Sustentabilidade: tarefa para os líderes de mercado
Sérgio Abranches
A sustentabilidade não pode ser a busca solitária de um pequeno número de empresas dotadas de valores nobres. É resultado da ação coletiva dentro e entre as principais cadeias de suprimento da economia. No entanto, a liderança das maiores empresas é condição necessária para que se obtenha progresso real nessa busca.
Certa vez, eu falava a um grupo de executivos sobre corrupção, práticas ilegais, como desmatamento e trabalho escravo, e sustentabilidade. O argumento era que as firmas que admitem essas práticas podem ter sucesso por algum tempo, mas no longo prazo, fracassarão e cairão em desgraça. Já vi várias empresas que pareciam extraordinariamente pujantes virarem pó em questão de horas. O tema mais geral da conversa era gestão de risco e sustentabilidade, com foco no risco associado à mudança climática. A referência específica era o comportamento empresarial no mercado brasileiro. A audiência, um grupo muito seleto de CEO’s, ou presidentes de grandes empresas que pertenciam à cadeia de suprimentos de uma firma líder no seu segmento do mercado brasileiro.
Eu argumentava que o risco climático era uma ameaça real e presente e que demandava ação imediata das grandes empresas. Eles deveriam assumir imediatamente a liderança na transformação de suas cadeias de suprimento em cadeias sustentáveis, de baixo carbono. Eu queria passar a idéia de que a pegada de carbono de uma empresa está inapelavelmente ligada à pegada de carbono de sua cadeia de suprimentos. “Um elo sujo da cadeia suja a cadeia inteira”.
Dei vários exemplos da vida real dos problemas de sustentabilidade e responsabilidade social corporativa, na economia brasileira. O desmatamento na Amazônia estava ligado às exportações de soja e e carne. Logo, o desmatamento era parte indissociável da pegada de carbono desses setores e suas empresas. Pecuária, produção de soja, cana de açúcar e carvão vegetal estavam marcadas pelo uso de trabalho escravo. Mostrei como atividades ilegais e legais coabitavam as cadeias de suprimento desses setores. Como, por exemplo, produtores de ferro-gusa compravam minério de ferro legalmente de grandes mineradoras, carvão ilegal de desmatamento, da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal e da Caatinga, e vendiam legalmente seu produto a grandes siderúrgicas. As mineradoras e siderúrgicas estavam entre as melhores e mais competitivas empresas brasileiras, com fatias importantes de seus mercados globais. Ou como a cana de açúcar, cultivada e colhida usando trabalho escravo, entrava como insumo na produção de duas das principais commodities de exportação do país, o açúcar e o álcool.
Quando terminei de falar, um dos executivos, irritadíssimo, me perguntou, num tom de voz bastante alterado: “por que você faz isso? Por que você faz isso?” Ao olhar em torno da mesa redonda, percebendo que seus colegas estavam perplexos com sua reação, completou: “ Eu concordo com tudo o que ele disse. Concordo com tudo o que ele propôs. Mas, por que dizer dessa forma tão crua?”
Eu sei o que ele queria ouvir. Uma defesa inespecífica da sustentabilidade como uma lista genérica de bondades a fazer. Sem dar nomes. Sem apontar para as empresas líderes em suas cadeias de suprimento como as principais responsáveis pelos erros cometidos ao longo da cadeia. Exceto por uns poucos CEO’s estrangeiros que não tinham conhecimento sobre o Brasil, os outros todos sabiam que eu estava falando de coisas reais. Particularmente o nosso irritado executivo, que presidia uma empresa imersa em uma cadeia de suprimento cheia desses mesmos problemas. Para ele, eu não devia falar tão abertamente das mazelas que mancham setores avançados da economia brasileira.
Eu estou acostumado a esse tipo de reação, quando falo francamente sobre o mal comportamento empresarial em algumas audiências. As pessoas ficam ainda mais irritadas quando digo que uma grande empresa que está no mercado global e compra produtos ilegais é ainda mais responsável que as pequenas que cometem diretamente as ilegalidades. A lógica é simples. Quando se olha, por exemplo, para a cadeia de suprimentos do aço, o que se vê é uma situação de grande heterogeneidade e generalizada conivência. Grandes mineradoras globais que vendem para pequenas e médias guzeiras, para grandes siderúrgicas e para o mercado externo; as guzeiras compram carvão vegetal de desmatamento e vendem seu produto para grandes siderúrgicas. No resultado final dessa cadeia há produção sustentável e produção sem qualidade ambiental alguma. Há insumos legais e ilegais. Quem é responsável? Os elos pequenos e médios da cadeia ou os grandes e dominantes? Todos estão transgredindo leis e princípios. Os pequenos não podem sobreviver sem a complacência dos grandes. Mas os grandes podem se virar sem a presença dos pequenos e médios, de baixa qualidade. Os grandes teriam o poder de disciplinar os pequenos.
