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27 julho, 2010

Wikileaks e o jornalismo: inovação e diferenciação

Sérgio Abranches

O vazamento pelo Wikileaks de milhares de documentos sobre a operação militar do EUA no Afeganistão está causando grande polêmica na imprensa e na webesfera, no momento. O Wikileaks foi criado para receber “vazamentos” de material confidencial sobre questões sensíveis. O que isso tem a ver com o jornalismo?

Primeiro de tudo, virou notícia. A divulgação dos documentos sobre o Afeganistão, os “War Logs”, ou “Diários da Guerra” está em todos os jornais e sites jornalísticos do mundo. A Casa Branca disse que não há novidades no que foi vazado. A Slate, concorda. Fred Kaplan diz que se alguém se surpreender com algo do que está lá, acaba de chegar ao mundo dos que lêem jornais. Mas, como diz William Saletan, também da Slate, alegar que não há novidade nos vazamentos é uma tentativa de driblar a opinião pública. Há revelações ou relembranças suficientemente perturbadoras para justificar sua publicação com destaque. Julian Assange, fundador do Wikileaks diz que há nos documentos evidências de crimes de guerra.

A noção errônea de que “não é novo, não é notícia”, está desmentida na própria repercussão na mídia internacional. Notícia é. E não só o fato de terem sido vazados 90 mil documentos antes classificados como confidenciais. O próprio conteúdo dos documentos é matéria jornalística e gera controvérsia. Até mesmo no próprio governo, como chama atenção a Wired: “Militares discordam de seu próprio relatório sobre míssil ‘wikivazado’ (wikileaked)”. Há discordância sobre o teor de relatório que fala de um helicóptero Chinook ter sido derrubado pelos rebeldes.

Como diz, com toda razão, C.W. Anderson, pesquisador da escola de jornalismo da universidade Columbia, “descobrir algo novo pode não ser tão importante quanto encontrar um padrão em algo que já está por aí”. David Corn, chefe da sucursal de Washington do site Mother Jones diz que, de qualquer forma, o “Afeganistão foi, verdadeiramente, foi uma guerra que recebeu sub-cobertura, além de ter sido sub-discutida e sub-debatida”.

Jeff Jarvis, jornalista, professor de jornalismo, blogueiro e forte formador de opinião no ambiente jornalístico no EUA, tuitou o seguinte sobre seu primeiro post no blog BuzzMachine sobre o caso:

Thinking about wikileaks: Is no secret safe now? Where is the line of transparency? (Pensando sobre wikileaks: nenhum segredo está mais seguro agora? Por onde passa a linha da transparência?)

No post, Jarvis diz que a moral dessa história dos vazamentos dos “diários da guerra” é que “nunca se sabe o que será vazado”. Mas o ponto central que ele quer mesmo discutir é se há um limite para vazamentos. Se existe uma ética do segredo que o jornalismo investigativo deveria obedecer. A resposta que ele encontra para a questão é inequívoca:

“O caso do Wikileaks é um exemplo de ‘atravessar a linha’? Primeiro, precisamos perguntar onde a linha deveria estar. Eu acho que ela tem que se mover de tal modo a definir que o padrão, especialmente no governo, seja a transparência. Ao invés de perguntar o que deveria ser dado a público, deveríamos perguntar o que deveria permanecer privado.”

Para Jay Rosen, professor de jornalismo da New York University, blogueiro e também influente formador de opinião, a novidade maior é que Wikileaks, diferentemente da imprensa convencional, não está submetido às leis que impedem a divulgação de material confidencial. A “lógica da Internet” permite que torne público qualquer coisa. Esta é a grande novidade: embora sediado na Suécia, Wikileaks não é de país algum. É, segundo Rosen, o primeiro caso de uma organização noticiosa “apátrida”. Ele usa a expressão “stateless news organization”. Acho que, neste sentido, a melhor tradução é, mesmo, apátrida.

