Artigos
21 novembro, 2009

Cartas roubadas agitam a comunidade de cientistas do clima

Os céticos estão acusando alguns dos maiores climatologistas do mundo de conspirarem para divulgar dados incorretos sobre o aquecimento global e sua origem antropogênica (resultante da ação humana) com base em milhares de e-mails trocados entre os mais importantes cientistas da Grã-Bretanha e do EUA, roubados de um arquivo dos computadores da Universidade de East-Anglia.

Sérgio Abranches

Os e-mails cobrem um longo período, de mais de 13 anos, e foram divulgados na Internet. Eles revelam conversas informais, que vão desde discussões sobre como usar dados em relatórios, até críticas duras a cientistas conhecidos por sua postura de negação do aquecimento global determinado pela ação humana.

Há, também, trocas de opiniões sobre a ameaça desses críticos, conhecidos como céticos, na época que eles eram mais influentes, e como combatê-la. Hoje, os céticos são uma espécie científica quase em extinção e estão se agarrando a trechos dessas mensagens como verdadeiras pílulas de ressurreição.

Neles se pode encontrar versões preliminares de artigos que seriam futuramente publicados, comentários pessoais, anedotas, fotos, dados, gráficos, montagens, desenhos. Tudo que se encontra em um arquivo de mensagens trocadas entre colegas que se conhecem há muito tempo, trabalham na mesma área, não raro em colaboração uns com os outros, frequentam os mesmos congressos. Coisa de clube. Conhecida. Impossível não haver material que gere controvérsia, dúvida, fofoca, ressentimentos.

Nomes famosos como os de Michael Mann, da Pennsylvania State University, um pioneiro no estudo dos dados de aquecimento; Kevin Trenberth, do National Center for Atmospheric Research, um importante centro da National Science Foundation; e Phil Jones do East Anglia Climate Research Unit – CRU (de onde foram roubados os e-mails); estão envolvidos na polêmica.

Todos confirmaram a autenticidade das mensagens mais utilizadas na acusação de conspiração para criar uma falsa impressão de que o consenso científico sobre o aquecimento global se baseia em dados sólidos.

Os cientistas envolvidos estão dando explicações detalhadas do contexto dessas frases e mostrando o registro científico publicado de todas as evidências a que se referem, inclusive das críticas a alguns conjuntos de dados muito utilizados.

O caso mais importante, considerado prova fundamental da má fé dos climatologistas, é do e-mail de Phil Jones discutindo uma apresentação com a reconstrução de séries de temperaturas. Nele, Jones diz: “I’ve just completed Mike’s Nature trick of adding in the real temps to each series for the last 20 years (ie from 1981 onwards) and from 1961 for Keith’s to hide the decline.”  (“Acabo de completar o truque do Mike na Nature de adicionar as temperaturas reais a cada série para os últimos 20 anos (i.e. de 1981 em diante) e de 1961 para os de Keith para esconder o declínio”.

A explicação dos cientistas é que o termo truque – usado informalmente – significa uma saída para um determinado problema.

No caso, Jones se referia a um importante artigo de Michael Mann, Raymond S. Bradley e Malcolm K. Hughes, publicado na revista Nature, em 1998, que gerou a controvérsia do gráfico do “taco de hóquei” (the hockey stick graph), com reconstruções de temperatura, hoje figurinha fácil em qualquer apresentação, até de leigos, sobre aquecimento global. A controvérsia acabou na Academia Nacional de Ciências do EUA, que criou uma comissão científica para examinar o gráfico. A comissão concluiu que seus dados eram válidos e consistentes.

A referência a Keith diz respeito a temperaturas reconstruídas a partir de anéis de uma espécie de árvore por Keith Briffa, cujos dados divergem dos registros de temperatura a partir de 1960.  O fenômeno, conhecido como o “problema da divergência”, está segundo eles amplamente discutido na literatura desde a publicação do artigo de Keith Briffa, também na Nature, em 1998. O artigo recomendava não usar a reconstrução posterior a 1960, e a isso se referiria a menção de Jones a “esconder o declínio”, que divergiria dos dados reais.

Uma boa síntese do caso está no New York Times, escrita por  Andrew C. Revkin, um veterano jornalista da área científica e do clima, tem sobre o qual tem livro publicado e cujo nome é também citado nos e-mails. A Wired fez boa matéria sobre o assunto. A Nature também postou matéria de Quirin Schiermeier, que escreve frequentemente na revista sobre ciência. Bob Ward, do The Guardian, escreveu também, dizendo que o episódio está gerando “mais calor do que luz”.

O blog científico Real Climate, no qual escrevem vários dos cientistas envolvidos na polêmica, fez uma explicação detalhada dos principais pontos, “The CRU hack” que já recebeu, até agora, 501 comentários.

A polêmica vai se prolongar e, certamente, esquentar o inverno de Copenhague, quando a cúpula do clima se reunir por lá daqui a 15 dias, carregando de emoções os encontros científicos oficiais e paralelos.

Após a postagem original deste post, apareceram novos comentários que merecem menção no site Climate Progress, e também nesse outro post. Os comentários no blog Real Climate saltaram de 511, quando escrevi o post ontem, para 790 até o final da manhã de hoje.


Tags:, ,