Análise
12 fevereiro, 2010

A prisão de Arruda e as eleições presidenciais

Sérgio Abranches

Prever o que acontecerá numa eleição como essa é impossível. O que se pode é especular educadamente, com base no que se sabe sobre o comportamento do eleitor quando vota para presidente e nas circunstâncias dos partidos dominantes.

Raramente eventos negativos ou positivos, que estão ligados apenas indiretamente aos candidatos, influenciam o voto do eleitor para presidente. O mensalão do PT, por exemplo, provavelmente não afetará o voto em Dilma Roussef (PT-RS). O caso Arruda dificilmente afetaria a candidatura de José Serra (PSDB-SP), porque ele concorreu à prefeitura de São Paulo em aliança com o DEM paulista e mantém estreita relação com seu ex-vice, agora prefeito, Gilberto Kassab (DEM-SP).

É claro que o melhor caminho para administrar riscos desse tipo é o afastamento do candidato daqueles mais diretamente associados ao escândalo. No caso de Serra, o melhor caminho seria mesmo a candidatura puro sangue, convencendo Aécio Neves a aceitar ser vice na chapa tucana. Aí, eles teriam apenas que lidar que os problemas do próprio PSDB.

O voto para presidente é um voto pessoal. O eleitor vota pensando basicamente nos atributos pessoais que ele vê nos candidatos. O mix de atributos varia muito. Não se pode dizer que um traço particular, simpatia, por exemplo, terá o mesmo peso para todos os candidatos em todas as eleições. Varia muito, depende do conjunto de candidatos e da distribuição desse atributo na percepção dos eleitores entre os candidatos. Usualmente, o fator ambiental mais importante na escolha para presidente é o econômico: o que está acontecendo com a renda real disponível dos eleitores e o que eles acham que cada candidato pode fazer sobre isso. Atributos que sempre tem peso importante, porque reforçam a percepção sobre outras características na cabeça do eleitor são a credibilidade e a autenticidade. Quando estão presentes na receita íntima do eleitor sobre como deve ser um presidente eles aumentam a confiança nas candidaturas que lhes parecem mais confiáveis e autênticas. A psicologia do voto é volúvel e influenciada por fatores distintos, dependendo da própria personalidade do eleitor. Há aqueles que são “cabeça-feita”. Há os que formam opinião em família, outros no trabalho, outros prestando atenção em formadores de opinião que consideram confiáveis e sabidos. Enfim são vários perfis de eleitores que constroem várias imagens diferentes de um mesmo candidato.

É pouco provável, além disso, que PT e PSDB queiram se envolver em uma campanha negativa, de ataques um ao outro sobre corrupção política. Nenhum dos dois tem a vidraça limpa. Se entrarem nesse tipo de disputa, acaba sendo negativo para ambos. Um dos problemas da democracia brasileira no século XXI é que os quatro grandes partidos políticos do país têm sido lenientes com a corrupção dos seus. Isso tem implicações institucionais muito negativas. Para as candidaturas, fará soar meio falso se insistirem demais no seu sentido ético. Só candidaturas totalmente dissociadas de eventos moralmente condenáveis podem colocar a ética política no centro de suas campanhas.

O caso Arruda pode, mais provavelmente, ter impacto negativo genérico no desempenho do DEM. O partido tem sido muito vacilante e leniente nesse episódio. É muito provável que sofra perdas significativas, nas eleições do DF. Embora o Distrito Federal tenha uma política local muito envolvida com máquinas clientelistas, há candidaturas que poderiam ganhar competitividade porque ainda podem fazer uma campanha ressaltando a ética na política. Nas parlamentares, o partido pode ser bastante prejudicado e é difícil imaginar que seja competitivo na disputa para o governo do DF.

Mas, eleição de governador é como eleição de presidente, o voto é pessoal, portanto, tudo que não está diretamente ligado à pessoa do candidato tende a pesar pouco na decisão do eleitor. Às vezes, a popularidade do candidato lhe permite superar, inclusive, a má imagem ética. Aconteceu com Paulo Maluf durante muito tempo em São Paulo. O caso mais famoso foi o de Ademar de Barros, também em São Paulo.

A cada novo evento dessa magnitude, ganha mais força o cenário de uma eleição cheia de surpresas inevitáveis, cheia de incertezas, muito disputada e muito tensa.


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