É o público, não é a mídia
A transformação que vivemos vai muito além da mudança tecnológica. É uma mudança de paradigma.
Sérgio Abranches
A audiência mudou. Antes ela era uma população de leitores, na sua maioria passivos. Agora é uma comunidade de consumidores de informação, e eles gostam dela formatada de acordo com suas preferências e interesses individuais. Uma grande parte lê, agrega e adiciona informação por conta própria. Nosso mundo mudou.
Esse novo tratamento da informação que se pode obter de múltiplas fontes, por meio de uma multiplicidade de mídias, afeta até mesmo a frequência de comentários em blogs e sites de notícias. As pessoas repetem, reagem, refraseiam, revisam e refazem mensagens no Twitter, no Facebook, em outras mídias sociais mais frequentemente que na janela para comentários.
Talvez seja a hora de inverter a famosa frase de McLuhan, “a mídia é a mensagem.” Hoje, a mensagem está formatando a mídia. A mensagem é a mídia.
O Twitter é o melhor exemplo: no começo era para ser apenas um SMS diferente. Uma mídia para transmitir mensagens simples, pessoais ou sobre a vida social das pessoas, em 140 caracteres. Os usuários o transformaram em poderoso recurso de rede social, um transmissor de notícias e idéias. A conversação em curso sobre o futuro da imprensa é um caso exemplar disso. Mas o Twitter cobre praticamente qualquer área de possível interesse do público, com um misto de notícias, memes, opiniões e pesquisa, tudo isso em140 caracteres mais LINKS mais RT – retuítes mais @ – respostas.
Essa fórmula foi inventada por usuários ativos, explorando as possibilidades e limites da mídia para difundir a mensagem. Eles inventaram os RTs e reinventaram as @ – respostas. A diferença crucial que tornou tudo isso possível? Ele é aberto à experimentação, altamente flexível nos seus limites. A mensagem é aberta ao público. Não se dirige a qualquer um em particular. Ninguém precisa pedir permissão para ouvir qualquer um. Todo mundo pode ir à lista pública e ouvir o que qualquer outra pessoa tenha a dizer.
Se alguém gosta do que alguma pessoa está falando passa a seguí-la. Se ela tem algo a dizer sobre o assunto, dá uma @ – resposta. Se acha que a pessoa está dizendo algo que tem valor em si e deseja se associar ao que foi dito ou espalhar a idéia, faz um RT. Tudo diz respeito a formatar a mídia ativamente e a conexões sociais voluntárias e totalmente livres.
O jornalismo era um ecossistema constituído por repórteres e leitores. Esse ecossistema está mudando dramaticamente. O jornalismo está inserido em uma comunidade na qual a definição do que é um autor está sendo tão ampliada a ponto de perder o foco. Há poucos leitores puros nela, no sentido de pessoas que apenas lêem e guardam o que pensam sobre o que leram para si mesmas e um punhado de amigos ou familiares. Mesmo aquelas pessoas que ainda hoje só compartilham seus pensamentos com um pequenino círculo de amigos, esse compartilhamento agora frequentemente se dá online, por meio de uma rede social.
Isso é menos importante que o fato de que um dos lados desse ecossistema mudou totalmente. Ele se tornou uma comunidade conectada por links definidos por preferências auto-definidas sobre informação, conhecimento, entretenimento. Uma comunidade onde o desempenho de papéis mudou radicalmente.
Romancistas se tornaram tuiteiros e estão compartilhando suas preferências pessoais, algumas delas muito reveladoras de suas motivações literárias. @GreatDismal (o ciberescritor William Gibson) mostra sua fascinação por Tóquio, dá sua visão sobre atemporalidade, obtém inteligência para seu próximo livro, revela suas inclinações estéticas. @MargaretAtwood, em plena promoção de seu novo livro, The “Year of the Flood”, fala de suas viagens e palestras, faz twitter social, se aproxima de seus leitores. Na Twitteresfera são parte da comunidade aberta e têm o mesmo “status social” que seus fãs e leitores. Alguns, inclusive, têm mais seguidores que eles.
