Enfrentar o desafio da mudança climática não tem a ver com sacrifícios, tem a ver com novas oportunidades de progresso humano
Falta um nexo na discussão dominante sobre a mitigação da mudança climática. Fala-se o tempo todo em riscos e piores cenários, quando deveríamos estar tratando dos benefícios que esse esforço gera.
Sérgio Abranches
O governo brasileiro, por exemplo, está dividido sobre a atitude que o país deve ter em Copenhague. O ministério do Meio Ambiente propõe a estabilização de nossas emissões, ano-base 2005, até 2020. Essa proposta seria viável com um pequeno esforço comparado aos ganhos que ela traria. A maior parte desse esforço ficaria concentrada na redução do desmatamento ilegal e no abandono dos projetos de novas termelétricas fósseis. Esse cenário de redução de nossas emissões em 20%, até 2020, é compatível a taxas médias anuais de crescimento de 4%, no modelo econômico atual e ultrapassado.
A pré-candidata ministra Dilma Roussef recusou a proposta pedindo simulações com taxas médias de crescimento de 5% e 6%. Uma década de crescimento de 4% médio anual do PIB já representa meta suficientemente alta, especialmente sem qualquer alteração no modelo de alto carbono que está no coração dos programas de governo e das ideologias de desenvolvimento do PT, do PSDB e praticamente todos os partidos brasileiros. Essa discussão mesquinha sobre taxas de crescimento, sem qualquer outra consideração, está estranhamente fora do lugar ao final da primeira década do século XXI.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, argumentou que não é isso que está sendo pedido de nós. Como se cumprir com as obrigações com o bem-estar dos brasileiros devesse depender do que nos pede o resto do mundo. Ele quer dizer que poderíamos fazer menos, e ainda assim agradar aos desenvolvidos. É uma visão colonizada, embutida em um nacionalismo fora do lugar.
O negociador-chefe para mudança climática, Luiz Alberto Figueiredo Machado declarou ao The New York Times que “financiamento e um nível inadequado de financiamento constituiriam condições para rompimento de acordo para nós.” Quer dizer estamos vendendo nossas obrigações, viramos mercenários da mudança climática.
O governo quer que os desenvolvidos financiem nossas reduções de gases estufa, sem fazer a conta de quanto podemos fazer por conta própria, como investimento produtivo e lucrativo. Esse mesmo argumento mercenário tem sido usado pela China e pela India.
Financiamento externo deve ser realmente parte do acordo, especialmente para pesquisas de risco em novas tecnologias e como pagamento por serviços ambientais associados à preservação da Amazônia. Mas não pode ser o centro da negociação para países emergentes de classe média, como Brasil e China.
Metas medíocres, visão errada, demandas mesquinhas. As obrigações dos países emergentes não estão relacionadas ao que está sendo pedido a eles pelas outras nações. Dizem respeito ao futuro e ao bem-estar de seus povos.
As controvérsias em torno da lei sobre mudança climática no EUA não são muito diferentes. Elas se remetem a custos, sacrifícios e perdas.
Qual o nexo que falta? Falar dos benefícios de uma transição para uma sociedade de baixo carbono. Não só as óbvias, relacionadas à mitigação do aquecimento global e à redução do risco de mudança climática cataclísmica. Nem apenas aos ganhos de saúde pública e bem-estar derivados da redução da poluição, do aumento da cobertura florestal ou da proteção a mananciais. Os nexos ausentes na discussão sobre a rota para uma economia de baixo carbono são os benefícios econômicos de médio e longo prazo que essa transição propicia.
A maior parte da discussão trata o dinheiro a ser usado para obter reduções de emissões como gasto, não como investimento. No entanto, essa transição envolve muito mais investimento do que gasto. É investimento reprodutivo: ele gera demanda por novos bens e serviços, e ele cria empregos.
A visão que só enxerga risco para o crescimento do PIB é estática, para dizer o mínimo. Mudanças na estrutura da cadeia de suprimentos não são levadas em consideração; os efeitos de realimentação estão ausentes do cálculo. Quando essa mudança é examinada dinamicamente se pode ver que a maioria absoluta das perdas localizadas leva a ganhos crescentes em outros setores. Queda de emprego e aumento de custos nos setores fósseis levam a geração de empregos e reduções de custo, por ganhos de escala, nas indústrias de tecnologia e energia limpas. A reforma de prédios para torná-los sustentáveis dá impulso adicional e independente à indústria de construção civil industrial e comercial, criando nova demanda por bens e serviços. Nova demanda por bens e serviços que aumentem a eficiência energética ou substituam atividades intensivas em carbono por outras, de baixo carbono, representam oportunidades para investimento e oferta de empregos em vários outros setores de atividade. Têm efeito multiplicador. Mais renda sempre significou mais poupança e investimento, e mais consumo. Portanto, crescimento e de melhor qualidade.
Relatório recente, “Clean Tech Job Trends 2009”, da Clean Edge, mostra que “dos trabalhadores nas linhas de produção de turbinas eólicas na área central da Pennsylvania e nas distilarias de álcool de São Paulo, aos criadores de software para redes elétricas inteligentes no norte da Califórnia, aos trabalhadores na produção de filme fotovoltaico na província de Jiangsu na China, a tecnologia limpa avançou muito desde os pioneiros da “energia alternativa” solar “off-the-grid” e outras tecnologias de primeira geração dos anos 1970. O campo da tecnologia limpa faz grande sucesso, particularmente entre jovens estudantes de graduação e pós-graduação nas faculdades, universidades e escolas de administração de negócios nos centros de alta tecnologia de Abu Dhabi, no Vale Silício, em Singapura e em Tóquio.”
Um estudo do Instituto de Pesquisas em Economia Política da Universidade de Massachusetts (PERI) afirma que “investimentos em energia limpa na economia do EUA gerariam, hoje, perto de três vezes mais empregos, do que aplicando-se a mesma quantidade de dinheiro na infra-estrutura de energia alimentada por combustíveis fósseis”. Em outro estudo, o PERI relata que o número de “empregos diretos criados por cada milhão de dólares investido no EUA em “reforma sustentável de prédios” (retrofitting) e redes elétricas inteligentes é muito maior que o de empregos diretos criados na indústria do carvão por um fator de 8:1 e 5:1 respectivamente.”
Mudar para uma economia de baixo carbono não significa fazer sacrifícios. Significa aproveitar com inteligência as oportunidades trazidas pela mudança, buscar uma sociedade melhor, distribuição mais equitativa da renda, oferta de empregos de maior qualidade, melhoria da qualidade do ar, redução da miséria. Vai tudo junto, porque essa transição requer muito investimento em educação, ciência e tecnologia.
Essa é uma das mensagens que deveríamos enviar a nossos representantes e governantes. Nós queremos um mundo mais progressista, queremos as oportunidades de investimento, os empregos e os benefícios de uma economia de baixo carbono. Por isso queremos fazer um acordo ambicioso em Copenhague, em dezembro. Queremos começar o novo ano já trabalhando por essa nova sociedade.
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Infelizmente, a máxima “A idade da pedra não acabou por falta de pedra…” demorou muito a ser compreendida; o que predominou foram as manchetes e filmes catástrofes. Se situações catastróficas mudassem o comportamento humano, não existiriam mais drogas sendo utilizadas.