Pense no Haiti, reze pelo Haiti, seja um Haitiano
Sérgio Abranches
Se a história continuar a se repetir no Haiti, o país corre o risco de mergulhar em uma profunda regressão social. Ele já está no limiar do estado da natureza. Um estado no qual as pessoas são movidas por instinto e alimentadas pela dor, pela raiva, pelo desespero e pela desconfiança.
História não é fatalidade ou destino. É o resultado da interação de forças sociais e fatores naturais. Como alerta Ramsey Clark, “a história do Haiti vai partir seu coração”. Nós brasileiros continuamos cantando a canção dos 80 de Caetano: “pense no Haiti, reze pelo Haiti”…
A história do Haiti sempre foi um intercurso entre predadores humanos implacáveis e forças naturais brutais. Exploração, isolamento, ocupação, pesadas reparações, furacões, terremotos e tsunamis destruíram recorrentemente o direito do país a um futuro civilizado, desde os tempos coloniais.
Sua população nativa foi dizimada em menos de três décadas desde que Colombo pôs seus pés na Ilha de Hispaniola. Os nativos foram substituídos por escravos sequestrados na África. O Haiti pagou duas vezes um preço impagável por sua Guerra de Independência. A ousadia de negros nunca custou tão caro, em lugar algum. Como Clark escreveu:
O Haiti está em ruínas, quase metade de sua população foi perdida. Os escravos africanos do Haiti derrotaram o exército de Napoleão Bonaparte. A guerra de liberação que durou 12 anos destruiu quase todo o sistema de irrigação e o maquinário que, com trabalho escravo, havia criado a colônia mais rica da França e eram a base da economia da ilha.
Depois da Independência, em 1804, veio o isolamento. As economias das Américas eram fundadas na escravidão. As européias eram de base colonialista. Nenhuma nação queria legitimar uma ordem nascida da revolta de escravos pela liberdade ou da rebelião de colônias. Os Estados Unidos só reconheceram a república independente depois que a Guerra Civil extirpou de lá o sistema escravocrata, em 1862. A escravidão só foi abolida no Brasil em 1888, 66 anos após sua independência de Portugal.
Os proprietários mais ricos que não deixaram o Haiti após sofrerem pesadas perdas com a destruição das plantações de café, cacau, algodão e tabaco, ou não foram mortos durante da Guerra da Independência, fugiram antes da rendição dos franceses ou saíram junto com as tropas de Napoleão.
O medo do vírus da insurreição negra transformou a “Pérola do Caribe” no pária das Américas. Isolamento foi um preço ainda maior a pagar pela rebelião do que as vidas perdidas e a economia devastada. Ela retirou da ilha empobrecida os meios de sua recuperação de desenvolvimento futuro. Cortou suas conexões com a economia mundial. O EUA só permitia comércio limitado antes do reconhecimento oficial. O Haiti precisava desesperadamente da integração econômica com o resto do mundo. Sua única fonte de receita eram as commodities de exportação (açúcar, café, algodão, cacau e tabaco). Não tinha capital para investir na reconstrução de sua infra-estrutura e na recomposição do capital físico de sua economia, nem conseguia atrair investidores. O acesso ao seu mercado mais tradicional, o francês, só lhe foi aberto após se comprometer a pagar pesadíssima indenização, em grande parte ilegítima, por expropriação de terras e escravos.
Depois do isolamento, veio a ocupação. O EUA ocupou o Haiti por 19 anos, de 1915 a 1934. Quando saiu, o país estava mais pobre do que quando os marines desembarcaram na ilha.
Durante a ocupação, milhares de haitianos desempregados migraram para a República Dominicana em busca de qualquer trabalho. O ditador dominicano Rafael Trujillo comandou uma campanha racista de genocídio contra os haitianos negros. Foram assassinados 40 mil.
Depois dos abusos estrangeiros veio a opressão doméstica brutalizada. Os dois Duvaliers, Papa Doc e Baby Doc, com seus Tonton Macoutes, fundaram um regime criminoso de terror, exploração e corrupção que durou 30 anos. Durante quase todo esse reinado de terror, os dois tiranos tiveram o apoio formal ou informal dos países ocidentais, particularmente do EUA. Ao final só dor e miséria.
Ainda em 2003 o EUA, a União Européia e bancos multilaterais se negavam a liberar US$500 milhões em ajuda sob a alegação de que o governo recém eleito de Aristide não se esforçava para fazer um acordo com a oposição que havia boicotado a eleição presidencial. Novamente, a ameaça de sanções e isolamento político contra um Haiti empobrecido e desestabilizado.
O que dizer das forças naturais? O Haiti tem uma localização geográfica de alto risco natural. Quando o risco natural é avaliado considerando-se as deficiências da ilha, o que se tem é um país de alto risco de tragédias humanas.
