Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas
Iraque: Uma eleição conturbada
Sérgio Abranches
A eleição parlamentar no Iraque, a segunda após a nova Constituição, assume relevância pelo impacto que pode ter na popularidade do presidente do EUA, Barack Obama, já abalada pelo desemprego, e nas eleições de meio-mandato, em novembro.
O quadro inicial foi marcado por forte conflito entre os grupos hoje no poder e culminou com o veto pelo vice-presidente Tareq al-Hashemi à lei eleitoral aprovada pelo parlamento. No centro do problema estava ainda o conflito entre curdos e sunitas. Os curdos queriam maior representação no parlamento e acabaram levando: terão mais três cadeiras. Mas os sunitas também saíram beneficiados com o aumento do número total de cadeiras no parlamento.
Um dos problemas subjacentes à eleição é que os alinhamentos partidários são cortados por clivagens sectárias. Houve um importante realinhamento dos sunitas, que estão, agora divididos em três grandes coalizões. O “Acordo Iraquiano”, sua força principal é o Partido Islâmico do Iraque, o maior partido sunita do país, mas tem muitas divisões internas que podem prejudicar o desempenho da coalizão nas eleições. Outra coalizão é o Movimento Nacional Iraquiano, que tem três facções importantes: o Front Iraquiano para o Diálogo Nacional, o segundo maior partido sunita, liderado por Saleh al-Mutlaq; o Partido da Renovação, liderado pelo vice-presidente Tareq al-Hashemi; e o Movimento Nacional do Iraque, liderado pelo ex-primeiro ministro interino no governo que antecedeu as eleições de 2005, Iyad Allawi, um xiita que formou uma coalizão pluralista, na qual os sunitas têm participação importante. A Coalizão pela Lei do Estado, do atual primeiro-ministro Nouri al-Maliki, reúne pequenas facções sunitas e tem confrontado duramente o Movimento Nacional Iraquiano, provocando tensão entre seu governo e os xiitas moderados. A Aliança pela Unidade do Iraque, formada por importantes lideranças políticas sunitas, entre elas o presidente do Parlamento, Abdulghafour Sammurraie, o Ministro da Defesa, Saadoun al-Dulaimi e o presidente dos Conselhos do Despertar do Iraque, um programa inspirado pelo EUA, Ahmed Abu Risha. Mahmoud Mashhadani, importante liderança sunita, que pertence a uma corrente religiosa mais radical do Islamismo, abriu uma dissidência e se afastou dos outros grupos sunitas. Os xiitas estão predominantemente agrupados na Aliança Nacional Iraquiana.
O cenário eleitoral se complicou porque uma comissão do parlamento negou registro ao Front Iraquiano para o Diálogo Nacional, bloqueando o acesso do líder Saleh al-Mutlaq ao próximo parlamento. Mutlaq tem ampla penetração em províncias predominantemente sunitas, que foram sub-representadas na última eleição parlamentar. Nessa eleições, os sunitas boicotaram a votação, aumentando desproporcionalmente a representação de xiitas e curdos. A proibição é um fator significativo de risco de deslegitimação das eleições. O argumento utilizado para impedir Mutlaq de disputar seria a persistência de relações com antigos militantes do partido Baath, de Sadam Hussein, banido pela atual Constituição, que ele deixou em 1977. É certo que Mutalq cortejava ostensivamente setores ligados ao partido banido. O problema implícito nesse desdobramento é o que fazer com os seguidores do Baath. Eles são numerosos, dominantes em algumas províncias predominantemente sunitas e têm, de alguma forma, que ser incorporados à vida política pós-Sadam Hussein. A decisão ainda precisa ser oficializada pela “Alta Comissão Eleitoral Independente”.
Esse novo alinhamento das forças sunitas tem, segundo os analistas, um lado positivo, porque pode indicar um esforço genuíno para superar o sectarismo e se integrar de forma mais organizada ao processo político. Essa divisão entre grandes coalizões também aumentaria a probabilidade de que os sunitas tenham representação significativa no parlamento, evitando radicalização pós-eleitoral e deslegitimação dos resultados eleitorais.
Mas ela tem, também, um lado negativo. Esse realinhamento e a formação dessas coalizões parecem resultar basicamente de ambições pessoais de lideranças que continuam a dividir fortemente os sunitas do Iraque e não de adesão a programas partidários consistentes. Essas rivalidades pessoais e a recusa da maioria dessas lideranças em cooperar com o Partido Islâmico produzem alianças instáveis e efêmeras e ameaçam as chances de governança estável após as eleições.
Há, porém, analistas mais conservadores empolgados com o que chamam de bem sucedida construção da primeira democracia árabe genuína do Oriente Médio. É duvidoso que isto esteja realmente acontecendo de forma tão positiva assim. Um desses analistas, de um think-tank conservador e que foi muito ligado ao governo Bush, sustenta que esse movimento está, de fato, ocorrendo e o que não está claro é se a administração Obama entende o valor de uma parceria estratégica de longo prazo com um Iraque democrático, para difundir o governo representativo no Oriente Médio. Obviamente, por trás dessa dúvida está a defesa da permanência de tropas no Iraque para estabilizar essa democracia e viabilizar essa aliança de longo prazo. Para esses analistas Obama só veria valor em um bom resultado das eleições para acelerar a saída do EUA do Iraque.
O argumento mais moderado dos defensores da presença continuada no Iraque é do conhecido analista de relações internacionais, Walter Russel Meade. Ele diz que Obama precisa se livrar da “Síndrome de Jimmy Carter” e reconciliar seu “jeffersonianismo” com uma dose maior de “wilsonianismo”. Ele se refere às doutrinas concorrentes de política externa no EUA. Os seguidores de Jefferson – e ele diz que Carter e Obama estão entre eles – acreditam que o melhor que os Estados Unidos podem fazer é reduzir o intervencionismo externo e dar bons exemplos de governança democrática em casa. Seria melhor investir em aperfeiçoar a democracia domesticamente e liderar pelo exemplo. Obama, em seu jeffersonianismo acreditaria, ainda, que mesmo maus regimes podem ser cidadãos ordeiros no plano internacional – uma alusão nada discreta à suspeita de que ele estaria disposto a negociar com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Segundo Meade, Obama deveria seguir mais seus impulsos wilsonianos. Os que seguem o pensamento de Wilson, acreditam que é preciso ter uma política externa global sustentada em um governo forte e com força militar – como pensam os seguidores de Hamilton também. Mas, para os wilsonianos, essa política tem um objetivo finalístico claro. O propósito da projeção internacional seria promover a democracia e os direitos humanos como elementos centrais da “grande estratégia americana”. Em outras palavras, ser menos Carter e mais Bush. Meade chega a dizer que, para os wilsonianos, o jeffersonianismo de Obama seria covardia moral.
Daí se pode ter uma boa idéia de como as eleições no dividido Iraque provocam polarizações apaixonadas no EUA. Essas divisões em torno da missão global de Washington e do que fazer no Iraque e no Afeganistão e qual a atitude a adotar com o Irã, provocarão um grande confronto entre republicanos e democratas nas eleições de meio-mandato.
Tags:democracia, eleições, Iraque, política


