Trilhas
20 outubro, 2009

Copenhague: Aparando arestas ou aguando o acordo?

Alguns dirão que o Acordo de Copenhague está sendo afinado para obter uma sintonia mais fina. Outros reclamarão que ele está perdendo substância. Os sinais  que saíram do Fórum das Maiores Economias (MEF), reunido nesta segunda em Londres, são de que os países desenvolvidos estão abrindo mão da demanda de que as economias emergentes concordem com metas legalmente compulsórias de longo prazo para redução das emissões dos gases de efeito estufa. Vários representantes dos países desenvolvidos disseram que metas intermediárias para 2020 são mais relevantes.

Sérgio Abranches

Abandonar ou diminuir as metas para 2050 facilitará o fechamento de um acordo em Copenhague. Isso é claro. Talvez um acordo para o médio prazo seja o único viável, faltando apenas 47 dias para que a COP-15 comece na Dinamarca. O realismo político indicaria ser esse o caminho: um bom acordo parcial é melhor que um acordo vago para o longo prazo. Entretanto, o fenômeno do aquecimento global é muito diferente, tem características inéditas que o tornam incomparável às questões às quais o realismo político foi aplicado com sucesso. Estamos tratando com dois prazos fatais: o de 47 dias para Copenhague e aquele, imprevisível, definido  pelo risco de que eventos decisivos (tipping points) acelerem o aquecimento global e as mudanças climáticas resultantes até um ponto sem volta. Está claro que já estamos atrasados: parte do aquecimento global e das mudanças climáticas que ele trará são inevitáveis e estamos fazendo pouco ainda para nos adaptarmos ao que enfrentaremos inexoravelmente. Talvez a única saída real seja um acordo global ambicioso e que comprometa as grandes potências emergentes. E esse não parece estar no horizonte das possibilidades.

Yvo de Boer, o principal funcionário da ONU para mudança climática, disse que não acredita mais que um “um novo tratado internacional completo e abrangente sob o quadro da Convenção sobre Mudança Climática” vá acontecer em Copenhague em dezembro, relata Fiona Harvey, para o Financial Times. Ele imagina que os governos podem vir a concordar sobre a estrutura de um acordo desses, mas os seus detalhes técnicos seriam definidos mais tarde. Em outras palavras nada de um novo Protocolo para substituir o anêmico Protocolo de Kyoto.

Foi o que o negociador chefe para mudança climática do EUA também indicou em suas declarações públicas durante o Fórum, em Londres. “Nosso ponto de vista no G8 em julho era de que deveríamos ter tanto um número para os países desenvolvidos, quanto um número para o mundo: 80% [de redução de emissões] para os desenvolvidos e 50% para o mundo em geral. Nós continuamos pensando assim,” ele disse, completando que não sabia se “isso vai ser incluído ou não” no acordo de Copenhague.

Ed Miliband, o secretário de Energia e Mudança Climática do Reino Unido, vê o acordo de Copenhague equilibrando-se na gangorra. Ele acha “que há uma visão universal de que precisamos chegar a um acordo, mas não a qualquer preço. Não é um acordo fechado e ele ainda está balançando, em minha opinião”.

Apesar do forte alerta do anfitrião, primeiro ministro Gordon Brown, na abertura do MEF, e embora alguns ainda pensem que um acordo ficou mais factível depois das conversas em Londres, como argumentou Ed Miliband, parece que estamos mesmo é caminhando para o cenário do secretário Yvo de Boer. Uma carta geral de princípios, talvez com algumas metas intermediárias compulsórias mais bem definidas, e um novo “mapa do caminho” para as cúpulas do clima de 2010 e 2011 acertarem os detalhes técnicos e colocar mais musculatura na carta de princípios. O impasse persiste: nós ainda estamos em uma “situação ‘eu faço se você fizer’ ” como definiu Ed Miliband ao final.


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