COP15
07 dezembro, 2009

Das curvas da diplomacia à linha direta da política: uma rota possível para a COP15

Faz muito frio em Copenhague, mas o clima já está esquentando no Bella Center. O centro onde ocorrem todas as reuniões oficiais e a maioria das não oficiais, de bastidores, da diplomacia do clima vive situações de stress desde a véspera do primeiro dia.

Sérgio Abranches, de Copenhague

Uma situação decorre do despreparo para lidar com uma reunião cuja audiência mais que dobrou. O Bella Center comporta 15 mil pessoas simultaneamente, com segurança, mas há 35 mil querendo participar, das quais 5 mil jornalistas. O Media Center, muito bem montado, tem capacidade para 1500. Filas imensas, do lado de fora, a 5oC e onde só há sombra, sem chance de sol; falta de informação; cortes no credenciamento de ONGs e de jornalistas, estes limitados a 3500, têm causado desconforto e irritação. Há muito nervosismo por causa dessa situação.

A segunda fonte de stress é mais profunda: a queda de braços, as manobras diplomáticas, as conversas ao pé do ouvido, as alianças entre grupos de países contra outros, as pressões de empresas e ONGs, tudo eleva a temperatura e gera fricções. E já começou para valer.

O primeiro ministro da Dinamarca, Lars Rasmussen, por exemplo, deve estar com as orelhas quentes de tanto que se fala mal, pelos corredores do Bella Center, de seu discurso de abertura. A maioria dos observadores acha que ele voltou a defender, ainda que numa retórica de aparente defesa de um acordo ousado, uma saída superficial e rápida para salvar a face dos mais de 100 chefes de governo e estado que estarão aqui no último dia.

Vi uma jornalista de TV falando entusiasticamente do discurso do primeiro ministro, como se ele apontasse no rumo de um acordo robusto e ousado. Não entendeu as entrelinhas. A linguagem da diplomacia e da política internacional é mesmo enganosa. Mas os ouvidos experimentados ouvem o discurso real, não o seu disfarce.

O que está acontecendo de política séria, entretanto, ainda não chegou aos plenários, nem às coletivas de imprensa. Está confinado aos corredores, às sala fechadas, às mesas de canto dos cafés. Um diplomata reclamou, hoje, comigo, de como o Bella Center é pouco apropriado: “as salas são uns galpões enormes, não dá para conversar em pequenos grupos”. De fato, os grandes hotéis clássicos são muito melhores para o tipo de conversa que eles terão ao longo dos próximos 12 dias.

Nessas conversas, duas questões são centrais: a qualidade dos números dos países e o financiamento das ações de mitigação e adaptação do mundo em desenvolvimento. Cada país acha que seu número é forte e os dos outros insuficientes. Um dos membros da delegação brasileira, por exemplo, diz que se o Brasil está assumindo um compromisso tão forte, todos os outros têm que fazer o mesmo. Já um outro negociador me disse que “os números sempre se pode ajustar depois, para mim o nó górdio está no financiamento.

Há muitos rumores sobre financiamento circulando pelos corredores do Bella Center. E são contraditórios entre si. Um diz que o EUA vai apresentar uma agressiva proposta para o financiamento, para compensar as limitações políticas que o presidente Obama enfrenta com relação aos números de redução de emissões de gases estufa. Outro, dá conta de que EUA e Europa estão se preparando para oferecer um pequeno financiamento de curto prazo, para que se esqueça do tema nessa reunião. Depois o assunto seria adiado pelo menos até a plena recuperação econômica das economias desenvolvidas. Outro ainda diz que o primeiro ministro do Japão, Yukio Hatoyama, trará uma “terceira via” para a equação do financiamento.

Há correntes novas e velhas cruzando as águas profundas da negociação climática. Os países-ilhas, extremamente vulneráveis à elevação do nível do mar, têm negociadores e técnicos altamente qualificados e estão tentando encontrar uma forma de montar uma aliança que possa ter grande influência. Os dois cabeças do G77 mais China, um conglomerado ultra heterogêneo de mais de 130 países, China e Brasil, têm conversado lateralmente, tentando assumir a liderança do encontro. A Europa, segundo alguns observadores anda irritada com a modéstia das propostas do EUA. Todos com quem conversei dizem que a Dinamarca, país que hospeda a cúpula, não está ajudando muito.

Outra forma de criticar o primeiro ministro Rasmussen. A versão preliminar (draft) do documento que seria aprovado pelos chefes de governo e estado apresentada pela Dinamarca foi considerada pífia, “não dá nem para o começo”, dizem. Já estão circulando versões alternativas, todas em off e logo serão vazadas.

O início formal, foi previsível. Nenhum discurso impressionou pela novidade. Nem mesmo o do presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, que fez questão de se referir ao roubo dos emails da Unidade de Pesquisa Climática da universidade de East Anglia. Repetiu o que Ivo de Boer já dissera anteriormente. Como disse o jornal Libération de hoje, de forma muito mais sintética e contundente que a usada por Pachauri e de Boer: “a ciência é complexa, mas os fatos são claros”.

A COP15 está começando em um ambiente esquentado pelas discussões, pela enchente de rumores que inunda os corredores do Bella Center de falação, e pela interminável queda de braço entre negociadores, grupos de pressão e ambientalistas. Todos ingredientes de um grande evento político.

É assim que se progride em política. Passo a passo, com muita luta, muito balão de ensaio, muita provocação e muito rumor com fortes intenções políticas. Ao fim e ao cabo, só os chefes de governo e estado poderão, na cúpula do último dia, transmutar as sinuosas operações diplomáticas em um acordo político claro e efetivo. É possível que dessa política do real, saia uma boa notícia. Mas nada está garantido.


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