Artigos, COP15
29 dezembro, 2009

Clima cosmopolita

Sérgio Abranches

Houve um breve momento, no Bella Center, onde se desenrolava em tensão crescente a COP15 em busca do Acordo de Copenhague, que o frenesi ficou em suspenso. Não que houvesse calma. Sabia que nas salas reservadas, negociações nervosas, desentendimentos e choques estavam acontecendo naquele mesmo instante.

Do lado de fora, centenas de manifestantes marchavam pelas ruas de Copenhague e em frente ao Bella Center. Um enorme e truculento aparato policial tentava conter os manifestantes.

De repente, circulou pelo Twitter o endereço de um site alemão que mostrava as manifestações ao vivo. Nas telas espalhadas pelo Media Center, a sala de imprensa que abrigava 3500 jornalistas de todo o mundo e todas as mídias possíveis, se podia assistir ao início de mais uma plenária da Convenção do Clima.

Afastei a cadeira e pude ver, ao mesmo tempo, o plenário onde delegados se revezavam no choque diplomático de posições; os manifestantes forçando o cerco policial; a sala de imprensa repleta de jornalistas acompanhando mais ou menos as mesmas coisas que eu.

Esses três conjuntos eram claramente internacionais, estavam reunidos em torno da mesma agenda, embora com papéis inteiramente distintos: governos, movimentos sociais, imprensa. Seus  componentes tinham entre si perspectivas totalmente distintas, pensavam em línguas diferentes, refletiam contextos sociais, econômicos e políticos díspares, com graus dissimilares de inquietação, conhecimento e mobilização em relação à mudança climática.

Para um politólogo, dublê de jornalista, era uma experiência riquíssima, capaz de provocar um turbilhão de idéias em cadeia. Tuitava em tempo real. Escrevia posts para o blog. Fazia comentários para a rádio. Nos poucos intervalos, fazia notas para um texto futuro, de conteúdo mais analítico e propositivo, sobre o significado da reunião de Copenhague e o desafio redefinido por seu desfecho.

Hoje, zapeando as páginas de alguns livros sobre ativismo global e cosmopolitismo, lembrei daquele momento e dos 12 dias intensos da COP15. Minha primeira reação foi abandonar os livros. Fui tomado por uma incômoda sensação de que eles se haviam tornado inúteis. Logo eu, que mantenho uma biblioteca de vários milhares de títulos, compro livros compulsivamente e passo parte significativa do meu tempo a escrever.

Lia sobre o “novo ativismo transnacional”, que se derramava sobre infindáveis páginas discutindo as filigranas que separam distintas definições de globalização, internacionalização, movimento social. Dezenas de páginas perdidas em uma minúcia acadêmica que seguramente não tem a menor importância. Nem o autor encontrará jamais o conceito perfeito, nem sua orgástica busca de um conceito próprio o ajudará a explicar melhor o fenômeno.

Faz alguma diferença real, saber se devemos chamar uma ONG como o Greenpeace de ONG, movimento social ou qualquer outra coisa? Faz diferença para nós e para o movimento ambientalista, saber se é melhor qualificá-lo como global, internacional ou transnacional?

A academia confundiu, irremediavelmente ao que parece, precisão e formalidade. Ser mais formal não significa ser mais preciso. A academia trocou a tarefa de compreender e explicar, ainda que tentativamente, mesmo que provisoriamente, pela esmerilação interminável que, ao fim, deixa mais aparas que resultado final. Afastou-se da clareza, para mergulhar cada vez mais fundo na prosa obscura, no texto inexpugnável que, além de chato, só serve para estéreis rituais tribalistas.

O que vi no último congresso anual da Associação Americana de Ciência Política, em Toronto, no Canadá, em meados do ano, foi o naufrágio de boa parte da profissão em excesso de formalismo e falta de substância. Os ensaios eram feitos na mesma fôrma e, na sua maior parte, descarnados de conteúdo real. Eram peças sofisticadas na forma, porém com poucas idéias – frequentemente uma só – e superficiais no conteúdo.

