Risco político afeta preço do petróleo
Sérgio Abranches
A probabilidade de que os preços do petróleo permaneçam no intervalo US$90.00 – US$100.00 por várias semanas, talvez meses, é crescente. O risco político inerente à atividade petrolífera está aumentando recorrente e fortemente e pode empurrar os preços para cima. Um patamar mais alto para os preços do petróleo pode afetar a economia global.O determinante principal da alta de preços é a incerteza sobre o suprimento. A queda de Muamar Khadafi, nos próximos dias, poderia reduzir um pouco o stress do mercado e trazer o preço até abaixo daquele patamar. Mas a instabilidade não desaparece por mágica. A reconstrução em todos esses países de uma ordem institucional que permita governança estável levará meses, em alguns casos, anos. A Líbia, por exemplo, tem muito pouca institucionalidade. A nova ordem começará praticamente do zero e terá que levar em consideração a distribuição do poder entre chefes tribais. Nada fácil.
Se, ao contrário, a situação acabar em guerra civil, os preços, obviamente baterão picos bem acima desse patamar. Alguns especialistas já falam em US$ 150.00.
A influência da situação líbia nos preços tem mais a ver com qualidade, do que quantidade. Todo o óleo da Líbia é fino, várias refinarias importantes na Europa e na Ásia só conseguem refinar este petróleo. Para refinar óleos mais pesados precisam ser recalibradas, isso requer investimento, e o refino de qualquer forma fica mais caro.
Mas a Líbia não é a única fonte de preocupação. A revolta está se espalhando pelo golfo árabe, já atinge Bahrain e Omã. Além disso, continuam no Iêmen e na Argélia. No Egito e na Tunísia, nada está resolvido ainda. Há seguidas notícias de enfrentamento violento entre as forças de segurança e manifestantes em Teerã. O nível de tensão na Arábia Saudita está alto, não só por causa da instabilidade regional, mas porque o grau de insatisfação interno também é grande.
Cada situação nacional é muito diferente da outra, mas o contágio está atravessando essas diferenças e fazendo a revolta se alastrar. É cada vez menos provável que o quadro se acalme e estabilize repentinamente como os problemas parecem ter começado.
Digo parecem porque quem acompanha a região, sabe que surtos de revolta têm ocorrido em quase todos eles ao longo da última década. O que estamos vendo agora é um processo de saturação e explosão. Um “tipping point”.
Há três fontes distintas de risco político de médio e longo prazo. O primeiro está relacionado ao agravamento e demora de uma solução que atenda minimamente às demandas das populações revoltosas. O segundo é o de espalhamento dessa onda de revolta para outros países, especialmente abalando grandes produtores de petróleo como Irã e Arábia Saudita. Há perigo de contaminação de outros países, como aconteceu com Omã, e de aprofundamento da crise em países já em stress, mas ainda com capacidade de manutenção do status quo, ainda que com grau crescente de repressão, como o Irã.
Fatores político-estruturais projetam esse risco para o longo prazo. Eles reduzem a probabilidade de que os regimes do Irã e da Arábia Saudita venham a ser desestabilizados a ponto de queda dos atuais governantes nesse ciclo de revoltas. São regimes mais sólidos, com componentes religiosos que servem de contrapeso à revolta, mais propensos ao uso da força repressiva e com maior capacidade militar. No caso do Irã, Ahmadinejad criou uma guarda pretoriana de elite, à la Saddam Hussein, mais efetiva e mortal que os militares. E tem maior controle sobre os militares também, pelo menos aparentemente. Chefes tribais locais também criaram milícias armadas e violentas, os “basij”, que ajudam na repressão dos protestos. Na Arábia Saudita, a aliança da família Saud com a principal e mais radical seita religiosa, dos wahabistas, consolida uma relação de comando e controle estado-religião capaz de aguentar por mais tempo a pressão dos descontentes.
O mais provável é que esse países fiquem cronicamente mais instáveis, com insatisfação social latente e crescente, provocando novos surtos de protestos no futuro, em um ambiente de instabilidade regional prolongada. Esse cenário de instabilidade crônica eleva o risco político de longo prazo subjacente aos movimentos do preço do petróleo.
O terceiro fator de risco político do petróleo é o processo de reordenamento institucional de países saídos de uma revolta que derrubou governos longevos e autoritários. A construção de nova governança é demorada e sujeita a recaídas de turbulência política e retomadas autoritárias, que podem levar a novos surtos de violência.
Portanto, do ponto de vista do risco político, a probabilidade de um cenário de alta prolongada do petróleo está aumentando. Além disso, a OPEC já não controla nem metade da oferta mundial de petróleo, portanto seu poder regulatório é insuficiente para servir de contrapeso a esses fatores de risco. Não tem força para redefinir expectativas construídas com base na avaliação do risco político. Essa avaliação, no mercado de petróleo é levada a sério e bem feita. Há expertise no setor. Risco político sempre foi inerente ao petróleo, desde a estatização da exploração pelos países produtores no final dos anos 1950 e ao longo dos anos 1960. Na década de 1970, com a formação da OPEC e a primeira crise do petróleo, esse elemento de risco político inerente à atividade petrolífera foi ainda mais reforçado.
Estamos falando de incertezas no suprimento e ameaças de desorganização da gestão petrolífera em uma das principais regiões petrolíferas do mundo. Sem mencionar o fato de que esse processo de contágio de revolta tem potencial para atingir países da da Ásia central, como Uzbequistão, Turquemenistão e Tajiquistão. Está atingindo a China, onde a repressão maciça consegue conter, com muita violência, os opositores. Mas os descontentes atingem, também, escala de massas. A própria Rússia, hoje importante provedor global de petróleo, continua muito propensa à instabilidade política.
Com o preço do petróleo ameaçando manter-se em um patamar insustentável do ponto de vista macroeconômico, a recuperação mundial corre o risco de ser abortada. Mais ainda, a crise pode se espalhar por países que não havia atingido mais duramente, no ciclo iniciado pelo colapso das hipotecas, da subprime, como Brasil, China e Índia.
Não é um cenário inevitável, mas é de probabilidade crescente. O risco político se eleva e pode afetar de forma significativa o desempenho da economia global. Cria-se um movimento retro-alimentado: o preço do petróleo afeta a economia e a globalização das repercussões econômicas do petróleo em alta realimenta a crise econômica agravando-a via fluxo de capitais e comércio internacional.
Se esse cenário se confirmar, a única saída para evitar uma grande recessão global seria acelerar a realocação dos investimentos das fontes fósseis de energia para as energias alternativas. Um aumento rápido e significativo dos investimentos em novas fontes renováveis e limpas de energias e na aceleração do processo de inovação tecnológica, para antecipar a entrada de tecnologias limpas no mercado, poderia contrabalançar o impacto recessivo do preço do petróleo. Especialmente se esta recuperação verde gerar uma onda mundial de reformas urbanas, para criar nova infra-estrutura “verde” para as cidades. Este é um investimento muito trabalho intensivo, capaz de produzir um ciclo positivo de crescimento de emprego e renda. Uma espécie de contra-ciclo keynesiano verde.
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