Tetos brancos – ou verdes – é coisa séria em matéria de mudança climática
Sérgio Abranches
Vamos pintar nossos telhados de branco? Será que isso faz mesmo sentido ou estamos diante de mais uma lenda urbana?
Sexta-feira, 23 de julho, um tuíte de @monica_nunes na minha “timeline” dizia o seguinte:
Vamos!! One Degree Less! RT @psustentavel: Vamos pintar nossos telhados? http://migre.me/Z91V #PlanetaUrgente
11:19 AM Jul 23rd via Echofon
Era um retuíte de Mônica Nunes, editora do Planeta Sustentável, apontando para um post do jornalista José Eduardo Mendonça, que perguntava: “Vamos pintar nossos telhados?”
Respondi:
@monica_nunes já pintei o meu telhado e recomendo: enorme redução no uso de ar condicionado
03:52:39 PM Jul via Seesmic
De fato, pintei o telhado preto do meu escritório com uma tinta especial, branca, que tem alta refletividade e alta irradiação de infra-vermelhos. O segundo andar ficava insuportável no verão e exigia ar condicionado o tempo todo, na menor temperatura possível. Mais que insustentável, era desconfortável e caro. Custo de luz muito alto. Manutenção do ar condicionado muito cara, porque, ao ser exigido no limite, dava problema com frequência. A pintura do telhado zerou o problema. Agora, ar condicionado só no pico do calor. Ajustado para 24o-25o fica confortável e só é necessário mantê-lo ligado durante as duas ou três horas de maior calor do dia. Fora o verão, as salas ficam frias e pedem agasalho, mesmo quando só dá para ficar na rua de camiseta.
Nessa minha tarefa diária de pesquisar tendências de todo tipo que afetem a ordem social presente e futura, aprendi a necessidade de pôr o foco central na mudança climática. Não é minha preocupação exclusiva, mas é um foco diretor. Sustentabilidade passou a se estruturar em torno da mudança climática, ou da “descarbonização” da estrutura sócio-econômica contemporânea. Há outras dimensões de sustentabilidade? Há. Mas a questão das emissões de carbono é a dimensão central e dominante.
Há muita controvérsia sobre a relação séria, relevante, que possa haver entre telhados brancos e mudança climática. Essa troca de tuítes com a @monica_nunes, depois retuitada pelo @psustentavel, fez com que muitas pessoas me perguntassem isso. Algumas, com certa ironia, num tom de descrença. Outras, seriamente, porque estão pensando em pintar seus telhados e querem saber se não seria tolice. Se não estariam pagando mico, sem fazer qualquer diferença.
Claro, nem tudo é tão simples assim. Um telhado pequeno não faz diferença no universo, como uma andorinha não faz verão. No plano macro, quero dizer. Porque no plano do seu microuniverso, vai refrescar a casa, independentemente do tamanho do telhado.
E no plano macro, tem jeito de fazer diferença? Há gente qualificada que acredita que sim. O físico e prêmio Nobel, Stephen Chu, secretário de Energia de Obama, diz, por exemplo, que faz sentido. Tanto que ele acaba de lançar uma série de iniciativas para utilização de tecnologias de “tetos frescos” nos prédios do Departamento de Energia do EUA e nos prédios federais. É uma forma de estimular a disseminação dessas tecnologias em seu país. Os “tetos frescos” são aqueles cuja superfície é pintada com cores claras ou recebem um revestimento especial para refletir mais a luz solar e irradiar o calor ainda retido. Esses tetos reduzem os custos de refrigeração.
Nova York optou pelos telhados brancos na sua iniciativa de enfrentar as ilhas de calor e a mudança climática. Mas não são apenas os “tetos brancos” que caem nessa categoria dos “tetos frescos”. Os “tetos verdes” também. São tetos cobertos por vegetação, na maioria dos casos grama e flores que não exigem raízes profundas. A cidade de Toronto, por exemplo, estuda os tetos verdes desde 2004 e tem um plano para cobrir os tetos da cidade com vegetação.
Aí, estamos falando de outra escala, algo muito maior. É só imaginar grandes cidades, que representam um enorme território, um vasto espaço de solo ocupado. Estamos falando em milhões de quilômetros quadrados de espaço. Uma parte substancial dele pode ser, com poucas adaptações, coberta com tintas refletivas ou vegetação. Se isso fizer algum efeito, estamos falando em efeitos de muito larga escala. Será que faz?
Em 2004, Toronto encomendou um estudo ao Departamento de Ciência Arquitetônica da universidade Ryerson sobre os benefícios dos tetos verdes. Os resultados foram os mais encorajadores possíveis. Do ponto de vista ambiental, os benefícios indicados pelo estudo seriam: redução da quantidade de água das chuvas que escorre para o sistema de águas pluviais e do consumo de energia; vantagens estéticas, a cidade fica mais bonita; criação de mais espaços verdes e oportunidades para produção local de alimentos.