“Se você for ao perfil do Twitter do Wikileaks, onde está ‘local’ diz: em todo lugar. Esta é uma das coisas mais surpreendentes sobre ele: é a primeira organização noticiosa apátrida do mundo. Eu não consigo pensar em exemplos anteriores disso. (Dave Winer, no comentários: ‘a blogosfera é uma organização noticiosa apátrida’.) Wikileaks está organizado de tal forma que se houver bloqueio legal em um país, os servidores podem ser transferidos para outro. É assim para colocá-lo fora do alcance de qualquer governo ou sistema legal. Por isso é tão estranho a Casa Branca reclamar: “Eles nem nos contataram!”

Mas é jornalismo? É a nova fronteira do jornalismo investigativo? A primeira pista para ajudar a responder a essa questão foi levantada pelo próprio Jay Rosen:

“Faça-se a seguinte pergunta: por que Wikileaks simplesmente não publicou os diários da guerra e deixou os jornalistas de todo o mundo terem acesso a eles? Por que entregá-los ao The New York Times, ao Guardian e Der Spiegel primeiro? Porque, como Julien Assange, fundador do Wikileaks explicou em outubro passado [à Computerworld], se uma grande história estiver disponível a todos igualmente, os jornalistas vão deixá-la de lado.”

Em outras palavras, queria que a informação virasse notícia, repercutisse na imprensa convencional, onde as pessoas vão em busca do que consideram notícia. Eu diria, informação com credibilidade vinda de padrões de conduta firmados e testados. Olhem só que órgãos de imprensa foram escolhidos. Essa é a resposta que Dan Kennedy, professor de jornalismo da universidade Northwestern, em Boston, dá no Guardian, ao perguntar porque “Wikileaks recorreu à imprensa”?

“Material chocante e uma queda para relações públicas podem ser suficientes para você ser notado. Mas se é credibilidade que você quer, então as velhas organizações jornalísticas ainda têm algo a oferecer.”

Jeff Jarvis, em outro post, sobre “jornalismo com valor agregado”, conta que perguntou ao editor chefe do Guardian se seu jornal deveria ter criado um Wikileaks, como ele começou o CommentIsFree, inspirado no Huffington Post. O Wikileaks é um recurso para o jornalismo investigativo e, portanto, deveria fazer parte do arsenal próprio, interno de um jornal? Ou deveria ficar como algo à parte? “Eu acho que é melhor separado” foi a resposta de Rusbridger. Porque o Wikileaks “faz coisas que um jornal não gostaria ou não poderia fazer”. Sobretudo pela característica apontada por Rosen, de estar submetido à lógica global e apátrida da Internet e não às leis de qualquer país.

Os critérios de verificação e transparência são diferentes. Mas o que o jornalismo traz, além da credibilidade mencionada por Dan Kennedy, é que ele adiciona um valor que não se cria com facilidade. “Eu acho que o caso do vazamentos” sobre o Afeganistão, disse Rusbridger a Jarvis, “faz a defesa do jornalismo”.

“Nós tínhamos as pessoas e a expertise para dar o sentido daquilo tudo.”

É mais que o padrão de checagem. São os anos de experiência dos repórteres, correspondentes, colunistas e editores, capazes de transformar o vazamento numa cobertura com consequência e sentido. Jarvis aponta, corretamente, que, dessa forma, o jornalismo adiciona valor ao material descoberto. Essa tarefa não se esgota.

E essa é mais uma razão para justificar plenamente, a crítica de Michelle Mclellan, do Knight Center, ao ‘mito da substituição’. “A idéia cansativa que as notícias nascidas na Web vão substituir a mídia tradicional.” Anderson concorda: “eu não acho que um “novo” tipo de jornalismo vai tomar o lugar do modo tradicional. Obviamente, as duas formas jornalísticas vão trabalhar juntas, lado a lado”.

O que se está vendo, a sério, é muito menos a tentativa de invadir e tomar espaços e sim, cada vez mais intensa cooperação entre os vários formatos e as várias plataformas. Rusbridger fala em “mutualização”, Jarvis, em cooperação. Sociologicamente, estamos diante de um fenômeno antigo e sempre fundamental da ordem social. Diferenciação de papéis, um processo que não pára, porque é movido a inovação, que se soma à persistência do que mantém valor próprio. Vai ganhando complexidade, produzindo convergências e diferenças e alimentando a mudança e o progresso. Dialeticamente, tudo muda e tudo que tem valor, se perpetua, ainda que se transformando.


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