A Coalizão Britânica
Sérgio Abranches
Desde que as pesquisas passaram a indicar como mais provável o cenário de um parlamento bloqueado (hung parliament) ou sem maioria, a possibilidade de um governo de coalizão passou a ser uma alternativa que não podia ser desprezada.
É certo que se imaginava que a mais provável seria uma coalizão Lab-Lib, reunindo trabalhistas e social liberais, pela teoria da proximidade programática, que prevalece na maioria das coalizões europeias. Dado que a distância programática entre Conservadores e Liberal Democratas era maior do que a que separava Trabalhistas e Liberal Democratas, tudo indicava que o parceiro preferencial de Nick Clegg seria o Partido Trabalhista. Particularmente depois que Gordon Brown se dispôs a deixar o cargo para que um novo primeiro-ministro trabalhista liderasse a coalizão.
É aí que entram, no cálculo político, os fatores imponderáveis. Três deles são fundamentais para entender o que aconteceu. Primeiro, a rejeição a Gordon Brown, inclusive pessoal, da parte de Nick Clegg, da imprensa e da opinião pública, teve peso nada desprezível na cadeia de decisões que terminou na coalizão Lib-Con. Segundo, a liderança de David Cameron. Ele conseguiu não apenas abafar a forte oposição que havia em seu partido contra o governo de coalizão, mas, ainda mais importante, convencer o partido a aprovar um acordo, no qual as concessões dos conservadores são muito significativas. A principal delas foi a reforma política. Cameron conseguiu levar seu partido a aceitar dois temas que são anátema entre os conservadores: um referendo sobre um sistema eleitoral alternativo e um mandato fixo para o parlamento. Os Liberal Democratas também tiveram que fazer concessões. Foram menores, mas não irrelevantes. A principal delas foi se aliar aos conservadores, aos quais sempre se opuseram. A liderança de Nick Clegg fazendo sobrepor suas preferências pessoais a posições históricas de seu partido, foi o terceiro fator.
A idéia do mandato fixo para o parlamento é uma solução engenhosa para o óbvio problema da coalizão: sua instabilidade. É a primeira vez que o Reino Unido tem um governo de coalizão, desde 1945. Era um momento obviamente singular da história. A guerra impunha a união nacional contra o inimigo externo. O gabinete de guerra, entre 194o-1945, foi o último da política britânica até esta semana.
Uma coalizão entre parceiros com posições tão polares, em tempos de paz, ainda que de crise econômico-financeira, fazia prever vida curta para o governo. Afinal o Reino Unido já enfrentou outras crises econômicas. O cenário dominante era de um governo fraco e breve, com novas eleições no curto para médio prazo. O mandato fixo, de cinco anos, impede que Cameron, por exemplo, sentindo os ventos a seu favor e descontente com os liberal democratas, convoque eleições para tentar ganhar a maioria e instalar um governo puramente conservador. Com o mandato fixo, o governo só poderia cair antes de 2005, caso tivesse um voto de desconfiança de 55% da Câmara dos Comuns. Até agora bastava o voto de 50% + 1 para derrubar o governo.
Do ponto de vista ambiental, ainda não está claro o que a plataforma de entendimento da coalizão fará. Deve haver pouca mudança. É um resultado relativamente negativo. Com uma coalizão Lab-Lib provavelmente haveria avanços. Entre os conservadores há muito interesses do alto carbono. A presença dos liberal democratas pode garantir que não haja retrocesso. É difícil esperar avanços.
Há ousadias na plataforma da coalizão. Principalmente no campo político. Há incertezas. Muitas. Mas é um momento histórico da política do Reino Unido.
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