Crianças, aves da Mata Atlântica, preservação
Um dia de conversa séria e simples com crianças carentes sobre a Mata Atlântica, suas aves e os perigos que correm.
Foi simples. Eles entenderam tudo. Os mais velhos conheciam mais da metade das espécies. Os mais novos, identificavam menos, mas sabiam muita coisa. Todos sabiam muita coisa. Eram crianças de 4 a 7 anos, no primeiro grupo, e de 8 a 10 anos, no segundo. Todos filhos de famílias de baixa renda. Alunos da escola do bairro das Perobas, um distrito de Santos Dumont, em Minas Gerais.
Nós levamos dois biólogos, os ornitólogos, Luciene Faria e Lucas Carrara, para contar a eles sobre as espécies de aves que avistaram na primeira etapa do trabalho de campo na RPPN do Brejo Novo para fazer o inventário de sua avifauna. Faz parte do projeto compartilhar as informações com as crianças da vizinhança. Porque faz parte da vida delas e elas ouvem muitas estórias sobre a micro-reserva. Uma menina me informou que lá tem até onça. Um outro me disse que, antes, as pessoas entravam lá para pegar passarinhos. Eram pequenas estórias indicando que a reserva já fazia parte do imaginário delas. Coisa de gente bacana da cidade que não entendiam muito bem. Por isso, também, era importante mostrar outras estórias, mais precisas, com mais informação.
Por isso foi simples. Uma conversa sobre aves, pássaros, Mata Atlântica, biodiversidade, preservação.
Eles sabiam que desmatar é ruim e que não se deve queimar a mata. Sabiam que não se pode jogar lixo no Rio. Em uma região onde água mineral aflora das pedras, mas o rio que corre embaixo da janela da escola é poluído, quando se fala em evitar desperdício, imediatamente gritam: “de água”.
Seria mais simples, se os pais não fizessem tudo isso, como vários contaram, com a sinceridade das crianças.
Luciene e Lucas mostraram as fotos e o canto de umas quinze das 119 espécies inventariadas na primeira etapa do inventário. Das mais comuns, das que dependem do fragmento de Mata Atlântica que preservamos para sobreviver, espécies florestais, mais difíceis de ver, das que estão ameaçadas, como a Maracanã.
Eles identificaram várias delas e não só as mais comuns. Todos conheciam, por exemplo, o trinca-ferro. Uma espécie que já foi abundante e, infelizmente, já não ocorre na reserva. Mas quase todos dizem que o pai tem um na gaiola. Em pelo menos um caso, é certo que o pai da menina tem, mesmo, um indivíduo em cativeiro. Faz parte da cultura do lugar, ter trinca-ferros na gaiola. Como faz também queimar a mata.
São crianças da roça. Os pais trabalham em fazendas da região, prestam serviços ou são pequenos sitiantes. Ficaram encantadas em saber que aquilo que elas conhecem, que a partezinha do planeta em que moram tem valor. Quando viram a foto do planeta projetada na tela logo gritaram: “a Terra!”
São bem informadas, dadas as condições em que vivem e estudam. Umas são mais arredias que bicho do mato. Outras mais tagarelas que as maritacas. Formam uma rica amostra da biodiversidade brasileira. Todas pobres, todas lindas, todas insaciáveis de saber. Sabem bem mais que seus pais, pelo menos sobre os riscos que corre o planeta e os cuidados que se precisa ter com ele.
Compunham um retrato completo. Um fragmento de Brasil, de esperança e urgência, de riqueza e carência, de perigo por toda parte.
A riqueza da primeira amostra da avifauna da RPPN do Brejo Novo mostrou que a decisão de preservar estava certa. Principalmente por causa de algumas espécies endêmicas que atestam a qualidade da mata. Mas ela é pequena demais para manter e reproduzir tanta diversidade.