Os melhores eram aqueles que escapavam da regra e para os quais, em muitos casos, os comentadores torciam o nariz, porque eram… algo desorganizados, ou… não seguiam um padrão lógico predeterminado. Tudo forma, só fôrma. Uma chatice para iniciados nesse jogo infindável de filigranas.

Problemas de governança? Claro, são esmiuçados músculo por músculo, fibra por fibra, osso por osso para, às vezes, sequer se poder deduzir sua anatomia, quanto mais sua dinâmica, menos ainda, soluções com alguma probabilidade de funcionarem.

Bom, deixei de lado o livro sobre ativismo transnacional. Já ia deixando os outros, quando encontrei, zapeando, o seguinte:

“people who complain about the homogeneity produced by globalization often fail to notice that globalization is, equally, a threat to homogeneity. (…) (H)omogeneity, though, is the local kind. (…) In the era of globalization – in Asante as in New Jersey – people make pockets of homogeneity. (…) And whatever loss of difference there has been, they are constantly inventing new forms of difference: new hairstyles, new slang, even, from times to times, new religions. No one could say that the world’s villages are  – or are about to become – anything like the same.”

[As pessoas que reclamam da homogeneidade produzida pela globalização são frequentemente incapazes de notar que a globalização é, igualmente, uma ameaça à homogeneidade. (...) (A) homogeneidade, contudo, é do tipo local. Na era da globalização - em Asante, como em New Jersey - as pessoas formam bolsões de homogeneidade. (...) E qualquer seja a perda de diferença que se obtenha, estão constantemente inventando novas formas de diferenciação: novos estilos de penteado, novas gírias, até mesmo, de tempos em tempos, novas religiões. Ninguém pode dizer que as aldeias do mundo são - ou estão prestes a se tornar - iguais”.]

Está no capítulo 7, “Cosmopolitan Contamination: Global Villages” (Contaminação Cosmopolita – Vilas Globais), do livro Cosmopolitanism: Ethics in a World of Strangers, de Kwame Anthony Appiah, nascido e criado em Gana, educou-se na Inglaterra e vive em New Jersey, é professor de filosofia em Princeton.

Quem esteve internado por doze dias junto com as tribos do Bella Center, sabe que isso que Appiah diz é rigorosamente verdadeiro. Li várias resenhas críticas de seu livro e eu mesmo encontro aqui e ali idéias e passagens das quais discordo. Não obstante, ele consegue descrever e explicar o movimento contraditório de encontro, troca e dessemelhança que a globalização propicia. O Bella Center era uma “tenda global”, reunindo tribos muito diferentes, algumas com interesses antagônicos, discutindo um problema global.

Até no que parece frívolo, o corte de cabelo, há informação relevante sobre as pessoas de nosso mundo contemporâneo. Um dia, entrei no Bella Center ao lado de uma moça, calçando pesadas botas pretas, jeans, jaqueta de couro, com um corte de cabelo moicano, ou punk, uma longa mecha verde, cheia de piercings nas orelhas, no nariz e no lábio inferior. Eu imediatamente a imaginei em uma daquelas ruidosas manifestações-relâmpago que as ONGs realizavam várias vezes ao dia, no átrio principal ou nos corredores que davam nele, demonstrando infinita capacidade de burlar a segurança. Para minha surpresa e educação, a segunda vez que a vi, ela vestia calça e paletó de lã negra, e explicava com acuidade técnica as nuances de uma nova versão de documento sobre a inclusão de florestas no mecanismo de mitigação de emissões. Discorria sobre os riscos de dar às florestas plantadas o mesmo status das florestas nativas.

