Artigos
23 junho, 2010

Crianças, aves da Mata Atlântica, preservação

Um dia de conversa séria e simples com crianças carentes sobre a Mata Atlântica, suas aves e os perigos que correm.

Foi simples. Eles entenderam tudo. Os mais velhos conheciam mais da metade das espécies. Os mais novos, identificavam menos, mas sabiam muita coisa. Todos sabiam muita coisa. Eram crianças de 4 a 7 anos, no primeiro grupo, e de 8 a 10 anos, no segundo. Todos filhos de famílias de baixa renda. Alunos da escola do bairro das Perobas, um distrito de Santos Dumont, em Minas Gerais.

Nós levamos dois biólogos, os ornitólogos, Luciene Faria e Lucas Carrara, para contar a eles sobre as espécies de aves que avistaram na primeira etapa do trabalho de campo na RPPN do Brejo Novo para fazer o inventário de sua avifauna. Faz parte do projeto compartilhar as informações com as crianças da vizinhança. Porque faz parte da vida delas e elas ouvem muitas estórias sobre a micro-reserva. Uma menina me informou que lá tem até onça. Um outro me disse que, antes, as pessoas entravam lá para pegar passarinhos. Eram pequenas estórias indicando que a reserva já fazia parte do imaginário delas. Coisa de gente bacana da cidade que não entendiam muito bem. Por isso, também, era importante mostrar outras estórias, mais precisas, com mais informação.

Por isso foi simples. Uma conversa sobre aves, pássaros, Mata Atlântica, biodiversidade, preservação.

Eles sabiam que desmatar é ruim e que não se deve queimar a mata. Sabiam que não se pode jogar lixo no Rio. Em uma região onde água mineral aflora das pedras, mas o rio que corre embaixo da janela da escola é poluído, quando se fala em evitar desperdício, imediatamente gritam: “de água”.

Seria mais simples, se os pais não fizessem tudo isso, como vários contaram, com a sinceridade das crianças.

Luciene e Lucas mostraram as fotos e o canto de umas quinze das 119 espécies inventariadas na primeira etapa do inventário. Das mais comuns, das que dependem do fragmento de Mata Atlântica que preservamos para sobreviver, espécies florestais, mais difíceis de ver, das que estão ameaçadas, como a Maracanã.

Eles identificaram várias delas e não só as mais comuns. Todos conheciam, por exemplo, o trinca-ferro. Uma espécie que já foi abundante e, infelizmente, já não ocorre na reserva. Mas quase todos dizem que o pai tem um na gaiola. Em pelo menos um caso, é certo que o pai da menina tem, mesmo, um indivíduo em cativeiro. Faz parte da cultura do lugar, ter trinca-ferros na gaiola. Como faz também queimar a mata.

São crianças da roça. Os pais trabalham em fazendas da região, prestam serviços ou são pequenos sitiantes. Ficaram encantadas em saber que aquilo que elas conhecem, que a partezinha do planeta em que moram tem valor. Quando viram a foto do planeta projetada na tela logo gritaram: “a Terra!”

São bem informadas, dadas as condições em que vivem e estudam. Umas são mais arredias que bicho do mato. Outras mais tagarelas que as maritacas. Formam uma rica amostra da biodiversidade brasileira. Todas pobres, todas lindas, todas insaciáveis de saber. Sabem bem mais que seus pais, pelo menos sobre os riscos que corre o planeta e os cuidados que se precisa ter com ele.

Compunham um retrato completo. Um fragmento de Brasil, de esperança e urgência, de riqueza e carência, de perigo por toda parte.

A riqueza da primeira amostra da avifauna da RPPN do Brejo Novo mostrou que a decisão de preservar estava certa. Principalmente por causa de algumas espécies endêmicas que atestam a qualidade da mata. Mas ela é pequena demais para manter e reproduzir tanta diversidade.

Aquelas 80 crianças não são muito diferentes das espécies daquele fragmento de mata. Estão tão ameaçadas quanto o Jacú ou o Maracanã. São lindas como um Tangará dançarino, uma Saíra-douradinha ou um Papa-taoca. Tão frágeis quanto, precisando criticamente da expansão da qualidade de seu território existencial. No caso delas, educação de qualidade, para dar conteúdo àqueles olhares brilhantes de inteligência. As aves precisam de corredores, de mais mata. As crianças, de recursos e oportunidade para poderem voar à altura de suas capacidades. Mata mais densa e madura, para fazerem seu ninhos e terem alimento. Um contexto social e familiar mais denso, para sustentar aqueles sorrisos francos, que muitas vezes se transformam em olhar triste, “pidão”. São todos carentes, belos e simples.

O resultado da primeira etapa do inventário, identificou entre 60% e 70% das espécies existentes e foi muito animador. Mas nada se compara à experiência de levar essa informação àquela escolinha mínima, com o telhado condenado e àquelas crianças. Ouvir um bem treinado “sejam bem vindos à nossa escola.” Obter uma unânime e espontânea reação, ver a inibição se dissipar na alegria de ver sua experiência de vida valorizada. E ao sair, já não ouvimos frases declamadas, mas animados relatos de experiências, fantasias criativas, de crianças com a mente ágil. Falação excitada, até o ônibus escolar chegar.

Simples e importante como deve ser a vida.

Veja também o áudio slide show: