Comentário
23 fevereiro, 2011

O mito do filho bom do ditador sanguinário

Sérgio Abranches

Eu tive um grande e modesto professor em Cornell, Eldon (Bud) Kenworthy, que escreveu um primoroso artigo sobre o uso de “casos pouco conhecidos” para comprovar hipóteses pouco plausíveis em política comparada. Digamos, o uso do caso pouco conhecido para alimentar mitos. Lembrei-me de Bud, ao ler sobre o filho de Kadafi, considerado o mais “liberal e moderno”, que ordenou o bombardeio dos manifestantes em Trípoli.

Kenworthy falava do uso e abuso de visões primárias de Perón e Vargas para provar as mais diferentes e frágeis hipóteses sobre política no mundo subdesenvolvido. Ele talvez não concordasse com minha interpretação de que a ignorância e falta de profundidade de analistas apressados ou ingênuos alimenta mitos. Fica por minha conta.

Bud Kenworthy foi a melhor pessoa que encontrei durante minha estada em Cornell e foi muito forte a memória de nossas conversas, ontem, quando retuitei um tuíte de @Ian_Fraser, com a tese que Saif Al-Islam Alqadhafi, o filho de Kadafi que ordenou confessadamente o bombardeio de manifestantes civis nas ruas de Trípoli. Fraser obteve a tese via @kairyysdall, Kai Ryssdal, que retuitou @carney, John Carney, da NetNet o novo blog sobre finanças da CNBC. Passei os olhos pela tese ontem a noite. Quem quiser lê-la, está aqui.

Fica registrada minha homenagem a Bud Kenworthy, que já não está entre nós.

O mito baseado no caso pouco conhecido funcionou claramente nas avaliações ocidentais de Saif Al-Islam Alqadhafi. Ele era considerado o mais “ocidentalizado” e “moderno” dos herdeiros de  Kadafi. A esperança para a liberalização da Líbia. Provavelmente, em grande parte por causa da tese de doutorado em filosofia, que aprovou na London School of Economics e das palestras que fazia em eventos acadêmicos prestigiosos em Londres e, provavelmente, outras praças ocidentais.

Na tese, ele agradece nominalmente pela “orientação direta”, a Nancy Cartwright, conhecida professora de Filosofia da LSE, foi presidente da Associação Americana de Filosofia, seção Pacífico, é fellow da Academia Britânica, e pertence à Academia Americana de Artes e Ciências, da Academia Alemã de Ciências e recebeu a importante MacArthur Fellowship. Ao politólogo David Held, autor de várias obras obrigatórias sobre democracia na era da globalização e governança global, provavelmente o cientista político britânico de maior prestígio no mundo. Ele é o Graham Wallas Professor of Political Science da LSE, e co-diretor do Centro para o Estudo da Governança Global. Alex Voorhoeve, Senior Lecturer do Departamento de Filosofia da LSE, que pesquisa o “igualitarismo liberal”, autor do livro “Conversations on Ethics” (Diálogos sobre Ética). E Joseph Nye, um dos mais brilhantes politólogos especializados em relações internacionais, criador do conceito de “soft power”, premiadíssimo autor de importantes obras.

Saif Al-Islam, foi o “speaker”, no “Evento Ralph MiliBand Especial” na London School of Economics, em mesa presidida por David Held, em maio de 2010. Ralph Miliband foi um dos mais famosos politólogos da nova esquerda européia, pai dos ex-ministros de Gordon Brown David e Ed Miliband. Título da palestra: Líbia – Passado, Presente e Futuro. Dá para imaginar o que ele disse. Menos de um ano depois tornou-se o autor, não de nova obra de filosofia ou ética política, mas de um massacre dos mais covardes desse ciclo de revoltas no Norte da África e Oriente Médio.

O título completo da tese é “O papel da sociedade civil na democratização das instituições de governança global: Do ‘poder moderado’ (soft power) à decisão coletiva? Li partes do texto. Nada mal.

Nem por ter lido e compreendido todos os autores liberais, progressistas e social democratas, deixou de ordenar o massacre de seu povo. Herdeiro presuntivo de um ditador sanguinário, era um filósofo da democracia e, na prática, uma personalidade autoritário e não menos sanguinária que o pai. Transcrevo abaixo trechos do sumário, para que se tenha uma ideia do ela trata.

“Essa dissertação analisa o problema de como criar instituições de governança global mais justas e democráticas, explorando a perspectiva de um sistema mais formal de decisão coletiva por três principais atores na sociedade global: governos, a sociedade civil e o setor empresarial. (…) A tese tem seu foco no papel da sociedade civil, analisando argumentos a favor e contra um papel da sociedade civil que vá além do “soft power” rumo à inclusão como membros votantes em estruturas decisórias inter-governamentais no sistema da ONU, nas instituições de Bretton Woods, na Organização Mundial do Comércio e outras. (…) A tese defende o argumento de que que a inclusão de organizações não-governamentais (ONGs) em estruturas tripartites de decisão poderia potencialmente criar um sistema global de governança mais democrático. (…)”

Diz ainda que se baseia em três fundamentos filosóficos: o ‘liberalismo individualista’: “há fortes motivações para que indivíduos livres busquem termos justos de cooperação”; a ‘teoria da justiça global’; e os “oito princípios do cosmopolitismo de David Held que sustentam o conceito e as estruturas específicas da ‘Gestão Coletiva’.”

Deixa ver se entendi: a governança global democrática e participativa, para além do “soft power” pode ( e talvez no caso deva) ser compatível com tiranias sanguinárias, no plano doméstico, que se baseiam no uso de “very hard power”. A justiça global nada tem a ver com justiça doméstica. Como diz meu amigo Ancelmo Góis: “é, poder ser”.


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