Orilaxé: um modo de vida premiado
Sérgio Abranches
O prêmio Orilaxé, do AfroReggae, é um espetáculo singular, não apenas pelo que se passa no palco, com as premiações e os shows, mas pelo que acontece na platéia e nas comunidades nas quais o grupo atua. Ontem, 21 de dezembro, a versão 2010 do prêmio aconteceu no Teatro Carlos Gomes.
A singularidade do Orilaxé tem sua raiz na identidade que o AfroReggae foi construindo para si mesmo, ao longo dos últimos 17 anos. Nascido da dor e da violência, fruto da guerra urbana que tem marcado dramaticamente o Rio de Janeiro nas últimas duas décadas, ele se dedicou a fazer pontes pela cidade apartada. Aprendeu a mediar conflitos praticamente intratáveis. Buscou maneiras culturais de elevar a auto-estima dessas comunidades reféns da violência, subjugadas pelo preconceito e bloqueadas pela discriminação, de um lado, e pelo banditismo tirânico, do outro.
A dor esteve presente no palco do Teatro Carlos Gomes, no centro do Rio, desde o primeiro momento, com um trecho da peça Urucubaca, texto de Jorge Mautner e direção de Johayne Hildefonso e Malu Cotrim. Mas ela não aparece como capitulação ou lamento e sim como alerta e superação. É para lembrar da guerra e tornar vitoriosa a busca da paz.
Não há como apagar da história dessas comunidades a dor e o abuso de toda sorte. O AfroReggae consegue transformar esses horrores de nossa degradação social e urbana em aprendizado e lição. E a dor não está só na história. No final do ano passado, o grupo perdeu o Evandro, assassinado como tantos outros amigos e irmãos. Os policiais envolvidos no crime tiveram pena leve. Evandro se foi quando estava dedicado a fundo ao belo projeto da Orquestra AfroReggae. Hoje a orquestra tem o nome de Diego Frazão, perdido no começo deste ano para a leucemia, o menino violinista que Evandro havia conquistado para a arte.
Mas não é a dor que identifica o AfroReggae. É a esperança. A idéia de que “a cabeça tem o poder de transformação”. Orilaxé na linguagem dos Iorubás. O AfroReggae se diferencia no universo do movimento social no Brasil não porque é um grupo de pensamento e ação, ou cultura e ação, mas principalmente porque adquiriu uma capacidade de articulação política e social e de mobilização absolutamente ímpar. Essa capacidade vem da construção de pontes que atravessam as barreiras da apartação racial, territorial e social. No trabalho de mediação cultural, o AfroReggae foi tecendo uma rede improvável de apoios, adesões e estímulo ao engajamento, que vai muito além de todas as fronteiras. Encara as desconfianças e os ressentimentos entre grupos que se enfrentaram a ferro e fogo, com muito sangue, na longa batalha urbana. Suas interferências atravessam os preconceitos, as hierarquias, as barreiras culturais e ideológicas. É preciso coragem e determinação para enfrentar as incompreensões e desconfianças, transitar entre governos e oposições, defender teses polêmicas como a reintegração de criminosos na ativa, navegar as águas tempestuosas das diferenças ideológicas e religiosas. E nesse processo vai unindo desde lideranças do setor empresarial até grupos de rap, funk e outras manifestações culturais das mais remotas periferias urbanas, passando por egressos do tráfico dispostos a mudar de vida e mudar a vida de outros. Esses laços constroem “conexões urbanas” quase impossíveis. Algumas delas bem retratadas no programa de TV apresentado por José Junior, Coordenador Executivo do grupo, no Multishow.
Essas conexões aparecem vivas na platéia e no palco do Orilaxé. Elas são fortes, estimulantes e emocionantes. Conectam pedaços dessa sociedade fragmentada do Rio de Janeiro e do Brasil. Produzem um espetáculo de tolerância, diversidade e força que é uma lição eloquente do que é possível, do que foi possível e do que estamos perdendo por não tentar mais. Ali se encontram ex-traficantes e policiais. Ali se encaram grupos que se estranham e chegam, às vezes, à beira do ódio entre si. A platéia e o palco onde se dá a festa do prêmio é tão somente uma espécie de vitrine para que se possa ter uma idéia do espetáculo muito maior que se desdobra no dia-a-dia das comunidades, nos projetos que se multiplicam, nas surpresas que o inesperado lhes faz, boas ou traumáticas.
Eu acho um espetáculo à parte, para mim o mais emocionante, ver o grau de capricho, auto-estima e orgulhosa alegria com que a comunidade AfroReggae e suas comunidades irmãs festejam o Orilaxé.