Imediatamente me lembrei de um jovem, no debate que se seguiu a uma palestra que fiz para o Greenpeace, no Brasil, que me perguntou se a ONG deveria se especializar em pesquisa e negociação com governos e empresas – tipo advocacia de paletó e gravata – e abandonar as manifestações radicais. Respondi que a advocacia perderia força se não tivesse a impulsão dos radicais e os radicais perderiam o rumo da reivindicação, se não tivessem os negociadores para fundamentar e articular as demandas.

Na verdade, é mais que isso, é uma diferenciação de papéis, em movimento. As ONGs como o Greenpeace, Oxfam, WWF, foram crescendo, enriquecendo, diversificando, adquirindo expertise e passaram a executar diversos papéis, igualmente relevantes. Esses novos atores da política global estão constituindo uma sociedade civil global ou globalizada, muito antes que se tenha sequer os sinais de como será o sistema de governança global que eventualmente surgirá mais adiante neste século.

Foi, então, que me vi capaz de visualizar aquela moça numa ruidosa manifestação-relâmpago, do lado de fora, numa imensa marcha da sociedade civil, enfrentando o frio e os policiais, ou numa sala do Bella Center discutindo pontos técnicos de um documento em negociação e capaz de dar à mídia informação obtida no desempenho de todos esses papéis.

Embora a agenda que reuniu aquelas tribos no Bella Center fosse comum a todas elas, nunca as diferenças foram tão fundamentais. Capacitavam atores a exercerem papéis muito diferentes – na militância, na negociação, na inteligência e na informação – produziam conflitos de interesses que se mostraram, ao final, mais fortes que as comunalidades; expressavam distintas formas de perceber a mudança climática.

O caráter iminente da ameaça climática foi uma descoberta, para muitos, trazida pela apresentação a um tempo precisa e emotiva que representantes dos pequenos estados-ilha faziam da mudança climática como uma questão de vida ou morte para a cultura de seus povos. Maior surpresa ainda, nesse mosaico vivo de peças dessemelhantes em tom, tamanho e visão, era ver a pequena Tuvalu se enfrentando com a enorme China.

Não sei se outros encontros globais tiveram a dimensão da COP15. Sei que a reunião de Copenhague foi inédita entre as COPs, seja pelo número de ONGs, seja pela amplitude da cobertura de imprensa, pelo número de delegados, observadores e jornalistas, ou pela quantidade de chefes de estado e governo que compareceram aos dois últimos dos 12 dias de conferência.

Foi, sem dúvida, a maior e mais cosmopolita reunião sobre o clima jamais realizada. Nela, provavelmente, ocorreu a maior demonstração conjunta de força, capacitação técnica e política, do movimento ambientalista global. As grandes e pequenas ONGs especializadas foram atores fundamentais nas negociações, fazendo séria e competente advocacia de políticas públicas; no confronto com os lobbies seja da economia de alto carbono, seja do greenwashing; na transmissão de informações e dados técnicos para os jornalistas que faziam a cobertura do evento, com graus muito diferentes de conhecimento do tema e da dinâmica de uma COP.

Essa sociedade civil presente dentro e fora do Bella Center, conectada com movimentos em todo o mundo e com os atores-chave da política do clima que se fazia naquele espaço era, sem dúvida, um exemplo claro do embrião de uma sociedade política global, de uma “cosmopolis” e de uma “cosmopolítica”.

O cosmopolitismo estava agudamente presente no Bella Center, em sua forma mais genérica, como uma “cultura policromática”, como disse Timothy Brennan, uma “nova singularidade nascida da mistura e fusão de múltiplas cidadanias locais”. Mas era possível intuir a semente do cosmopolitismo como governança global daquela dramática reunião de contrários, da demonstração de força da sociedade civil global, da presença maciça da mídia mundial, do encontro de mais de uma centena de chefes de estado e governo, entre eles os líderes das principais potências maduras e emergentes do planeta. Esse sistema de governança está sendo antecedido pela formação de sua cidadania, antes mesmo que a liderança global consiga sequer esboçar o roteiro da construção de um regime de governança global, porém sem governo mundial.

