A COP15 entre um bom acordo e o fracasso
Ao renunciar à presidência da COP15 Connie Hedegaard estava cedendo ao primeiro ministro Lars Lokke Rasmussen, com quem vinha vivendo intensa rivalidade política. Mas sua saída marcou, também, a transição entre um evento diplomático formal e uma reunião de cúpula política.
Sérgio Abranches
A COP15 está em um beco sem saída. Não escapa dele pelas vias diplomáticas formais. O chamado segmento técnico, formado por negociadores diplomáticos e funcionários de alto nível dos países que são Partes da Convenção do Clima, não conseguiu resolver os impasses que paralisam as negociações desde o início da semana. O segmento de alto nível, que começou formalmente ontem, formado pelos ministros chefes das delegações nacionais, já se mostrou impotente também. Não fez mais que reproduzir, e em alguns casos agravar, os mesmos impasses e polarizações.
Agora, só os líderes globais, em intensa negociação desde ontem à noite, podem salvar a COP15 do fracasso.
Os negociadores e vários ministros passaram a madrugada inteira tentando uma solução para que pudessem ter um documento preliminar que servisse de base para uma resolução dos chefes de estado. Não conseguiram.
Na noite de ontem, a delegação do EUA endureceu o jogo e terminou provocando o ressurgimento da polarização com o G77, especialmente a China, paralisando inteiramente as conversas.
Há rumores de que a secretária de Estado do EUA, Hillary Clinton, estaria vindo para Copenhague, para tentar destravar as negociações no plano político. Ela também informará ao presidente Obama sobre a chance de um acordo de cúpula. Se for possível desfazer o impasse, Obama virá a Copenhague para cinco horas de conversas. Se não houver saída, ele não estará no anúncio do fracasso.
Enquanto no plenário Tycho Brahe a convenção segue ouvindo discursos de chefes de estado, por mera formalidade, nos hotéis e salas reservadas intensas negociações de cúpula dão outro rumo à reunião. Do lado de fora, sob a neve, milhares de manifestantes protestam por terem sido proibidos de entrar no Bella Center por razões de segurança e pedem um acordo real e ambicioso.
Uma coisa é certa. Ficou praticamente impossível montar uma declaração apenas para salvar a face. A opinião púbica global e a mídia não permitiriam uma farsa. Ela seria imediatamente anunciada como fracasso. Ou bem os líderes anunciam um acordo real, ou bem reconhecem o fracasso.
Obama já disse que virá para fechar um acordo, mas faltará ao anúncio do fracasso. Se tiverem que anunciar o fracasso, estarão tornando realidade o anúncio com que o Greenpeace recebeu os participantes da COP15: os lideres em 2020 pedindo desculpas por terem fracassado em Copenhague e assumindo a responsabilidade pela tragédia climática decorrente da falta de ação.
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Nossa! Isso é muito, muito triste! Ficamos aqui sentindo pena do “nosso” fracasso (*) como se assistíssemos uma ficção e nos “identificássemos” com o mocinho que VAI morrer… sensação de pesar mesmo! Acontece que não é ficção e devíamos nos identificar com o papel do vilão! Tudo bem: Dá na mesma! Nesta história, morre mocinho, morre vilão, morre coadjuvante, figurante, contra-regra, diretor, produtor… e seus filhos e netos…
…uma tragédia clássica!
(*) “nosso”, pois falo em nome da espécie que se diz “racional”! Se agíssemos por instinto, talvez o lucro e a produtividade não atravancassem tanto uma decisão sobre a continuidade da vida HUMANA neste planeta! (Não continuemos com a pretensão de salvar o mundo… )