Não existe empresa sustentável se sua cadeia de suprimento não é sustentável, do princípio ao fim. Uma cadeia de suprimento insustentável é, em última instância, responsabilidade das maiores companhias que a integram, a montante e a jusante.
Os reguladores e fiscais no Brasil sistematicamente autuam mais os pequenos e médios que os grandes. Isso é inútil, na prática, e alimenta uma extensa rede de corrupção. Atuando com um pequeno grupo de grandes fornecedores e compradores surtiria sempre mais efeito. Fecham-se as empresas menores, apenas para ver outras surgirem em seu lugar.
Foi com pressão pública e falando duro, que se logrou estimular a necessária liderança de mercado para o pacto contra o trabalho escravo. A parceria entre o ministério do Trabalho e a OIT foi reforçada pelo jornalismo investigativo da ONG Repórter Brasil. Dessa forma obtiveram mais evidências para uma lista suja de casos comprovados de trabalho escravo. O Instituto Ethos se encarregou da mobilização e coordenação do apoio empresarial. As companhias que assinam o pacto, se comprometem a não comprar de quem está na lista suja. O pacto foi subscrito por muitas grandes empresas. Não erradicou o trabalho escravo, mas contribuiu para sua redução e essa prática vai sendo gradualmente eliminada das cadeias de suprimento de alto valor agregado do país.
Foi com pressão pública e falando duro que o Greenpeace chamou atenção da McDonald’s sobre sua contribuição para o desmatamento da Amazônia, ao comprar soja produzida em áreas griladas e abertas ilegalmente. Depois que o Greenpeace deu nome aos responsáveis e mostrou evidências concretas, o McDonald’s chamou seus grandes fornecedores, para exigir que eliminassem a soja de desmatamento. Dessa forma começou a “moratória da soja”, que contribuiu significativamente para reduzir o papel da soja na grilagem e no desmatamento de terras na Amazônia.
Foi, também, com pressão pública e falando duro que o mesmo Greenpeace convenceu grandes redes de supermercados como Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar a não comprarem carne dos frigoríficos com operação na Amazônia. A indústria da carne continua a ser um dos fatores determinantes do desmatamento na Amazônia. A “moratória da carne” ainda não deu os mesmos resultados que a da soja, mas houve avanços visíveis. Outros grandes compradores na cadeia de suprimento da carne e do couro se viram compelidos a aderir a ela.
As empresas aderem a iniciativas desse tipo por causa de seus valores ou respondendo a pressões de mercado e às preferências manifestas de seus consumidores? Eu diria que no mínimo pressões de mercado e preferências de consumidores têm um papel decisivo no fortalecimento e na observância desses valores.
Esses são exemplos extremos, mas ajudam a mostrar claramente que sustentabilidade tem tudo a ver com liderança no mercado. Essa liderança frequentemente precisa de um empurrão da regulação ou de pressões como as geradas pelas ONGs, organizações de consumidores e ministério público. Eles também nos ajudam a entender que não pode haver empresas sustentáveis em cadeias insustentáveis de suprimento. Uma empresa que do portão para dentro é de baixo carbono, não se pode dizer sustentável ou de baixo carbono se é parte ativa de uma cadeia insustentável e de alto carbono. A complacência com o que se passa em sua cadeia de suprimento nega qualquer política interna de sustentabilidade. Sustentabilidade só pode ser alcançada se considerar todo o ciclo de vida do produto, do ponto mais inicial da cadeia de suprimentos ao produto acabado, seu uso ou consumo e destino final dos resíduos e embalagens.
Ainda mais nessa era da mudança climática, a sustentabilidade não pode ser uma busca solitária de algumas empresas heróicas. Só pode ser o resultado da ação coletiva dentro e entre as maiores cadeias de suprimento da economia. Uma palavra final: sustentabilidade, hoje, é baixo carbono. O resto é derivativo.
Tags:CSR, supply-chain, sustentabilidade



Excelente artigo. Concordo plenamente com suas colocações. Sou responsável por comunicação institucional em uma ind. química e vejo internamente, cada vez mais a preocupação com o tema e a forma ética que a empresa vem buscando ser “sustentável” por completo. Sou sua ouvinte na CBN, estou aguardando agora o artigo sobre seu comentário sobre os produtores de palma de hoje (26/03) que muito interessou. Nossa empresa usa o óleo de palma como matéria prima. Um abraço, Sandra