Análise
06 novembro, 2009

Deu na primeira página

Surpresa. Furo. Mudança. Pensei que levaria ainda muito tempo para ver na primeira página de um jornal brasileiro, em manchete, uma notícia sobre aumento de emissões de carbono, em lugar da celebração de mais uma fábrica.

Sérgio Abranches

A manchete da primeira página do Globo, hoje é a seguinte:

Siderúrgica aumentará em 76% emissão de CO2 no Rio.

Globo b

Melhor ainda, um tema da pauta local e econômica chamado por seu ângulo climático-ambiental e não por seu conteúdo econômico ou local. A matéria está na página 10, da editoria Rio, e não abrigada na sessão de meio ambiente.

Na página de “Ciência” está a notícia sobre o custo estimado para as ações de redução de emissões de carbono do Brasil a serem apresentadas em Copenhague.

A matéria revela como a legislação brasileira é atrasada. Permite que a empresa diga que está cumprindo a lei. Não basta. Empresa responsável tem que ir além da lei no Brasil, porque ela é sabidamente insuficiente. Basta comparar com os países que têm uma legislação para mudança climática. Duvido que ela pudesse emitir, sem custo, na Alemanha, o que vai emitir aqui.

Da apuração surge também, com clareza, outro desvio brasileiro: de que basta plantar umas mudas de árvore para neutralizar as emissões. Parece com a medieval venda de indulgências: comprar passe para pecar. Plantar árvore não é passe livre para emitir. A regra elementar da sustentabilidade tem uma hierarquia clara: evitar, reduzir, substituir e, somente no final, compensar.

A compensação, (offset) só vale para emissões residuais. Aqui se compensa qualquer coisa, plantando mudas de árvore, em um contexto de certificação ainda precária, cálculos discutíveis e rastreabilidade duvidosa. E não basta plantar, é preciso acompanhar, repor as mudas perdidas, depois as árvores, por décadas.

Quando Marcos Sá Corrêa, Manoel Francisco Britto e eu nos juntamos para fazer O Eco tínhamos uma visão. Queríamos ensinar jovens jornalistas, mobilizados pela questão ambiental, a cobrir qualquer pauta verificando se ela teria ou não um ângulo ambiental. Repetíamos sempre que não queríamos promover o “jornalismo ambiental”, um jornalismo de nicho. Queríamos fazer jornalismo, assim, puramente, com um ângulo ambiental permanentemente presente nas pautas. Tipo: quem, quando, onde, como, porque, e quanto (emite, polui, desmata).

A matéria de Túlio Brandão para O Globo faz isso. Trata da inauguração de mais uma grande siderúrgica no estado – um evento relevante, mas não uma novidade -  por seu ângulo climático: as emissões de carbono vão aumentar. Está aí o ineditismo, o furo, a sacada.

Essa era nossa visão. Ver nos jornais esse tipo de notícia. Ou ver, por exemplo a cobertura sobre o resultado de mais um leilão de energia, dizendo não apenas que produziremos mais tantos milhares de MW de eletricidade nos próximos anos. Ler nela, também, que o governo só aprovou termelétricas a combustível fóssil, na contramão do mundo, e que cada milhar de MW aumentará nossas emissões em tantas toneladas de carbono. Que as novas usinas sujarão nossa matriz energética, reduzirão nossa competitividade internacional, nos colocarão em oposição à tendência global de redução de emissões.

Basta comparar com a China: enquanto o Brasil só aprovou térmicas a carvão nos últimos anos – e algumas hidrelétricas controvertidas – a China se tornou líder mundial em energias eólica e solar fotovoltaica.

Qual é a emissão associada a um grande engarrafamento em São Paulo? Quanto emite a desordem do trânsito nas grandes metrópoles. Quanto custa ao planeta o desregramento que permite ônibus e caminhões trafegando pelas ruas e estradas do país, soltando baforadas de CO2 totalmente fora dos padrões?

É também muito gratificante ver nessa evolução da pauta – que espero seja permanente – que se abandona uma visão velhíssima, que vem do primeiro plano de desenvolvimento do governo Vargas no Estado Novo, início do século XX, de que progresso é chaminé, aço, rodovia. Essa visão evoluiu pouco, apenas para incluir cimento e concreto armado em grandes quantidades. Uma concepção que gera mais bem estar para as empreiteiras do que para o país e, sobretudo, do que para os mais pobres.

Desde quando ainda era colunista de O Eco, insisto que nosso modelo de progresso não cabe no Século XXI. Nossas escolhas energéticas constroem uma matriz de atraso, não uma infra-estrutura para o desenvolvimento.

Agora, felizmente, a mudança climática chegou também aos editoriais do Estadão. É um evento importante. O editorial pede que o Brasil leve a sério, em Copenhague, seus compromissos com a redução das emissões de gases estufa e que adote uma atitude que tenha credibilidade.

Editorial

Espero que o espírito desse editorial vaze para as outras páginas do jornal. Que ele passe a orientar sua pauta diária, em todas as editorias, com a inclusão do ângulo ambiental, particularmente das emissões de gases estufa e da preocupação com o aquecimento global e a decorrente mudança climática.

Aliás, não seria nada mal se a grande imprensa brasileira pautasse as mudanças climáticas que já estão ocorrendo no Brasil. O Brasil precisa saber mais sobre o Brasil, do que o que acontece no eixo Brasília-São Paulo-Rio.

Recentemente, o Globo publicou uma excelente matéria mostrando que Santa Catarina perdeu a capacidade de produzir frutas como a maçã Fuji, que precisa de 600 horas de frio abaixo de 7,2oC, e a Gala, que precisa entre 500 e 600 horas. Conta a matéria, que

“o chefe da estação experimental da Epagri Caçador, Gabriel Berenhauser Leite, explica que a temperatura média mensal, medida em janeiro, subiu 1,3 grau Celsius entre 1960 e 2009. No período de junho a agosto, as horas de frio têm diminuído desde 1971”.

Essa incorporação do componente de carbono e do aquecimento global (e local) nas pautas caminha lentamente no mundo todo. No Brasil, parece que, finalmente começa a andar.

Comentei a matéria também na CBN hoje: A construção de uma siderúrgica não é mais símbolo de progresso.


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