Opinião
06 outubro, 2009

Apple diz iQuit, para a decadente Câmara de Comércio do EUA

A história é simples: a Suprema Corte, ainda nos já longínquos anos Bush, determinou que a EPA, a agência ambiental do EUA, deveria executar o mandato que lhe confere o Clean Air Act (a Lei do Ar Limpo) e controlar as emissões de gases estufa.

Sérgio Abranches

O mandato da EPA permite que ela controle efetivamente  as emissões de carbono por toda a economia. Isso obviamente gera forte oposição em muitos setores. É claro: as “industrias poentes”, aquelas que inevitavelmente perderão competitividade e lucratividade com a regulação do carbono, e em breve morrerão, estão lutando por sua sobrevivência. Para a maioria delas não importa realmente se essa sobrevivência um pouco mais prolongada se dará à custa de uma catástrofe global, dentro de algumas décadas.

Mas, olhem de novo para elas. A  maioria já estava em declínio independentemente de regulações climáticas. A maioria é velha e incapaz de se renovar ou se reinventar. Estão todas em estado terminal.

A maior ameaça que enfrentam não vem das futuras regulações ou do imposto sobre o carbono. A verdadeira ameaça vem de indústrias emergentes que as vão substituir inexoravelmente. Regulações e imposto sobre o carbono serão apenas um mecanismo secundário que vão acelerar o seu fim. Elas não estão mais gerando tanto emprego quanto geravam na sua época de auge. Não têm dinamismo, nem capacidade inovadora. Muitas nem podem mais usar o modelo de “cash cows”, para extrair o máximo de lucro de suas atividades decadentes. O market share e as margens de lucro delas estão despencando.

Nenhuma surpresa no fato de que favorecem a inércia. Esse é o estado em que já vivem. A Câmara de Comércio do EUA sempre pendeu para esse lado decadente da economia dos Estados Unidos. O governo Bush também. Agora, as circunstâncias mudaram, a correlação de forças virou para o outro lado, e, naturalmente, a Câmara está perdendo adeptos e apoio.

A Apple foi a mais recente de uma lista crescente a dizer iQuit (euTô fora), como escreveu James Boyce no The Huffington Post. O que detonou a debandada foi a oposição da Câmara de Comércio aos esforços da EPA para limitar as emissões de gases estufa. Mas a Câmara tem uma longa história de declarações vetustas, todas elas mostrando que a velha associação vive em estado de negação permanente, da ciência e da mudança climática. Ela representa a parte “acientífica”, analfabeta em mudança climática da América do Norte.

A Nike renunciou à executiva da Câmara, mas permaneceu membro. A Apple saiu de vez.  É o que informa Suzanne Goldberg do The Guardian. Já a Apple saiu de vez. Catherine Novelli, vice presidente mundial de relações com o governo da empresa escreveu em carta ao presidente da Câmara: “Nós objetamos fortemente aos comentários recentes da câmara em oposição aos esforços da EPA para limitar os gases estufa.” E continuou, afirmando que: “A Apple apóia a regulação de emissões de gases estufa, e ficou frustrada ao ver que a câmara está em lado oposto ao nosso nesse esforço”. Nós, o “Appovo” agradecemos.

Essa divisão só aumentará na economia do EUA e na economia global. Independentemente do que ocorra em Copenhague, nós caminharemos para mais regulação do carbono e, em algum ponto do futuro próximo, veremos a regulação ou a taxação estabelecer um preço mínimo para o carbono. O investimento de capital de risco e os subsídios governamentais estão se voltando para as tecnologias limpas e as energias renováveis. Esse fluxo só aumentará daqui em diante. Os empregos verdes estão crescendo mais rápido nos países desenvolvidos, que os empregos cinzas. Paradoxalmente, quanto mais rápido os  glaciais derreterem e a Terra aquecer, mais rápido essas indústrias poentes e esses blocos de interesses decadentes desaparecerão.

Que eles já perderam essa guerra é cristalino. O que não é certo é se nós conseguiremos vencer o desafio da mudança climática em tempo para que essa economia emergente de baixo carbono possa florescer no século XXI. As primeiras pistas para respondermos a essa questão virão do Capitólio, em Washington, sede do Congresso do EUA, que examina a lei de mudança climática, e do Bella Center, em Copenhague, onde o Rio ganhou a sede da Olimpíada de 2016 e será realizada a COP-15 da Convenção do Clima, em dezembro.


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