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16 abril, 2010

Consequências humanas e econômicas de eventos naturais extremos

Sérgio Abranches

Eventos naturais extremos podem ser fonte de grandes perdas humanas e econômicas, embora não devêssemos chamá-los de ‘desastres’. O desastre ocorre quando um evento natural extremo alcança uma área habitada. Frequentemente a extensão das perdas humanas depende da vulnerabilidade da população atingida, do grau de prontidão da defesa civil, e da qualidade dos recursos de prevenção de desastres. É claro que um país pobre sofre mais. Os pobres, onde estejam, também sofrem mais. As perdas econômicas são maiores onde há mais propriedades para serem destruídas, especialmente patrimônio econômico de valor, como plantas industriais, prédios comerciais, lavouras ou grandes áreas residenciais.

De acordo com o NatCatService da empresa de resseguros, Munich Re, que coleta dados sobre mortes e danos econômicos causados por eventos naturais extremos, erradamente classificados como ‘desastres naturais’, de 2004 a 2009, 543 mil pessoas morreram por causa de eventos geofísicos ou climáticos e hidrológicos. As perdas econômicas chegaram a US$ 753 bilhões, nesse período, e as perdas seguradas a US$ 256 bilhões. Eventos geofísicos são terremotos e erupções vulcânicas.Eventos climáticos e hidrológicos são tempestades, enchentes, avalanches, temperaturas extremas, secas e queimadas.

Essas perdas foram causadas por um total de 4.725 eventos extremos. Os geofísicos representaram, em média, 11% do total nos últimos seis anos. Mas causaram, em média, 47% das perdas humanas. Houve três desvios significativos dessa média. Em 2004, essa categoria de eventos provocou 95% das fatalidades, por causa do terremoto e, principalmente, do tsunami no Sul da Ásia e no Leste da África, que matou 220 mil pessoas. Em 2005, causaram 90% das mortes. Um terremoto no Paquistão, India e Afeganistão matou 88 mil pessoas. Em 2007, porém, eventos geofísicos responderam por apenas 5% das fatalidades. Os eventos mortais foram o ciclone Sidr, que matou mais de 3.775 pessoas em Bangladesh, e enchentes na China, causando a morte de quase 6.800 pessoas.

Eventos climáticos e ambientais foram 89% do total de eventos extremos registrados e 53%, em média, das perdas humanas. Em termos absolutos, os eventos geofísicos mataram mais. Tempestades representaram 41% do total; enchentes e avalanches foram, em média, 31%; ondas de temperaturas extremas e queimadas, 17%. Foram também a principal causa de perdas econômicas, respondendo em média, por 81% das perdas do período. As tempestades foram, de longe, os eventos economicamente mais danosos, explicando 58% dos prejuízos. Em 2008, a maior parte das perdas (43%) resultou de um terremoto na China. (clique na imagem para aumentar)

Perdas Humanas

Perdas humanas e econômicas variam muito ano a ano, dependendo da incidência de eventos extremos em áreas mais populosas. Como mostra o gráfico, o maior número de fatalidades aconteceu em 2004, por causa do tsunami que atingiu o Sul da Ásia e o Leste da África. O segundo ano de maior número de mortes foi 2008, por causa do terremoto na China, que matou mais de 70 mil pessoas e do ciclone Nargis, em Myanmar, matando mais de 85 mil pessoas. (Clique na imagem para aumentar)

As perdas econômicas estão relacionadas às perdas humanas, embora não haja correlação perfeita entre elas. Como os gráficos mostram elas coincidiram em 2008: o ano foi o segundo em maior número de mortes e de perdas econômicas, causadas pelo terremoto na China. O ano que matou mais foi 2004, o ano do tsunami, terceiro em perdas econômicas. O segundo ano com maiores prejuízos foi 2005, quando o número de mortes foi o terceiro maior. A principal causa dos prejuízos foi o furacão Katrina. Mas o  evento que causou mais mortes nesse ano foi o terremoto no Paquistão, India e Afeganistão.

Infelizmente, parece que 2010 ficará entre os mais mortais e de maiores prejuízos dos últimos sete anos.

Não é sinal suficiente de que algo anômalo se passa? A natureza pode ser mortal e gerar grandes prejuízos à economia e às pessoas. O clima também pode tirar muitas vidas preciosas e gerar imensos prejuízos. Nós já temos razões suficientes para começar a tomar medidas de precaução globalmente. Já devíamos estar implementando medidas fortes de adaptação e prontidão para eventos mais extremos e mais frequentes no futuro próximo. E já devíamos estar agindo para evitar um cataclismo climático na segunda metade do século.

Metas ambiciosas de redução dos gases estufa não podem mais ser vistas como causas de recessão ou sacrifício econômico. Eventos naturais extremos é que matam, destroem propriedade e  causam danos à infra-estrutura econômica. A parte que não se deve a eventos relacionados ao clima ou ao ambiente, dos eventos geofísicos, representa um percentual pequeno do total de eventos extremos observados. Eles são basicamente imprevisíveis, incontroláveis e não há como mitigá-los. Mas pode-se tomar medidas de precaução na ocupação do solo, no tipo de construções.

Os eventos climáticos e ambientais extremos são cada vez mais previsíveis. Embora não possam ser controlados, suas causas e efeitos podem ser mitigados. A decisão lógica e economicamente racional é prevenir, adaptar e mitigar. As razões para políticas relativas à mudança climática são concretas, não são teóricas, nem morais. Elas fazem sentido econômico, aumentam a segurança humana e o bem-estar, elas salvam vidas.


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