Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas – Reino Unido
Sérgio Abranches
Reino Unido: uma eleição sem vencedores?
Até recentemente, a maioria esmagadora dos analistas dizia que os Trabalhistas deixariam o governo este ano, entre março e maio, numa derrota acachapante frente aos Conservadores. Agora, muitos estão adotando uma terceira via de análise: o maior risco é que as eleições sejam inconclusivas. Isto é, não produzam uma clara maioria no Parlamento. Brown perderia e teria que renunciar, mas os Conservadores não conquistariam a maioria. O resultado seria um novo governo fraco e a necessidade de nova eleição talvez em menos de um ano.
O que leva a essas conclusões? Em primeiro lugar, a diferença entre Gordon Brown e David Cameron, que esteve em dois dígitos na maior parte das pesquisas de opinião no ano passado, caiu agora para um dígito. Um analista descreve esse movimento, no qual Brown parece ressurgir das cinzas, mas ainda abalado, como “o que era para ser uma coroação [de Cameron] se transformou em uma disputa”. De fato, uma das pesquisas mais recentes mostra uma queda de 6 pontos na diferença entre Conservadores e Trabalhistas, entre outubro e janeiro, embora ficando ainda em 11 pontos. A pesquisa ICM-Guardian, mostra uma diferença de 9 pontos entre Conservadores e Trabalhistas, indicando uma queda de 8 pontos em relação à pesquisa anterior.
Em segundo lugar, as pesquisas indicam um descompasso entre a opinião dos eleitores sobre os dois líderes e a opinião sobre os partidos. Para alguns analistas, essa é a questão chave: Cameron tem grande popularidade e transfere parte dela para os Conservadores. Sem Cameron, o partido Conservador não teria força para ganhar. Com ele, talvez não tenha força para governar. Já a popularidade de Brown está em baixa, e ele prejudica o partido Trabalhista, cuja popularidade é maior que a dele. Com Brown, os Trabalhistas não teriam condições de governar, sem Brown poderiam ganhar a maioria e a governabilidade.
Foi exatamente essa impopularidade de Brown que levou dois de seus ministros tentarem derrubá-lo da liderança no final da semana passada. Eles propuseram um voto secreto sobre a permanência de Gordon Brown na liderança do partido, em email aos parlamentares Trabalhistas. A proposta, imediatamente definida como um golpe contra Brown, provocou um dia de drama e crise. O golpe foi revelado às 12:38, durante uma sessão de questões ao primeiro ministro no Parlamento. A primeira reação do gabinete favorável a Brown foi quase imediata: às 12:35 o ministro para Europa, Chris Bryant, disse à BBC que era um ato “impróprio e totalmente errado”. O presidente do partido no Parlamento, Tony Lloyd disse, às 13:36 que um voto secreto seria errado e inconstitucional. As manifestações se sucederam ao longo do dia. Muito poucos e reconhecidamente antagônicos a Brown apoiaram a idéia. A ameaça a Brown estava politicamente superada antes de anoitecer.
Mas o partido permanece inquieto e dividido. Muitos especulavam que o verdadeiro responsável pelo golpe seria o ministro das Relações Exteriores, David Miliband, que segundo observadores e trabalhistas teria demorado a se manifestar. Miliband, falado como candidato à sucessão de Brown na liderança Trabalhista, foi o último ministro importante de Brown a se manifestar, às 18:53, em uma nota em que dizia estar trabalhando junto a Brown e que “apoiava uma campanha pela reeleição de um governo Trabalhista que ele lidera”. Seu irmão, Ed Miliband, ministro da Energia e Mudança Climática, disse à BBC às 17:22 que Brown era o líder certo para os Trabalhistas e para o país.
Os rivais de Brown obviamente se aproveitaram da crise. O Conservador David Cameron aproveitou para denunciar a divisão dos Trabalhistas e a crise no gabinete, sintomas da deterioração da governança. O líder dos Liberal Democratas, Nick Clegg, disse que os Trabalhistas perderam o rumo e provavelmente só resolverão suas diferenças quando já estiverem na oposição.
Com base em uma pesquisa da ComRes, que dá diferença de 10 pontos para os Conservadores (37% x 27% e 20% para os LibDems) e outra do Ipsos-MORI, que dá uma diferença ainda mais apertada, de seis pontos (37% x 31% e 17% para os LibDems), o editor político do The Independent, Andrew Grice, diz que o Reino Unido caminha para um parlamento sem maioria (hung parliament), o que indicaria um governo efêmero e novas eleições em curto prazo. Se nas urnas se repetisse o resultado da pesquisa da ComRes, por causa da natureza do voto majoritário distrital britânico os Tories ficariam a seis cadeiras da maioria, com 320 parlamentares, contra 240 dos Trabalhistas, 58 dos Liberal-Democratas e 14 de outros partidos (320 x 312), diz ele.
Esse é, hoje, claramente, um cenário provável, mais plausível do que uma vitória arrasadora dos Conservadores, hipótese que dominou as análises até o final do ano passado. Mas, como diz um experiente analista da cena política britânica, pesquisa de opinião é uma coisa, voto na urna é outra. Tem pesquisa hoje para provar qualquer ponto, argumenta. O que se deve considerar é que o que parecia impossível, se tornou provável: se houver um alto comparecimento, Gordon Brown pode manter a maioria.
A tentativa de golpe interno terá impacto na opinião pública e deixará sequelas no partido. É preciso ver no que dará. Na opinião pública pode até melhorar a imagem de Brown, que mostrou liderança e firmeza ao debelar a tentativa de golpe.
O que é certo é que a incerteza é o traço dominante desse período pré-eleitoral. Se a economia melhorar no primeiro trimestre, os Trabalhistas podem recuperar o fôlego e passar os Tories. Não é uma trajetória improvável para a economia britânica. Ela pode ter um suspiro de alívio no primeiro trimestre e perder o fôlego mais tarde, ao longo do ano. Por isso a oposição quer eleições já e Brown, aparentemente, planeja convocá-las para o final de março.
Para constituir um governo viável, Cameron teria que liderar uma vitória realmente esmagadora, coisa que já não parece provável. A distância entre Trabalhistas e Conservadores hoje é muito grande, de 157 cadeiras: os Trabalhistas controlam 355 cadeiras, os Conservadores, 198, e os LibDems, 62. Superar essa diferença e adicionar cadeiras suficientes para fazer a maioria corresponderia a um salto maior do que aquele que levou Blair ao poder nas eleições gerais de 1997.
Do ponto de vista do risco, o pior cenário é de um parlamento em impasse, porque produz um governo fraco, em um momento crucial de crise econômica ainda não superada, e um cenário internacional agitado por questões importantes que exigirão liderança clara e governabilidade.
Mas, como se vê por trás de toda a fleuma britânica há uma fogueira de vaidades e ambições o que dá uma dinâmica muito própria e imprevisível à política sucessória.
Tags:democracia, eleições, política, Reino Unido


