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04 janeiro, 2010

Na Mata Atlântica, um micro-universo

Sentado de frente para a nossa reserva de Mata Atlântica posso perceber, hoje, como ela já mudou desde que chegamos aqui.

Sérgio Abranches

Em novembro de 2004, escrevi uma coluna para O Eco, e contava que, de onde escrevia, podia ver, à esquerda, uma fração de mata em recuperação, com presença de algumas embaúbas. À esquerda, numa faixa mais antiga, as araucárias se destacavam na paisagem de braços abertos. Gostamos tanto daquela mata que a transformamos em uma RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural.


RPPN do Brejo Novo



Hoje, sentado no mesmo lugar, vejo o que era recuperação já povoada com espécies de transição e se confundindo, em altura, com o restante da mata, formando manchas de verde mais claro. As embaúbas de seis anos atrás já não estão por lá. Mas posso ver algumas novas, mais próximo à margem do lago, onde antes havia uma capoeira. As araucárias continuam se destacando em várias partes da mata e são agora em maior número.

Mata com Araucária Nativa



No dia seguinte, 6 de novembro de 2004, fomos caminhar por dentro da mata.
As cicatrizes do mau trato passado eram visíveis nas suas bordas. Mas, a quantidade de animais e aves que se avistava ou dos quais se podia identificar os sinais, mostrava o vigor de que uma mata é capaz quando deixada quieta. Na borda mais protegida dela, era possível seguir uma trilha recém aberta pelas capivaras, para terem acesso ao lago formado pela captação de alguns olhos d’água.

As marcas dos maus-tratos já desapareceram. Agora não se vê mais traços da presença agressiva de animais, desmatadores ou caçadores. Só se entra na mata a nosso convite e acompanhado. O pessoal foi reciclado e agora trabalha na preservação da reserva e no manejo das áreas dedicadas ao reflorestamento. A mata anda. As espécies pioneiras avançam sobre o antigo pasto. Nosso pessoal foi ao Instituto Terra, de Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado, aprender a bater pasto ao inverso: tirar o braquiária e deixar as mudas de espécies da Mata Atlântica.

Na última caminhada que fizemos na mata acompanhados por Amado, o mateiro, morto na Br 040 por um caminhoneiro descuidado, ele nos mostrou os sinais da presença de quatis, as marcas de garras na casca da árvore que atribuiu a uma jaguatirica que avistara recentemente. Ouvíamos jacus arredios e barulhentos e o pio de taquara rachada dos tucanos, que depois pousaram juntos no galho de uma das árvores mais altas.




É possível se encantar com o revôo da gralha azul, com a variedade de sabiás e até, com muita sorte, com o canto de um trinca-ferro. O pio forte das saracuras ecoa por toda parte, principalmente nas manhãs e ao entardecer.

Saracura



Amado insistia na existência de macacos de maior porte, que nunca vimos. Um dia, no meio da tarde ouvimos o grito característico dos barbados, meio latido – por isso são chamados de howler monkeys, em inglês, macacos “latidores”. Ele já não estava entre nós, para que pudéssemos lhe contar. Os barbados são tão ruidosos que podem ser ouvidos de longe. Amado falava também das raposas e achávamos que queria nos impressionar. Até que um dia, dei de cara com um casal, que ficou me olhando curioso, por um momento, antes de correr para o mato. São muito parecidas com os lobetes do Pantanal.

Tempos atrás, avistamos um veado jovem, atravessar os 600 metros que separam uma outra mata da reserva, para ir até a lâmina d’água. Depois ficou tranquilamente vários minutos à sombra das árvores, antes de voltar para seu território. Ele e outros de sua espécie transitavam entre as duas matas. Mas a mata do vizinho se foi. Era reserva legal, porém ele a vendeu para um madeireiro local, que já foi denunciado várias vezes às autoridades e segue impune, comprando matas de pequenos proprietários sem recursos.

É enorme a variedade de sanhaços e saíras, a quantidade de bem-te-vis, lavadeirinhas, joões-de-barro, saracuras e saracurinhas, jacus, almas de gato, tucanos. Na manhãzinha, é frequente sermos acordados pela cantoria ruidosa das seriemas. É rara a vez que chegamos lá e não avistamos uma ave que nunca havíamos avistado antes.


Saíra dourada



Algumas poucas horas na mata e se tem uma pálida idéia da biodiversidade acomodada naquele pequeno fragmento. A flora abundante e vária desafia minha capacidade de identificar espécies florestais. É certo que ela é muito maior do que alcança a nossa vista, pelos sons, pelas marcas, pela presença invisível, mas que se sente com precisão. Consigo distinguir os ipês, os palmitos, os xaxins. A quantidade imensa de bromélias espetaculares, das menores às gigantes. Essa riqueza frágil, abrigada precariamente naqueles poucos hectares de mata, explode de vida, como se festejando a paz reconquistada. Era assim, quando chegamos lá, é mais assim, hoje, que está totalmente protegida.



Sento-me no deck, diante da mata e a sensação é de tranquilidade. Uma tranqüilidade ilusória, precária, mantida a duras penas. Uma vez, lendo sobre  os problemas enfrentados pelas áreas de proteção no Brasil, me dei conta de que eles estão todos presentes no microcosmo da pequena RPPN do Brejo Novo.

