COP15
17 dezembro, 2009

A Cúpula de Copenhague

Está começando hoje, em um jantar com a rainha da Dinamarca, a verdadeira Cúpula do Clima. Seu objetivo é fechar o Acordo de Copenhague.

Sérgio Abranches

Os chefes de governo e estado já presentes em Copenhague, entre eles lideranças globais como Gordon Brown, Nicholas Sarkozy, Angela Merkl, Lula, Durão Barroso, se reunirão após o jantar, para uma reunião sem hora marcada para terminar. Nela, pretendem acertar as diretrizes para redação do Acordo de Copenhague, que deverão assinar no final do dia de amanhã ou em algum momento no sábado.

Ao que tudo indica, o presidente do EUA, Barack Obama, estará desembarcando em Copenhague nas próximas horas para fechar o acordo. É um sinal forte. Desde o princípio, a Casa Branca deixou claro que Obama só viria para fechar um bom acordo.

Obama errou no dimensionamento das implicações domésticas globais da COP15 e errou na escolha da hora em que participaria pessoalmente do encontro.

Vai chegar com preciosas horas de atraso. Permitiu que Gordon Brown liderasse o processo de articulação, com apoio de Sarkozy e Merkl. O processo político atropelou o presidente do EUA. Desde o almoço, hoje, em Copenhague, já estava claro que ele dificilmente poderia não vir. Se faltasse seria culpado pelo fracasso. Mas, como não esteve aqui nas horas críticas que marcaram a transição do cenário mais pessimista, para a possibilidade concreta de um acordo, chegará tarde. Virá para um abraço oportunista. Não articulou, não mobilizou, não liderou. Apenas cumpriu o papel básico de retirar o veto do EUA.

Claro, com o veto de qualquer Parte, o acordo é impossível, o que dizer do veto da principal potência entre os industrializados. Mas remover vetos não é liderar. É pouco para quem tem as ambições de Obama.

Ainda bem que seu erro de cálculo político não pôs a perder o acordo. Por sua importância, foi consultado todo o tempo. Ao enviar a secretária de Estado, Hillary Clinton, elevou o status hierárquico da representação do EUA. Todd Stern é enviado especial, portanto, tecnicamente com status inferior ao de Clinton. Ela, aliás, fez questão de deixar isso claro em sua primeira entrevista coletiva. Disse: “nós nomeamos” Todd Stern como o primeiro enviado especial para a Convenção do Clima. O nós diz tudo.

Lula contou que Obama lhe disse, na conversa que tiveram por telefone, que “falar com Hillary é o mesmo que falar com ele”. A frase esclarece a ampla delegação com que Clinton chegou para negociar. Mas não é verdadeira, nem do ponto de vista diplomático, nem político. Para um chefe de estado, falar com uma ministra, não é o mesmo que falar com o chefe do estado que ela representa. Meio gafe, meio erro político, é um ato de arrogância. Dizer a um colega que pode tratar tudo com sua auxiliar é o mesmo que rebaixá-lo.

Lula agiu corretamente. Mandou o equivalente a Hillary conversar com ela. O encontro EUA-Brasil, até agora se deu entre chanceleres: Hillary Clinton e Celso Amorim.

Erros e gafes a parte, o fato é que a articulação iniciada por Gordon Brown evoluiu e pode terminar em acordo por cima e por fora da COP15.

Dependendo de como se desenrolem as conversas entre os chefes de estado, o acordo pode se dar em torno de um texto apresentado pelo presidente da COP15, Lars Rasmussen, consolidando em uma peça um pouco mais compacta, os pontos centrais dos documentos sobre o Protocolo de Kyoto (AWG-KP) e a Convenção do Clima (AWG-LCA). O documento que interessa mais, porque é o que dirá respeito ao EUA e aos grandes emergentes é o relativo à Convenção do Clima.

Uma alternativa, caso não consigam avançar o suficiente nos detalhes, seria um protocolo de entendimento, com instruções definidas para que os negociadores preparem um texto completo de acordo legal nos próximos seis a doze meses.

No momento, Copenhague está caminhando para um acordo. O Acordo de Copenhague se tornou o cenário mais provável.

Os presidentes Lula e Sarkozy se mostravam bastante confiantes em que a reunião, que começará logo após o jantar com a rainha, chegue a um documento, que possa ser levado a aprovação na plenária de amanhã. Foi o que o presidente Lula disse.

Há riscos? Claro que há. O risco maior é que o acordo não seja tão amplo e efetivo como poderia, dado o número de lideranças envolvidas em sua negociação. O risco de fracasso total ficou pequeno, diante do investimento do prestígio e da reputação dessas lideranças.

O presidente Lula disse que é esse o papel de lideranças desse porte. “Não importa o que tenha acontecido nos dias anteriores”, é a hora de trabalhar pelo acordo. O premier Gordon Brown, que liderou as articulações, disse que o papel da política é remover obstáculos. Ele presidirá a reunião de líderes de hoje, onde o acordo pode ser decidido. É justo.


Tags:,