Orilaxé deixou há muito de ser um prêmio, se é que algum dia foi só um prêmio, criado em 2000 para comemorar o sétimo aniversário do grupo. Orilaxé é uma filosofia prática de vida, um modo de ver o mundo e interferir nele de forma diferenciada. E isso se vê nos semblantes da mais bela diversidade de pessoas dessas comunidades, no dia que se celebra esse princípio de confiança na mudança e de consciência de que elas podem ser agentes dessa mudança. Orilaxé na dinâmica dessa platéia viva, criativa, sorridente, bonita é a celebração da transformação de vítimas e reféns de uma vida urbana degradada e repartida, em agentes da recuperação, da pacificação, da re-união. Dos muito jovens aos mais velhos, sente-se essa corrente vital e essa certeza de que é possível mudar.
Quem sobrevive essa batalha urbana diária, contra as balas cruzadas, a sedução dos jovens pelo crime, a violência e a discriminação de todos os lados, a tirania das fronteiras impostas por facções criminosas já é herói. E essas comunidades estão repletas desses anônimos heróis da resistência urbana. Mas quem consegue superar a dor e evitar o ressentimento, estampar um invejável brilho de energia e criatividade nos olhos, se orgulhar do que conquistam a cada dia, em lugar de se lamentar das perdas pesadas que sofrem, mais que herói é exemplo extraordinário de vida. Um modelo existencial.
Presto muita atenção nos que não conheço. Nos que estão se revelando pela primeira vez e, neste particular, não só em referência às comunidades onde o AfroReggae atua. Faço isso Brasil afora. O que me espanta sempre não é do que esses brasileiros são capazes e da riqueza de talentos. Todos os talentos revelados, ainda que da forma mais incipiente, tiveram alguma oportunidade. Eles chamam atenção é para os milhares que também poderiam exercer as habilidades que têm, aprender mais e desenvolvê-las à plenitude, mas que não são alcançados por nenhuma dessas intervenções de resgate. Ficam esquecidos, muitos abrem mão e terminam desperdiçados. É evidente que esses talentos deveriam estar nas escolas regulares, recebendo educação de qualidade, que estimulasse suas diferentes vocações. Que garimpassem inovações na diversidade cultural, étnica e de gênero. Nossas escolas, porém, principalmente as da periferia – mas não só elas – não têm qualidade e não criam muita oportunidade para que os talentos vicejem. Estamos desperdiçando nossa principal riqueza: as pessoas.
O AfroReggae vai abrindo o seu horizonte de visão e ampliando as conexões temáticas a cada ano. Este ano, dedicado ao empreendedorismo, do qual o grupo é um exemplo valioso, pude ver alguns nexos sendo construídos entre as questões culturais e sociais que estão na raiz de sua motivação com a questão ambiental, que é o grande desafio coletivo deste século. Se não o enfrentarmos, dificilmente conseguiremos êxito na luta pela ampliação da cidadania e erradicação da pobreza. Às calamidades da guerra urbana somaremos sucessão intolerável de catástrofes ligadas a eventos climáticos extremos. Sem falar nos danos da poluição e nas doenças por falta de saneamento, como a dengue.
Ouvi o grupo Ação Comunitária Caranguejo Açu, da Ilha de Deus, no Recife, falar da destruição dos mangues e da conexão entre sua luta particular e a questão ambiental. O poeta Sérgio Vaz, que transformou um bar na periferia de São de Paulo em palco de teatro e ponto para saraus poéticos e literários, conta do campo de futebol que virou cemitério. Cemitérios urbanos constituem um preocupante problema ambiental das cidades sobre o qual ninguém gosta de falar. O diretor teatral e documentarista Marcus Vinícius chama atenção para os enormes danos causados ao ambiente e à saúde das pessoas pela nova siderúrgica recém-aberta em Santa Cruz, com um processo de licenciamento para lá de discutível. A falta de oportunidades força a população a apoiar um projeto danoso a seus interesses mais permanentes, porque gera emprego e renda. O descolamento entre crescimento econômico, bem-estar geral, controle de emissões e poluição e preservação do ambiente é uma das características do modelo de desenvolvimento que temos aprofundado nos últimos anos.
Tenho escrito que a ação pela paz do AfroReggae é também uma ação de recuperação ambiental. A guerra é um dos maiores fatores de degradação ambiental tanto física, quanto social, quanto humana. Ela destrói a espécie mais valiosa do planeta: o ser humano. Nas cidades brasileiras estamos dizimando os indivíduos jovens, do sexo masculino e principalmente negros dessa espécie. No Rio, os índices de extermínio dessa parte da espécie humana são os mais altos e espantosos. Não faz sentido pensar em preservar as outras espécies quando aniquilando partes de enorme valor da espécie humana.
Fortes emoções sempre assinalam as noites do Orilaxé. Mas há, também, boa música. Desta vez, com o AfroSamba, cria do grupo, a quase transparente brancura da afinadíssima Roberta Sá cantando as belezas do ser negra. Alcione encerrou a noite com seu vozeirão e sua bossa.
A platéia cantava animada, celebrando a negritude na diversidade, capaz de transcender a adversidade e encher a noite com lições de viver.
Meu comentário na CBN sobre o Orilaxé:
Tags:AfroReggae, mudança, negritude, Orilaxé, racismo, violência urbana