É preciso vigilância e atitude enérgica para controlar a agressão de invasores. Há duas fontes principais de risco: os cães vadios do entorno e o gado. Os cachorros são vorazes devoradores de aves e pequenos animais, além de espantarem e ameaçarem os veados, as capivaras e os quatis. Numa madrugada, acordei com o latido de cães de caça na mata. Eles perseguiam uma capivara, que conseguiu se salvar, mergulhando na represa, na beira da mata. Foi preciso ameaçar o dono, caçador meio aposentado: polícia para ele e cartucheira para os cães. Em outra ocasião, vi os restos de saracuras, devoradas por cães passeadores.


Filhotes de coleirinhos



As cercas do entorno da reserva têm que ser mantidas unilateralmente. Os vizinhos não fazem manutenção e sequer se preocupam em buscar o gado que atravessa. Ele invade a mata, abre trilhas, come plantas. Já encontrei folhas de xaxins e de palmito, ainda imaturos, comidos por gado que invadiu a reserva.

Há, numa porção mais baixa da mata, bom número teiús, um belo lagarto, que pode chegar a mais de um metro de cumprimento. Os moradores do entorno caçam teiús porque eles comem os ovos do galinheiro. Os tatus são mortos porque gostam da carne. Tive que fazer uma preleção para o nosso pessoal sobre a importância de preservar os lagartos e a proibição de matar animais silvestres na propriedade da reserva, por qualquer razão. “Os lagartos são mais importantes que os ovos de galinha”, disse, para incompreensão absoluta da audiência. “Ninguém aqui come tatu, capivara, anta ou cotia”, arrematei.

Mas só a repetição de nosso mantra preservacionista por anos a fio terminou por incutir neles a idéia de que o certo é proteger a mata e os animais silvestres e que isso não os levaria ao desemprego.




Amado costumava soltar peixes que pegava no riacho que corta a propriedade, para soltá-los na represa. Um dia, queria matar um casal de lontras que estava comendo os peixes. Repetiu-se o diálogo, agora sobre as lontras: “deixa as lontras comerem os peixes, se preciso vamos pôr mais peixe para elas comerem. Elas são mais importantes que os peixes e, estando aqui, estão protegidas”. Vi, na expressão do seu rosto, que considerava minha hierarquia dos bichos totalmente invertida.

A cultura da maioria dos vizinhos da reserva é de descaso e desrespeito. Mesmo o pessoal da RPPN, apesar das preleções, não apreende todo o valor de se preservar um pedacinho de mata. É possível ler a incompreensão e o espanto em seus olhares quase irônicos, quando se fala da necessidade de proteger a ferro e fogo, se preciso, a integridade daquele espaço. Agora, para nos agradar e impressionar, nos chamam para ver novas espécies, ou algo interessante na mata e para contar o que viram e o que fizeram.


Como quando me chamaram para ver esses deslumbrantes mandarovás



Com o fim dos pastos, aumentaram as cobras, cascavéis e jararacas. Começaram a aparecer com frequência muito alta, na área de plantio para recomposição da mata. O risco de incidentes aumentou além do tolerável. Providenciamos para que fossem treinados para capturar as víboras e entregá-las à polícia ambiental, que as leva para Juiz de Fora ou Belo Horizonte para a produção de soros e pesquisas com o veneno.

Cascavel capturada na área de reflorestamento

O fato de ser um pequeno fragmento significa que tem vários flancos vulneráveis, que dão para a estrada vicinal ou para propriedades vizinhas, todas maltratadas e cobertas de braquiária. Só estão mais protegidas as faces que dão para o interior da propriedade da qual é parte.

A caça ainda é uma ameaça. De um dos lados da reserva, atravessando a estrada vicinal, há uma várzea úmida, cortada por pequeno rio, com partes cobertas de bambuzais. Nela vivem algumas famílias de capivaras. Diversas vezes encontramos armadilhas espalhadas pela várzea. É claro que as capivaras da várzea freqüentam a mata e as da mata, usam a várzea. As armadilhas sumiram de lá, na base de muita ameaça e vigilância, mas certamente foram para alguma outra área próxima.




O fogo é outro perigo enorme na época da seca. Esse pessoal tem mentalidade pirômana. Entra ano, sai ano, e se perde biodiversidade e patrimônio por causa das queimadas. E não é de hoje: Brasil errado de séculos, como uma vez disse Mário de Andrade.

É uma região de mentalidade atrasada, que não se dá conta do imenso potencial que tem para o reflorestamento incentivado. Não consegue identificar suas vocações dormentes e inaproveitadas, que lhe permitiriam superar a crise quase permanente em que vive sua economia. Seus óbvios encantos e suas evidentes vantagens são desprezados pela insistência teimosa em um modelo esgotado.

É claro que os incentivos, hoje, são maiores para desmatar. É mais fácil conseguir uma licença para desmatar, do que criar uma RPPN ou obter apoio para recompor a paisagem natural.

Essa região tem uma enorme quantidade de terra sub-utilizada e sub-remunerada, com potencial para a formação de várias RPPN, muitas poderiam se dedicar à educação ambiental, numa região extremamente carente dela, outras ao ecoturismo e algumas à preservação de espécies relevantes. Mas, ter potencial é o mesmo que não o ter, se dele não se tem consciência e não se faz esforço para desenvolvê-lo. Potencial é promessa. Depende de escolhas certas e ação persistente para se realizar.


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