Fato relevante: Rompendo o impasse na política global do clima
A cúpula do clima em Copenhague tem a chance de superar uma década de impasse político que impede qualquer avanço real na política global da mudança climática. Se isto acontecer será um importante resultado, que não deve ser subestimado.
Sérgio Abranches
A questão central de toda análise de riscos de larga escala é a incerteza sobre a probabilidade de ocorrência da cadeia de eventos que marca a transição do status quo para outro estado muito diferente e mais adverso. O ponto nevrálgico do risco de mudança climática é essa combinação da observação da possibilidade de um risco catastrófico com a incerteza sobre a probabilidade de sua manifestação real em um dado espaço de tempo.
Eventos de alta probabilidade não constituem riscos do ponto de vista estritamente técnico. São eventos perigosos ou danosos com alta probabilidade de ocorrência, portanto de baixa incerteza. O risco nasce da incerteza. Surpresas inesperadas de alto potencial de dano correspondem a um risco muito maior do que perigos muito conhecidos e muito prováveis, ainda que também muito destrutivos. Uma das razões é que a incerteza pode levar à complacência e à inércia, enquanto os perigos presentes e visíveis provocam uma atitude de alerta e preparação.
Mas como as consequências negativas são cataclísmicas, só o fato de a ciência dizer que há uma pequena chance de de que a mudança climática pode atingir níveis extremos já deveria ser razão suficiente para tentar evitá-la ou reduzir sua intensidade.
Toda a controvérsia sobre probabilidades, precisão de modelos, qualidade dos dados, é acadêmica e científica e não deve ser interrompida. Ela é um requisito indispensável ao progresso do conhecimento. A ciência progride pela dúvida e pela contestação. A certeza estiola o espírito científico de investigação.
No plano prático, contudo, uma vez estabelecida a existência do risco catastrófica, além de uma dúvida razoável – que separa a especulação da hipótese científica – há razão suficiente para a ação. As sociedades simplesmente não podem se dar ao luxo de esperar até que a incerteza científica se dissipe para adotar medidas de prevenção em relação a riscos catastróficos. Elas devem agir sob incerteza para evitar os piores cenários.
Uma década de impasse político impediu que o mundo adotasse ação global efetiva para enfrentar o risco de mudança climática. O nó é político, não científico. Se o impasse político não é resolvido, não haverá condições para o desenvolvimento de políticas públicas inovadoras, que atendam aos requisitos científicos para gestão do risco climático. Sem acordos políticos globais e locais, não se definirão quadros regulatórios nacionais e globais que gerem os incentivos e desincentivos aos mercados, para buscar novas tecnologias e novos padrões de produção de baixo carbono.
Considerem a seguinte citação, retirada do artigo de Mark New, Diana Liverman and Kevin Anderson, “Mind the Gap”, que acaba de ser publicado pela Nature:
Enquanto a adaptação a uma elevação da temperatura de 2°C envolveria ajustamentos em práticas existentes, um mundo 4°C em média mais quente imporia desafios muito maiores e mais complexos que provavelmente demandariam transformações tecnológicas e socioeconômicas profundas e não apenas ajustamentos, e isso admitindo que mudanças dessa natureza possam ser obtidas por meio de planejamento, o que não está garantido. Passar de 2°C para 4°C também traria, para qualquer ponto em particular no planeta, uma carga cumulativa de impactos crescentemente severos. Mesmo que se possa lidar com um ou mesmo uma pequena quantidade de impactos considerados isoladamente, uma “tempestade perfeita” de múltiplos impactos severos seria catastrófica.
É uma síntese da evidência científica que aponta para um cenário catastrófico além de uma dúvida razoável, embora com importante incerteza nas especificações e apesar do episódio do roubo dos e-mails do CRU.
A conclusão é clara e direta:
Os desafios envolvidos na redução das emissões no tempo necessário para garantir uma pequena chance de manter as temperaturas abaixo de 2°C são muito maiores do que a maioria das pessoas se dá conta, demandando uma deliberação sem precedentes dos governos tanto de países desenvolvidos, quanto em desenvolvimento. As negociações sobre mudança climática em curso oferecem pouca esperança de que exista suficiente consenso coletivo para enfrentar o desafio da mitigação. Entretanto, o objetivo de manter a temperatura média abaixo de 2°C continua sendo um objetivo político crucial. Tentar e possivelmente não ter sucesso é melhor do que renunciar ao esforço. Quanto maior for a distância entre a meta de 2°C e a mudança real final de temperatura, mais catastróficas serão as consequências. O risco de permitir que o mundo passe por um aquecimento de 4°C nesse século requer esforços acelerados tanto de mitigação efetiva, quanto de planejamento sério para a adaptação a mudanças que podem ser maiores do que se admite usualmente.
A COP15 está a um passo de superar o impasse político que impede uma discussão política global mais consequente sobre as ações necessárias de mitigação e adaptação.
Há um claro descompasso entre a política e a ciência da mudança climática. Enquanto a ciência se tornou mais clara e evidente ao longo da última década, a política esteve bloqueada por uma década de negação e veto. O primeiro passo político para que a política do clima convirja para os requisitos científicos de mitigação e adaptação é superar esse impasse. A cúpula de Copenhague deveria focalizar precisamente esse objetivo binário, que envolve uma operação política extremamente difícil: trocar o sinal de “Não”, para “Sim”, da negação para o engajamento político.
Essa mudança, que parece simples, requer dura negociação política, o enfrentamento de lobbies poderosos tanto internamente, quanto no plano internacional, por todas as “potências climáticas” desenvolvidas e em desenvolvimento.
Ela trará uma reviravolta na correlação de poder transferindo força da velha coalizão do alto carbono para a nova coalizão do baixo carbono. Isso requer um ato fenomenal de engenharia política global. Não acho que devêssemos subestimar a possibilidade de que isso ocorra em Copenhague. E se acontecer, será o primeiro e indispensável fundamento de uma nova arquitetura para a política global do clima.
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