Análise
08 janeiro, 2010

Golpe pré-eleitoral no Reino Unido

Pelo menos na política o Reino Unido anda bastante desunido. Ontem ex-membros do gabinete de Gordon Brown tentaram derrubá-lo da liderança e do governo, por meio de uma manobra para sublevar os Trabalhistas. Aparentemente fracassaram.

Sérgio AbranchesOntem, dois ex-membros do Gabinete, Geoff Hoon e Patricia Hewitt, tentaram derrubar Brown da liderança, propondo voto secreto sobre a permanência de Gordon Brown na liderança do partido, em email aos parlamentares Trabalhistas.

A proposta, imediatamente definida como um golpe contra Brown, provocou um dia de drama e crise. O golpe foi revelado às 12:38, durante uma sessão de questões ao primeiro ministro no Parlamento. A primeira reação do gabinete favorável a Brown foi quase imediata: às 12:35 o ministro para Europa, Chris Bryant, disse à BBC que era um ato “impróprio e totalmente errado”. O presidente do partido no Parlamento, Tony Lloyd disse, às 13:36 que um voto secreto seria errado e inconstitucional. As manifestações se sucederam ao longo do dia.  Muito poucos e reconhecidamente antagônicos a Brown apoiaram a idéia.

A ameaça a Brown estava politicamente superada antes de anoitecer. Mas o partido permanece inquieto e dividido. Muitos ainda especulam que o verdadeiro responsável pelo golpe seria o ministro das Relações Exteriores, David Miliband, que segundo observadores e trabalhistas teria demorado a se manifestar. Miliband, falado como candidato à sucessão de Brown na liderança Trabalhista, foi o último ministro importante de Brown a se manifestar, às 18:53, em uma nota em que dizia estar trabalhando junto a Brown e que “apoiava uma campanha pela reeleição de um governo Trabalhista que ele lidera”. Seu irmão, Ed Miliband, ministro da Energia e Mudança Climática, disse à BBC às 17:22 que Brown era o líder certo para os Trabalhistas e para o país.

Os rivais de Brown obviamente se aproveitaram da crise. O Conservador David Cameron aproveitou para denunciar a divisão dos Trabalhistas e a crise no gabinete, sintomas da deterioração da governança. O líder dos Liberal Democratas, Nick Clegg, disse que os Trabalhistas perderam o rumo e provavelmente só resolverão suas diferenças quando já estiverem na oposição.

Hoje continuou o jogo de acusações. A Vice-líder Trabalhista, Harriet Harman está sendo apontada como uma das articuladoras do golpe. David Miliband continua a ser acusado de encorajar discretamente o movimento contra o primeiro-ministro. Uma pesquisa divulgada hoje mostrou que 60% acham que o Trabalhista é o partido mais dividido. Entretanto, 69% concordam que se Brown renunciasse os Trabalhistas não teriam um candidato mais popular que ele.

Essa tentativa da afastar Brown, que tem menos popularidade que o partido, ao contrário de seu concorrente, David Cameron, mais popular que o Partido Conservador, acontece em um momento muito delicado da política britânica. Brown reduziu sua desvantagem em relação aos conservadores de dois dígitos para um, de uma média de 18 pontos para 8 pontos. Se economia recuperar um pouco e houver alto comparecimento às urnas, ele pode manter a maioria, uma hipótese na qual ninguém apostava até o final do ano passado. A oposição quer convocação imediata das eleições. Brown aparentemente pretendia convocá-las para o final do trimestre, quando provavelmente estaria em melhor posição. Agora, é preciso ver qual será a reação dos eleitores a essas divisões agudas no Trabalhismo. Por baixo da fleuma britânica há uma fogueira de vaidades e ambições. Lá, a política nunca é monótona, nem monotemática.


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