Análise
02 agosto, 2010

A conjuntura e as preferências eleitorais

Sérgio Abranches

Ibope e Datafolha para o final de julho divergem bastante. Datafolha dá empate entre Serra e Dilma. Ibope dá vantagem de cinco pontos para Dilma. Isso é problema?

Não é problema. É comum a divergência entre Institutos, embora nem sempre em patamar de 3 pontos percentuais para cada candidato. Uma diferença total de 6 pontos percentuais. A distância entre os candidatos apresenta, em decorrência um desvio de 4 pontos. No Datafolha, Serra teria 37% e Dilma 36%. Já no Ibope, Serra teria 34% e Dilma, 39%. Há, também, um desvio de 3 pontos percentuais nos números de Marina Silva, com 10% no Datafolha e 7%, no Ibope. Veja o gráfico abaixo.

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O que pode explicar esses desvios?

A ligeira diferença de data: o Datafolha é de 23-24 de julho e o Ibope é de 26-29 de julho; ou diferenças de amostragem e coleta dos dados: Datafolha e Ibope têm critérios distintos de amostragem, estratificação das amostras e coleta das informações.

É improvável que tenha havido essa volatilidade toda, no espaço de menos de uma semana. Não houve nenhum evento extraordinário que desse maior visibilidade a um dos candidatos. Para explicar essa divergência pela diferença de data, algum evento deveria ter afetado negativamente a preferência por Serra, para que ele caísse  5 pontos entre as duas últimas pesquisas do Ibope. Eu não identifiquei nenhum evento que pudesse explicar persuasivamente mudanças nas preferências acima das variações esperadas dentro da margem de erro amostral. Como, no Ibope, as preferências por Serra caíram e as intenções de voto em Dilma permaneceram estáveis, em 39% (ponto em que o Ibope identificou empate entre os dois, em convergência com o Datafolha no mês de junho), abriu-se a diferença de cinco pontos entre os dois. No Datafolha, os dois candidatos oscilaram para baixo, dentro da margem de erro: movimento mais esperado na hipótese de ausência de evento significativo que mexesse com as preferências.

A explicação de diferenças de amostragem e de coleta pode se aplicar melhor a esse caso de divergência entre os institutos. O desvio do Ibope em relação ao Datafolha, de 3 pontos percentuais, é simétrico para os três candidatos, mas com sinal diferente. É positivo para Dilma Roussef e negativo para Serra e Marina. Esse tipo de simetria com sinais diferentes tende a se explicar por um tipo comum de desvio amostral: o ‘desvio ecológico’. Ele ocorre quando parte da amostra cai territorialmente em um veio, que tem um viés em uma só direção. Nesse caso, seria um viés “pró-Dilma”. Se for essa a explicação, nas próximas rodadas, Ibope e Datafolha podem convergir.

O desvio médio entre as preferências captadas para os dois candidatos por cada um dos institutos é maior para Dilma do que para Serra. Esses desvios são maiores que o erro amostral dos dois institutos: 3,17 para as diferenças nas preferências por Serra e 4,83 para Dilma. As diferenças foram pequenas entre março e abril. Isso tende a indicar que essa divergência atual ampliada se deve menos a volatilidades no ambiente, do que a algum tipo de discrepância nas amostras que poderia ter sido acentuada pelas características da amostragem e/ou da coleta de dados de cada um dos institutos.

Diante disso, cabe a pergunta: alguma das duas pesquisas é mais confiável? Eu diria que as duas são igualmente confiáveis, julgando-se pelos critérios metodológicos que adotam. Nesse período de pouca informação ao eleitor, é de se esperar que haja alguma volatilidade, especialmente entre amostras. O resultado do Datafolha tem mais explicação contextual: a conjuntura indicaria mais estabilidade do que volatilidade. Mas isso não significa que a pesquisa do Ibope esteja errada. Ela pode estar captando, por seu desenho amostral distinto, uma volatilidade ou variações territoriais ou sociais, que a amostra do Datafolha não captou. Por exemplo, a amostra do Ibope pode ter caído em alguns municípios com distribuição diferente de preferências eleitorais. Podem ter, até, acertado em uma distribuição idiossincrática. Impossível dizer. Tudo nesse universo de preferências é probabilístico e cambiante.

A melhor forma de evitar fazer julgamentos precipitados entre um e outro, com base em um ponto de qualquer pesquisa, é examinar a média móvel das pesquisas desses institutos. Uma pesquisa só, é uma espécie de foto em preto e branco de uma realidade dinâmica e colorida. A média móvel seria como uma colagem de fotos em preto e branco tiradas em momentos diferentes. Simula um movimento. Retira algumas ‘imperfeições’ da visão estática, porque aplaina a curva, mas, de qualquer forma, nunca revela tudo que a realidade contém.

