Meteorologia para segurança climática
Sérgio Abranches, de Durban
O presidente da Organização Mundial de Meteorologia (WMO), Michel Jarraud, anunciou hoje, aqui em Durban, que já estão sendo implantados serviços sobre o clima. “A mudança climática já está ocorrendo, o padrão de eventos climáticos mudou, afeta a agricultura, põe populações em risco e não há informação adequada para que pessoas, agricultores, governos possam tomar decisões”.
Esses serviços começarão para atender, de início, a quatro questões fundamentais: prevenção de desastres, saúde e endemias, segurança alimentar e gestão de água. Isso implicará em instalar equipamentos de observação em todos os países onde eles não existem ou não são adequados aos objetivos desses serviços. As redes de observatórios são melhores do que há vinte anos, mas ainda insuficientes em várias partes do mundo, explicou Jarreau.
“Com a mudança climática, o passado não é mais um bom indicador do futuro, em termos de previsão climática”, disse o presidente da WMO. Não é o mesmo que prever o tempo. É um exercício ainda mais probabilístico, explicou, em um intervalo de tempo bem mais longo. Mas o que se tentará é, por exemplo, prever com mais precisão as estações e a severidade de eventos típicos. Jarreau usou, como exemplo, a estação seca e a severidade das secas futuras na região do Chifre da África, que continua a sofrer no momento uma onda de fome de alta mortalidade por causa de seca muito severa e longa. A ideia é desenvolver previsões regionais para as estações, com a probabilidade da intensidade das chuvas ou da seca, com semanas, de preferência meses de antecedência, para permitir o planejamento da prevenção de desastres associados a eventos mais extremos, programar plantações e colheitas, estabelecer sistemas de estoque e vazão de água, prevenir endemias e se preparar para a migração de doenças.
O mais significativo do anúncio da WMO é o sentimento de urgência dos cientistas do clima, para começar a desenvolver serviços que permitam adaptação mais segura à mudança climática. Para eles, mudança climática é uma questão que já apresenta alto risco no presente e esse risco será crescente no tempo. Para salvar vidas, é preciso melhorar rapidamente os serviços meteorológicos ligados ao clima, não mais apenas ao tempo, explicou o presidente da WMO.
Esse sentimento de urgência põe em evidência, por contraste, o ritmo com que os negociadores avançam nas negociações do Clima, desde Bali. Aqui em Durban, espera-se como um grande acontecimento movimentos milimétricos do EUA e da China, que permitiriam desbloquear as conversas, fazer um segundo período tampão de compromissos para o Protocolo de Quioto e estabelecer um novo roteiro e calendário para um futuro acordo sobre mudança climática, para 2015 ou 2020.
O sentido de urgência dos cientistas não é suficiente para acelerar as decisões políticas. Já não se está vivendo um impasse nas negociações, o que se vive é um impasse climático. A mudança climática acelera, enquanto os governos se mostram incapazes de reagir à altura da ameaça.
Nos corredores do Centro de Convenções, ICC, que abriga a COP17, fala-se todo o tempo nas brechas que se abrem: “brecha de ambições”, que mostra enorme distância entre o que a ciência diz ser necessário reduzir de emissões e o que os governos estão dispostos a reduzir; a “brecha de Quioto”, o vazio jurídico que se criará, se não houver um segundo período de compromissos. Mas a principal brecha é política. Há um evidente divórcio, no mundo todo, entre o que as sociedades desejam e o que os governos se propõem a fazer.
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