Um diálogo tuitado sobre as metas brasileiras de redução de emissões
O presidente do INPE, Gilberto Câmara, que participou do esforço de quantificação das metas brasileiras de redução de emissões é usuário ativo do Twitter (@gcamara). Ele tuitou várias respostas a tuítes e a posts meus aqui, de artigo que publiquei em O Globo, e no Ecopolity sobre o anúncio das metas. Foram esclarecimentos importantes.
Sérgio Abranches
Disse coisas que merecem ficar registradas para além do tempo real nervoso e relativamente efêmero do Twitter.
Argumentando sobre as dúvidas que levantei sobre a qualidade e transparência dos números, Gilberto Câmara tuitou o seguinte:
“Vamos divulgar todas as contas, até porque o que saiu hoje na imprensa (Estado e Folha) está errado.” E, em seguida: “A equipe que calculou as emissões é séria: Rede Clima, INPE, MMA e EPE. Grosso modo, os números brasileiros são confiáveis.”
Sobre minha crítica recorrente, nos blogs e na CBN, ao atraso do inventário nacional de emissões brasileiras e criação de um sistema para atualização anual das emissões, Câmara tuitou:
“Num aspecto, você tem 100% de razão: o atraso do inventário nacional dificultou muito os cálculos das metas brasileiras.”
Gilberto Câmara está participando do esforço de montagem da “Rede Clima”, cujo objetivo será exatamente medir anualmente as emissões de carbono, como ele me explicou em entrevista recente.
Cobrei, em meus artigos, explicações do governo sobre alguns pontos fundamentais: qual a linha de base para calcular a trajetória das emissões futuras e, consequentemente, o desvio entre 36% e 39% dessa tendência? Gilberto Câmara deu indicações importantes:
“Não há uma regra estabelecida para fixar a linha de base a partir da qual se calcula a queda de emissões. Cada setor é diferente.”
“A linha de base de energia e indústria tem de ser a continuação da tendência dos cinco últimos anos.”
“Já no caso do desmatamento, não há tendência histórica clara. Fixar uma linha de base é uma decisão ad-hoc.”
Fiz um tuíte para ele (@), no qual eu perguntava: a meta de redução [do desmatamento na Amazônia] pela média dos últimos cinco anos? Como se relaciona com isso? Ele respondeu:
“Para a Amazônia, o Brasil já havia estabelecido uma linha de base quando apresentou em Bali o Fundo Amazônia (média 1996-2005).”
E agregou “A linha de base 1996-2005 já foi usada no acordo com a Noruega para aporte de recursos do Fundo Amazônia.”
Sobre o Cerrado, esclareceu:
“No caso do Cerrado, faltam dados consistentes, pois não há monitoramento anual. Tivemos de fazer algumas hipóteses.”
Espero que o governo publique realmente todos os detalhes, para que possam ser verificados por especialistas independentes. A atitude de Gilberto Câmara contribui para a transparência indispensável à credibilidade da proposta do governo.
No meu caso, estou convencido de que a opção por um desvio de trajetória, em lugar de uma redução de emissões a partir de um ano base definido, define uma meta muito mais conservadora. Esse conservadorismo não tem fundamento técnico, mas político. Foi a forma encontrada para contornar os obstáculos impostos pela Casa Civil, pelo Itamaraty e fontes de resistência no próprio ministério da Ciência e Tecnologia.
Mas voltarei ao tema de forma mais consistente em outra ocasião. Aqui queria apenas registrar os esclarecimentos relevantes oferecidos pelo presidente do INPE.
Tags:Brasil, COP15, Copenhague, desmatamento, gases estufa, meio ambiente, metas de emissões CO2, mudança climática, política climática global


