Análise
11 novembro, 2009

O apagão de Lula

Apagões têm causas físicas e determinantes políticos. Os fatores políticos que geram apagões são mau planejamento energético, clientelismo, falta de visão estratégica, atraso. Hoje, energia é sinônimo de aquecimento global e a resposta é segurança energética: sistema de interligação inteligente, com descentralização da geração, diversificação com utilização de fontes renováveis e alternativas, abandono de combustíveis fósseis na matriz elétrica.

Sérgio Abranches

Um incidente ainda não identificado cortou a energia em uma parte do sistema. Imediatamente, o sistema isolou aquele setor, para que o evento não se transformasse em um apagão ao afetar todo os seus outros setores. Nas principais localidades que fazem parte do setor isolado, não faltou eletricidade. Elas têm sistemas autônomos, descentralizados, de geração de energia, que usam fontes alternativas, como biogás, solar-fotovoltaica e eólica, com ramal de distribuição próprio, que o sistema reconhece como alternativo ao setor-problema e não desliga.

Isso ocorreria em um país que investe em segurança-energética, que tem um sistema inteligente de interligação elétrica (intelligent grid) e uma matriz energética descentralizada, interligada e diversificada, com fontes renováveis.

No Brasil, um incidente ainda não identificado cortou a energia em uma parte não identificada ainda do sistema e provocou um apagão em 10 estados e no Paraguai. O incidente pode ter sido climático, operacional, falha do sistema, inépcia e incompetência – geralmente relatados como “falha humana” – e pode ser tudo isso somado. O mais provável. Nenhuma localidade importante tem um sistema alternativo, com fonte renovável, porque a política energética no Brasil é centralizada e entregue, desde o governo FHC, à partilha política clientelista. Quando houve o apagão do FHC, por falta de água nos reservatórios e planejamento de segurança energética no ministério, ele colocou pessoa de sua confiança, com competência técnica e gerencial, conhecedora do setor público. Pedro Parente virou o interventor no setor elétrico. Mas a lição de que não se entrega ao clientelismo um ministério técnico, complexo e crítico para a segurança do país não foi aprendida.

O apagão de Lula tem origens físicas distintas e as mesmas causas políticas. O ministério foi entregue à partilha clientelista depois do episódio do mensalão. O PMDB conseguiu montar seu feudo no setor. O ministro é um sub-sistema do sistema Sarney de controle clientelístico do aparelho de estado. Foi nomeado sem qualquer consideração técnica ou estratégica. Lula seguiu o figurino mais tradicional possível da política brasileira.

Obviamente, no que diz respeito às decisões técnicas, um ministro desses aparece só para a foto. Mas tem poder de decisão sobre gastos, que deixam o cobertor curto em áreas fundamentais. Ao contrário do que disse em sua entrevista totalmente mal informada, ou politicamente intencionada, o sistema não foi interligado no governo Lula. Ele é assim desde a ditadura militar por razões de segurança nacional. Passou por aperfeiçoamentos subsequentes. Após o apagão de FHC, foi reforçado. No governo Lula só se investiu em geração, e da pior espécie, a térmica a combustível fóssil, e hidrelétricas de grande porte. Localizadas em partes remotas do país, exigirão bilhões de reais para serem interligadas ao sistema e aumentarão o risco sistêmico, porque exigem redes de transmissão de muito grande extensão, em áreas permanentemente sob stress climático (enchentes e chuvas, ventanias fortes, raios). A manutenção física da rede é difícil, penosa e cara.

Más decisões tendem a ser contagiosas. Um mau ministro, cuja inspiração é puramente clientelista, produz más políticas no seu ministério. É inexorável. O modelo energético montado por Dilma Roussef, quando era ministra do setor, teve o foco no retrovisor. Ampliou os problemas que o sistema já trazia com as mudanças que fez, fortalecendo a centralização, aumentando a participação de termelétricas, privilegiando geração sobre transmissão, ganhos de eficiência e segurança. Enfraqueceu e subordinou o sistema regulatório da área. Politizou as decisões.

Quando Lula decidiu entregar o ministério ao PMDB, no vórtice do mensalão que defenestrou José Dirceu do Gabinete Civil, e colocar Dilma no lugar dele, piorou de vez o quadro. Contratou probabilidade ainda mais alta de apagões. Um apagão não diminui a probabilidade de próximos apagões, a não ser que se promova uma intervenção forte no sistema. Faça investimento pesado na sua mudança, reveja toda a política, para orientá-la no sentido de garantia da segurança energética. Invista em modernização, manutenção e produtividade no parque de geração. Implante um sistema inteligente, eficiente, com uma rede de geração de baixo carbono interligada e descentralizada. Não vai acontecer. Portanto, compre seu lampião, porque outros apagões podem ocorrer. Este último, foi apenas o maior de uma série que já vinha acontecendo em várias partes do país, principalmente em Brasília.


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