Indústria brasileira reclama do custo da energia
Sérgio Abranches
A indústria reclama do alto custo da energia. Mas essa é uma tendência inexorável. Ao invés de olhar para o custo e para o quê o governo pode fazer para reduzi-lo, precisa olhar para o uso e o consumo de energia. A economia brasileira ainda não se deu conta de que a sustentabilidade é um imperativo.
Matéria do Estado de São Paulo mostra representantes da indústria reclamando do aumento no preço da energia elétrica. Parte dessa elevação tem a ver com a eliminação de subsídios na matriz elétrica. Parte tem a ver com impostos. E parte tem a ver com a entrada no sistema de KWh mais caro de termelétricas. No futuro haverá a pressão das hidrelétricas do Norte.
Todo o sistema de subsídio e incentivo do setor elétrico brasileiro está errado. Há um viés contra a auto-geração. Ela devia ser incentivada, desde que com fontes renováveis novas: biogás, eólica, solar.
O ministro das Minas e Energia diz que o KWh de Belo Monte é mais barato do que o KWh das eólicas. Depende de como se calcula esse custo. Se ele considerar as compensações ambientais, a geração efetiva possível, os subsídios do BNDES e o custo proporcional dos linhões necessários para trazer a eletricidade do Xingu para os centros consumidores, dificilmente será verdade. No caso das eólicas, ao invés de criar novas linhas seria necessário apenas adaptar o sistema para receber sua energia.
E mais: o custo da eólica no Brasil é maior do que no resto do mundo por culpa da política energética do governo. Como ela desincentiva seu uso, não há produção doméstica em escala de turbinas. Na China, que incentiva o uso de eólica, já existem 70 fabricantes. O Brasil tem mais dias com vento e o vento sopra mais tempo na mesma direção. Isso reduz o custo e aumenta o fator de geração das eólicas. Não está na comparação de custo. Nem há dados oficiais para isso.
A política energética não leva a sério fontes novas renováveis de energia. Pior, desconsidera a mais limpa e mais barata energia que existe: a energia poupada. O programa de economia de energia, para racionalização do uso, eliminação do desperdício e aumento da eficiência energética, é pífio.
Se a política energética do governo é errada, a postura da indústria é ainda pior. É uma postura sempre reativa. O foco da indústria brasileira está no governo, no BNDES e nas compras das estatais, quando devia estar em sua própria operação. A indústria espera que o governo resolva seus problemas. Demanda favores e subsídios, depois reclama dos altos impostos e do alto gasto público.
Devia ser proativa e olhar para as tendências globais. Se mudasse o foco, veria que: 1. o custo da energia só aumentará, no médio e longo prazo; 2. o carbono terá um preço no mercado global, tributário ou regulatório, não importa; 3. haverá barreiras comerciais aos produtos de alta intensidade de carbono; 4. o Brasil desperdiça oportunidades de ter uma indústria e uma agricultura de baixo carbono, em larga medida por causa da mentalidade empresarial dominante; 5. a sustentabilidade já é um imperativo e nada tem a ver com boa imagem ou filantropia, tem a ver com rentabilidade, market-share, competitividade.
A indústria devia ter um programa agressivo de redução de energia, com metas setoriais próprias, independentemente da regulação governamental. Algumas empresas têm programas bastante ambiciosos de redução do uso de energia e de água. Eles reduzem seus custos, aumentam sua rentabilidade e as tornam mais competitivas.
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