentino, não passava de um porta-voz de uma elite predatória e sanguinária.

Lembrei-me desse episódio porque ele tem algo a ver com minha primeira reação a Jorge Amado. Eu, por elitismo e arrogância intelectual, menosprezei uma manifestação não só de raiz – retrato da autenticidade popular com a qual Amado se identificava – mas de extraordinária riqueza literária. Ele, por intolerância ideológica, negava em Borges o inegável, sua autêntica argentinidade. Duas formas de preconceito.

Não me julgue mal o leitor. Em momento algum imaginei, ao escrever essa confissão acima, que ela tenha alguma importância a propósito de Jorge Amado. Foi apenas um abuso de poder sobre esse pequeno território que me foi dado em No. Estou me aproveitando abusadamente dele em proveito pessoal, só para poder dizer publicamente: sorry, Amado. Salve Jorge.

(Publicado originalmente na revista eletrônica No. Notícia e Opinião, em 7 de agosto de 2001, onde mantive uma coluna até que, por inanição, se tornasse No Mínimo e depois desaparecesse. Aqui reproduzido com ligeiras correções editoriais.)


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