Obama: Popularidade e polarização
Sérgio Abranches
Barack Obama começou o governo com a segunda maior média de aprovação da história recente dos presidentes, empatado com Eisenhower, com 68%, nos dados do Gallup. Só John Kennedy teve aprovação inicial maior, com 72%. Sua média no primeiro ano de governo, porém, é a segunda menor, igual à de Ronald Reagan: 57%. E sua popularidade corrente está com viés de baixa. Hoje é de apenas 48%.
Bill Clinton terminou seu primeiro ano de governo com média de 49%, a mais baixa, e, como se sabe, foi reeleito no meio de um escândalo pessoal. Era a economia. Obama fechou a última semana com 50%. Sua última avaliação, média dos últimos três dias, é 48%. Logo, tendência de queda. É também a economia?
Em grande parte sim. Principalmente as taxas de desemprego – alta – e de emprego – baixa. Mas esses números da popularidade de Obama têm por trás uma realidade política que está ausente na maior parte do noticiário e dos comentários políticos. Nunca a política no EUA foi tão polarizada como no governo Obama.
Sua eleição já havia mostrado essa polarização: ele foi eleito por uma maioria esmagadora de Democratas e Independentes e sua votação entre os Republicanos foi baixa. Entre os estados republicanos, Obama só encostou realmente em McCain em Montana e no Missouri. Entre os Democratas, McCain só ficou perto de Obama em Indiana, Carolina do Norte e Flórida.
Mas o que o Gallup mostra é que essa polarização se tornou mais profunda e aguda durante o primeiro ano de governo Obama e pode influenciar as eleições de meio-mandato.
Obama tem 82% de apoio entre os Democratas, 45% entre os Independentes e 18% entre os Republicanos. Considerando-se a média do primeiro ano, os índices são 88% entre os Democratas – o maior da história desde Eisenhower – e 23% entre os Republicanos, igual ao de Bill Clinton. É, também, o menor da série, entre presidentes Democratas. Mas Obama tem, disparado, o maior índice de diferença na sua aprovação entre os eleitores dos dois partidos: 65 pontos percentuais separam sua popularidade entre os Democratas de sua popularidade entre os Republicanos. A diferença para Clinton era de 52 pontos e, para Bush, de 45 pontos.
Quando se examina o gráfico completo com as médias de popularidade do primeiro ano, desde Eisenhower, se nota uma tendência à polarização: de Reagan para cá, a diferença média nas avaliações dos presidentes entre os dois partidos foi de 47,8 pontos percentuais. Entre Eisenhower e Carter foi de 28.1 pontos. Bush pai foi, dos cinco últimos presidentes, o que polarizou menos o EUA: 32 pontos, índice igual ao de Eisenhower e menor que o de Nixon (34 pontos). E não foi reeleito. Além disso, há uma diferença marcante entre os Democratas. No primeiro grupo, “pré-Reagan”, os Democratas tinham as menores marcas de polarização: Johnson, 19 pontos; Carter, 27 pontos; e Kennedy, 29 pontos. Todos índices menores que os dos presidentes Republicanos do período. Após Reagan, os Democratas polarizam mais: Obama, 64 pontos; Clinton, 52 pontos; Bush pai 32 pontos e Bush filho, 45 pontos.
A tendência da popularidade de Obama é de aumento da polarização. Entre os Republicanos, a média semanal da aprovação do presidente caiu 26 pontos entre a primeira semana (41%) do primeiro ano de mandato e a última (15%). Entre os Independentes, o desgaste de Obama levou a uma perda de 17 pontos percentuais na popularidade (62% para 45%). Entre os Democratas, porém, Obama perdeu apenas 4 pontos percentuais (88% para 84%).
Se essa polarização, que tem muito a ver com o que Obama representa, se refletir nas parlamentares de meio-mandato, haverá um recrudescimento do voto republicano nos distritos republicanos e do voto democrata nos distritos democratas. Nesse caso, Obama pode manter a maioria na Câmara, embora ela fique menor e perder no Senado.
Nem toda a polarização é personalizada ou se explica pelas características singulares de Obama: negro, mais à esquerda, com uma agenda distinta da dominante no país. Uma forma grosseira de quanto da polarização é específica a Obama e quanto tem a ver com a crescente diferenciação entre Democratas e Republicanos especialmente em temas novos – como mudança climática – e velhos – como raça – é a diferença entre os índices de polarização dele e de Clinton.
Com base nessa diferença, 88% da polarização teriam base partidária e 22% estariam associados à rejeição pessoal a Obama entre os Republicanos e menor entre os Democratas. Se for assim, as eleições de meio-mandato tenderão a ser polarizadas também e Obama pode ter uma contribuição específica ajudando os Democratas nos distritos mais polarizados e favoráveis ao partido e prejudicando os Democratas nos distritos onde há equivalência de forças entre os dois partidos, porém com viés republicano entre os Independentes.
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