Perigo real e presente
Sérgio Abranches
Riscos relacionados à mudança climática e a necessidade e ter uma cadeia de suprimentos verde fazem parte de quase toda conversa sobre sustentabilidade e responsabilidade corporativa social hoje. Frequentemente aparecem, porém, como “tendências” ou ameaças futuras. Mas não são. Não estão no futuro. São parte do desafio diário da maioria das companhias. E são inseparáveis um do outro.
Riscos climáticos representam grande preocupação atualmente para qualquer grande empresa de seguros (aqui, aqui e aqui) e para um número crescente de investidores institucionais. Compras verdes são um fator competitivo de hoje, não uma tendência para amanhã (aqui). As empresas estão olhando a fundo para suas cadeias de suprimento não por causa de sua visão de futuro, mas por causa dos perigos atuais para seus negócios. Custos, retaliações comerciais, perda de consumidores, risco regulatório fazem parte do cardápio servido diariamente ao mercado. Todos já sabem que terão que reduzir sua pegada de carbono. A Walmart, a Nike e a Timberland baniram carne e couro produzidos na Amazônia por causa da reação de seus consumidores à evidência de que suas compras contribuíam para o desmatamento.
Toda empresa terá que prestar contas das emissões de gases estufa causadas por sua demanda por produtos e serviços, e também pelo impacto dos produtos que vende na pegada de carbono de seus consumidores. Já passou o tempo da empresa limpa e verde da porta para dentro, que não se importa com o que compra, de quem compra e o que acontece com os bens que vende.
Virar verde não é fácil. Isso já é lugar comum. Mas não importa se é fácil ou difícil, tornar-se uma empresa realmente verde, não só no marketing, é um passo necessário e urgente em qualquer setor. Para algumas empresas, o “roteiro do verde” é claro e direto. Pode ser difícil, mas todo o conhecimento para trilhá-lo já está disponível. Vai demandar liderança do topo; obter a resposta correta da cidadania corporativa; maior integração entre compras e finanças; encontrar pessoas qualificadas para implementar as mudanças; desenvolver capacidades ao longo da cadeia de suprimentos.
Alguns setores, porém, ainda consideram que descarbonizar e despoluir seus serviços é uma missão quase impossível (aqui). Em uma recente mesa redonda na importante escola de Administração Hoteleira da universidade Cornell, os participantes disseram que o padrões verdes para seus negócios não estão claros e que os pontos de vista de seus consumidores são inconsistentes. Os hotéis relutam em implementar sistemas sustentáveis embora reconheçam a necessidade de tornar suas operações mais verdes. Fiquei surpreso ao ler isso. Do ponto de vista da cadeia de suprimentos da hotelaria, há inúmeros pontos, muito visíveis, onde práticas verdes são possíveis, claras e necessárias.
Para quem tem visão de longo prazo do que está acontecendo agora e das tendências futuras prováveis, riscos associados à mudança climática não são mais matéria de dúvida ou de probabilidades. As probabilidades são tão altas – mesmo quando se adota as mais conservadoras possíveis – que não se pode mais desenhar um cenário plausível “sem mudança climática”.
O olhar de longo prazo nos mostra que a economia já está se reformatando em resposta às crises estruturais e às mudanças induzidas pelos riscos presentes, sobretudo os climáticos. A cadeia de suprimentos verde é parte dos fatores atuais de competitividade e comportamento inovador. Não é mais uma possibilidade presente em cenários futuros. Cenários futuros são, hoje, sobre coisas que vão muito além das cadeias de suprimento verdes.
O processo em curso de tornar os negócios verdes, ou sustentáveis, ou de baixo carbono está no seu princípio, mas já é visível. Será, muito provavelmente, um dos principais determinantes de um novo ciclo longo de investimento e expansão econômica, dentro de menos de uma década. Basta pensar, por um momento, o enorme efeito dinâmico de companhias líderes, no topo dos principais setores produtivos, comerciais e de serviços, estabelecendo padrões verdes de compra ao longo de suas cadeias de suprimento. Isso forçará seus fornecedores a repassarem esses padrões para suas próprias cadeias de suprimento, se quiserem continuar nos principais clusters da economia. E o mesmo terá que ser feito pelos fornecedores dos fornecedores, e assim por diante. A demanda por suprimentos verdes ou de baixo carbono se torna um incentivo irresistível para lançamento de novas empresas e inovação, naqueles mercados em que eles não existam. Esse movimento sai dos clusters econômicos globais, para os nacionais e para os sub-nacionais.
Já há movimentos sistêmicos dinâmicos visíveis na economia global. Eles apontam para processos e comportamentos emergentes que efetivamente reformatarão o ambiente de negócios. Os padrões atuais de produção e consumo que ainda parecem dominantes serão inexoravelmente substituídos. Nós já estamos vivendo ondas gigantes de uma revolução cientifica, tecnológica e comportamental em todos os setores da atividade humana. Desprezar esse movimento é aceitar perigos reais e presentes, não desconsiderar uma remota ameaça futura.
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