Jornalistas falam sobre suas ansiedades sobre o futuro do jornalismo, fazem crítica de jornalismo, obtêm informação, reportam, respondem e retuítam. O jornalista não é mais o repórter solitário, narrando sua matéria a uma audiência anônima somente alcançável por meio do papel impresso. Fala a um público vivo, que pode alcançá-lo, reagir em tempo real, tão real quanto é o tempo com que é alcançado pela notícia. Ele pode inclusive tuitar um evento, dando um furo de reportagem mais rapidamente que a própria imprensa. Acaba de acontecer com o terremoto na Indonésia.
Os papéis estão mudando não por causa da mídia, mas porque a audiência, o público, está mudando. Além disso, jornalistas profissionais da grande imprensa não são os únicos a desempenhar o papel de produzir notícias. Isso é uma complicação, porque grande parte da informação circulando na Webesfera não foi adequadamente apurada. Ao mesmo tempo, contudo matérias do tipo “ele disse, ela disse” estão se espalhando pela imprensa profissional como praga, ao custo do valor e da credibilidade do jornalismo.
Muitos ainda estão prisioneiros da idéia equivocada de que a Webesfera é o terreno de mega audiências. Pode não ser. Visitantes únicos e visitas podem ser pura ilusão numérica. “Milhões de visitantes únicos significam pouco se o tempo de permanência dos visitantes (ou seja, a duração da sessão) for menos que um minuto sem que haja uma visita de retorno. É como um milhão de pessoas passarem pelo McDonald’s mas nunca de fato entrarem na lanchonete,” diz Patricia Handschiegel. “Visitas”, ela argumenta, “podem ser (e muitas de fato são) manipuladas para criar a aparência de número maior de visitas.”
Então, aqueles que compreendem que a audiência não está nos números de tráfego, devem olhar o quê? A resposta dela é que “tráfego não significa que haja uma audiência. Ao fim e ao cabo, a audiência estará aonde houver valor. Gabar-se de números gigantes de visitas e visitantes únicos significa muito pouco se eles não estão aderindo ao site, ou retornando a ele”. Eles devem gerar o valor que as pessoas estão buscando quando folheiam um jornal, navegam pela Blogoesfera, ou pesquisam o Twitter.
Como argumenta Jay Rosen, “na era da comunicação de massas a imprensa podia definir a esfera do debate legítimo com relativa facilidade porque as pessoas no lado receptor estavam atomizadas – ou seja, conectadas com a Grande Mídia no topo, mas não umas com as outras. Hoje, um dos maiores fatores a mudar nosso mundo é a queda do custo de pessoas que têm a mesma visão para localizar umas às outras, trocar informação, impressões e se dar conta de seu número. Das primeiras coisas que eles podem fazer é determinar que a “esfera do debate legítimo” tal como definida pelos jornalistas não corresponde à definição delas”.
A audiência agora é uma comunidade, uma comunidade volátil que pode seguir, “unfollow”, bloquear, escolher e deletar RSS feeds. Vai muito além de comprar ou não comprar um jornal, pagar ou não por conteúdo, mídia velha vs midia nova. Notícia e informação com mais-valor continuam a existir e para produzí-las há regras de ouro que só podem ser violadas à custa da credibilidade. A demanda por notícia está crescendo, não caindo. Este é o melhor momento que já houve para ser um repórter no campo.
Podemos estar apenas caminhando na entrada de um novo mundo, que pode vir a ser a era mais literária de todas, como disse, de outros tempos, o escritor russo Dostoevsky. Ele escreveu: “Estamos tão divididos; temos sede de convicções morais e de rumos. . . Nós podemos até ver que precisamos fazer muito ainda nesse sentido. Por isso eu penso que o momento presente é o mais literário possível”.
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De fato, a revolução da internet é equivalente à revolução gutenberguiana, isso não quer dizer que a essência do mundo vá mudar devido à internet, mas ela pode ser usada para ajudar a mudar o mundo; ou, pelo menos, aspectos da realidade.
[...] à questão da socialização trazida por Brian Solis e à conversação de Tarde. É a mensagem que faz a mídia. E a mensagem, hoje, é socializada: por exemplo, todos podem me ouvir no Twitter e eu posso ouvir [...]