Para não dizer que adquiri preconceito e intolerância por textos e livros acadêmicos, a referência é ao ensaio de Timothy Brennan, “Cosmopolitanism and Internationalism”, publicado no livro editado por Daniele Archibugi – Debating Cosmopolitics.

Ben Block do World Watch Institute, uma dessas ONGs grandes e especializadas, escreveu, com toda razão, que a conferência pode ter terminado em frustração, mas ela foi o ponto alto histórico do movimento ambientalista, que ganhou força e reconhecimento nos últimos anos.

Confesso que encontro mais relevância no post de Block, do que em muita literatura esparramada em minha mesa, cheia de jargão, mas sem a acuidade trazida pela observação desse fenômeno ao vivo e a cores.

The two-week U.N. conference may have ended in disappointment for most climate activists, who travelled from nearly every continent, but the gathering marked a historic high point for a movement that has swelled in strength and recognition in recent years.

An estimated 45,000 people attended the climate negotiations. This included greater participation from government delegations, business groups, and academics, in addition to larger turnout from campaigners. The “youth” delegation, representatives of the below-30 age group, increased its presence at forums that were once attended only by bureaucrats and scientists. Youth organizers said that their volunteers registered some 1,000 attendants, twice the participation compared to a year ago.

The activist crowds were relentless: they raised their voices during negotiation sessions, press briefings, and lunch breaks; they scattered in the corners of conference rooms and gathered in mobs to block passageways; and they screamed loudly for adaptation aid, among other demands. Activists also made subtle suggestions about the ineffectiveness of carbon offsets, for example by using tricks to show airplanes vanishing magically in the same way that carbon offsets make emissions “disappear,” they said.

Negotiation leaders acknowledged that the demonstrations captured their attention.

[A conferência da ONU de duas semanas pode ter acabado em desapontamento para muitos ativistas do clima, que viajaram de praticamente todos os continentes, mas o encontro marcou um ponto alto histórico para um movimento que se agigantou em força e reconhecimento nos últimos anos.

Estima-se que 45000 pessoas tenham comparecido às negociações do clima. Esse número incluiu maior participação de delegações governamentais, grupos empresariais, acadêmicos, além de maior comparecimento de militantes. A delegação da “juventude”, representantes do grupo etário abaixo de 30 anos, aumentou sua presença em fóruns que eram frequentados apenas por burocratas e cientistas. Organizadores da juventude disseram que seus voluntários registraram em torno de 1000 presenças, o dobro da participação de um ano atrás.

As multidões de ativistas eram implacáveis: eles levantavam sua voz durante as sessões de negociação, coletivas de imprensa, e pausas para almoço; eles se espalhavam pelos cantos das salas de encontro e formavam aglomerações para bloquear os corredores; e gritavam mais alto por adaptação, ajuda financeira e outras demandas. Ativistas também fizeram sutis demonstrações sobre a inefetividade da neutralização de carbono, por exemplo, usando truques que mostravam aviões desaparecendo magicamente, do mesmo modo que as neutralizações fazem as emissões “sumirem”, eles diziam.

Os líderes da negociação reconheceram que as demonstrações haviam ganhado sua atenção”.]

Por isso tudo, é verdadeira essa afirmação do jornalista do The Guardian Jonathan Watts:

Copenhagen will shape our lives for years to come.

[“Copenhague vai influenciar nossas vidas por anos a fio”.]

Aliás, outra curiosidade é que, talvez mais que em qualquer outra situação, jornalistas se tornaram matéria para jornalistas. Jovens repórteres entrevistavam colegas mais experientes sobre o que estava acontecendo e sobre a própria dimensão inédita daquela cobertura global de um evento global. Vi uma repórter identificar um jornalista mais experiente para colegas como “nossa fonte interna”.

Agora, me digam, preciso mesmo, definir “global”?


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