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05 dezembro, 2009

IPPC nega dúvidas sobre ciência do clima levantada pelo roubo de emails

Quem imaginava que o IPCC estivesse repensando suas conclusões, após as declarações de seu presidente, Rajendra Pachauri à imprensa, de que iria examinar a fundo a questão, errou. O IPCC não só condenou o roubo de e-mails, como reafirmou que a ciência do clima é sólida.

Sérgio Abranches

O Grupo de Trabalho I do IPCC (WGI), que é responsável pela parte de ciência do clima do relatório desse corpo científico reunido pela ONU para assessorar a Convenção do Clima, acaba de soltar uma nota condenando o furto dos emails e reafirmando as evidências de que o crescimento no uso de gases estufa é um fator no aquecimento global.

A nota assinada pelos professores Thomas Stocker e Qin Dahe, co-presidentes do WGI diz:

Comentários em blogs e na mídia sobre o conteúdo de um grande número de emails privados furtados da Unidade de Pesquisa Climática (CRU) da Universidade de East Anglia, Reino Unido, questionaram a validade das principais evidências apresentadas no “Fourth Assessment Report” (AR4) do IPCC e também a integridade de seus autores. O WGI do IPCC condena o ato ilegal que levou emails privados a serem divulgados pela Internet e apóia com firmeza as evidências contidas no AR4 e a comunidade de pesquisadores em todo o mundo cujos padrões profissionais e cuidadoso trabalho científico ao longo de vários anos tem provido a base para suas conclusões.

A nota também corrige a visão equivocada de que uma única unidade de pesquisa estivesse provendo ao IPCC todos os dados relevantes sobre o aquecimento global.

A principal afirmação do AR4 do IPCC, “o aquecimento no sistema climático é inequívoco [...]”, se baseia em medições feitas por muitas instituições independentes em todo o mundo que demonstram mudanças significativas [de temperatura] no solo, na atmosfera, no oceano e nas áreas geladas da Terra. Por meio de trabalho científico adicional envolvendo métodos estatísticos e uma gama de diferentes modelos climáticos, essas mudanças foram detectadas como desvios significativos da variabilidade natural do clima e atribuídas ao aumento dos gases estufa.

Os dois porta-vozes do IPCC apoiaram não apenas a evidência científica da qual o WGI se valeu para a “quarta revisão”, mas também os numerosos cientistas que produziram o enorme conjunto de trabalhos analisados para a realização do relatório.

O corpo de evidência é o resultado de trabalho cuidadoso e incansável de centenas de cientistas em todo o mundo. A consistência interna de múltiplas linhas de evidência confirma fortemente o trabalho da comunidade científica, incluindo aqueles cientistas em particular focalizados pela troca de emails, muitos dos quais dedicaram seu tempo e esforço para desenvolver análises em grupos de “autores-principais” na produção da série de relatórios do IPCC ao longo dos últimos 20 anos.

A nota conclui explicando o processo adotado pelo IPCC para cobertura da pesquisa científica e das resenhas para garantia tanto da máxima abrangência dos dados disponíveis e suas análises no período que o IPCC considera, como da integridade do trabalho de revisão em si.

O processo de revisão do IPCC é concebido para assegurar a consideração de toda a informação científica relevante em publicações institucionalizadas e que adotam robusta apreciação pelos pares (robust peer-review) ou de outras fontes que também passaram por robusta apreciação independente pelos pares. Todo o processo de redação do IPCC é submetido a extensa e repetida apreciação por especialistas e governos. Consequentemente, há plena oportunidade para especialistas em cada campo do conhecimento chamarem atenção para qualquer peça da literatura científica publicada e suas conclusões fundamentais, de modo a assegurar a inclusão da mais ampla gama de visões.

Como resultado, “nenhum cientista em particular no processo de revisão do IPCC está em posição de mudar conclusões ou excluir artigos relevantes ou qualquer trabalho científico avaliados por pares (peer-reviewed) de um relatório do IPCC”.

Em conclusão, o WGI do IPCC apóia firmemente os procedimentos únicos por ele adotados e a comunidade científica e seu trabalho coletivo que têm sido, e continuam a ser, a base de avaliações transparentes, abertas e sem viés do conhecimento atual do sistema climático e suas mudanças.

A nota parece eliminar qualquer especulação ou dúvida sobre qualidade da ciência por trás do trabalho do IPCC. Também responde, em alguma medida às declarações intempestivas de Rajendra Pachauri, usadas para realçar dúvidas sobre o trabalho dos cientistas.

O que continua sem esclarecimento e chamando atenção de toda a sociedade global informada é quem apoiou e concebeu o furto e quem o executou.