Hoje, em várias cidades, condomínios inteiros transformaram seus telhados e espaços verdes em centros de produção de verduras, hortaliças, ervas e legumes orgânicos, tornando-se autosuficientes. Finalmente, um efeito muito significativo para várias cidades seria a eliminação das “ilhas de calor” que hoje caracterizam o ambiente de várias cidades grandes e médias. Várias capitais e cidades de porte médio no Brasil sofrem com o problema das ilhas de calor.
São Paulo já conhece bem as suas e a prefeitura pensa em parques lineares, desde 2007, para enfrentar o problema. A vantagem dos tetos verdes é que eles poupam recursos de desapropriação em que os parques fatalmente incorrem. Não devem ser pensados para substituir a idéia de dar mais parques à cidade, mas poderiam ser um complemento muito eficaz e barato. As duas idéias juntas teriam importante impacto positivo na qualidade de vida da cidade.
O programa de Nova York, que pretende “pintar” mais de 90 mil metros quadrados apresenta como benefícios dos tetos brancos reduzir custos de refrigeração, economizar energia e reduzir as emissões de gases estufa.
A questão mais controvertida está relacionada a um cenário no qual grandes extensões urbanas da terra adotassem “tetos frescos”, particularmente tetos brancos. Isso teria algum impacto no efeito estufa? A teoria diria que sim, pelo menos intuitivamente. Cidades brancas deveriam aumentar o chamado “efeito albedo”, que está diminuindo com a redução das áreas nevadas e geladas do mundo. O que é isso? É o potencial de refletividade da luz solar pelas superfícies terrestres. No caso estaríamos falando da possibilidade de termos um “efeito albedo” urbano, obtido artificialmente. Parece ficção científica, mas não é. É a idéia de “geoengenharia” mais sensata e sem danos que já ouvi.
O secretário Stephen Chu, não tem muita dúvida sobre os ganhos a se obter com os “tetos frescos”.
“Tetos frescos são uma das formas mais rápidas e de menor custo com que podemos reduzir as emissões globais de carbono e começar o árduo trabalho de desacelerar a mudança climática”. (Stephen Chu)
Em artigo publicado na revista Climatic Change de junho de 2009, pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory, concluem que
“Em escala global, estimamos que o aumento nos albedos, mundialmente, dos telhados urbanos e superfícies pavimentadas induziria um forçamento radiativo negativo na Terra equivalente à neutralização de perto de 44 Gt de emissões de CO2.” Hashem Akbari, Surabi Menon e Arthur Rosenfeld – “Global cooling: increasing world-wide urban albedos
to offset CO2”
Traduzindo: em escala global, tetos e ruas adequadamente revestidos ou pintados refletiriam luz solar, tendo um efeito na mudança climática equivalente à neutralização de 44 gigatoneladas de carbono. Um efeito nada desprezível.
Em estudo publicado no início deste ano, na Environmental Research Letters, pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory, da NASA e da universidade Concordia, de Montreal, elevaram essa estimativa, para todas as áreas urbanas do globo para o equivalente à neutralização de 57 Gt de carbono.
Art Rosenfeld, um dos autores, dá uma idéia mais prática do que isso significaria:
“Contudo, se nós assumirmos que os tetos têm uma vida útil de 20 anos, podemos pensar em uma taxa anual equivalente a 1,2 Gt por ano. Isso neutraliza as emissões de aproximadamente 300 milhões de carros (em torno do total de carros no mundo) por 20 anos!”
Ou seja, seria o mesmo que tirar todos os carros da rua. Claro, nem todos os telhados e nem todas as ruas do mundo serão tratados assim. Mas só de imaginar se a maioria das grandes cidades conseguisse realmente pintar e plantar seus telhados e pintar as áreas de estacionamento, já teríamos um efeito enorme.
Estudo liderado por Keith Oleson do National Center for Atmospheric Research, publicado na Geophysical Research Letters, examinando os “efeitos dos tetos brancos na temperatura urbana em um modelo global do clima”, chegou a conclusões semelhantes. Com a cautela típica dos cientistas, Oleson disse sobre suas conclusões que: “nossa pesquisa demonstra que tetos brancos, pelo menos em teoria, podem ser um método efetivo para reduzir o calor urbano”. Segundo ele, “ainda é preciso determinar se é realmente viável para as cidades pintarem seus tetos de branco”.
Uma coisa é certa. A tentativa de espalhar tetos frescos, brancos ou verdes pelas cidades deveria ser parte de qualquer política de cidades sustentáveis.
Ouça também meu comentário hoje na CBN:
Tags:CBN, cidades, energia, futuro, gases estufa, mudança climática, políticas públicas, sustentabilidade



Além dessa medida de fácil disseminaçao, vale lembrar que em alguns países como a Alemanha, cada “metrinho de teto” vale ouro! Quase nao se ve “teto livre” por lá…
A populaçao está autorizada a produzir energia “livre” que posteriormente é jogada na rede. Isso ainda nao esta dimensionado no Brasil.
Mas vamos ver se até a Copa de 2014, algo avança nesse caminho, através dos incentivos que serao providos para a instalaçao de estádios solares (Manaus está avançando com uma proposta; e a Bahia está quase lá). Espero que esse movimento dos estádios possa influenciar positivamente os marcos regulatórios para feed-in no Brasil tb!