China e Brasil: dois pivôs no jogo de Copenhague
A China provavelmente será um dos pivôs na COP15, em dezembro, em Copenhague. O Brasil também pode ter um papel determinante. Essa decisão está nas mãos do presidente Lula hoje.
Sérgio Abranches
Na coletiva de imprensa de abertura, em Barcelona, ontem, a principal autoridade da ONU para mudança climática, Yvo de Boer, disse que a China é agora líder mundial em ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O representante da União Européia também celebrou os esforços chineses para reduzir as emissões de carbono. Jonathan Pershing, representante do EUA, considerou a atitude da China para reduzir emissões um exemplo “bárbaro”.
Um relatório recente do World Resources Institute diz que a China está se preparando para enfrentar o desafio da mudança climática e provavelmente alcançará suas metas de redução de emissões de gases estufa. De acordo com o WRI, o programa nacional da China tem metas claras e vai além da mitigação.
Reduzir a intensidade de energia do PIB em 20% sobre os cinco anos de 2006 até o final de 2010.
Aumentar a energia alternativa nos combustíveis em 15% até 2020.
Aumentar a cobertura florestal para 20% do território da China até o final de 2010.
O programa nacional é mais que um programa de mitigação. Também contém apoio para a ciência do clima e para prevenção/preparação e adaptação. Os cientistas chineses têm sido ativos no esforço global para entender a mudança climática e estão cada vez mais envolvidos no desenvolvimento de abordagens técnicas tanto para a mitigação, quanto para a adaptação.
A professora Wei Liang, do the Monterey Institute of International Studies, me disse que quando o presidente Hu Jintao falou sobre o novo Programa Nacional chinês, em Nova Iorque, embora não tenha anunciado seus detalhes operacionais, ele falava de mudanças reais. A China colocará esses detalhes na mesa de negociação, e demandará uma resposta proporcional dos países industrializados, especialmente do EUA.
A proposta brasileira de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia até 2020 também tem sido elogiada em todo o mundo por comentaristas e autoridades governamentais. Mas essa proposta brasileira não tem substância operacional e seus fundamentos políticos são ainda frágeis. Diferentemente do programa chinês, não resultou de planejamento governamental cuidadoso, nem de um consenso político do governo. O governo está profundamente dividido.
Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente, desenhou uma proposta mais cuidadosa de desvio entre 30% e 40% da trajetória de emissões de carbono do país no cenário “mais do mesmo” (business as usual) até 2020 – mas ela ainda requer mais efetiva operacionalização. Adequadamente operacionalizada e implementada, essa proposta poderia reduzir as emissões brasileiras de carbono em 20% até 2020. Isso requereria não apenas parar o desmatamento na Amazônia, mas também no Cerrado, no Pantanal, e na Mata Atlântica; abandonar as termelétricas a combustível fóssil planejadas pelo governo para os próximos anos; adotar nova regulação para emissões automotivas, eficiência no uso de combustíveis, e qualidade de combustível, entre outras medidas.
O presidente Lula está reunindo os ministros envolvidos hoje, para decidir sobre essa proposta. Em reunião anterior, a ministra e candidata Dilma Roussef se opôs à proposta, dizendo que ela prejudicaria os planos de crescimento do país. O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, também desaprovou. Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores, rejeitou o plano porque ele ofereceria mais do que está sendo esperado do Brasil em Copenhague.
Carlos Minc pediu à Rede Clima, uma coalizão de importantes organizações científicas do estado brasileiro, para ajudá-lo a construir cenários com diferentes hipóteses de crescimento e detalhar as ações necessárias para atingir a meta proposta. (Veja minha entrevista com Gilberto Câmara, presidente do INPE, sobre a Rede Clima). Essa nova versão será discutida hoje com o presidente Lula. Nesta reunião o presidente escolherá se o Brasil se juntará à China como pivô das decisões em Copenhague, retornando ao papel de liderança que teve na Rio ’92 ou continuará apenas no banco de reserva.
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