Diário de Durban: véspera da COP17
Sérgio Abranches
Desembarquei em Durban, depois de uma viagem longa, mas bastante tranquila e confortável. Encontrei jornalistas e outros brasileiros também viajando para participar da COP17.
O único pequeno problema, na parte internacional do vôo, foi doméstico. Em Joanesburgo, estavam informando um portão para o embarque para o vôo da South African Airways 571 para Durban, mas o avião havia estacionado no portão do lado oposto. Custou-nos quinze minutos de atraso, esperando os que haviam sido dirigidos erroneamente para outro portão. Mas o quadro de vôos indicava o portão correto. Tive a vantagem de estar chegando do Brasil quase em cima da hora, e consultando o quadro, percebi a troca.
Mas a viagem do Santos Dumont, no Rio de Janeiro, para Guarulhos, em São Paulo, foi, para dizer o mínimo, bizarra. O vôo da TAM atrasou muito. O comandante atribuiu ao tráfego aéreo no Rio, o que àquela hora era improvável. A notícia na imprensa dizia que uma pane no sistema da empresa afetou a maioria de seus vôos. Provavelmente esta é a explicação verdadeira.
Embarcamos pela porta de trás, enquanto os passageiros que chegaram no mesmo aparelho desembarcavam pela porta da frente. Ao terminar o desembarque, o comandante pediu no microfone para nos acomodarmos o mais rapidamente possível, porque tínhamos cinco minutos para estar na cabeceira da pista, para decolagem. Se não estivéssemos na cabeceira da pista às “11:00 horas menos dois”, não decolaríamos, porque o Santos Dumont encerra as operações às 11:00 horas. Assim que o último passageiro do ônibus embarcou, fecharam as portas e o comandante começou a levar o avião rumo à cabeceira da pista, com as pessoas em pé colocando as bagagens nos compartimentos.
Enfim decolamos. Volta o comandante: “quero agradecer a colaboração de todos. Decolamos precisamente às 11:00 horas. Mais um minuto e teríamos tido que voltar e desembarcar.”
Era para termos decolado às 9:45. Enfim, chegamos em Guarulhos à meia-noite e quinze. Esperei a bagagem até meia-noite e 50. Andei todo o aeroporto. O check in da South African Airways era no final do último setor. Check in rápido e cortês. O embarque seria, claro, no último portão.
Embarcamos às 2:20 da madrugada. Decolamos às 2:40. Às 3:00, serviram café da manhã. Fecharam as persianas para eliminar o “efeito noite”. Decidi levar a sério e não dormir. Me ajudaria a compensar o fuso horário de quatro horas à frente. Vi quadro episódios de seriados para a TV que aprecio e havia baixado antecipadamente para o MacBook Air. O piloto de uma série nova, que mistura suspense, fantasia e terror. E um filme-noir de ação. Li muito. Resolvi escrever. Duas horas antes de chegarmos a Joanesburgo, serviram o almoço. Tomei um excelente chenin blanc sul-africano. Finalmente pousamos.
Ao chegar em Durban, nada funcionava. O shuttle do aeroporto para o Centro de Convenções era uma confusão só. Todos muito solícitos, mas sem saber muito bem o que fazer. Eu havia comprado dois bilhetes (ida e volta) antecipadamente, pelo site fornecido pela secretaria da COP17. Foi uma perplexidade só. Acho que fui o primeiro que apareceu com bilhete pré-pago. Levaram 45 minutos para descobrir o registro e me dar os bilhetes.
Esperamos o ônibus encher e a motorista fez o percurso inteiro, com paradas intermediárias onde ninguém desceria. Todos queriam chegar o mais rápido possível aos hotéis. Mas, para isso, era preciso ir até o ICC, o Centro Internacional de Convenções, e descobrir que van pegar para cada hotel. Havia 22 jovens voluntários atendendo os delegados, para indicar-lhes que van tomar. Mas não conheciam a maioria dos hotéis da lista oficial. Entabulavam uma conversa em sua própria língua, até um prevalecer, e enviavam a pessoa para um dos pontos. Muitos tinham que trocar de ponto, porque uma conferência entre motoristas decidia que o trajeto era outro.
Meu hotel, um velho palacete tombado e decadente, em frente à marina de Durban e a quatro quilômetros do ICC, ambos na região central de Durban, ninguém conhecia. Nem os motoristas. Achei mau sinal. Era. O hotel, minha quarta escolha, os outros três, mais próximos e certamente melhores, já estavam lotados, quando tentei reservar. Tive que mostrar ao motorista o Google map no iPhone com o trajeto para o hotel, para conseguir chegar. Resultado, desembarquei em Durban às 18:10 e cheguei ao hotel às 22:00, exausto.
O hotel é bem velho, a cama é confortável. O quarto do hotel é pequeno e o banheiro parece aqueles armários de hotel parisiense. Mas o chuveiro é melhor que os de Paris. Só tem internet no café-bar do hotel e, quando tentei, não funcionou. O café da manhã é fraco. Saí para o ICC às 9:00 da manhã. Não encontrei qualquer ponto para as vans que fazem o transporte. Caminhei até lá, para me registrar.
Cheguei por entre grande número de trabalhadores, ainda cuidando dos últimos preparativos. Muita obra ainda sendo feita.
O processo de registro foi muito rápido e tranquilo. Passei pela reunião do G77+China, a caminho da sala de imprensa. Só parecia ter chinês. Não cheguei a ver brasileiros. A sala de imprensa é muito pequena. Se foi dimensionada com base no número de jornalistas registrados, a cobertura vai ser menor que a de Cancún, na COP16. Cancún teve, claro, muito menos imprensa que Copenhague. A internet por enquanto é ótima. Vamos ver quando todos estiverem usando.
Durban está toda mobilizada pela COP17. No vôo de Joanesburgo para lá, li matéria no Independent de sábado que os engarrafamentos serão gigantescos, porque os carros com “luz azul” abrirão passagem prioritária para os delegados. De fato, mesmo no sábado, à noite, o trânsito estava pesado. Há muita improvisação ainda. Os primeiros dias serão um teste e os organizadores terão que fazer muitos ajustes. Achei alguns serviços subdimensionados. Por exemplo, o transporte dos delegados do ICC para os hotéis está sendo feito por vans, que como no Brasil, fazem lotação. Algumas das empresas foram contratadas para fazer esse transporte, que é gratuito. São pequenas e circulam em intervalos de 30 minutos. Na saída no final do dia vai as filas e esperas podem ser enormes. Muita gente vai reclamar. Em Cancún, eram ônibus, desses de turismo, e enchiam.
A reunião começa oficialmente amanhã. Farei meu primeiro comentário na CBN no horário normal: 9:25 do Brasil, 13:25 daqui. Farei um segundo, às 15:30, 19:30 para mim.
Tags:Cancún, COP17, Copenhague, Durban



Adorei o relato.
Mostra bem que o trabalho do jornalista começa muito, muito antes do ato de apurar e escrever a matéria objeto. Em torno dela, na verdade, gravitam outras tão importantes quanto e que merecem sempre ser registradas. Ter um espaço próprio de publicação nos dá essa oportunidade.
Beijos e bom trabalho