Aquelas 80 crianças não são muito diferentes das espécies daquele fragmento de mata. Estão tão ameaçadas quanto o Jacú ou o Maracanã. São lindas como um Tangará dançarino, uma Saíra-douradinha ou um Papa-taoca. Tão frágeis quanto, precisando criticamente da expansão da qualidade de seu território existencial. No caso delas, educação de qualidade, para dar conteúdo àqueles olhares brilhantes de inteligência. As aves precisam de corredores, de mais mata. As crianças, de recursos e oportunidade para poderem voar à altura de suas capacidades. Mata mais densa e madura, para fazerem seu ninhos e terem alimento. Um contexto social e familiar mais denso, para sustentar aqueles sorrisos francos, que muitas vezes se transformam em olhar triste, “pidão”. São todos carentes, belos e simples.
O resultado da primeira etapa do inventário, identificou entre 60% e 70% das espécies existentes e foi muito animador. Mas nada se compara à experiência de levar essa informação àquela escolinha mínima, com o telhado condenado e àquelas crianças. Ouvir um bem treinado “sejam bem vindos à nossa escola.” Obter uma unânime e espontânea reação, ver a inibição se dissipar na alegria de ver sua experiência de vida valorizada. E ao sair, já não ouvimos frases declamadas, mas animados relatos de experiências, fantasias criativas, de crianças com a mente ágil. Falação excitada, até o ônibus escolar chegar.
Simples e importante como deve ser a vida.
Veja também o áudio slide show:



Sergio, lindo texto. Li, e lembrei de vc contando como foi andar na mata com os ornitólogos que ouviam “improvaveis” passaros.
Depois compartilhar esse conhecimento com essas crianças de olhos atentos. Deve ter sido uma delicia.
Parabens!
Parabéns pela iniciativa. Que sorte para os pássaros, fauna, flora e povoado nesta região do RPPN do Brejo Novo. Trabalho lindo!!!
Sergio,Miriam,Luciene e Lucas
Meus parabens. Fiquei comovida e orgulhosa. Continuem. Tenho um companheiro passarinheiro que se embrenha pelas matas pelo prazer do convivio com os passarinhos. Multipliquemos, pela pratica, o entendimento dessa associacao vida e natureza.
E, ainda que sem essa atitude ativa de voces de preservacao e mudanca, tambem participamos um pouco atraves do exemplo de nossas vidas.
Continuem, mais uma vez.
Caros Sérgio e Míriam, adorei saber do progresso na RPPN e as descobertas dos biólogos. É maravilhoso ver a iniciativa de vcs em compartilhar o conhecimento com a comunidade da região. Fiquei emocionada com o texto e ver as imagens, a postura das crianças e o brilho nos olhos realmente é belíssimo. E animador. Parece muito simples mas é um trabalho grandioso, quanta sementinha pro futuro! Parabéns pelo resultado! Vou divulgar o artigo para outros RPPNistas, é inspirador!
Fiquei bem feliz, estou torcendo muito pelo sucesso nos trabalhos e contem comigo se precisarem de algo!
Gostei muito do trabalho. Parabéns. O fotógrafo Sebastião Salgado faz um trabalho semelhante no Espírito Santo.
Obrigado, conheço bem o trabalho do Sebastião Salgado e da Lélia. Bem maior que o nosso.
Prezado Sérgio,
Fiquei bastante tocado com o texto. A tua narrativa é deliciosa de ser lida. Parabéns. Já tive algumas experiências como essa, pois sou ornitólogo e fiz um trabalho semelhante com uma escola do interior. O teu relato me trouxe boas lembranças e a certeza que tenho que melhor documentar esses eventos. Em meu próximo projeto com certeza farei algo assim. As fotos e a música foram muito inspiradoras.
Abraço
Claiton
Foi mesmo um dia muito especial. Caminhar na mata registrando passarinhos é uma rotina prazerosa para nós. Falar para crianças sobre conservação, mostrar a beleza da nossa fauna e encantar com as carinhas curiosas já não é tão rotineiro… Mas é o inicio de um trabalho e sonhamos que um dia seja uma rotina não só em Santos Dumont, mas em vários outros lugares. Inédito é nosso trabalho ir além de relatórios técnicos ou acadêmicos e ser relatado em textos tão graciosos, “leves como passarinhos…” Gostamos muito do paralelo entre as crianças e os passarinhos. É um pedacinho de Mata Atlântica, é um pouquinho de criança, mas como disse Guimarães Rosa, “quem tira e não põe faz buraco, quem põe e não tira faz monte”. Afinal de contas, “simples e importante como deve ser a vida”, como bem definiu Sérgio.
