Análise
09 janeiro, 2010

Riscos e Tendências para 2010: Eleições Críticas – Chile

Chile: Um duro segundo turno

Sérgio AbranchesA maioria esmagadora dos analistas aponta o milionário Sebastián Piñera como o provável vitorioso do segundo turno das presidenciais chilenas. Um pequeno grupo dá três razões principais para sustentar que o resultado se tornou incerto e que existe a chance de vitória de Eduardo Frei, por uma margem não superior a 2 pontos percentuais.

A primeira razão é a popularidade pessoal de Michele Bachelet, que, segundo a empresa de pesquisa de opinião Adimark, é um recorde histórico, com uma evolução muito robusta: em setembro de 2008, ela tinha 42% de aprovação, em maio de 2009, alcançou 69%, um recorde em sua gestão. Em junho, novo recorde, chegando a 74%, e, em dezembro, embalada pelas eleições que, entretanto, deram o primeiro lugar ao oposicionista de direita Piñera, chegou aos 81%, melhor resultado jamais alcançado por um presidente chileno na pesquisa Adimark. Sua aprovação pessoal, como ocorre com Lula no Brasil, é melhor que a avaliação de desempenho de seu governo, que tem hoje está em nada desprezíveis 65%.

Uma das razões desse ganho de popularidade da presidente Bachelet e de seu governo é a melhora acentuada das expectativas econômicas. O Índice de Percepção Econômica, IPEC, está em recuperação há dois meses seguidos – outubro e novembro, o de dezembro ainda não foi divulgado. O sentimento de conforto econômico pessoal corrente está em recuperação, embora ainda baixo. Mas a avaliação do estado atual da economia já está bem acima da média. As expectativas sobre o país para os próximos 12 meses não apenas se recuperaram, como já indicam o fim do pessimismo, e estão também muito acima da média. As expectativas sobre a situação pessoal e familiar futura são ainda melhores. As expectativas sobre queda do desemprego são muito positivas e houve queda acentuada nas expectativas de aumento da inflação.

Como explicar o péssimo resultado do candidato de Bachelet no primeiro turno, no final do ano passado? Eduardo Frei, da Concertación, teve 30% dos votos, contra 44% para Piñera. A explicação é simples: o voto da esquerda se dividiu e a direita tinha um candidato só. A esquerda tinha três nomes, Frei, na centro-esquerda demo-cristã, o candidato independente, o ex-socialista Marco Enríquez Onimami Gomuci, conhecido como ME-O, na faixa mais próxima ao socialismo, que obteve 20%, e o candidato do PC, Jorge Arrate Mac-Niven, que teve 6% dos votos.

A segunda razão pela qual alguns analistas apostam na possibilidade de que a Concertación se mantenha no poder é que consideram que Onimami terminará por dar seu apoio a Frei. Um dos sinais que levam esses analistas a pensar assim é que, quando o cientista político, Patricio Navia, consultor de sua campanha, declarou apoio a Piñera no início da semana, ele disse à imprensa “essa não é minha opção”. Outro sinal, a declaração de apoio a Frei dada ontem pelo deputado Esteban Valenzuela, coordenador da campanha de Onimami. Valenzuela é o primeiro do círculo estreito do candidato independente a declarar apoio a Frei. Seu apoio indicaria avanço nas negociações entre Onimami, Bachelet e Frei. O terceiro sinal seria a declaração de Eduardo Frei de que governará por fora dos partidos. Ela está sendo vista como uma resposta à demanda de Onimami de que se “mude a forma de fazer política na Concertación”.

Também pesa na avaliação daqueles que não dão Freire por batido, o fato de ele ter recebido o apoio ostensivo da Central Única dos Trabalhadores e do Partido Comunista, que obteve 6% dos votos para presidente no primeiro turno.

Finalmente, esses analistas, em franca minoria, indicam a pesquisa Adimark, que mostra empate na avaliação de desempenho da Concertación e da Alianza, que apóia Piñera: 31% a 30%, respectivamente.

Se esse cenário em minoria entre os analistas, de vitória apertada de Frei, não se confirmar, a direita voltará a governar o Chile pelo voto democrático pela primeira vez em 52 anos e poria fim a 20 anos de governo da Concertación. Uma vitória marcada pela presença simbólica na disputa, também pela primeira vez, de um dos ex-presidentes pela Concertación. Frei foi o segundo presidente eleito democraticamente no Chile, governando o país entre 1994 e 2000. O primeiro foi Patrício Alwin.

Um segundo turno saído de disputa com resultados tão divididos como foi o primeiro turno chileno – a direita em peso votou em Piñera e a esquerda dividida quase ao meio entre dois candidatos – tende a equilibrar e polarizar rapidamente a disputa. A vitória acaba mesmo se dando por uma pequena vantagem, a ser obtida com os votos volantes bem no centro do espectro ideológico, que podem pender para a direita ou para a esquerda, e dos indeciso, estimados em 9% pelas pesquisas.

Por essa razão tendo a dar peso à opinião dissidente de que o segundo turno está indefinido e existe a possibilidade de uma virada. Basta olhar o resultado. Se todos os votos dados a Onimami forem de esquerda e tenderem para Frei, ele passaria Piñera, ficando com 50% dos votos. O Partido Comunista, que já declarou apoio a Frei, obteve 6% dos votos. É razoável supor que a vasta maioria dos que votaram em Onimami é de eleitores tradicionais da Concertación, principalmente socialistas que não gostam de Frei.

Os votos comunistas tendem a ser muito fiéis. Se o Chile votar de acordo com os alinhamentos ideológicos que sempre marcaram sua política, Piñera enfrentará um segundo turno muito duro, porque já teria conquistado todos os votos da direita. Sua vitória teria que se dar pela conquista de votos de eleitores ideologicamente identificados com os partidos da Concertación. Pelo alinhamento ideológico, Frei é o favorito do segundo turno. Pela tendência, pela rejeição a Frei e pela popularidade, Piñera teria a vantagem.

A vitória de Frei significaria continuidade do projeto da Concertación e os riscos estariam associados à crescente fadiga com uma coalizão há 20 anos poder. No caso de vitória de Piñera, os riscos de polarização radicalizada na sociedade chilena aumentam, os riscos operacionais de governança, ligados à pouca experiência no governo também. O grau de instabilidade política poderia se elevar no Chile. É bom lembrar, que Michelle Bachelet enfrentou momentos difíceis de insatisfação social, que chegaram criar risco concreto de instabilidade política.

Na área ambiental, é difícil avaliar concretamente o que seriam os governos de um e de outro, apenas com base no programa de governo apresentado em campanha. Piñera promete implantar o sistema “quem polui paga” e estrutura suas propostas em torno da qualidade do ar e da mudança climática. O programa de Frei tem um quadro de referências menos claro. Ele promete criar uma “economia verde”. Ambos põem muita ênfase em economia de energia. Aparentemente, nessa área não haveria muita diferença entre os dois.


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