O que fazer para persuadir as pessoas da urgência para a ação climática efetiva?
O Paradoxo de Asimov sobre como persuadir pessoas da urgência da ação sobre mudança climática.
Sérgio Abranches
O ótimo romancista Isaac Asimov – eu disse que ele escreve ficção científica?- criou o seguinte diálogo em seu notável romance, Fundação:
R. A tendência psicohistórica de um planeta cheio de gente contém enorme inércia. Para ser mudado ele precisa de algo que possua inércia similar. Seja grande número de pessoas preocupadas e engajadas, ou, se o número de pessoas for relativamente pequeno, enorme quantidade de tempo para que a mudança ocorra. Entendeu?
P. Acho que sim. Trantor não precisa ser arruinado, se um grande número de pessoas decidir que não seja.
R. É isso.
Eu proponho que façamos três coisas. Vamos, primeiro, substituir Trantor por Terra. Vamos, em seguida, adicionar a mudança climática como a maior ameaça de longo prazo para a Terra. E vamos chamar o raciocínio expresso no diálogo como o Paradoxo de Asimov. Dessa forma, o Paradoxo de Asimov ficaria assim:
Para mudar um planeta cheio de gente ou um grande número de pessoas precisa estar preocupado e engajado, ou uma enorme quantidade de tempo deve ser considerada para que a mudança ocorra. A Terra não será arruinada pela mudança climática se um grande número de pessoas decidir agir para que não seja. Ou então, uma enorme quantidade de tempo será necessária para que ela seja salva.
A Terra terá tanto tempo quando precisar, dadas a inércia do aquecimento global – e a mudança climática decorrente – e sua resiliência, para encontrar um novo estado de equilíbrio ecossistêmico. Nós humanos, ou terráqueos, não temos esse tempo. Logo, o Paradoxo de Asimov para nós humanos ou terráqueos só tem uma solução: convencer tantas pessoas quanto necessário para gerar força suficiente para mudar nosso comportamento coletivo de alto-carbono para outro, de baixo-carbono.
Temos, para isso, que multiplicar iniciativas como o Dia de Ação dos Blogs 2009, o Dia Internacional da Ação pelo Clima da 350.org, e a mobilização da tcktcktck, entre muitas outras. Mas está claro que não podemos ter um “Dia” de grande evento todo dia. Precisamos de ainda mais criatividade para mobilizar grandes números de pessoas todo dia. Precisamos de inovação continuada.
E precisamos alcançar os não-ambientalistas, os não-iniciados, os “incrédulos”. Temos que persuadir aquelas pessoas que não têm consciência de como o perigo da mudança climática está próximo, aquelas que não se importam, aquelas que não acreditam no aquecimento global, e aquelas que esperam que alguém aparecerá com uma solução sem custo e salvará o mundo. Esses exemplos representam esforços heróicos de uma sociedade civil global embrionária. E essa ação precisa ganhar musculatura, alcance e abrangência mais rapidamente do que jamais se imaginou.
Os números realmente impressionam:
- Em 15 de outubro, Dia de Ação dos Blogs 2009, 13.599 Blogs de 156 países postaram sobre mudança climática para 18.085.076 leitores;
- Em 24 de outubro, 181 países se uniram no Dia Internacional de Ação pelo Clima. Em mais de 5200 eventos mundo afora, as pessoas se reuniram para pedir ação forte e liderança ousada na crise climática.
- O tcktcktck contava 2.614.923 “de cidadãos globais pela Ação pelo Clima” no momento em que eu escrevia esse post.
Mas, como o psicohistoriador de Asimov diria, “ainda é pouco”. Ou assim parece. Não parece que tenham reunido força suficiente para pressionar governos, políticos e empresas na direção desejada. As discussões no Senado do EUA hoje mostraram que um número significativo de senadores permanece sem se impressionar com toda essa mobilização. A maneira pela qual o governo brasileiro está definindo suas metas de redução de emissões mostra que não está levando a sério o alerta da parte mobilizada de sua sociedade civil, menos ainda da emergente sociedade civil global. O mesmo é verdade para os governos da China, ainda falando em reduzir a intensidade de carbono do PIB do país, ou da Índia, que nem considera qualquer redução. Aritmética simples pode demonstrar que a China poderia reduzir a intensidade de carbono de seu PIB sem diminuir o nível nominal de emissões.