A preservação da natureza e a educação ambiental devem andar juntas. Conhecer a biodiversidade de uma reserva, saber quais espécies estão conseguindo permanecer e reproduzir são questões muito importantes. Mas é fundamental que os moradores locais conheçam e valorizem a fauna de sua região, pois eles são os verdadeiros guardiões da natureza. A preservação não deveria ser apenas imposta pelos órgãos ambientais, mas principalmente exigida por cada um de nós a favor da qualidade de vida de tudo e de todos.
Eu fiquei muito feliz e comovida com este relato. Fui professora até pouco tempo na zona rural. Hoje estou aposentada.Verdadeiramente as crianças da roça, tem o privilégio de além de saber muitas coisas sobre os animais, as águas e a destruição do planeta, vivencia nele e nos surpreende.
Eu tenho certeza que Lucas e Luciene farão deste lugarzinho uma revoada, de passarinhos crianças, livres e espertas para melhorar este mundo natural que já tem a semente plantada por Sergio e Miriam.
Felicidades para todos e sucesso para o meu primo Lucas
Muito profundo o texto do Sérgio e a interação com as crianças, mais ainda. Nós que combatemos incêndios nas matas de vários municípios, sempre deparamos com muitos animais mortos pelo fogo e em todos os 3.000 incêndios debelados o que nos constrange mais é o SILÊNCIO e o cheiro da vida queimada que fica no ar…
Quanto mais conscientização, menos queimadas…
parabéns
Prezados Colegas RPPNistas,
Que trabalho interessante!!
Parabéns da ARPEMG, Associação de RPPNs e outras Reservas Privadas de MG
Vcs poderiam extender para outras localidades de Minas, como um projeto itinerante, e alcançar outros municípios….
Meu nome é Érika Vilela, sou Engenheira Agrônoma e proprietária da Bela Vista Florestal, empresa que produziu as mudas de espécies nativas que foram plantadas na RPPN do Brejo Novo. Sou também presidente da APFLOR – Associação dos Produtores Florestais do Sudoeste de MG, que tornou possível, através de uma parceria com o IEF, a distribuição de quase 300.000 mudas nativas, que foram usadas para recuperar cerca de 200 hectares por todo o estado de Minas, ao longo de dois anos.
Vi suas fotos, li os textos referentes à RPPN, e fiquei feliz de ver que indiretamente faço parte daquela mata. As mudas que semeei e vi crescer, hoje fazem parte de algo maior. E me conforta saber que são bem cuidadas. Que sobre as pequenas depositam-se tantas expectativas.
Estive com o Elmar, quando ele veio até nosso viveiro retirar as mudas. E por todo nosso contato, antes, durante e depois do plantio, penso ser fundamental ter um gerente de campo realmente engajado na causa.
Em nossas propriedades aqui no sul de Minas, reflorestamos mais de 40 hectares com espécies nativas,
sempre protegendo matas ciliares, entornos de nascentes e fragmentos de matas. Sinto orgulho em dizer que temos 100% da nossa Reserva Legal e APPs protegidas. Apesar da nossa principal atividade – cultivo de eucalipto para produção de carvão vegetal e madeira – ainda ser muito mal vista perante alguns ambientalistas, acredito firmemente que a salvação de nossos remanescentes florestais, tanto de Mata Atlântica como de Cerrado, está justamente no cultivo de espécies exóticas, que venham suprir a demanda dos produtos de origem florestal e consequentemente reduzir a pressão que sofrem as matas nativas.
Também já trabalhamos com educação ambiental nas escolas do município. Vivi a mesma experiência com os pequenos olhinhos brilhantes, saía de cada aula com o coração cheio de esperança.
Por que tomar o seu tempo tagarelando sobre o nosso trabalho?
Porque espero lhe causar a mesma sensação que seus textos me causaram: Não estamos trabalhando sozinhos!
Claro que faz parte Érika e direta. Suas sementes foram o começo de tudo. Sementes de sementes. Sei que não estamos sós nesse trabalho e que somos pequenos nesse conjunto. Obrigado.
Grandes árvores nascem de pequenas sementes, grandes ações começam com pequenas iniciativas.