Os furacões eram desconhecidos para os Europeus que se aventuravam pela primeira vez pelos mares do Caribe. Cristóvão Colombo encontrou o seu primeiro em 1495, perto de Hispaniola, e ficou assustado com sua violência. No período colonial tempestades tropicais e furacões devastaram as plantações em todo o Caribe. As maiores perdas se davam nas plantações de maior valor e que demandavam mais tempo e cuidado para atingir a fase produtiva, como café, algodão, cacau e tabaco. As culturas de cana de açúcar também eram destruídas, mas seu ciclo mais curto de cultivo permitia a retomada da produção mais cedo, com menos investimento. Isso explica, em boa parte, a tendência rumo à monocultura da cana. Também fazia com que os proprietários de fazendas com lavouras de maior valor migrassem, levando consigo o resultado da comercialização da produção e o capital poupado. Daí a redução progressiva do tamanho das propriedades e o empobrecimento das elites agrárias. Uma elite empobrecida, tentando extrair o máximo de resultado de suas terras no menor prazo possível, significava mais exploração, brutalidade, violência e destruição ambiental. Os proprietários não tinham a menor preocupação com o bem-estar dos escravos e da não-elite. Pobreza crescente e destituição resultavam das dificuldades impostas pelo clima à economia local.
Produção extensiva e a busca por locais mais defesos das tormentas levavam ao desmatamento quase total. Hispaniola tinha uma enorme riqueza de biodiversidade quando foi descoberta. Toda essa riqueza foi perdida com o desmatamento. E o desmatamento aumentou a vulnerabilidade da ilha em relação a eventos climáticos extremos.
Em resumo, desde o período colonial, os haitianos são vítimas de um ciclo impiedoso de miséria causado pela interação entre a violência humana, a degradação ambiental e fenômenos naturais extremados.
Desmatamento, falta de serviços adequados de defesa civil e péssima infra-estrutura também ajudam a explicar a história recente de eventos naturais extremos fazendo com que a tragédia humana se repita recorrentemente no Haiti.
Em 1935, uma tempestade matou mais de 2000 pessoas. Em 1946, um terremoto de magnitude 8.1 foi registrado em Hispaniola. Embora seu epicentro tivesse sido na República Dominicana, ele atingiu fortemente o Haiti. Em 1954, o furacão Hazel matou muita gente e destruiu 40% das culturas de café 50% da plantação de cacau. Em 1963, o furacão Flora matou 8000 pessoas. Em 1994, o furacão Gordon devastou 80% das culturas do país. Em 2004, a tempestade tropical Jeanne provocou enormes enchentes e deslizamentos de terra, matando 2500 pessoas e deixando vários milhares desabrigados. Em 2008, o Haiti foi atingido por quatro diferentes furacões – Fay, Gustav, Hanna e Ike – no espaço de 30 dias: 800 pessoas morreram e 60% da agricultura do país foram devastados. Cidades inteiras ficaram isoladas e inabitáveis.
“Hoje somos todos haitianos”, Nicolas Kristof (@nickkristof ), colunista do New York Times, tuitou de Nova Iorque. A âncora da CNN Kristie Lu Stout (@klustout) retuitou de Hong Kong e a colunista de O Globo, Míriam Leitão (@MiriamLeitaoCom), re-retuitou do Rio de Janeiro. Mas por quanto tempo ainda o Haiti estará em nossos corações e mentes?
Temo que esqueceremos o Haiti em alguns poucos meses. O país não receberá a ajuda necessária, no valor apropriado para reconstruir suas cidades. Os haitianos não receberão casas melhores e mais seguras. A infra-estrutura não será recuperada, muito menos melhorada. Não se implantará um serviço adequado de prevenção e socorro de desastres. As áreas de risco serão reocupadas e continuarão sem monitoramento.
O melhor cenário, infelizmente pouco provável, seria uma história de sucesso da solidariedade mundial para com o Haiti sem precedentes. O mundo passaria a pensar no Haiti e ele não seria esquecido. Os países lhe dariam de volta, sob a forma de ajuda incondicional e sem preconceitos, parte da riqueza que ele transferiu para países mais ricos, ao longo de sua história. As crianças haitianas, metade da população do país, teriam boa educação e sem preconceito. Educação de qualidade permitiria aos jovens haitianos aproveitar o melhor de sua cultura, adquirir novos conhecimentos e se qualificar para serem bons e ativos cidadãos e liderar seu país rumo a uma vida civilizada em algum momento do século 21.
Termino com a frase completa de Ramsey Clark sobre a história do Haiti.
A história do Haiti vai partir seu coração. Ao conhecê-la, os fracos se desesperarão, mas aqueles que se importam se esforçarão para quebrar os elos dessa cadeia de tragédias.
Tags:clima, colonialismo, corrupção, desmatamento, ditadura, escravidão, furacões, Haiti, opressão, terremoto



Touchè, que texto magnífico! Dá a idéia e centralização do porque de tanta miséria.
Não interessa às grandes nações o Haiti, lá não tem riqueza natural, não tem diamantes, não tem ouro, petróleo… agora interessa aos homens de boa vontade e aos oportunistas, que desviam doações. Vê! até mesmo os da terra não respeitam a dor do outro. Mas sabe, a estes dou desconto, eles roubam para sobrevivência. Então, Bush já apareceu na fita!!