O que está sendo dito aqui não é para reduzir a importância e o valor dessas conquistas impressionantes de várias organizações devotadas tentando convencer tantas pessoas quanto possível da necessidade da mudança. De modo algum. É apenas para dizer que precisamos continuar caminhando e falando, e que precisamos de modos inovadores para alcançar o “povão”, a maioria.
Eu realmente não sei como fazer mais. Tenho apenas uma convicção: não é falando do fim do mundo para as pessoas. A tática do terror, um bom psicólogo social nos dirá – ou um psicohistoriador, onde estão eles, quando mais precisamos deles? – tende a alienar, não a atrair atenção ou mobilizar para a ação. As pessoas evitam ouvir sobre pesadelos futuros. Elas precisam de um sonho bom. Precisam de um sonho que se conecte com suas vidas diárias de uma forma construtiva, positiva.
Elas precisam ver exemplos de pessoas como elas que mudaram seu comportamento ambiental e estão melhor do que antes. Tem gente lá fora dizendo a elas que toda essa conversa sobre mudança climática é coisa de gente radical que não quer o progresso. Outros estão argumentando que enfrentar esse desafio hoje representa um sacrifício inaceitável e que a tarefa será mais leve para as gerações futuras.
O fato é que discordamos a respeito de mudança climática. O consenso entre formadores de opinião de todos os tipos está longe de ser forte ou amplo o suficiente. As pessoas têm razões para não ver a urgência da mudança.
Agora, a solução para o Paradoxo de Asimov envolve outro paradoxo que precisamos resolver primeiro: como dizer às pessoas que a ameaça é muito real, não temos muito tempo mais para agir, sem aterrorizá-las, levando-as à alienação e à paralisia? Como transformar um pesadelo em sonho bom, o fim do mundo, no começo de uma nova era de prosperidade, o holocausto, em renascimento? Eu gostaria de saber.
Quando Mahalia Jackson gritou “fale sobre seu sonho”, Martin Luther King saiu do vale das lágrimas e falou-lhes de seu sonho, escrevendo com palavras cheia de fé e visão a história de seu futuro. Precisamos de vozes fortes como a de Mahalia Jackson para nos lembrar da necessidade de ter um sonho, e precisamos de vários oradores inspirados como Martin Luther King, em todas as mídias disponíveis, para falar ao povo sobre esse sonho.
Tags:350, Aquecimento global, Blog Action Day, Brasil, China, COP15, gases estufa, meio ambiente, metas de emissões CO2, mudança climática, tcktcktck



Caro Jornalista,
Concordo plenamente com o senhor, que temos que começar a mudar o discurso para uma forma mais positiva e tentar convencer mais pessoas. O problema é como fazer isso?
Veja meu exemplo. No trabalho, em casa e com os amigos alerto da todos sobre o aquecimento global, suas consequências, o que vai acontecer a humanidade, e nada consigo. Alguns acham que sou exagerado ou paranoico, outros que isso não existe, há os que acreditam que isso é a vontade de Deus, e, por fim, há aqueles que não querem ouvir.
A dez anos que faço educação ambiental, e nunca vi um adulto mudar de atitude. As crianças não contam, até porque elas não terão tempo de salvar o Planeta.
Na verdade, já estou ficando deprimido com essa história. Vejo minhas colegas grávidas e penso se estas tem juízo, pois essa criança não tem futuro nenhum, vejo as pessoas planejando viagens, poupança, etc e fico perguntando se elas estão em outro planeta que não o meu.
Fico olhando para meus filhos de 10 e 4 anos e não vejo nada de bom para eles, apenas dificuldades e morte em tempos bem prematuros.
Portanto, se achar a formula, me avise, pois meu gás está começando a faltar.
Atenciosamente,
Carlos Ivan
Caro Carlos Ivan,
Obrigado pelo comentário. Na verdade, a primeira coisa é continuar andando e falando. Não perder a capacidade de sonhar com um mundo melhor.
[...] quase tão complexo quanto o próprio sistema climático. Ele se defronta com o que eu chamei de Paradoxo de Asimov. Com tantos interesses, agentes de veto e decisores envolvidos, qualquer solução a um tempo [...]