Copenhague: Aparando arestas ou aguando o acordo?
Alguns dirão que o Acordo de Copenhague está sendo afinado para obter uma sintonia mais fina. Outros reclamarão que ele está perdendo substância. Os sinais que saíram do Fórum das Maiores Economias (MEF), reunido nesta segunda em Londres, são de que os países desenvolvidos estão abrindo mão da demanda de que as economias emergentes concordem com metas legalmente compulsórias de longo prazo para redução das emissões dos gases de efeito estufa. Vários representantes dos países desenvolvidos disseram que metas intermediárias para 2020 são mais relevantes.
Sérgio Abranches
Abandonar ou diminuir as metas para 2050 facilitará o fechamento de um acordo em Copenhague. Isso é claro. Talvez um acordo para o médio prazo seja o único viável, faltando apenas 47 dias para que a COP-15 comece na Dinamarca. O realismo político indicaria ser esse o caminho: um bom acordo parcial é melhor que um acordo vago para o longo prazo. Entretanto, o fenômeno do aquecimento global é muito diferente, tem características inéditas que o tornam incomparável às questões às quais o realismo político foi aplicado com sucesso. Estamos tratando com dois prazos fatais: o de 47 dias para Copenhague e aquele, imprevisível, definido pelo risco de que eventos decisivos (tipping points) acelerem o aquecimento global e as mudanças climáticas resultantes até um ponto sem volta. Está claro que já estamos atrasados: parte do aquecimento global e das mudanças climáticas que ele trará são inevitáveis e estamos fazendo pouco ainda para nos adaptarmos ao que enfrentaremos inexoravelmente. Talvez a única saída real seja um acordo global ambicioso e que comprometa as grandes potências emergentes. E esse não parece estar no horizonte das possibilidades.
Yvo de Boer, o principal funcionário da ONU para mudança climática, disse que não acredita mais que um “um novo tratado internacional completo e abrangente sob o quadro da Convenção sobre Mudança Climática” vá acontecer em Copenhague em dezembro, relata Fiona Harvey, para o Financial Times. Ele imagina que os governos podem vir a concordar sobre a estrutura de um acordo desses, mas os seus detalhes técnicos seriam definidos mais tarde. Em outras palavras nada de um novo Protocolo para substituir o anêmico Protocolo de Kyoto.
Foi o que o negociador chefe para mudança climática do EUA também indicou em suas declarações públicas durante o Fórum, em Londres. “Nosso ponto de vista no G8 em julho era de que deveríamos ter tanto um número para os países desenvolvidos, quanto um número para o mundo: 80% [de redução de emissões] para os desenvolvidos e 50% para o mundo em geral. Nós continuamos pensando assim,” ele disse, completando que não sabia se “isso vai ser incluído ou não” no acordo de Copenhague.
Ed Miliband, o secretário de Energia e Mudança Climática do Reino Unido, vê o acordo de Copenhague equilibrando-se na gangorra. Ele acha “que há uma visão universal de que precisamos chegar a um acordo, mas não a qualquer preço. Não é um acordo fechado e ele ainda está balançando, em minha opinião”.
Apesar do forte alerta do anfitrião, primeiro ministro Gordon Brown, na abertura do MEF, e embora alguns ainda pensem que um acordo ficou mais factível depois das conversas em Londres, como argumentou Ed Miliband, parece que estamos mesmo é caminhando para o cenário do secretário Yvo de Boer. Uma carta geral de princípios, talvez com algumas metas intermediárias compulsórias mais bem definidas, e um novo “mapa do caminho” para as cúpulas do clima de 2010 e 2011 acertarem os detalhes técnicos e colocar mais musculatura na carta de princípios. O impasse persiste: nós ainda estamos em uma “situação ‘eu faço se você fizer’ ” como definiu Ed Miliband ao final.
Tags:Aquecimento global, COP15, gases estufa, meio ambiente, metas de emissões CO2, mudança climática, política climática global



Caro Jornalista,
Apesar de me considerar um cara bem informado, há coisas que não entendo e não vejo ou recebo explicações para algumas notícias que ouço. Por exemplo: Se existe um relatório com mais 1500 renomados cientistas afirmando que as conseqüências para humanidade serão catastróficas se nada for feito agora para parar o aquecimento global; se há evidências que o processo já está em curso, como o derretimento do ártico; se presidentes e primeiros-ministros sabem, mais que o cidadão comum, das conseqüências políticas e sócio-ambientais para seus países do processo de aquecimento global (ver suposto relatório do Pentágono e o alerta do Sr. Gordon Brown); se os filhos deles, os meus filhos vão morrer em menos de 30 anos por causa dos efeitos dos gases de efeito estufa, por falta da água, por que diabo não se toma uma providencia logo? Por que ainda ficar somente apontando para o outro, dizendo que a culpa é deles (Europa e América do Norte) e não fazer nada?
Não entendo, será que o prezado jornalista, autor desse blog, poderia me esclarecer, dirimir minhas dúvidas?
Atenciosamente,
Carlos Ivan
ps – vi na TV que o Wal Mart deixou, nos EUA, de comprar peixes de áreas não sustentáveis. Os grandes supermercados, inclusive o citado, no Brasil fazem a mesma coisa com relação a carne da Amazônia e peixes de áreas de degradação.
Caro Carlos Ivan,
É um típico caso de impasse porque ninguém quer tomar a dianteira e fazer sacrifícios, se os outros não fizerem ao mesmo tempo. O Ed Miliband definiu bem o problema: “só faço se você fizer também”. É um dilema clássico que envolve desconfiança em relação à sinceridade com que cada parceiro está se comprometendo a fazer a sua parte. No caso, esse dilema se agrava porque se trata do primeiro fenômeno realmente global. Não há como resolvê-lo localizadamente. Isto é, se a Inglaterra zerar suas emissões, isso não evitará um cenário catastrófico de mudança climática, nem a protegerá de seus efeitos. Ou seja, só dá para resolver em conjunto.
O mundo não sabe ainda como lidar com isso. Os países emergentes querem o que chama uma distribuição mais equitativa do direito de emitir. O problema é que não é possível manter emissões no padrão que os desenvolvidos adotaram. É um dilema gravíssimo. Precisa de muita criatividade para se buscar soluções políticas, que atendam às necessidades definidas pelas análises científicas. Essa solução ainda não está disponível. Mas creio que estará em alguns anos mais.