Flagrantes do quadro eleitoral pelas médias

A análise da média móvel das pesquisas Ibope e Datafolha indica um quadro de momento ainda de relativa estabilidade. A volatilidade ainda é baixa, como se devia esperar em uma conjuntura de poucas novidades e uma estratégia de baixa exposição de parte dos dois principais candidatos. Apesar da divergência entre as últimas pesquisa do Ibope e do Datafolha, o quadro revelado pelo gráfico das médias das últimas três pesquisas desses institutos é de pouca mudança.

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Como se pode ver no gráfico, o quadro não tem se alterado muito desde o final de abril, quando a trajetória de crescimento das preferências eleitorais para Dilma Roussef (PT-RS) estabilizou na parte superior do patamar dos 35%-40%. José Serra (PSDB-SP) está, desde fevereiro, estacionado nesse mesmo plano. Marina Silva está também estacionada no patamar de 10%-12%, por todo o período. Tudo que aconteceu foi oscilação dos candidatos no entorno de dois pontos percentuais. As médias aplainam a trajetória, reduzindo os desvios entre os dois institutos. Isso em parte neutraliza o efeito de variações puramente amostrais entre eles, deixando o que é tendência mais visível.

Qual a revelação mais importante do gráfico? A perda do favoritismo por José Serra. A candidata lulista aproximou-se dele e agora disputa a ponteira das pesquisas. Serra não conseguiu, em todo esse período, agregar mais preferências do que já tinha, dados os votos que obteve na disputa com Lula e o recall de seu nome, incrementado pela campanha vitoriosa para o governo de São Paulo e pela visibilidade que obteve como governador. Essa inércia não foi suficiente para lhe garantir o favoritismo, conquistado por ser o mais conhecido e testado dos candidatos. Na etapa de campanha que começa com os debates e o horário gratuito na TV e no rádio terá que disputar para valer os pontos necessários à vitória.

A segunda coisa importante que o gráfico mostra é que a trajetória ascendente de Dilma Roussef encontrou um ponto de resistência. Essa trajetória lhe garantiu o empate e a vantagem do momentum, que não pode ser desprezada. Mas ela terá, também, para vencer, que romper esse ponto de resistência, durante a fase “madura” da campanha, obviamente com a mão de Lula. Em outras palavras, Dilma, no momento, embora também em estado inercial, como José Serra, tem a vantagem do movimento diante da estabilidade longa do tucano.

O que se pode dizer desse momento é:

hoje não há favoritos certos;

Dilma Roussef, ao subir até a posição de Serra, ganhou vantagem dinâmica;

tudo indica que persiste o empate entre os dois, a menos de variações amostrais.

É provável, diante disso tudo, que os debates e a campanha na TV venham a ter um papel mais importante na decisão dos eleitores, este ano. Nas quatro últimas eleições presidenciais, o palanque eletrônico e os debates tiveram influência reduzida na formação das intenções de voto dos eleitores. Várias pesquisas indicaram que perto de metade do eleitorado escolheu seus candidatos em conversas em família, com amigos e no ambiente de trabalho. Perto de 25% decidiram com base em critérios ideológicos ou pessoais. Eram “cabeças feitas”, desde o início. Ou seja, apenas um quarto do eleitorado sofreu alguma influência mais forte da propaganda eletrônica ou dos debates.

Os debates, naquelas campanhas, foram o fator que menos influenciou os eleitores. As pesquisas mostraram que a maioria absoluta indicava como vitorioso o candidato no qual tinham a intenção de votar.

O palanque eletrônico teve como função primordial confirmar as preferências que a maioria do eleitorado formou por outras vias e ajudar parte dos indecisos a se decidir. Mas o que as pesquisas indicaram, também, é que naquelas eleições a maioria absoluta dos indecisos se decidiu na mesma direção dos que se decidiram antes. Em outras palavras, a distribuição das preferências dos “atrasados” era praticamente igual à distribuição de preferências dos que se decidiriam mais cedo na campanha. Essa pode ser, também, uma diferença nas eleições deste ano e o perfil dos que decidirem mais tardiamente ou “na boca da urna” ser diferente daquele formado por eleitores cujas decisões se cristalizaram logo no início da campanha. A única vez em que isso aconteceu em presidenciais foi em 89, na eleição de Collor.

Nessa hipótese, o início dos debates e do “palanque eletrônico” aumentará a probabilidade de volatilidade real nas intenções de voto. Se, nos primeiros 10 dias dessa nova fase da campanha, a volatilidade aumentar em relação ao período em que estamos, o padrão de decisão do voto este ano pode ser bem diferente daquele que vimos nas quatro eleições anteriores, de FHC e Lula.


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